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quinta-feira, 28 de abril de 2022
10 Filmes Agradáveis (Para Ver Quando o Coração Pesar)
Segue uma lista feita com carinho para os corações afogados, seja por qualquer motivo, eu mesma estou numa fase de não conseguir ver filmes com temas pesados e muito reflexivos, mas também isso não significa que as histórias precisam ser bobas e efêmeras. Os selecionados aqui servem para aquecer como um abraço, espairecer a mente, chorar sorrindo e despertar desejos.
10- "Prazer, Kalinda" (Bo We Mnie Jest Seks - 2022) Polônia
Kalina Jędrusik, a maior estrela da Polônia nos anos 60, está no auge da fama, mas precisa enfrentar um oficial desprezado que ameaça destruir sua carreira. Maria Dębska estrela a biografia musical de Katarzyna Klimkiewicz sobre a diva rebelde da Polônia dos anos 60 e 70. Um filme que retrata um ícone feminino da Polônia, uma mulher deslumbrante com uma personalidade livre, que resistiu ao machismo e ao assédio. Um filme que inspira o despertar de sentimentos de autonomia feminino.
09- "Dry Martina" (2018) Argentina/Chile
Martina (Antonella Costa) é uma ex-estrela pop que fez muito sucesso na Argentina durante os anos 90. Agora, sem fama ou qualquer tipo de relacionamento, ela não sabe que direção tomar na vida. Mas a chegada de uma irmã desaparecida com um namorado atraente chama a atenção de Martina e mexe em seu desejo adormecido. Um filme leve que se dobra a sua protagonista decadente, mas com anseios e intenções intensas, as relações que se formam durante a história só provam a sua necessidade de calor humano, um filme que vibra na feminilidade e desejos, sobretudo a afabilidade.
08- "Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (Elvira - Te Daría Mi Vida, pero la Estoy Usando - 2014) México
Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido. Uma dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.
07- "Granizo" (2022) Argentina
Miguel Flores é um famoso meteorologista que é tão famoso que tem seu próprio programa de televisão que é conhecido por nunca errar a previsão do tempo no país. Tendo estudado na disciplina por seis anos e, trabalhando na área há anos, se Miguel garante, deve acontecer do jeito que ele previu. Um filme para amainar a vida, cheio de conflitos que se desenrolam de maneira eficaz e deliciosa, um protagonista carismático que com bom humor norteia várias nuances da vida.
06- "O Confeiteiro" (The Cakemaker - 2017) Alemanha/Israel
Thomas (Tim Kalkhof) é um alemão dono de uma confeitaria que viaja para Jerusalém em busca da esposa e filho de Oren (Roy Miller), seu amante morto. Ao chegar lá ele começa a trabalhar para a viúva de seu amante, que não tem ideia de que eles compartilham uma tristeza sem nome sobre o mesmo homem.
Um filme bonito e corajoso ao demonstrar que o amor não possui barreiras, etiquetas e rótulos, acontece sem que possamos ter controle e de forma inesperada. A experiência do luto, do desespero silencioso da solidão desencadeou no personagem uma busca, tudo isso ricamente explorado em diversas camadas emocionais. É um filme de observação, há olhares que revelam, como o da mãe de Oren em diversas cenas, e tão mais importante, o toque, as mãos aquecendo a massa, a paixão empregada por Thomas na confecção de seus bolos, são momentos de puro deleite.
05- "Hanami - Cerejeiras em Flor" (Kirschblüten: Hanami - 2008) Alemanha
Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner) é um lindo casal da terceira idade que leva uma vida rotineira e tranquila. Porém, ao receber a notícia de que seu marido está com uma doença que lhe dá poucos meses de vida, os médicos aconselham a Trudi que tenha cuidado ao contar sobre a enfermidade e sugere que o casal aproveite os últimos momentos para viajar ou realizar alguns de seus sonhos. Sem contar ao marido da doença, Trudi o convence a saírem do interior da Alemanha e irem a Berlim visitarem os filhos. Sem tempo para os pais, o casal vê o quanto eles se transformaram a ponto de considerar a breve visita um verdadeiro incômodo. A situação se agrava quando, ironicamente, Trudi morre, deixando seu marido sozinho em meio ao desprezo dos filhos. Ao voltar para sua cidade, Rudi decide se aprofundar nos pertences de sua mulher, e assim descobre que a vida toda ela alimentou o sonho de conhecer o Monte Fuji, no Japão.
