quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

13 Bandas que Provam que o Rock Não Morreu! (13 Bands That Prove Rock Isn't Dead!)

Segue uma lista com bandas atuais de rock que comprovam que o gênero está vivíssimo e segue não só resgatando o que tem de melhor, mas também inovando e revelando artistas espetaculares. Confira:

13- Black Pistol Fire (Canadá)
Black Pistol Fire é um duo canadense formado em 2011 composto por Kevin McKeown na guitarra e vocal e Eric Owen na bateria, foram inspirados pelo blues, R&B e grandes nomes do rock, como Led Zeppelin, Chuck Berry, Nirvana, Buddy Holly e Muddy Waters. Um rock garagem á la anos 70 potente e marcante com toques de blues e punk, fazem um som direto e sem grandes artifícios, porém com imenso talento e trazendo o que o rock tem de melhor. Confira: Black Pistol Fire on Audiotree Live 

12- Reese McHenry (EUA)
Reese McHenry, da Carolina do Norte é uma força maravilhosa dentro do cenário do rock, voz impecável que nos remete a Janis Joplin e nos faz vibrar e se envolver, sua vida foi marcada por um acidente vascular cerebral e um diagnóstico de fibrilação atrial, mas diante desses percalços se voltou para a sua grande paixão e produziu canções profundas embebidas do mais puro rock'n'roll. Perfeita! Confira>>> Reese McHenry - Bye Bye Baby 

11- Ty Segall (EUA)
Ty Segall acumula álbuns fabulosos dentro do estilo garage rock e lo-fi misturado a toques psicodélicos, ele não cansa de produzir e tem uma gama de coisas boas para conferir, o mais recente trabalho chama-se "First Taste" e é certamente um dos grandes talentos da atualidade. Confira>>> Ty Segall - Taste

10- The Blue Butter Pot (França)
The Blue Butter Pot é um duo de heavy blues rock francesa. É um som grave, sujo e pesado, mas ainda assim cultiva a essência original do blues. O mais recente disco chama-se "Let Them Talk". Confira>>> The Blue Butter Pot - Checking the Levels

09- Jason Kane and The Jive (EUA)
Jason Kane and The Jive, natural do Texas é uma surpresa dentro do atual rock'n'roll, entre variadas bandas que tiveram holofote ela se destaca pela eletricidade selvagem e pelas doses envolventes de blues. Último disco lançado chama-se "Hellacious Boogie". Confira>>> Jason Kane & The Jive - Gypsy Kiss

08- Dirty Honey (EUA)
Dirty Honey é uma banda que bebe da fonte de clássicos como Led Zeppelin e o vocalista Marc LaBelle possui um timbre bastante semelhante ao do Axl Rose, vem na mesma linha da banda sensação Greta Van Fleet, porém isso tudo não tira o mérito, basta saber se para um álbum completo a identidade própria sobressairá, por enquanto há o EP "Dirty Honey". Confira>>> Dirty Honey - Rolling 7s

07- One Horse Band (Itália)
One Horse Band é um projeto fundado em 2015 em Milão que traz um único homem com uma máscara de cavalo tocando guitarra, banjo, bateria e trazendo o mais cru e puro blues e garage rock. Curioso e bizarro, mas vale demais conhecer. Último álbum lançado chama-se "Keep on Dancing". Confira>>> One Horse Band - Uh Hu Hu Yeah!

06- Jim Jones and the Righteous Mind (UK)
Jim Jones and the Righteous Mind é uma banda inglesa formada em 2014 que possui uma atmosfera deliciosa e inflamada, um som rasgado, enigmático, explosivo e original. Sonzeira! Último álbum lançado chama-se "CollectiV". Confira>>> Jim Jones & the Righteous Mind - Heavy Lounge #1

05- Henry's Funeral Shoe (País de Gales)
Henry's Funeral Shoe é um duo composto pelos irmãos Aled e Brennig Clifford, um som altamente viciante, orgânico, bruto, enérgico e refinado. Último disco lançado chama-se "Smartphone Rabbit Hole". Confira>>> Henry’s Funeral Shoe - High Shoulders Everywhere

