quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dez Canoas (Ten Canoes)

"Eu venho de uma poça desta terra que Yurlumggur criou, eu era como um pequeno peixe no meu charco, então meu pai cercou o meu charco, perguntei-lhe por minha mãe. Eu queria nascer. Meu pai apontou a uma de suas esposas: "Aquela é tua mãe", me disse. Esperei o momento oportuno, e sem mais entrei em sua vagina, então meu pai teve um sonho, esse sonho o fez saber que tinha um pequenino em seu interior. Esse pequenino era eu. Quando eu morrer voltarei pro meu charco e esperarei ali como um peixinho, esperando renascer. No meu povo acontece sempre assim."

"Dez Canoas" (2006) dirigido por Peter Djigirr e Rolf de Heer (Charlie's Country - 2014) é um filme inusitado e divertido. É um conto primitivo interessante, uma abordagem sobre o mundo aborígene, onde ensinamentos são passados para que os mais jovens compreendam as tradições de seu povo.
Na Austrália, quando havia somente as tribos aborígenes, dez homens vão ao pântano coletar ovos de gumang, uma espécie de ganso. Dayindi, um jovem guerreiro, corteja a mulher mais nova de seu irmão mais velho. Para que ele aprenda os costumes corretos, contam a ele a lenda de um passado mítico. Baseado em lendas aborígenes, o filme é assinado oficialmente como ''um filme de Rolf de Heer e dos habitantes de Ramingining'', região onde foi filmado. Os diálogos são falados no dialeto ganalbingu, pela primeira vez captado num filme de ficção.
Somos apresentados à história com uma narração lúdica e irônica do ator David Gulpilil, para nos explicar que o que vem a seguir é algo completamente diferente do nosso mundo. O jovem Dayindi (Jamie Gulpilil - filho do grande David Gulpilil, Walkabout - 1971, Geração Roubada -2002) se apaixona pela mulher mais nova de seu irmão, só que ele deve aprender que em seu povo existe uma série de tradições, para isso somos inseridos em um passado mais distante ainda que narra a trajetória de Yeeralparil (Jamie Gulpilil). Minygululu (Peter Minygululu) diz sobre um guerreiro, Ridjimiraril (Crusoe Kurddal) que suspeita de um estranho visitante ter sequestrado sua segunda esposa, sem querer ele mata um homem da tribo estranha e acaba tendo que se sujeitar a um ritual de vingança em que consiste em atirar lanças até que alguém seja atingido. Os aborígenes têm as suas regras e eles as cumprem com honra e coragem. 
A história do presente é em preto e branco e a do passado é colorida, o roteiro é bem delineado e não fica nada pendente, a narração ajuda nesse ponto, tudo está na tela. A fotografia exuberante faz nossos olhos brilharem diante a natureza que se apresenta como personagem.
"Dez Canoas" acerta por mostrar os aborígenes e suas tradições e cultura sem uma exotização, tudo nele é natural e por isso cativa. Os vemos proseando, comendo, caçando, etc. A vida selvagem é amplamente mostrada e a câmera foca bastante nos rostos e nos corpos. 

Lindo é como os aborígenes são ligados à natureza, eles se veem como parte dela e respeitam, porque se algo for destruído, eles também por consequência se destruirão. A maneira que eles contam como cada coisa foi criada é especial, isso indica o quão estamos distanciados da natureza e que realmente o meio em que vivemos não entende que nada pode continuar se não compartilharmos com ela. E eles utilizam lanças, bastões feitos de madeira, ossos e pedra, dificilmente estão sem algo parecido e confeccionam suas canoas com cascas de árvores, e um fato interessante é que os aborígenes não são guerreiros, eles recorrem à guerras em raras ocasiões, como forma de justiça. Sem dúvidas, o filme se torna um pouco didático, mas carrega uma delicadeza e leveza poucas vezes vista sobre o tema.

"Dez Canoas" é um conto inusitado, divertido e gracioso, o tom descontraído é o diferencial. Somos inseridos em uma cultura incrível que traz mensagens de honra, justiça, preservação de tradições, amor e morte.  

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