04- "Ninguém Sabe que Estou Aqui" (Nadie Sabe que Estoy Aquí - 2020) Chile
Memo (Jorge Garcia), mora em uma remota fazenda de ovelhas no Chile e esconde sua linda voz do mundo. Traumatizado por acontecimentos do passado, ele vive de maneira solitária, até que uma mulher lhe oferece a chance de encontrar a paz que tanto procura. Belíssimo filme que mexe bastante com nossa sensibilidade, contém cenas poéticas e memoráveis, além da interpretação visceral de maneira contida de Jorge Garcia. Um filme extremamente bonito que enche o coração de emoção.
03- "A Incrível Jornada de Jacqueline" (La Vache - 2016) França
Fatah (Fatsah Bouyahmed), um pequeno fazendeiro argelino, só tem olhos para sua vaca Jacqueline, que ele sonha em ver na grande feira de Agricultura, realizada em Paris. Determinado a levar a vaca até lá, ele a carrega consigo e cruza a França a pé, após pegar um barco para Marselha. No caminho, Fatah e Jacqueline viverão uma inesperada viagem cheia de surpresas e aventuras.
Um filme divertido, afável e leve, aborda com sutileza um argelino que tem o sonho de expor sua amada vaca Jacqueline em uma feira agrícola em Paris, e para isso recebe ajuda de sua aldeia para a viagem e atravessa Paris a pé encontrando pessoas das quais tornam a sua jornada ainda mais significativa e intensa. O tom cômico atenua os temas tratados dentro da trama, o que dá um ar de fábula humanista cheia de poesia e delicadeza, acompanhar Fatah em sua caminhada faz bem ao coração e torcemos muito por ele e sua querida vaca Jacqueline.
02- "A Costureira dos Sonhos" (Sir - 2018) Índia
Ratna (Tillotama Shome) trabalha como empregada doméstica para Ashwin (Vivek Gomber), um homem rico que parece ter tudo, porém vive desesperançoso e perdido pela vida. Enquanto isso, Ratna, que parece ter nada, vive a vida determinada a alcançar seus sonhos. Um filme indiano agridoce que retrata os entraves da cultura para uma mulher que corre atrás de seus desejos e sonha em se tornar pelo menos um pouco livre, o roteiro é leve, inteligente e não cai em clichês, tudo acontece de forma progressiva e assim nos dá tempo para conhecer cada personagem e entendê-los, um olhar feminino sobre a Índia contemporânea e as fortes e corajosas mulheres que se arriscam na cidade grande mesmo tendo dificuldades por conta da origem e posição social. Encanta pela beleza das cores, dos sentimentos que se misturam e, principalmente, pela fascinante interpretação de Tillotama Shome.
01- "Café com Canela" (2017) Brasil
Margarida (Valdinéia Soriano) vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho. Violeta (Aline Brunne) segue a vida em Cachoeira, entre adversidades do dia a dia e traumas do passado. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.
Apesar de refletir sobre a ausência e a solidão que o luto causa traz boas doses de humor e afeto, a transformação por meio do amor, do como a cura de uma dor pode acontecer através de um olhar, palavras e ações ternas e, justamente por isso, se faz um filme imprescindível, já que as relações no cotidiano estão cada vez mais frias e cresce a falta de empatia, ele tem a capacidade de resgatar sentimentos inertes, como a gentileza, e demonstrar que xícaras de café podem conter abraços aconchegantes e transformadores.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica)
"Uma Mulher Fantástica" (2017) dirigido por Sebastián Lelio (Gloria - 2013) é um filme real e essencial que disserta sobre o preconceito e a discriminação intrínseca, comentários, olhares, curiosidade, e também explícitos, como na repulsa e suspeitas, é preciso muita força perante tanta ignorância, atitudes absurdas e julgamentos das pessoas. Com sutileza, coragem e muita determinação a personagem passa por diversas tristezas, privações, mas segue firme, ela precisa encontrar o seu caminho.
