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terça-feira, 10 de março de 2020

Sócrates

"Sócrates" (2018) dirigido por Alex Moratto é um filme nacional de uma crueza e sensibilidade arrebatadora, produzido pela Querô Produções - um braço da ONG Instituto Querô, de Santos, traz o cotidiano aflitivo de um garoto que tenta sobreviver diante de tantas dificuldades e conflitos em camadas que transbordam tensão e desespero.
Depois da morte de sua mãe, o jovem Sócrates (Christian Malheiros), que foi criado apenas por ela durante os últimos tempos, precisa fazer tudo o que for possível para que consiga sobreviver na realidade da miséria, somado com o preconceito por ser homossexual. Seus valores e ideais são colocados na balança com o medo de não conseguir se virar sozinho.
Acompanhamos a sofrida saga de Sócrates em busca da sobrevivência, ele se vê sozinho e perdido quando sua mãe falece e por ser jovem demais não consegue emprego, vive de bicos e mal consegue se alimentar, tudo se complica quando conhece e se envolve com Maicon (Tales Ordakji), que não aceita a sua própria natureza, esse relacionamento desencadeia sentimentos autodestrutivos, Sócrates começa a beber e a se tornar mais agressivo, são muitas coisas das quais precisa lidar, o luto, a carência, o desespero, a solidão, não há tempo para ele refletir e tentar outros caminhos, a vida corre e parece não haver absolutamente nada. Nessas suas andanças atrás de emprego enfrenta a falta de oportunidades e se esquiva do serviço social que o colocaria sob a tutela do pai, este que o renega por sua sexualidade, há uma cena bastante pesada lá pelo final do filme em que sem mais saber o que fazer Sócrates recorre ao pai, ele quer comida e também afeto, o desespero é palpável, mas o que ganha é agressão e humilhação, de fato o que se sucede é de um amargor que nos revira.
A história é crua e não há espaços para qualquer momento calmo, o cotidiano machuca e não parece oferecer nada além de miséria, o sentimento de abandono, tristeza e solidão pulsa por esse garoto que se sente confortado nos braços de Maicon, mas novamente o que ele recebe é preconceito e desamor; a vulnerabilidade é imensa.

Sócrates não tem tempo para pensar ou sentir o luto, ele precisa continuar e para isso tenta diversas alternativas, como conseguir o trabalho de sua mãe, porém apesar de esforçado esbarra na lei, então recorre a bicos que exploram mão-de-obra barata, ele segue sempre de maneira aflita tentando vivenciar as experiências e as camadas de sentimentos se confundem e entram em choque, tudo acaba indo para situações de humilhação e se transformando em raiva, por exemplo, o relacionamento com Maicon, o reencontro com o pai e a busca das cinzas da mãe, os entraves dessas situações aglomeram-se numa mistura de raiva e angústia que não tem como não explodir de algum modo, a atuação de Christian Malheiros é intensa ao longo de todo o processo de embrutecimento. 

"Sócrates" possui uma história forte e real, transmite tensão e angústia sem dar qualquer respiro, não há brechas para lamentações e quando esses momentos acontecem são silenciosos e o choro é preso, retrata organicamente a trajetória de um garoto marginalizado sendo sufocado e apagado aos poucos pelo sistema que está inserido. Filmaço!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

303

"303" (2018) dirigido por Hans Weingartner (A Cabana - 2011, Edukators - 2004) é um road movie fascinante que nos leva junto de seus dois protagonistas a cantos da Europa a bordo do trailer que dá título ao filme, acompanhamos o nascer de um romance com naturalidade e sensibilidade, além de boas doses de conversas filosóficas. O filme tem um clima adorável, pois capta toda a beleza dos lugares por quais passam e o modo como os personagens se encontram e se descobrem é muito bonito, não é um típico romance, ele se constrói lentamente à medida que vão se revelando, existem barreiras e cada um está a caminho do seu destino. 
A caminho de Portugal para ter uma importante conversa com o namorado, Jule (Mala Emde) aceita dar carona para Jan (Anton Spieker), que vai visitar na Espanha o pai que jamais conheceu. O começo é difícil, mas quando finalmente se entendem eles engatam uma série de debates intensos sobre os mais diversos assuntos ao longo da estrada, adiando a despedida e se conhecendo cada vez melhor.
Jule e Jan estão perdidos em suas vidas, ela grávida e sem cabeça para os estudos decide ir para Portugal conversar com o namorado, ele perde a bolsa de estudos e descobre que o seu pai biológico que nunca conheceu mora na Espanha, num posto de gasolina Jan pede carona a Jule e assim iniciam o trajeto, esse começo é bastante tenso, a conversa não flui e após vários desentendimentos se unem novamente. A cada parada passeiam e dialogam sobre variados assuntos e mostram suas visões diferentes sobre capitalismo versus socialismo, relacionamentos, sexo, sociedade, entre tantos outros, e nisso acabam não só conhecendo um ao outro, mas como também a si mesmos. A história se torna adorável pela fluidez de suas discussões e suas diferentes formas de pensar se complementam inteligentemente, não há espaço para melodramas, a realidade se sobressai e as dificuldades que cada um enfrenta são de fato complexas. O filme fica ainda mais charmoso por causa dos lugares que percorrem, o longo e lento trajeto traz uma porção de paisagens belíssimas, seja em seus cantinhos ou em lugares mais turísticos. 

A melancolia está presente e até um tanto de niilismo, as discussões intermináveis carregam esse ar, os gestos e olhares no desenrolar também são marcantes e desenvolvem bem o sentimento que aflora em cada um, as diferenças se complementam e certamente para quem curte uma boa e inteligente conversa vai adorar, já para alguns pode soar prolixo e que a história se alonga demais. Os dois saem da vida acadêmica para vivenciar experiências que só podem ser adquiridas saindo da zona de conforto, discutindo suas ideias em movimento faz com que o aprendizado seja mais orgânico e importante, as coisas simples revelam o seu valor. A companhia, a amizade e o carinho se moldam tão lindamente que chega a emocionar. 