04- Rival Sons (EUA)
Rival Sons já esteve por aqui nas indicações musicais e merece destaque por ser uma banda de identidade própria apesar de suas claras referências, com seis álbuns lançados, sendo o último o fenomenal "Feral Roots". Formada na Califórnia em 2009, a banda de aura setentista com influências de Blues Rock já fez parte de algumas turnês junto de várias lendas do rock, como AC/DC, Alice Cooper e Judas Priest. Com riffs pesados e vocal intenso, a banda é apontada como uma das mais interessantes e brilhantes do gênero na atualidade e ainda elogiada por grandes nomes do rock. Confira>>> Rival Sons - Too Bad

03- Black Coffee (EUA)
Black Coffee nasceu em 2017 em Columbus, Ohio, Influenciados pelos lendários Led Zeppelin, Black Sabbath, Van Halen, Aerosmith, AC/DC, entre outros, a banda vem com uma sonoridade vintage e empolgante, mas reinventando o rock com estilo e vigor. Por problemas ainda anunciarão um novo nome para a banda. Lançaram um álbum em 2018 chamado "Take One". Confira>>> Black Coffee - I Barely Know Her

02- Airbourne (Austrália)
Airboune é uma banda australiana de hard rock formada em 2003 pelos irmãos Joel O'Keeffe (vocal/guitarra) e Ryan O'Keeffe (bateria), bebem e muito da fonte do AC/DC e também Motörhead, já abriram diversos festivais para bandas consagradas e ainda possuem muitas de suas músicas em jogos eletrônicos, como Need for Speed e Guitar Hero. Um som característico dos clássicos do rock dos anos 70, pesado, cru e vibrante. Confira>>> Airbourne - Live in Copenhagen (2019)

01- Kadavar (Alemanha)
Kadavar é uma banda de hard rock/stoner rock/rock psicodélico formada em 2010 na Alemanha, influenciados pelos clássicos do rock setentista, como Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Jethro Tull, o som traz nostalgia, peso e autenticidade. O mais recente álbum lançado chama-se "For the Dead Travel Fast" (2019). Confira>>> Kadavar - Demons In My Mind

Bônus:

Jared James Nichols (EUA)
Jared James Nichols, natural de Wisconsin é um incrível vocalista e talentoso na arte de tocar guitarra sem palheta, o som é um blues rock contundente e vigoroso repleto de riffs excepcionais com melodias cheias de energia, já dividiu o palco com alguns dos maiores nomes da história do rock, como ZZ Top e Lynyrd Skynyrd, sem dúvidas merece muito ser conhecido. Confira>>> Jared James Nichols live - Blackstar Basement Session

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Them That Follow

"Them That Follow" (2019) dirigido por Brittany Poulton e Daniel Savage é um filme interessante que demonstra o terror e o absurdo de uma comunidade extremamente religiosa que usa serpentes como meio de expurgar os seus pecados, afastados da sociedade vivem sob um sistema radicalmente patriarcal e imensamente cego em sua fé.
O pastor pentecostal Lemuel (Walton Goggins) e seus crentes lidam com cobras venenosas para provar a si mesmos diante de Deus, nas florestas dos Apalaches. A filha de Lemuel, Mara (Alice Englert) guarda um segredo que ameaça separar a igreja: seu passado romântico com um não-crente, Augie (Thomas Mann). Com o casamento de Mara com um seguidor dedicado, ela deve decidir se confia ou não na matriarca de sua comunidade, Hope (Olivia Colman).
Ambientado nas montanhas dos Apalaches vemos um grupo de pessoas que creem que nesse local estão mais próximos de Deus, a seita se vale pela confiança que têm na devoção e usam as serpentes como uma amostra da fé verdadeira, nesse lugar dominado por homens vive Mara, a filha do pastor que logo irá se unir com um crente, porém ela está envolvida com Augie, filho de Hope, avesso aos dogmas e preceitos, isolado segue seus dias com o intuito de algum dia ir embora, porém Hope insiste para ele ir ao culto e ter um encontro com Deus. Mara vive servindo ao pai e indo aos cultos, sua única companhia é Dilly (Kaitlyn Dever) que foi abandonada pela mãe e possui um caráter dúbio. Mara descobre estar grávida e não pretende contar a ninguém, mas nessa comunidade existem alguns rituais antes do casamento e quando esse momento chega Hope percebe a gravidez, aliás esse dito ritual é uma invasão e de um absurdo machista horroroso, não só essa questão é nojenta como tudo que envolve o modo de vida dessas pessoas, as mulheres são subservientes e não podem fazer absolutamente nada sem a permissão de um homem, além de que Deus está acima de qualquer coisa, incluindo a medicina, no caso de uma serpente picar o fiel este agoniza até a morte enquanto esperam por um milagre. O pastor acolhe e lida rigidamente com a comunidade, ali não há chance para o pecado e todos são testados, há vários ninhos de serpentes ao redor e é através delas que provam a fé ou se limpam, seguem a risca o trecho da bíblia que diz que sobre os enfermos colocarão as mãos a fim de curá-los com oração. Se forem picados é porque a fé era fraca e então precisam provar neste momento que creem para serem curados. Augie tenta se aproximar de Mara por meio da fé após descobrir que está grávida, ele decide ir ao culto e dizer que encontrou Deus, prestes a casar com Garret não há como intervir se não adentrar na seita, ele é testado e a serpente o ataca.

