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terça-feira, 18 de julho de 2017
Pele de Asno (Peau D'âne)
"Pele de Asno" (1970) dirigido por Jacques Demy (Os Guarda-Chuvas do Amor - 1964) é uma adaptação musicada do conto de fadas homônimo escrito em 1695 por Charles Perrault, um clássico surreal e inebriante indicado tanto para o público infantil quanto para o público adulto, a história tem um narrador em off, a linda voz do ator Jean Servais e o enredo traz temas importantes e controversos, como o incesto e preconceito, mas sempre de maneira delicada, bem-humorada e amparada por uma aura psicodélica. A princesa interpretada pela maravilhosa Catherine Deneuve ao contrário de tantas outras princesas não fica à mercê do amor, ela é impetuosa mesmo tendo aspecto doce, aliás, as mulheres são fortes e decididas e fazem o que bem querem com os sentimentos dos homens. Alguns elementos modernos são incluídos e as cores, os figurinos, a trilha sonora dão um charme especial a este conto que consegue transpôr barreiras e atrair todos os públicos.
Em um reino distante a rainha (Catherine Deneuve), em seu leito de morte, faz com que o rei (Jean Marais) prometa apenas se casar novamente caso encontre uma mulher ainda mais bela do que ela. Só que em todo o reino apenas uma pessoa atendia a esta condição: a própria filha da rainha. Desesperada, a princesa (Catherine Deneuve) busca ajuda com sua fada-madrinha (Delphne Seyrig), que sugere que ela peça presentes de casamento cada vez mais difíceis de encontrar, com o objetivo de adiar ao máximo a cerimônia. Enquanto isso a princesa consegue fugir do reino escondida sob uma pele de asno, vivendo de forma simples em uma cabana. Até que, um dia, um príncipe (Jacques Perrin) nota sua beleza.
A princesa ao receber a proposta do pai se assusta, mas em sua inocência fica confusa, ele é seu pai e o ama, não poderia recusar tal proposta, mas ao mesmo tempo fica incomodada e vai até sua tia, a fada lilás, que lhe dá conselhos e lhe diz que o casamento não poderia acontecer, pois um pai jamais poderia desposar a própria filha e diz para pedir presentes difíceis de encontrar para adiar a festa de casamento, mas o pai sempre se rendia aos desejos e lhe presenteava com os mais belos vestidos, a fada então diz para a princesa pedir a pele do asno do reino, uma espécie rara que defeca ouro, para surpresa da fada que ignorava a natureza daquele amor, a pele é entregue à princesa que imediatamente reclama de seu destino, mas eis que surge novamente a fada e pede para que fuja para bem longe vestindo a pele do asno, e ainda concede a sua varinha para que pudesse fazer aparecer o baú com seus pertences. O rei que se aprontava para o casamento logo de manhã ficou sabendo da fuga e mandou que revistassem todos os cantos e aldeias, mas não houve nenhum sinal da princesa.
"Afinal, não há bodas, não há baile, não há doces de festa."
Com a feição toda engordurada e suja ninguém a queria acolher, por onde passava era vista com maus olhos e era motivo de chacotas, por fim foi ser serviçal de uma bruxa asquerosa, apelidada de Pele de Asno passava os dias cuidando dos porcos e lavando trapos, foi instalada numa cabana no meio da floresta e apenas aos domingos depois de cumprir seus deveres abria seu baú e se embelezava diante do espelho. Solitária e esnobada por todos Pele de Asno seguia seus dias, até que a visita de um príncipe que passeando pela floresta encontrou a cabana e pela fresta da janela foi espiar, ela estava radiante e o príncipe ficou sem fôlego ao vislumbrar sua beleza, acometido pela paixão foi-se embora e isolou-se em seu palácio, não tinha mais apetite, não levantava de sua cama, só pensava em seu amor e quem seria aquela figura enigmática. Perguntou quem era aquela jovem da cabana e responderam que era Pele de Asno, que de bela não tinha nada, mas o príncipe não acreditava. A mãe preocupada com o filho se desesperava cada vez mais e decidiu que aquilo deveria terminar, perguntou o que poderia fazer para amenizar a tristeza e ele pediu que trouxesse um bolo feito por Pele de Asno. O desejo foi concedido e Pele de Asno fez o bolo e colocou um anel dentro, um sinal de que ela sabia que o príncipe a espiara aquele dia. Por pouco o príncipe não engoliu o anel e acometido por uma alegria decidiu que todas as garotas de todas as aldeias independente de condição social viessem experimentar o anel, vieram mulheres de todas as idades, de diversas posições sociais, algumas se submeteram a elixires para afinar os dedos, até que ao final apareceu Pele de Asno, todos escarneceram dela, mas o anel foi posto e serviu delicadamente em seu fino dedo, ela retirou a pele e o espanto foi geral. Ao colocar outro vestido sua beleza resplandeceu dentro do palácio e as medidas para o casamento logo foram tomadas. Toda a vizinhança foi chamada e também vieram nobres de lugares longínquos, alguns montados em elefantes, o pai da princesa também chegou de forma esplendorosa acompanhado por sua esposa, a fada lilás, o pai a cumprimentou ternamente, aparentemente nada restava daquele criminoso amor, e sua tia contou-lhe o resto da história. Foram três meses de festa.