"303" carrega uma leveza maravilhosa, mas sem nunca deixar de nos fazer questionar e refletir, os assuntos são dos mais variados e jamais se perde em obviedades, os atores elevam essa sensação, perfeitos em cena e criam uma forte química, realmente um romance fora do comum aliado a um filme de estrada encantador. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Werewolf (Wilkolak)

"Werewolf" (2018) dirigido por Adrian Panek (Daas - 2011) é um filme chocante que possui inúmeros elementos ameaçadores, a ambientação e sua atmosfera cruel só ressalta o real terror, aliás, um gênero muito subjetivo e amplo, aqui o horror é terrivelmente pesado misturando inocência, traumas, miséria e incertezas. A história gira em torno da tristeza e dor de oito crianças de diferentes idades presas num campo de concentração no final da Segunda Guerra Mundial, sozinhas e ameaçadas o tempo todo a tensão predomina e sempre se espera por algo violento. 
Oito adolescentes mantidos em campos de concentração nazistas são libertados por russos. Eles são entregues aos cuidados de Jadwiga num local abandonado na floresta polonesa e, além de carregarem diversos traumas, terão que enfrentar fome, sede e um grupo de violentos lobos.
Esse grupo de crianças acaba sendo libertado pelas tropas russas e se instalam num casarão em meio a floresta, lá ficam à mercê dos precários cuidados de uma mulher, os alimentos são escassos e nada aparenta esperança apesar da tal libertação, ao contrário, esse local termina por ser uma outra espécie de prisão. Lidando como podem com a fome e a sede o grupo também tem seus conflitos, dentre eles um excluído que praticava perante aos soldados um ritual de se deitar e levantar os fazendo gargalhar e que acabou os salvando da execução, solitário vai nutrindo ódio e vingança, além de ter a seu favor os cães vorazes que os espreitam. O único a tentar domar essas feras é esse menino, pois quando estava no campo observou a maneira dos soldados com os cães, estes que serviam para destroçá-los. Cada criança visualiza a situação de um jeito e observamos como a subjugação os afetou delineando traços de suas personalidades, afinal eles só conheciam esse modo de vida e para a sobrevivência é preciso às vezes tomar decisões um tanto extremas, desse cenário em que a sobrevivência impera e a necessidade de alguém se declarar líder, há algo de "O Senhor das Moscas", de William Golding.

Sombrio e estranho, uma história com uma abordagem interessante sobre o holocausto, acompanhar as crianças tentando sobreviver neste ambiente selvagem, largados em meio a floresta sujos e famintos com os pijamas listrados perturba e as questões surgem, por exemplo, será que o mal penetrou nelas estando em contato com tanta violência? O menino de rosto duro chamado Wladek nos deixa atordoados com as suas atitudes, mas mesmo assim não podemos julgá-lo e tão pouco não se compadecer, afinal o que ele deseja é ser aceito e ser libertado de vez.

Há cenas impressionantes, como quando lambem gotas de chuva escorrendo pela parede, ou quando Wladek come óleo de motor pensando ser comida, ele fica nervoso por ter se enganado enquanto os outros lhe atacam, as atuações das crianças impressionam pela força e credibilidade dada a cada personalidade, todas têm diferentes visões sobre os acontecimentos e a partir do momento que descobrem o meio pelo qual Wladek conseguiu amansar os cães elaboram juntos uma fuga. 
"Werewolf" é um filme intenso, não há grandes reviravoltas, mas delineia o amadurecimento num cenário hostil e exibe com potência o terror vivido por eles. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O Enterro de Kojo (The Burial of Kojo)

"O Enterro de Kojo" (2018) dirigido pelo também músico Sam Blitz Bazawule é uma obra acima de tudo plástica, encanta pelo visual, mas a narrativa não deixa a desejar, seu onirismo e poesia se encaixam belamente. O filme é uma fábula que mistura viagem espiritual, memórias, vingança e transformação.
Kojo (Joseph Otsiman) e seu irmão, Kwabena (Kobina Amissah-Sam), sempre tiveram um péssimo relacionamento. Kojo provocou um acidente que resultou na morte da noiva do irmão, no dia em que eles iriam se casar. Sete anos mais tarde, Kwabena coloca em ação sua vingança e deixa Kojo à beira da morte em uma mina. A única esperança do homem é sua filha, Esi (Cynthia Dankwa), que tenta encontrá-lo. Ela relata suas memórias de infância e essa história por meio de um olhar de realismo mágico e uma série de sonhos bizarros.
Repleto de metáforas visuais somos conduzidos por uma história narrada de forma não linear por uma Esi adulta, em sua maioria são tomadas que remetem a sensação de sonho ou imaginação, uma espécie de conto de fadas, mas com a identidade do país e que ousa em sua narrativa e exposições visuais, os atores entregam bons personagens e nos envolvem na atmosfera. Conhecemos Kojo pelos olhos de sua filha, Esi, ela nos conta sobre uma tragédia e sobre os sonhos recorrentes de seu pai e o como ele acreditava que apenas a água poderia apagar o passado, então por conta disso se mudou antes dela nascer para uma vila rodeada por nada a não ser água. Foi lá que conheceu sua esposa e Esi nasceu com a promessa dos adivinhos da região que traria prosperidade e boa sorte. O tempo com o seu pai durante a infância é retratado e o quanto ele gostava de contar histórias das quais não possuíam significados inicialmente, mas que se amarravam e faziam sentido em seu final. E é assim que o filme vai se desnovelando, sob formas curiosas que envolvem lendas entrelaçadas por memórias que fazem a pequena Esi amadurecer. Um dia aparece um velho cego na vila e diz que o corvo do reino intermediário estava tentando capturar o pássaro sagrado e que somente uma criança de coração puro poderia mantê-lo salvo, Esi sonha com o corvo nesta noite, daí o irmão de Kojo aparece na vila e diz que os esperam na cidade, chegou o momento de enfrentar o passado. Lá os dois se desdobram para conseguir emprego nas minas, mas as circunstâncias são ruins e apelam para um local do qual está fechado e é muito perigoso, Kojo sofre um acidente e fica dias desaparecido. Nesse meio tempo vemos Esi ao lado da avó vendo novelas bem precárias e após o acidente ela entende que é a única que pode ajudar seu pai. 

Pode parecer um amontoado de cenas, mas elas conversam entre si e terminam por se encaixar, metáforas visuais vão de encontro com a história de Kojo e o irmão. Na verdade, a história é bem simples e envolve o sentimento de culpa colocado em simbólicas imagens, esbanja poesia e originalidade, uma linda experiência vinda de Gana, cujo cinema é tão pouco divulgado.