Acompanhamos a devoção de Mara mesmo que entenda que em algum momento tudo irá desabar, ela continua se esforçando e seguindo à risca os dogmas, aceita se casar e se submete a tudo que o pai diz, este que se ergue como um próprio Deus diante os outros, apontando os pecadores e fazendo-os mansos por meio do medo. A ignorância e a repressão dessa fé cega é exposta sempre com uma tensão sufocante, e por mais que o longa tenha um ritmo monótono somos absorvidos por uma série de questões importantes sobre até que ponto chega a devoção do ser humano, na verdade, a única coisa que adoram são a si próprios revelando assim por meio da obediência e temor uma face vingativa e feroz.

"Them That Follow" retrata com consistência o perigo da adoração fanática, da religião como base de vida e o que há por trás dos desejos de liderar um grupo de pessoas que se sentem pecadoras, desse sistema de repressão e julgamentos só há de nascer e crescer sentimentos adversos e conflituosos. Ao final Mara toma consciência e percebe que precisará se desvincular para que Augie tenha chances de sobreviver e para que também tenha a sua liberdade.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Sibéria, Meu Amor (Sibir. Monamur)

"Sibéria, Meu Amor" (2011) dirigido pelo russo Slava Ross é um filme desolador e desesperador, porém lindo e afetuoso à sua maneira, são demonstrações duras e cruas, o ambiente inóspito e gélido só aumenta sentimentos de tristeza e solidão e no decorrer somos absorvidos por uma poesia melancólica e emocionante.
Monamour é um vilarejo isolado em meio à floresta boreal da Sibéria. O lugar é cercado por cães selvagens que devoram quem ousa se aproximar. É lá onde moram o menino Leshka e seu avô, Ivan. Leshka toma um dos cães como seu melhor amigo e vive na esperança de que seu pai retorne, depois de dois anos de ausência. De tempos em tempos, seu tio Yura traz comida e suprimentos para lá. Mas este é atacado pelos cães e desaparece, e Leshka e Ivan se veem isolados do mundo. Ao ver o avô atirar no seu cachorro, o menino foge e cai num poço. Agora, o avô precisa achar ajuda.
Acompanhamos o pequeno Leshka (Mikhail Protsko) e seu avô (Pyotr Zaychenko) que vivem isolados em um vilarejo abandonado chamado Monamour, na Sibéria, um local gélido cercado por uma floresta de coníferas, a comida é escassa e a fome é constante, o avô não sabe mais como fazer para ajudar o menino que sonha com a volta do pai, apegados a uma imagem de Cristo seguem os dias em meio a solidão e as incertezas, os cães selvagens rodeiam o local e o menino consegue chegar próximo de um deles o transformando em uma companhia, Yura (Sergei Novikov), tio de Leshka faz questão de levar comida e um pouco de carinho, apesar das reclamações da esposa. Em paralelo vemos uma outra história envolvendo dois soldados que recolhem uma prostituta para levar ao seu comandante, sob novas promessas a garota vai, porém o que se inicia é estupro e violência, ao longo essas vidas se convergem num final comovente.
A vida nesse local é uma verdadeira luta, as dificuldades são extremas e ainda há os militares que não dão sossego, nessas idas de Yura na casa de Leshka acontece algo violento que desencadeia uma série de outros eventos, uma amostra do quão selvagem é aquele ambiente e que apesar de imensamente belo é também poderoso em aniquilar a frágil vida humana. É doloroso observar a tristeza e a esperança do garoto ao imaginar que o pai voltará algum dia, o avô o trata de forma rígida e as demonstrações de amor são expostas em momentos quando se preocupa em como arranjar alimento e com o fato de que precisa tirá-lo daquele lugar, ele pede para Yura levá-lo, mas acontece o acidente e dias depois quem surge é sua esposa que acaba não encontrando ninguém na casa, pois o neto brigou com o avô ao vê-lo atirar nos cães e fugiu caindo no poço, o avô saiu atrás de ajuda, mas o vento e o frio o derrubou. E é ai que os personagens se cruzam, os soldados e a prostituta vão acudir Leshka.