Marina (Daniela Vega) é uma garçonete transexual que passa boa parte dos seus dias buscando seu sustento. Seu verdadeiro sonho é ser uma cantora de sucesso e, para isso, canta durante a noite em diversos clubes de sua cidade. O problema é que, após a inesperada morte de Orlando (Francisco Reyes), seu namorado e maior companheiro, sua vida dá uma guinada total.
Após perder seu companheiro, Marina enfrenta dificuldades para ter o direito de luto, proibida de participar do velório e enterro, ainda é investigada para provar que nada teve a ver com a morte, Marina não consegue vivenciar a fase da perda, a tristeza de ter perdido o seu amor, os familiares questionam o tipo de relação, debocham e humilham Marina, a ex-mulher chega a chamá-la de quimera. Tiram o carro, o apartamento, a dignidade, suas forças chegam a minar, mas precisa manter sua cabeça erguida e tão pouco provar alguma coisa, pois não há nada para ser provado, só que cada vez mais a tristeza a consome, a ausência de Orlando, seu desejo de vê-lo pela última vez, as suas tentativas de luta sempre terminam mal, todos duvidam e não aceitam de que ela mantinha um relacionamento com Orlando, há uma cena simbólica que demonstra a força que necessita ter para passar por esse tormento, ela caminha e uma grande ventania a toma.
A delicadeza é um dos pontos mais lindos do filme, a personagem é como o título diz, uma mulher fantástica, repleta de nuances, complexidades e beleza, exibe uma carga dramática intensa e tudo se deve a incrível interpretação de Daniela Vega que doa muito de si mesma para Marina, por exemplo, seu talento para o canto, impossível não se encantar com as passagens em que solta a voz, além de poder passar a veracidade das situações, pois conhece muito bem os preconceitos. Seus grandes olhos entregam tudo, compreendemos suas atitudes e seus silêncios.
Após perder seu companheiro, Marina enfrenta dificuldades para ter o direito de luto, proibida de participar do velório e enterro, ainda é investigada para provar que nada teve a ver com a morte, Marina não consegue vivenciar a fase da perda, a tristeza de ter perdido o seu amor, os familiares questionam o tipo de relação, debocham e humilham Marina, a ex-mulher chega a chamá-la de quimera. Tiram o carro, o apartamento, a dignidade, suas forças chegam a minar, mas precisa manter sua cabeça erguida e tão pouco provar alguma coisa, pois não há nada para ser provado, só que cada vez mais a tristeza a consome, a ausência de Orlando, seu desejo de vê-lo pela última vez, as suas tentativas de luta sempre terminam mal, todos duvidam e não aceitam de que ela mantinha um relacionamento com Orlando, há uma cena simbólica que demonstra a força que necessita ter para passar por esse tormento, ela caminha e uma grande ventania a toma.
A delicadeza é um dos pontos mais lindos do filme, a personagem é como o título diz, uma mulher fantástica, repleta de nuances, complexidades e beleza, exibe uma carga dramática intensa e tudo se deve a incrível interpretação de Daniela Vega que doa muito de si mesma para Marina, por exemplo, seu talento para o canto, impossível não se encantar com as passagens em que solta a voz, além de poder passar a veracidade das situações, pois conhece muito bem os preconceitos. Seus grandes olhos entregam tudo, compreendemos suas atitudes e seus silêncios.
A obra é intimista e faz questão de mostrar que a personagem tenta seguir sua vida trabalhando, treinando seu canto, e depois do falecimento do namorado poder chorar por ele, como todos que perdem alguém amado, mas ela é impedida, é questionada pelas autoridades, é obrigada a fazer um exame de perícia e a família de Orlando invade sua vida, entra no apartamento, como o filho, que comete violência em todos os sentidos, ela tem sua dignidade arrancada por ignorância daqueles que não querem entender a situação e tão pouco enxergá-la como ser humano. Há momentos que demonstram preconceitos corriqueiros, comentários que saem até de pessoas que dizem não ser preconceituosas, uma amostra do quanto a sociedade ainda pensa estreitamente e necessita de um despertar de consciência maior para que esse tipo de pensamento seja eliminado das próximas gerações e que todos consigam viver em paz. Marina, infelizmente, tem sua vida paralisada porque os outros a impedem, a olham torto e duvidam de sua capacidade a rotulando por ser uma mulher trans.