"O Enterro de Kojo" fascina por sua linda estética surreal e também garante uma apreciação de sua narrativa que brinca com a linha do tempo e nos absorve numa fábula de viagem espiritual e lendas, além da redenção do pai e amadurecimento da filha. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Nightingale

"The Nightingale" (2018) dirigido por Jennifer Kent (O Babadook - 2014) é um drama pesado, violento e muito emocional, carregado em cenas chocantes e transformadoras o terror real chega com brutalidade, mas também com sensibilidade e poesia, uma produção de ambientação sufocante acompanhada por uma narrativa silenciosa e repleta de sentimentos. 
Na Tasmânia de 1825, Clare (Aisling Franciosi) uma condenada irlandesa testemunha o assassinato brutal de seu marido e seu bebê por seu mestre soldado (Sam Claflin) e seus amigos. Incapaz de encontrar justiça, leva um rastreador aborígene com ela através do deserto infernal em busca de vingança.
Não é um filme convencional de vingança, existem questões profundas e dolorosas envoltas e que se mostram no decorrer da jornada entre uma mulher despedaçada e pelo seu guia aborígene também despedaçado. Claire cometeu um crime na Inglaterra e foi levada como prisoneira para a Tasmânia, ela está nas mãos de um tenente que pagou suas dívidas e por esse motivo está em dívida com ele, ela sonha poder se desprender desse carrasco e refazer sua vida ao lado do marido e seu bebê, mas depois de desentendimentos seu marido é morto juntamente com o seu filho numa cena perturbadora e imensamente cruel. Devastada, encolerizada e solitária decide pegar seu cavalo e ir atrás dos assassinos, mas o lugar inóspito e estranho só é amplamente conhecido pelos seus nativos que foram massacrados pelos ingleses e os que restaram tiveram que se tornar escravos e se adaptar aos costumes, e é com a ajuda de Billy (Baykali Ganambarr) que a contragosto inicialmente decide guiá-la, claro que ela não diz o verdadeiro propósito de sua busca e os dois partem em meio a natureza selvagem e encontram diversos obstáculos, especialmente na alimentação e nos preconceitos que um tem pelo outro.
A raiva de Claire é expelida por todos os seus poros, sua dor é tanta que não consegue pensar no que realmente acontecerá se encontrar os militares, Billy por sua vez se limita apenas a mostrar os atalhos, porém à medida que essa claustrofóbica viagem avança suas dores se unem e se transformam, ele a protege e cuida para que se alimente, começa a caçar e a roubar, conta sobre sua família e seu povo assassinado e tantos outros submetidos a maus-tratos, Billy percebe que Claire na verdade busca vingança e se interessa a conhecer seu passado cujos algozes são os mesmos que lhe tiraram tudo e a partir daí compreende seu objetivo. Diferentes entre si, porém semelhantes na dor da perda e é diante desse entendimento um do outro que nasce a cumplicidade, lealdade e respeito. 

O fundo histórico da trama destaca quando a Inglaterra no início do século XIX começou a explorar e colonizar a Tasmânia deportando uma imensa população carcerária de ingleses, galeses e irlandeses a fim de que após a sentença cumprida trabalhassem pesado e, obviamente, retratando todo o horror do genocídio cometido contra os aborígenes. Claire era uma prisioneira e foi "ajudada" por um militar, só que permaneceu como escrava trabalhando, cantando para os soldados no bar e constantemente sendo estuprada. O ponto histórico aterrador dá ao filme uma outra forma ao gênero vingança, ganha outros tons e camadas e ao final se transforma, Claire resiste o quanto pode e sua raiva é alimentada por um longo período da jornada, mas acontecem tantos infortúnios que a deixam à beira da loucura e minguam toda a sua força, e então Billy encontra em Claire uma forma de libertar também a sua necessidade de vingança. 

"The Nightingale" é um filme forte, sua abordagem é brutal, mas também possui seus momentos belos e poéticos, as interpretações crescentes e viscerais ajudam neste contexto junto de sua ambientação opressiva e violenta, além da paisagem selvagem que preenche a tela.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Graças a Deus (Grâce à Dieu)

"Graças a Deus" (2018) dirigido por François Ozon (Uma Nova Amiga - 2014) é um drama potente que faz questão de colocar o dedo na ferida, o tema é delicado e espinhoso: a pedofilia na Igreja Católica, mas é retratado com cuidado e com muita importância, observamos a história de três homens que foram vítimas e o como cada um lida com o trauma e o quanto é desgastante a busca pela justiça num sistema que se protege e mascara a verdade. Tenso e enfadonho por vezes, mas imensamente essencial.
Um dia, Alexandre (Melvil Poupaud) toma coragem para escrever uma carta à Igreja Católica, revelando um segredo: quando era criança, foi abusado sexualmente pelo padre Preynat (Bernard Verley). Os psicólogos da Igreja tentam ajudar, mas não conseguem ocultar o fato de que o criminoso jamais foi afastado do cargo, pelo contrário: ele continua atuando junto às crianças. Alexandre toma coragem e publica a sua carta, o que logo faz aparecerem muitas outras denúncias de abuso, feitas pelo mesmo padre, além da conivência do cardeal Barbarin (François Marthouret), que sempre soube dos crimes, mas nunca tomou providências. Juntos, Alexandre, François (Denis Ménochet) e Emmanuel (Swann Arlaud) criam um grupo de apoio para aumentar a pressão na justiça por providências. Mas eles terão que enfrentar todo o poder da cúpula da Igreja.
Tudo se inicia com Alexandre, um homem de 40 anos, católico fervoroso e pai de cinco filhos, sua fé é posta em xeque quando recebe a notícia de que o padre Preynat ainda atua na Igreja e com crianças, indignado decide romper o silêncio e buscar mais pessoas que tenham sofrido o abuso, ele denuncia o caso à Igreja, mas enfrenta uma série de situações estranhas por parte da alta cúpula. O cardeal Barbarin sempre acobertou esses casos e até diz numa coletiva de imprensa que graças a Deus que a maioria dos casos já prescreveu. Decidido a encontrar o máximo de pessoas que sofreram abuso Alexandre inicia uma angustiante jornada e encontra uma grande parcela ainda bastante traumatizada que não consegue nem falar sobre, porém a coragem vem à tona quando François cria um movimento e decide expor tudo na mídia. É interessante ver o como cada um lida à sua maneira com o fardo, Alexandre continuou seguindo a religião e constituiu família, François renunciou a fé completamente e também constituiu família, já Emmanuel vive relacionamentos tóxicos e o abuso foi algo que deixou marcas tanto no seu ser quanto em seu corpo. É realmente triste acompanhar o quanto isso acabou o levando para caminhos violentos. A família de François é bastante presente na associação que criou e a mãe de Emmanuel ajuda com as ligações, certamente a culpa de não ter feito nada no passado, Alexandre aos poucos vai sentindo sua fé sendo murchada, uma decepção e uma tristeza o invade, pois talvez não havia pensado tão claramente sobre o abuso. O padre em momento algum nega, ele é protegido pela instituição e se declara doente, nunca foi afastado e ainda continuou perto das crianças.