A história paralela é um tanto deslocada em boa parte da trama e retrata que não há alívio para a mulher, sofre pelas mãos dos soldados e também pelas do comandante, há uma virada sutil em que o soldado a vê de outra forma e resolve ajudá-la a levando embora dali, e então encontram o avô caído na estrada que diz o nome do vilarejo e que o menino precisa ser socorrido. O final é bastante tocante ao retratar a inocência e a carência de Leshka.

"Sibéria, Meu Amor" é um filme muito bonito visualmente, o ambiente é seu grande destaque e amplia os sentimentos de desolação e tristeza, os personagens sofrem com as incertezas em todos os aspectos e tentam sobreviver, é uma história que sutilmente se desenrola para algo mais afetuoso, porém de modo bem distinto, fica nas entrelinhas, nos semblantes e nas silenciosas transformações.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Nightingale

"The Nightingale" (2018) dirigido por Jennifer Kent (O Babadook - 2014) é um drama pesado, violento e muito emocional, carregado em cenas chocantes e transformadoras o terror real chega com brutalidade, mas também com sensibilidade e poesia, uma produção de ambientação sufocante acompanhada por uma narrativa silenciosa e repleta de sentimentos. 
Na Tasmânia de 1825, Clare (Aisling Franciosi) uma condenada irlandesa testemunha o assassinato brutal de seu marido e seu bebê por seu mestre soldado (Sam Claflin) e seus amigos. Incapaz de encontrar justiça, leva um rastreador aborígene com ela através do deserto infernal em busca de vingança.
Não é um filme convencional de vingança, existem questões profundas e dolorosas envoltas e que se mostram no decorrer da jornada entre uma mulher despedaçada e pelo seu guia aborígene também despedaçado. Claire cometeu um crime na Inglaterra e foi levada como prisoneira para a Tasmânia, ela está nas mãos de um tenente que pagou suas dívidas e por esse motivo está em dívida com ele, ela sonha poder se desprender desse carrasco e refazer sua vida ao lado do marido e seu bebê, mas depois de desentendimentos seu marido é morto juntamente com o seu filho numa cena perturbadora e imensamente cruel. Devastada, encolerizada e solitária decide pegar seu cavalo e ir atrás dos assassinos, mas o lugar inóspito e estranho só é amplamente conhecido pelos seus nativos que foram massacrados pelos ingleses e os que restaram tiveram que se tornar escravos e se adaptar aos costumes, e é com a ajuda de Billy (Baykali Ganambarr) que a contragosto inicialmente decide guiá-la, claro que ela não diz o verdadeiro propósito de sua busca e os dois partem em meio a natureza selvagem e encontram diversos obstáculos, especialmente na alimentação e nos preconceitos que um tem pelo outro.
A raiva de Claire é expelida por todos os seus poros, sua dor é tanta que não consegue pensar no que realmente acontecerá se encontrar os militares, Billy por sua vez se limita apenas a mostrar os atalhos, porém à medida que essa claustrofóbica viagem avança suas dores se unem e se transformam, ele a protege e cuida para que se alimente, começa a caçar e a roubar, conta sobre sua família e seu povo assassinado e tantos outros submetidos a maus-tratos, Billy percebe que Claire na verdade busca vingança e se interessa a conhecer seu passado cujos algozes são os mesmos que lhe tiraram tudo e a partir daí compreende seu objetivo. Diferentes entre si, porém semelhantes na dor da perda e é diante desse entendimento um do outro que nasce a cumplicidade, lealdade e respeito. 