"Pele de Asno" é um conto de fadas que tem como tema o incesto, isso seria perturbador senão fosse tratado com leveza e imaginação, a interpretação do conto pelas crianças é simples, a moral da história é o que a fada diz à princesa: "um pai jamais poderia desposar a filha". C'est fini! Já para os adultos a visão é mais amplificada e muitas possibilidades de interpretação se dão, a versão de "Pele de Asno" de Jacques Demy tem um disfarce infantil impecável, mas não deixa de ser desconfortante quando discutido a fundo. Outro ponto a se destacar na trama adaptada por Demy é a personagem da fada interpretada por Delphine Seyrig - musa de Alain Resnais - que esbanja características peculiares, ela é irônica e muito a frente de seu tempo, e até consegue interferir utilizando meios modernos, como um helicóptero em plena era medieval. Aliás, as mulheres do conto sempre estão decidindo algo e pondo-se a acertar as coisas, a fada, a mãe do príncipe, Pele de Asno tomando a iniciativa colocando o anel no bolo, etc.
"Pele de Asno" é uma obra para ser passada adiante e ser revista inúmeras vezes, existem camadas e detalhes escondidos ou disfarçados, e esses somente olhos adultos conseguem enxergar, certamente uma brilhante adaptação. É possível encontrá-lo em DVD numa belíssima edição da coleção "Folha Grandes Astros do Cinema", os extras são tão primorosos quanto o filme, entrevistas, depoimentos, discussões e especiais maravilhosos, além da biografia de Catherine Deneuve disposta em um livreto.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (Valerie a Týden Divu) +Coisas Insignificantes (Cosas Insignificantes) + O Foguete (The Rocket)
Valerie, uma jovem adolescente que vive com sua avó, começa a ter os primeiros contatos com sua consciência sexual quando um grupo circense chega a sua cidade e é presenteada com um par de brincos mágicos. A linha entre sonhos e realidade é tênue nesta fantasia psicológica surrealista. Uma história que trata de amor, medo, sexo e religião. O filme "Valerie e sua Semana de Deslumbramentos" do diretor Jaromil Jires faz parte da New Wave Tcheca que se iniciou em 1960, as obras iam contra todo o realismo da época apresentando características de surrealismo e onirismo. "Valerie..." faz parte do surrealismo estético, onde os sonhos e pesadelos com qualquer tipo de criatura se externalizam.
Valerie é uma garota inocente que vive com sua avó, mas logo uma nova fase surgirá para ela, quando no início ganha um par de brincos que caracterizam a sua mudança. A narrativa carrega simbolismos muito bonitos, como o sangue pingando nas margaridas mostrando que a menina terá pela frente várias descobertas. De repente, ela começa a enxergar todos ao seu redor de outra forma e demoniza os adultos, a volúpia é a grande protagonista do filme. O amadurecimento sexual é o foco, a mistura de realidade e sonhos caracterizam diversos sentimentos, dos quais se fazem presentes nesta fase tão confusa. O despertar é trabalhado de maneira completamente onírica, onde o paganismo naturalista junta-se aos ícones, símbolos e rituais cristãos.
Vale dar uma conferida neste exemplar maravilhoso da New Wave Tcheca e se deslumbrar com todos os elementos do filme.
Esmeralda é uma adolescente com uma obsessão incomum: ela coleciona objetos perdidos, esquecidos ou descartados e os guarda em uma caixa embaixo de sua cama. É a história dessas coisas insignificantes e das pessoas por trás delas, todos de alguma maneira incapazes de se conectar com quem mais amam. Esses objetos, dentro de uma caixa, representam tanto a ausência da comunicação como sua possibilidade.
O filme entrelaça diversas pessoas que fazem parte do cotidiano de Esmeralda através dos objetos que ela encontra e guarda para si, em capítulos vamos conhecendo-os, assim como os seus respectivos donos, e a história delicadamente nos apresenta uma gama de possibilidades. É leve ao abordar o como certas coisas que julgamos pequenas dizem muito sobre nós.
Dirigido por Andrea Martínez, "Coisas Insignificantes" tem uma aura de esperança, o roteiro simples e suave, juntamente com as atuações naturais cativa e nos faz pensar na nossa própria vida e suas insignificâncias.
Um menino acreditando trazer má sorte para todos em torno dele leva a sua família e dois novos amigos através de Laos para encontrar um novo lar. Depois de uma viagem cheia de calamidade por uma terra marcada pelo legado da guerra, para provar que ele não traz má sorte, ele constrói um foguete gigante para entrar na competição mais emocionante e perigosa do ano: O Festival de Rocket.
"The Rocket" filme de estreia do diretor australiano Kim Mardaunt é despretensioso ao mostrar a história de um menino marcado pela crença de seu povo e os desastres envoltos do local. Ambientada no Laos, Ahlo é um garotinho nascido em uma tribo que possui a crença de que quando se nasce gêmeos, um é abençoado e outro é amaldiçoado, seu irmão nasce morto, portanto não se sabe o que Ahlo será, mas conforme cresce devido a algumas coisas ruins que vão acontecendo ele é considerado amaldiçoado. Ao encontrar Kia e Tio Roxo no campo de refugiados em que se mudaram por causa da construção de uma hidrelétrica onde moravam, ele decide quebrar esse esteriótipo que criaram para ele.
A narrativa pode ser considerada clichê, mas isso não tira a beleza, ao contrário, dá magia à história tão cheia de sofrimento. Não há mal nenhum em utilizar meios para colorir algo tão terrível, e o diretor soube enfatizar detalhes importantes do povo, mesmo que exagerando é um belo filme de final feliz, não poderia ser diferente, você torce para Ahlo a cada segundo.
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