O silêncio que corrói enfim é quebrado e a denúncia é amplamente feita, não é um filme fácil de assistir, mas é importante ver que tantos casos de pedofilia cometidos pela Igreja estão sendo expostos e julgados, uma instituição poderosa que dita dogmas e que comete abusos horríveis e esconde e se protege mascarando a verdade, atualmente esse quadro está mudando e sendo muito mais observado. "Graças a Deus" é um filme que denuncia e que retrata a podridão escondida nos meandros da Igreja Católica, baseado em fatos reais Ozon direciona seu longa com uma relevância séria e também delicada provocando reflexões acerca do poder da Igreja.

O Arcebispo de Lyon, Philippe Barbarin, de 68 anos, foi condenado a seis meses de prisão em 7 de março de 2019 culpado por não denunciar os casos de pedofilia, o filme em 16 de fevereiro ganhou o prêmio Urso de Prata no Festival de Berlim, ou seja, um filme que cumpre um papel político-social importante ao denunciar e promover a quebra de tabus em relação aos casos de pedofilia cometidos pelos representantes da igreja. 

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Normandia Nua (Normandie Nue)

"Normandia Nua" (2018) dirigido por Philippe Le Guay (Pedalando com Molière - 2011, Floride - 2015) é um filme despretensioso que passa por diversas questões interessantes sem aprofundá-las, na verdade o que marca é seu imenso senso de comunidade para as tentativas de mudar muitas das coisas locais, a interação entre os habitantes da pequena vila pontuam a narrativa com graça e simplicidade.
Georges Balbuzard (François Cluzet) é o prefeito da pequena cidade de Mêle sur Sarthe, na Normandia, onde os agricultores vêm sofrendo cada vez mais por conta de uma crise econômica. Quando o fotógrafo Blake Newman (Toby Jones), conhecido por deixar multidões nuas em suas obras, está passando pela região, Balbuzard enxerga nisso uma oportunidade perfeita para salvar seu povo. Só falta convencer os cidadãos a tirarem a roupa.
Acompanhamos a crise econômica e a quase falência dos fazendeiros locais, não há mais saída para seus produtos e tudo indica que irá piorar, o prefeito Balbuzard junto de outros começam a mobilizar protestos e promover a paralisação da estrada, esse fechamento ocasiona um imprevisto para um famoso fotógrafo americano que buscava o cenário perfeito para uma foto, obrigado a voltar para trás se depara com um campo do qual o fascina e é aí que decide conceber seu trabalho que consiste em desnudar o máximo de pessoas e posicioná-las nesse grande campo, o prefeito encontra nessa ideia uma forma de chamar a atenção das autoridades e a possível salvação para a comunidade, mas não será fácil convencê-los a tirar a roupa. Alguns aceitam na hora e veem realmente como uma saída e outros acham uma calamidade. A história volta e meia centra-se em um ou outro personagem sem muito alarde, como a rixa de dois fazendeiros por causa de um terreno, especificamente o campo que o fotógrafo se encantou, Thierry (François-Xavier Demaison) que veio com a família de Paris para se livrar do caos da cidade e termina não se dando bem com a natureza, mas mesmo assim insiste e dá uma forçada nessa interação, o prefeito enlouquecido querendo cuidar de tudo, o casal que se forma do nada, a destemida Charlotte (Daphné Dumons) e o jovem Vincent (Arthur Dupont) e a adolescente Chloé (Pili Groyne), filha de Thierry, narradora da história e completamente avessa ao estilo campal e de toda a estrutura do agronegócio. Todos se entrelaçam com harmonia e fluidez trazendo com inteligência temas atuais e importantes, dispõe a visão característica do local e espontaneamente vão surgindo os assuntos, como crueldade animal, aquecimento global, o uso de pesticidas, entre outros. 

Cada personagem possui sua visão, mas claramente os parisienses e especialmente Chloé é a que mais abomina a vida rural, ela indica os males sobre o consumo de carne e os efeitos que o planeta sofre por conta das emissões de gases, o pai dela desistiu da vida na cidade pensando que seria mais feliz no meio do mato, mas no decorrer vemos que ele vai adoecendo e mentindo para si próprio ao dizer que prefere a vida ali, engraçado que realmente existe essa forçação de barra em muitas pessoas que dizem amar a natureza, mas que não aguentariam nem uma hora do sossego e das dificuldades. Dos personagens este é o mais engraçado por demorar a admitir que não vive sem o barulho e o cheiro da poluição da cidade.

Em meio a esses assuntos que permeiam a história o que na verdade tem ênfase é se a tal foto irá ser feita, pois o americano não consegue suportar algumas atitudes dos fazendeiros e quando o dia chega os maiores interessados acabam não indo e o prefeito se chateia e o fotógrafo esquisito vai embora. Daí novas opções surgem e a união ganha forma, mostra o poder da amizade, da coletividade e a energia depositada numa causa.
"Normandia Nua" é uma comédia que não ambiciona julgar, são diversas visões e entrelaça seus personagens com desembaraço, retrata a vida rural na região e as atitudes de cada um finalizando de modo bem alegre e empático.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Yomeddine - Em Busca de um Lar (Yomeddine)

"Yomeddine" (2018) dirigido pelo egípcio A.B. Shawky é um filme sutil, emocionante e humano, retrata com espirituosidade a vida de um homem simples que vive à margem por conta de sua aparência, pois durante a infância sofreu de lepra/hanseníase, vivendo em uma comunidade excluída do resto da sociedade passa seus dias coletando lixo e conversando com um menino órfão que sofre bullying dos demais. O ator Rady Gamal realmente sofreu com a doença e lida com as consequências, ele interpreta a si mesmo e por isso a naturalidade faz parte da narrativa, a vida real é exposta com sensibilidade e muita esperança apesar de toda as enormes dificuldades, preconceitos e julgamentos, é uma jornada de descoberta e de afirmação.
Beshay (Rady Gamal) é um coletor de lixo que decide sair do confinamento de uma colônia de leprosos pela primeira vez e embarca em uma jornada ao Egito para procurar sua família. Ele viaja com seu burro e seu aprendiz órfão ao longo do Nilo e, pela primeira vez, fica cara a cara com a maldição de ser um estranho.
Beshay foi deixado pelo pai ainda criança numa instituição que tratava a doença e os separavam do restante da sociedade, muitos desses pais, assim como o de Beshay nunca mais apareceram e essa comunidade se transformou numa família de isolados para sempre marcados pela doença, apesar de não transmitir mais a infecção as limitações e marcas  de Beshay são profundas, nessa colônia também existe um manicômio do qual sua mulher está internada e um orfanato que se encontra o seu fiel amigo Obama (Ahmed Abdelhafiz), rejeitado pelos outros meninos, parte dessa rejeição de Obama é por ser Núbio, o filme esbarra sutilmente nessa problemática de preconceito no país.
Tudo realmente começa quando Beshay resolve sair em busca de suas raízes apenas com algumas trouxas e seu burrinho, o garoto vai atrás mesmo contra a vontade de Beshay, nesse momento acompanhamos a estafante jornada de duas pessoas marginalizadas e absolutamente invisíveis à sociedade, eles buscam um pouco sobre si mesmos e nessa caminhada vão se deparando com muito preconceito, fome, miséria e descaso, só encontram acolhimento e empatia daqueles que também estão à margem e que partilham do sofrimento de não serem vistos como seres humanos. O sentimento amargo de que são considerados lixos ultrapassa a tela e promove um olhar empático para com essas pessoas e nos faz refletir no quanto se julga apenas pela aparência, numa sociedade hipócrita, individualista e arrivista são incômodos e tratados com nojo. O filme possui um tom alegre na maioria do tempo, afinal retratar com peso seria arriscado a cair num melodrama ou de incutir sentimentos de comiseração. 