O fundo histórico da trama destaca quando a Inglaterra no início do século XIX começou a explorar e colonizar a Tasmânia deportando uma imensa população carcerária de ingleses, galeses e irlandeses a fim de que após a sentença cumprida trabalhassem pesado e, obviamente, retratando todo o horror do genocídio cometido contra os aborígenes. Claire era uma prisioneira e foi "ajudada" por um militar, só que permaneceu como escrava trabalhando, cantando para os soldados no bar e constantemente sendo estuprada. O ponto histórico aterrador dá ao filme uma outra forma ao gênero vingança, ganha outros tons e camadas e ao final se transforma, Claire resiste o quanto pode e sua raiva é alimentada por um longo período da jornada, mas acontecem tantos infortúnios que a deixam à beira da loucura e minguam toda a sua força, e então Billy encontra em Claire uma forma de libertar também a sua necessidade de vingança. 

"The Nightingale" é um filme forte, sua abordagem é brutal, mas também possui seus momentos belos e poéticos, as interpretações crescentes e viscerais ajudam neste contexto junto de sua ambientação opressiva e violenta, além da paisagem selvagem que preenche a tela.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O Rei (The King)

"O Rei" (2019) dirigido por David Michôd (Reino Animal - 2010, Flesh and Bone - 2015) é um drama épico livremente baseado em eventos históricos e adaptado da peça Henrique V, de Shakespeare. Uma produção poderosa que passa por intrigas de poder políticas e familiares com violência, beleza e questionamentos. 
Após a morte de seu pai, Henrique V (Timothée Chalamet) é coroado rei, obrigado a comandar a Inglaterra. O governante precisa amadurecer rapidamente para manter o país consideravelmente seguro durante a Guerra dos 100 Anos, contra a França.
Uma ótima surpresa, tanto em seu visual como na condução, é um filme que enche os olhos, mas que também promove reflexões acerca de todo o emaranhado provocado pela ânsia de poder. Acompanhamos a decadência do rei (Ben Mendelsohn), uma figura cruel e do qual o filho que o sucederá rejeita, então o rei deixa claro que a coroa será do outro filho que possui o desejo de ascender de maneiras não tão inteligentes, mas acaba que depois da morte do rei e do filho mais novo Henry é coroado, este que antes vivia uma vida simples de boêmio junto de seu fiel amigo e antigo cavaleiro Falstaff (Joel Edgerton). Todos os personagens possuem características marcantes e se entrelaçam numa trama permeada de intrigas, negociações e artimanhas, Henry é completamente avesso aos planos de guerra e se distancia do pai justamente por isso, mas quando se torna rei se depara e é obrigado a pensar nessas questões e fica de frente a difíceis decisões e cujas pessoas que o rodeiam não são confiáveis, o jogo de poder vai acontecendo e seu processo de amadurecimento é confuso e solitário, sua posição não lhe permite amizades sinceras, em meio a tantas desconfianças ele nomeia Falstaff como seu marechal e na decorrência dos fatos vai se tornando numa pessoa dura e amarga, tão próximo da figura do pai que tanto detestava. O magnetismo de Chalamet impressiona e a ótima interação entre os personagens o torna um épico diferente em que o peso das escolhas tem muito mais ênfase do que qualquer ação e violência, apesar de que as sequências de embates são incríveis e denotam também grande carga dramática, não só a estética prevalece, há uma gama de questões envoltas.
Vale ressaltar a ótima participação de Robert Pattinson como Delfim, o príncipe herdeiro da França, sua personalidade excêntrica e vaidosa preenche a tela, assim como Sean Harris como o conselheiro do rei, Joel Edgerton como o único e leal amigo de Henry e até a pequena aparição de Lily-Rose Depp como Catarina, futura esposa do rei.