Uma das partes mais chocantes é quando ele está no trem e por não ter o bilhete é chacoalhado como se fosse um saco de lixo e indignado grita: "eu sou um ser humano", essa viagem é permeada de obstáculos cruéis, se submetem a muitas coisas e perdem muito pelo caminho, mas claro que também ganham, o amor um pelo outro, o carinho e a proteção. Beshay chega ao lugar que quis e percebe que a sua família é estar junto de Obama, pois esse nunca o abandonou. Há outra questão importante na história que é sobre a crença religiosa, o título mesmo em árabe se refere ao dia do julgamento, Beshay faz parte de uma minoria da população egípcia que pertence à Igreja Ortodoxa Copta da Alexandria, uma ramificação do Cristianismo, o personagem é resistente as adversidades por conta disso e coloca toda a sua esperança no dia do julgamento.

"Yomeddine" é uma bonita jornada de pessoas marginalizadas que buscam poder ser, ao ir à procura de sua família e obter uma sensação de pertencimento Beshay e Obama encontram um no outro todo o amor que necessitavam, a aceitação e o entendimento do que realmente importa. 

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Tradutor (Un Traductor)

"O Tradutor" (2018) dirigido por Sebastián Barriuso e Rodrigo Barriuso conta a história real do professor universitário cubano Malin, na verdade, Manuel Barriuso Andino, que vê sua vida transformada quando é designado para ser o tradutor numa ala infantil de um hospital destinado às vitimas do desastre nuclear de Chernobyl. Ambientado em 1989, as primeiras imagens são de Fidel Castro recebendo Gorbachev, Cuba necessita muito da ajuda da URSS, mas devido ao colapso e, por conseguinte, à sua ruína, as coisas começam a mudar no país, inicialmente as aulas de literatura russa são canceladas e novas funções são designadas aos professores, Malin vivido visceralmente por Rodrigo Santoro se vê obrigado a trabalhar num hospital que recebe vítimas do desastre de Chernobyl, especificamente a ala infantil, o sofrimento acaba sendo uma constante em sua vida ao ponto de sugar toda a sua energia, o sistema de saúde de Cuba reconhecido como um dos melhores do mundo recebia essas crianças para o tratamento, mas a comunicação era difícil e, portanto, Malin com ordem do governo inicia esse trabalho. 
Acompanhamos todo o cenário político da época e as suas transformações juntamente com as transformações pessoais do protagonista, sua vida até então boa e sem preocupações passa a ser um fardo, pois o peso de conviver com crianças em estados críticos e terminais deprime e o significado das coisas se modificam, por conta desse dia a dia o casamento se desfaz, não há diálogos e tudo parece pequeno para Malin, sua esposa é curadora de uma galeria de arte e por causa de sua experiência com as crianças que lutam pela vida não consegue entender os problemas dela em relação ao trabalho e as responsabilidades de resolver sozinha as situações cotidianas, grávida do segundo filho resolve deixar a casa e ir morar por uns tempos com seus pais, Malin também se distancia da vida do filho e vemos o como o pequeno é afetado por essa ausência, não é fácil a rotina no hospital, ter que ser o interlocutor de notícias desagradáveis aos pais das crianças, nesse ambiente sufocante ele então inicia formas de suavizar, ou seja, introduz histórias e interação uns com os outros, ouve e percebe o como cada um se sente, o carinho e a compreensão faz total diferença e é aí que o filme nos toca profundamente, é bonito ver o como Malin se dedica a amenizar o sofrimento promovendo leitura, aprendizado e diálogo, o completo oposto em sua casa, mas ali ele faz o possível para o lugar ser menos pesado. A enfermeira Gladys (Maricel Álvarez), ajuda nesse processo, pois possui empatia e sua dedicação também impressiona.

O filme não se aprofunda nas questões políticas, mas a realidade do país socialista é retratada de acordo com as vivências de Malin, observamos vários eventos importantes, como a queda do muro de Berlim e a crise econômica que assolou Cuba devido o colapso da União Soviética, são cenas marcantes e em sua maioria emocionantes, destaque para a ambientação com todos os detalhes que nos transportam para a época. E, claro, a linda dedicação de Rodrigo Santoro ao personagem, percebe-se que deu alma e muita vida para interpretá-lo, brilhante execução.

"O Tradutor" é uma obra que emociona, mas não apela em momento algum para excessos, o desenvolvimento e a transformação vem de forma natural, as vivências do protagonista inspiram muitas reflexões sobre as alternativas de se ajudar os outros em situações críticas, diz como a educação sempre é o melhor caminho fortalecendo assim a empatia, o afeto e olhares diversos, além de colocar tudo em paralelo com o conturbado cenário político.