O roteiro escrito pelo próprio diretor David Michôd em parceria com Joel Edgerton é bem estruturado e se revela como um poderoso thriller político juntamente com o amadurecimento de um jovem de ideais pacifistas que se vê obrigado a assumir a coroa e aconselhado a não se mostrar fraco inicia uma guerra desnecessária.

"O Rei" é um filme solene, retrata os bastidores do reino, as tramas, estratégias e negociações, a solidão e o tédio; a transformação. Todos os sentimentos são transmitidos pelo olhar de Henry, sempre pensativo e angustiado, as poucas cenas de embate são impecáveis e dolorosas, é rico na ambientação e inteligente no desenrolar. 

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Graças a Deus (Grâce à Dieu)

"Graças a Deus" (2018) dirigido por François Ozon (Uma Nova Amiga - 2014) é um drama potente que faz questão de colocar o dedo na ferida, o tema é delicado e espinhoso: a pedofilia na Igreja Católica, mas é retratado com cuidado e com muita importância, observamos a história de três homens que foram vítimas e o como cada um lida com o trauma e o quanto é desgastante a busca pela justiça num sistema que se protege e mascara a verdade. Tenso e enfadonho por vezes, mas imensamente essencial.
Um dia, Alexandre (Melvil Poupaud) toma coragem para escrever uma carta à Igreja Católica, revelando um segredo: quando era criança, foi abusado sexualmente pelo padre Preynat (Bernard Verley). Os psicólogos da Igreja tentam ajudar, mas não conseguem ocultar o fato de que o criminoso jamais foi afastado do cargo, pelo contrário: ele continua atuando junto às crianças. Alexandre toma coragem e publica a sua carta, o que logo faz aparecerem muitas outras denúncias de abuso, feitas pelo mesmo padre, além da conivência do cardeal Barbarin (François Marthouret), que sempre soube dos crimes, mas nunca tomou providências. Juntos, Alexandre, François (Denis Ménochet) e Emmanuel (Swann Arlaud) criam um grupo de apoio para aumentar a pressão na justiça por providências. Mas eles terão que enfrentar todo o poder da cúpula da Igreja.
Tudo se inicia com Alexandre, um homem de 40 anos, católico fervoroso e pai de cinco filhos, sua fé é posta em xeque quando recebe a notícia de que o padre Preynat ainda atua na Igreja e com crianças, indignado decide romper o silêncio e buscar mais pessoas que tenham sofrido o abuso, ele denuncia o caso à Igreja, mas enfrenta uma série de situações estranhas por parte da alta cúpula. O cardeal Barbarin sempre acobertou esses casos e até diz numa coletiva de imprensa que graças a Deus que a maioria dos casos já prescreveu. Decidido a encontrar o máximo de pessoas que sofreram abuso Alexandre inicia uma angustiante jornada e encontra uma grande parcela ainda bastante traumatizada que não consegue nem falar sobre, porém a coragem vem à tona quando François cria um movimento e decide expor tudo na mídia. É interessante ver o como cada um lida à sua maneira com o fardo, Alexandre continuou seguindo a religião e constituiu família, François renunciou a fé completamente e também constituiu família, já Emmanuel vive relacionamentos tóxicos e o abuso foi algo que deixou marcas tanto no seu ser quanto em seu corpo. É realmente triste acompanhar o quanto isso acabou o levando para caminhos violentos. A família de François é bastante presente na associação que criou e a mãe de Emmanuel ajuda com as ligações, certamente a culpa de não ter feito nada no passado, Alexandre aos poucos vai sentindo sua fé sendo murchada, uma decepção e uma tristeza o invade, pois talvez não havia pensado tão claramente sobre o abuso. O padre em momento algum nega, ele é protegido pela instituição e se declara doente, nunca foi afastado e ainda continuou perto das crianças.

O silêncio que corrói enfim é quebrado e a denúncia é amplamente feita, não é um filme fácil de assistir, mas é importante ver que tantos casos de pedofilia cometidos pela Igreja estão sendo expostos e julgados, uma instituição poderosa que dita dogmas e que comete abusos horríveis e esconde e se protege mascarando a verdade, atualmente esse quadro está mudando e sendo muito mais observado. "Graças a Deus" é um filme que denuncia e que retrata a podridão escondida nos meandros da Igreja Católica, baseado em fatos reais Ozon direciona seu longa com uma relevância séria e também delicada provocando reflexões acerca do poder da Igreja.