*O filme foi dirigido pelos filhos de Malin, que na realidade se chama Manuel Barriuso Andino.
*O russo impecável de Santoro se deu por uma imersão na língua durante quatro semanas, estudou e tomou aulas para acertar o ritmo e trabalhou na memorização não apenas de suas falas, mas na de seus colegas de elenco também.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

In Fabric

"In Fabric" (2018) dirigido por Peter Strickland (Berberian Sound Studio - 2012) é um filme que transmite nostalgia por causa de sua estética retrô nos remetendo aos clássicos Giallos, uma combinação excêntrica de comédia e terror que o torna numa espécie de conto de fadas sombrio permeado por fortes elementos, como o elegante e estranho vestido cuja cor é denominada como "vermelho artéria", quem o experimenta começa a sofrer terríveis consequências, pois existe uma bizarra maldição envolta nele, a atmosfera de pesadelo e surrealidade é recorrente e seus tons exuberantes quase sempre nos banha em um vermelho extremamente vivo.
Em uma Londres sombria acompanhamos Sheila (Marianne Jean-Baptiste), uma mulher divorciada que divide seu tempo entre escutar desaforos de sua nora Gwen (Gwendoline Christie) e as reclamações de seu chefe no banco, solitária ela tenta encontros, mas sempre insatisfatórios, tudo começa a mudar quando entra numa loja de departamentos e com a ajuda de uma estranha vendedora compra um vestido para se sentir melhor e chamar a atenção, esse vestido de tamanho 36 se adapta ao corpo de quem o veste e encantada e seduzida pelas palavras da vendedora termina levando. Neste ponto é fácil perceber uma crítica ao consumismo que se aproveita das frustrações das pessoas para vender, se falta em Sheila um apelo sexual um vestido ousado seria a solução, mas essa satisfação inclui consequências estranhas advindas de uma maldição, o ritual, um jogo erótico excêntrico e obscuro que os funcionários da loja fazem incluindo manequins com as partes íntimas aparentemente reais são os momentos mais intrigantes, a vendedora Miss Luckmoore vivida por Fatma Mohamed hipnotiza com seu estilo gótico e diálogos e ações enigmáticas. Depois que Sheila usa o vestido a maldição começa a se manifestar, enquanto dormem ele se arrasta pela casa e acaba criando situações de perigo, a imagem dele flutuando em cima de Sheila enquanto dorme realmente causa um desconforto, pois a atmosfera surreal se parece muito com um pesadelo, não há lógica, mas todos os sentidos estão alertas.

O desenvolvimento prende a atenção, se faz interessante e sinistro com suas cores vibrantes e estilo retrô, realmente parece um filme dos anos 70, o único ponto a se questionar é quando a trama envolvendo Sheila termina de forma rápida e logo somos jogados na vida de Reg (Leo Bill), especialista no reparo de máquinas de lavar roupas e que acaba usando o vestido em sua despedida de solteiro e depois o leva para casa e sua noiva o usa também, ou seja, a maldição joga tanto com um tanto com o outro.

"In Fabric" é um exemplar de horror peculiar que não possui uma lógica clara, as situações funcionam como numa estrutura de sonho/pesadelo, gera uma sensação particular a cada espectador e justamente por essa liberdade e originalidade merece a nossa atenção, certamente uma obra que já nasceu cult, o clima criado é fascinante!

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Gwen

"Gwen" (2018) roteirizado e dirigido por William McGregor é um drama melancólico aterrador ambientado no País de Gales, primoroso em sua atmosfera somos inseridos no século XIX e pela perspectiva da protagonista adentramos em um mundo dominado por homens gananciosos e inescrupulosos, a sobrevivência de uma família em que as mulheres estão por si só, pois o marido está longe por causa da guerra e, talvez, esteja morto, então os especuladores estrategicamente lançam histórias sobre elas com intenção de obterem o território.
Nas montanhas da Snowdonia do século XIX, Gwen (Eleanor Worthington-Cox) vive em uma fazenda com sua mãe e sua irmã mais nova. Com seu pai fora na guerra, sua mãe repentinamente caindo doente e a fazenda sofrendo com estranhas ocorrências, Gwen tem que lidar com a dificuldade de manter seu lar funcionando enquanto uma profunda escuridão parece rondar sua família.
Escura, lamacenta e desesperançosa é a encosta em que vive Elen (Maxine Peake) e suas duas filhas, a adolescente Gwen, que possui uma relação de amor e ódio com ela e a caçula Mari (Jodie Innes), quando surge um surto de cólera na vizinhança e as batatas começam apodrecer a situação delas fica insustentável, na miséria e com Elen adoecendo cada vez mais Gwen precisa tomar as rédeas e amadurecer rapidamente, elas perdem o meio de sustento, os animais amanhecem mortos e os poucos legumes que possuem tentam vendê-los, mas as pessoas não querem nada vindo de lá, pois o padre lança boatos, parece não haver chances de se livrar dessa maldição e a terra que parece não oferecer nada é ambicionada por esses homens que tentarão de tudo para consegui-la. 
O filme possui bastante sutileza e é minucioso, são pequenas atitudes e diálogos pontuais que exemplificam a maldade em torno delas, a tristeza de Gwen aumenta a cada novo entendimento de como esse mundo em que vive funciona. O terror não é caracterizado pelo medo de fantasmas e do sobrenatural que muitas vezes Gwen sente, na verdade, está contido em coisas reais, como na atmosfera desoladora e a sensação do vento cortando, a religião que prega visões distorcidas de bem e mal e o pensamento patriarcal e machista que domina e destrói. Os elementos são utilizados com destreza e gera sensação de angústia, a injustiça cometida contra elas penetra.

A atmosfera ameaçadora e pesada joga com a ambiguidade cruel, nada é revelado totalmente e a tristeza e a sensação de alucinação permeia por todo o desenrolar. Essas características remetem muito ao filme "A Bruxa" - 2015, e também ao "Hagazussa" - 2017, onde a narrativa prima por um mistério que provoca e assombra nas entrelinhas.

"Gwen" é um ótimo exemplar de horror que retrata com maestria a opressão e a perseguição às mulheres por parte de religiosos, o terror está no drama real, no silêncio da escuridão que evoca uma tristeza poética.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Verão (Leto)

"Verão" (2018) dirigido por Kirill Serebrennikov (O Estudante - 2016) é um filme interessante e original sobre o cenário efervescente do Rock and Roll nos anos 80 em plena União Soviética, os artistas celebravam a cultura considerada inimiga e adaptavam canções clássicas para um formato aceito pela censura, assim acontecia também com as originais que precisavam passar por um crivo rígido, a juventude apesar de rebelde possuía cautela na hora de compor e com inteligência inseriam metáforas para dizer o que queriam, o tom se encaixava na comédia e dessa maneira se livravam da terrível censura que julgava tudo ofensivo ou até traição à pátria.
No verão de 1981, o rock underground chegava na Rússia Soviética, mais precisamente em Leningrado, onde hoje localiza-se a cidade de St. Petersburg. Sob a influência de artistas internacionais, como Led Zeppelin e David Bowie, o rock vibrava na cidade, marcando o nascimento de uma nova geração de artistas independentes. O jovem Viktor Tsoi (Teo Yoo) ganhou fama internacional e tornou-se o primeiro grande representante russo do gênero, foi o fundador e líder da banda Kino. Além da música, ele também ficou conhecido pelas polêmicas relacionadas a sua vida pessoal, como o triângulo amoroso que viveu junto com o seu mentor musical, Mike (Roman Bilyk), vocalista da banda Zoopark e a esposa dele, Natasha (Irina Starshenbaum).  
Somos absorvidos por uma realidade contagiante e por vezes fantasiosa, a imersão nesse passado não muito distante é repleto de estilo e captura com excelência toda a aura opressiva e ao mesmo tempo borbulhante dessa época, certamente o que mais chama a atenção são as inserções musicais que possuem humor e excentricidade, nesses momentos surge uma espécie de narrador que com placas indica: "isto não aconteceu", são devaneios que contrastam com o quanto os artistas eram podados e que para criar era necessário moldar ou esconder muitas coisas, os ídolos do ocidente, David Bowie, Iggy Pop, Talking Heads, Lou Reed faziam a cabeça da juventude, mas as versões das músicas famosas e as composições não pareciam rock e a necessidade de mudar era cada vez mais intensa, porém a realidade não permitia e tudo o que tinham era a amizade e o mesmo sonho que os unia, assim foi com Viktor e Mike, personagens centrais da trama, e tantos outros que  se destacaram na cena do rock soviético. Em meio a isso ainda acontece um triângulo amoroso vivido por Natasha, Mike e Viktor, uma intensa e complexa relação, eram unidos pela admiração e os desejos em comum.

É um filme cheio de ironias e provocações, um ótimo exemplar para conhecer artistas que driblaram o regime autoritário e conseguiram se inspirar em grandes músicos, como Lou Reed, e mesmo com tantas restrições compunham e se apresentavam, a busca pela liberdade nesse ambiente tão castrador só acontecia por conta da união deles e na maioria das cenas é destacado essa integração e o desejo de fazer acontecer, era a necessidade de dar voz mesmo que em formas adaptadas.

"Verão" é surpreendente, belo visualmente e imersivo em sua ambientação, traz com humor e acidez perspectivas interessantes da realidade musical na Rússia do período do regime comunista, por exemplo, ao retratar o como a plateia deveria se comportar durante um show ou as inúmeras restrições que os músicos deveriam seguir para subir ao palco, e certamente o ponto de mais destaque são as intervenções musicais que têm o propósito de quebrar a rigidez e lançar um pouco de cor à história. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Skin

"Skin" (2018) roteirizado e dirigido por Guy Nattiv, também criador do curta de mesmo nome lançado no mesmo ano, Skin - 2018, cuja violência é a grande protagonista, traz neste a biografia de Bryon Widner, um neo-nazista que decide mudar de vida depois que experimenta o amor verdadeiro.
Bryon Widner (Jamie Bell) é um jovem homem que foi criado por skinheads notórios na comunidade de supremacia branca. Decidido em mudar sua vida, ele vira as costas para todo o ódio e a violência que foi ensinado, com a ajuda de um ativista de direitos negros.
Acompanhamos Bryon e sua violenta gangue que considera sua família, pois o líder o tirou da sarjeta e lhe deu casa e comida, há uma hierarquia rígida e todos obedecem Fred (Bill Camp) e todos têm a proteção e o amor distorcido da mãe, Shareen (Vera Farmiga). É angustiante assistir os diversos ataques brutais contra as mais diversas etnias, a violência escorre pelos poros do personagem e suas tatuagens faciais simbolizam o ódio e a cada novo ataque vai ganhando mais e mais desenhos, ele mesmo é um excelente tatuador, porém só exerce entre os seus, a montanha-russa de sentimentos destrutivos o atravessa dia após dia e desconta nas drogas, no sexo e através da violência, as cenas não poupam em retratar com crueza atos cruéis e exemplificam com intensidade a maneira de pensar e agir dessas pessoas que não suportam o diferente, as ideias distorcidas e a lavagem cerebral que os mais velhos fazem para agregar os mais novos, geralmente são adolescentes abandonados com famílias disfuncionais que passam fome e perambulam pelas ruas, eles oferecem casa, comida, proteção e os transformam em extremistas intolerantes capazes das mais diversas atrocidades.
As coisas começam a mudar quando Bryon conhece Julie (Danielle Macdonald), uma mãe solteira que também já fez parte desse mundo violento, mas por conta de suas três filhas mudou, sua maneira espontânea e corajosa desperta em Bryon algo inédito, principalmente também após ele pensar no último ato cometido contra um adolescente negro, com o passar dos dias ele se corrói e entra numa crise de consciência, a convivência com as crianças de Julie o desperta para o amor e sua postura naturalmente vai mudando, só que a sua "família" não permite que saia de casa e a cada novo ataque Bryon começa a ficar de lado e não promove mais a violência, o que o caracteriza em um traidor. Ele é ameaçado e tanto Julie como suas filhas sofrem as consequências. Nessa parte a aflição aumenta graças a intensa performance de Jamie Bell que incorpora com potência o personagem e nos fornece uma história de redenção consistente e envolvente.

Bryon conta com a ajuda de um ativista negro (Mike Colter), ele acredita na mudança dessas pessoas e se dedica de coração nessa missão já que ele próprio fez parte de uma gangue e teve a oportunidade de mudar. Decidido a realmente largar tudo Bryon auxilia a polícia a encontrar os membros e pelo ato de bondade de uma anônima começa a remoção de suas tatuagens, um dolorido processo, mas que simboliza que é possível mudar e se livrar de pensamentos e sentimentos que destroem.

"Skin" é um filme intenso tanto na exposição da violência como na sensibilidade que floresce, impacta e gera esperanças na mudança, é tanto ódio e intolerância sendo semeados que realmente cega quem sempre viveu dentro desse sistema, quando Bryon enxerga além de seu meio e percebe que aquilo não era família sente necessidade de mudar e essa transformação acontece de forma lenta com um penoso processo de autoconhecimento.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Minha Filha (Figlia Mia)