O Arcebispo de Lyon, Philippe Barbarin, de 68 anos, foi condenado a seis meses de prisão em 7 de março de 2019 culpado por não denunciar os casos de pedofilia, o filme em 16 de fevereiro ganhou o prêmio Urso de Prata no Festival de Berlim, ou seja, um filme que cumpre um papel político-social importante ao denunciar e promover a quebra de tabus em relação aos casos de pedofilia cometidos pelos representantes da igreja. 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Luz no Fim do Mundo (Light of My Life)

"A Luz no Fim do Mundo" (2019) escrito, dirigido e protagonizado por Casey Affleck (A Ghost Story - 2017) é um filme intimista e bastante emocional sobre a jornada de um pai e sua filha em um mundo devastado por uma praga que aparentemente dizimou todas as mulheres do planeta, as consequências são expostas com muita sensibilidade focando no relacionamento afetuoso e protetivo, não se sabe como a praga começou e o porquê de Rag ser imune, claro que mais adiante surgem boatos de mulheres escondidas em bunkers, mas nada é esclarecido, acompanhamos a caminhada, a luta pela sobrevivência, o carinho e o amadurecimento.
Em uma realidade pós-apocalíptica, onde quase toda a população feminina foi devastada, um pai (Casey Affleck) precisa proteger sua filha (Anna Pniowsky) do caos que se espalhou pela sociedade. Ela é a única menina sobrevivente de que se tem notícia e, mesmo dez anos após a pandemia que tirou a vida de todas as mulheres, incluindo sua mãe (Elisabeth Moss), Rag e seu pai ainda precisam lutar diariamente por sobrevivência.
A afetuosidade e a proteção estão sempre em destaque, a cena inicial demonstra o quanto o pai zela e por mais que o cenário seja caótico ainda cultiva na menina sentimentos de inocência, constantemente com livros nas mãos e histórias para contar seguem se mudando quando percebem perigo eminente, apesar de Rag se vestir de menino sua pouca idade já é motivo para os homens interrogarem e desconfiarem, surgem boatos de mulheres escondidas sendo escravas sexuais, o medo é algo permanente e as mudanças se tornam cada vez mais cansativas, vemos ele ensinando como se esquivar e elaborar planos de fuga eficazes, a menina é ágil e esperta, mas está em fase de amadurecimento e também possui desejos próprios, como quando encontram uma casa e lá se estabelecem por um tempo e veste roupas de garota, seu desabrochar assusta o pai que não sabe muito bem como lidar mesmo tendo explicações para tudo. Ele precisa se mostrar forte e capaz a todo o tempo, mas nem sempre consegue achar saídas, chega em um ponto que necessita dizer que não sabe mais o que fazer, esse instante dramático acontece lá pelo final onde demonstra uma Rag amadurecida pelas dores e angústias e um pai fragilizado e incapacitado de agir. 

É um longa monótono, porém potente em seus longos diálogos e pausas reflexivas, é repleto de metáforas e sutilezas, também não deixa de ter momentos de tensão e uma crescente angústia, a relação paternal dita o tom e as dificuldades em mantê-la protegida são pontuadas a todo segundo, não há descanso e a menina ainda não entende direito os perigos, é um amadurecimento terrível e percebemos a sua mudança pelos gestos e olhares pelo decorrer, drástico o momento em que ela finalmente desabrocha para esse mundo e percebe profundamente que precisará ter muita coragem para inverter os papéis. 

"A Luz no Fim do Mundo" tem uma ambientação melancólica e possui um visual duro e belo em meio a natureza, toca em temas como luto, paternidade, amadurecimento, realidade violenta e amor, além de mostrar que independente de qualquer coisa o pai precisa deixar a filha escolher seu caminho e deixar sua personalidade fluir, também é reflexivo e simbólico ao colocar com sensibilidade o quão desequilibrado, caótico e violento se torna o mundo sem a figura feminina.