"Minha Filha" (2018) escrito e dirigido por Laura Bispuri (Virgem Juramentada - 2015) é um filme de mulheres fortes, aborda de maneira realista e cru uma situação complexa em que uma menina de 10 anos se vê dividida entre suas duas mães, a construção das personagens é seu maior triunfo e sua sensibilidade em torno do crescimento de cada uma é emocionante.
A guarda de uma menina está sob disputa de duas mães, a de criação Tina (Valeria Golino) e a biológica Angelica (Alba Rohrwacher) que almeja tê-la de volta. No centro do conflito, Vittoria (Sara Casu) se vê obrigada a lidar com questões existenciais muito acima do seu nível de maturidade, prestes a fazer uma escolha que a afetará a sua vida para sempre.
Acompanhamos Vittoria, uma garota retraída e excluída pelos colegas da escola, ela vive com Tina, sua mãe de criação e não lhe falta afeto e cuidados, Tina prometeu a Angelica que a ajudaria em qualquer situação, as duas são amigas de infância e vizinhas desde sempre, acontece que Angelica está sendo despejada e pretende ir embora, então Tina decide junto ao marido que Vittoria deveria vê-la, porém antes desse encontro a garota  já tinha se deparado com essa mulher num rodeio em uma situação constrangedora, quando fica cara a cara com Angelica a menina percebe as semelhanças e a partir daí uma transformação se inicia. Vittoria todos os dias caminha até o sítio de Angelica e juntas conversam e passeiam pelos arredores, conhecemos um pouco mais dessa mulher tão perdida, alcoólatra vive no único bar do local se prostituindo e repleta de dívidas necessita vender seus animais e talvez ir para bem longe, só que as constantes visitas de Vittoria adia essa partida e algo nela também começa a mudar. A relação é descoberta por Tina que fica irritada e com medo de perder sua filha, a disputa é complexa, pois cada uma é de um jeito e Vittoria se sente mais solta com Angelica, se diverte e aprende coisas novas, Tina fica com os nervos à flor da pele, entra numa espiral de angústia e não sabe mais o que fazer para recuperar a atenção da menina. 
O maior ponto do filme é retratar o triângulo sem apelar para melodramas, a construção das personagens e o modo fluído que se entrelaçam dão seriedade à história e comove, é forte na exaltação das mulheres, nas suas diferenças e que apesar delas ninguém precisa sair perdendo, o amor acolhe a todas. Gravado na ilha de Sardenha, a paisagem arenosa e desolada com suas ruínas em pedra e as diversas trilhas em meio as montanhas só intensifica os sentimentos evidenciados.

É interessante observar o amadurecimento de Vittoria, sua jornada para o autoconhecimento e entender que tanto Tina como Angelica são importantes para si, Tina a protege e supre suas necessidades, já Angelica com seu jeito expansivo a motiva, essa combinação complementa uma à outra e mais adiante fortalecerá ainda mais a personalidade da menina, a cena final exemplifica que sem dúvidas Vittoria não é mais a mesma.

"Minha Filha" é um filme que quebra alguns pensamentos sobre o amor materno e mostra que padrões e fórmulas não existem, a visão de que não há necessidade de escolher entre uma ou outra é bela e sensível, a convivência entre elas mesmo sendo frágil e complexa certamente será um alicerce para Vittoria. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Lámen Shop (Ramen Teh)

"Lámen Shop" (2018) dirigido por Eric Khoo (Be With Me -2005) é um filme delicioso e emocionante que retrata através de receitas culinárias laços e traumas familiares juntamente com suas tradições, é uma jornada gastronômica rica em sabores, sentimentos e aprendizados.
Masato (Takumi Saitoh) trabalha no restaurante da família, um dos estabelecimentos de lámen mais reputados em todo o Japão. Quando ele perde o pai, o jovem chef decide buscar as raízes culinárias e históricas do pai e da mãe, também falecida. Através de um diário e de cartas, Masato faz um caminho através de China, Japão e Singapura, confrontando-se com seus próprios traumas e os caminhos pelos quais seus pais passaram. Ele decide então acertar as contas com o passado.
Masato tem uma relação distante com o pai e seu único elo afetivo é o tio que também ajuda no restaurante de lámen, o motivo de seu pai estar afogado na bebida e ser tão fechado é por conta da morte de sua esposa e tantas coisas do passado, o filho não consegue compreender exatamente o comportamento do pai e somente quando este falece que Masato decide se enveredar pela história dos pais e a sua própria já que ele não se lembra de muita coisa, Masato então parte para Singapura, local onde tudo aconteceu. Somos contemplados por alguns flashes do passado em que seu pai vai para Singapura se especializar em culinária Kaiseki, tida como uma filosofia, apaixonado pelo tradicional prato Bak Kut Teh conhece num restaurante o amor da sua vida, mas esse relacionamento vai ser marcado por inúmeros contratempos e decisões importantes e derradeiras. Diante de todos os lugares por quais seus pais passaram Masato vai resgatando memórias e com a ajuda de uma amiga descobrindo através do diário de sua mãe pontos de vista diferentes sobre sua família, enquanto isso comidas tradicionais apetitosas fazem um elo sensível com valores familiares.
A relação com a comida é bela e encanta, desde a escolha dos ingredientes e o cuidado com o preparo até o momento de servir e comer, tudo é retratado com delicadeza para que nunca se rompa as camadas de afeto que unem esses pratos com a história de Masato e sua família, a união da cultura e o entrelaçamento das tradições culinárias, como o surgimento do lámen e sua difusão no Japão, o pai de Masato se dedicava de alma no preparo, uma forma de reavivar a memória da esposa, e quando ele morre Masato sente que necessita aprender o Bak Kut Teh para assim também reavivá-lo toda vez que preparar o prato. A receita, uma espécie de sopa de costela de porco era a especialidade do restaurante da mãe de Masato, e seu desejo na verdade é unir a tradicional sopa de lámen com o Bak Kut Teh, são diversas as tentativas, na sua caminhada encontra o tio que o ensina a se aprofundar na receita e a avó que o rejeita, ela nunca aceitou o casamento devido as mágoas antepassadas por conta da guerra, o maldito japonês, assim como dizia, fez a sua filha viver em profunda tristeza, principalmente quando teve que escolher ir para o Japão. Tempos depois ela adoeceu e faleceu transformando o pai de Masato em um alguém completamente diferente.

O filme é uma experiência fascinante, a culinária é a principal protagonista, a relação com os pratos apresentados são sempre relacionados com as emoções dos personagens, inevitável não dar água na boca e querer experimentá-los, também nos traz perspectivas sobre o amor, traumas e mágoas familiares, acompanhamos Masato em sua jornada e nos deslumbramos a cada nova descoberta, seja nas raízes de seu passado ou com os seus desejos de unir as culturas através da comida e dessa forma reavivar a memória dos pais.

"Lamen Shop" é leve, calmo e contemplativo, a comida é algo que dá o poder de aconchego passando até pelo processo de perdão, a cena final em que a avó sorri ao comer o que o neto preparou diz muito sobre essa reflexão, toda a gama de emoções que um prato pode evocar é simplesmente incrível, e a viagem proporcionada para conhecer o como as culturas se entrelaçam através desses pratos é outro ponto realmente bonito do longa, sem dúvidas, um filme para não se assistir de barriga vazia. 

"Aprendi que quando a vida se torna difícil, a beleza da natureza é o melhor dos remédios. Ela nos alivia e nos protege da dura realidade, porque nada dura para sempre. A fragilidade da natureza demonstra que a vida é delicada. A vida é efêmera."