"Uma Mulher Fantástica" tem uma narrativa delicada e não há grandes arcos dramáticos, observamos a luta de Marina, deveras silenciosa, pois é impossível reagir diante a quem não tem intenção de ouvir, ela não briga por ter o carro e o apartamento tomado, apenas deseja chorar e velar por seu amado, ter o cão que morava com eles para si e seguir em frente. O quão mesquinho e intolerante o ser humano pode ser para negar a alguém o direito de sentir e ser quem se é?
Angustiante, sensível e um real retrato, a personagem possui um oceano de dor em si, mas sua força é extrema e inspiradora, assim como o título diz, fantástica!
Angustiante, sensível e um real retrato, a personagem possui um oceano de dor em si, mas sua força é extrema e inspiradora, assim como o título diz, fantástica!
sexta-feira, 22 de julho de 2016
A Terra e a Sombra (La Tierra y la Sombra)
"A Terra e a Sombra" (2015) longa de estreia do diretor César Augusto Acevedo é sensível ao abordar um tema bastante pertinente, principalmente aos países subdesenvolvidos latino-americanos, o trabalho exploratório na zona rural.
A trama começa com o retorno de Alfonso (Haimer Leal) ao pequeno rancho da família, localizado perto de um imenso canavial onde trabalha sua ex-mulher (Hilda Ruiz) e sua nora (Marleyda Soto), e também seu filho Gerardo (Edison Raigosa), que agora sofre de uma grave doença no pulmão devido a exposição à queima da cana-de-açúcar, depois de 17 anos ausente, Alfonso volta para cuidar de seu filho e vê que nada ali é mais como era antes, a única coisa que continua intacta é a antiga casa. Ele é um estranho, aos poucos vai se entrosando com o neto, a nora e o filho. A sua ex-mulher sente raiva por ele ter ido embora, mas não deixou de o amar. A situação dessa família é crítica, Esperanza e Alicia trabalham pesado na colheita e o salário está atrasado, além de terem que lidar com o ar pesado que cobre constantemente o ambiente por conta da queima de cana-de-açúcar.
O filme é duro, dolorido, comovente, e especialmente crítico ao capitalismo desumano que se aproveita da pobreza e humildade das pessoas para explorá-las, não há respeito e não dão condições dignas e básicas, e a partir do momento que não servem e não produzem mais lucro os descartam. Os rostos sofridos, os silêncios, essa naturalidade que transborda faz do filme verdadeiro e íntimo.
A relação entre os personagens vai se estreitando novamente, os laços são renovados, o companheirismo e a preocupação toma conta de Alfonso, ele deseja que eles saiam de lá, porém Alicia tem amor por aquela terra, da mesma forma que negou sair a 17 anos atrás quando a casa começou a ser cercada pela monocultura da cana, condenando de certa forma o filho. Quando Alfonso chega fica com a missão de cuidar de Gerardo, que está debilitado e precisa ficar dentro do quarto com as janelas fechadas, as cenas em que ele varre o chão da frente da casa cheio de cinzas e limpa as folhas das plantas é de enorme sensibilidade. Quando ensina o neto o canto dos pássaros também, são cenas estonteantemente lindas e de grande carga emocional. Mas o que acontece a essa família, sobretudo às mulheres é de doer o peito, elas trabalham e ultrapassam os seus limites para tentar ganhar um pouco a mais, a exaustão física e psicológica é pesada e o filme tem o poder de nos fazer mergulhar na vida destas pessoas.
A fotografia é um fator primordial para esta imersão, o poder das imagens é gigante e o jogo de luz e sombra é perfeito para criar a atmosfera de sufocamento, tanto pela fumaça constante, quanto pelo desespero e sentimentos reprimidos.
É um filme contemplativo, o silêncio nos diz muito e é preciso sentir cada cena para que possa ser absorvido por completo. É uma sensação de desesperança ao ver os personagens sem um mínimo de dignidade, eles se perdem em meio a poeira. É uma produção impactante e retrata sutilmente essa questão sociopolítica vivida por parte da população colombiana, e que não se difere muito da nossa.
"A Terra e a Sombra" é uma história de sofrimento, de confronto com o passado, mas também com uma possível esperança de alçar novos voos, o neto de Alfonso dá esse vislumbre, já Alicia não consegue se desvincular de sua terra.
O elenco faz um trabalho lindo e autêntico, com exceção de Marleyda Soto, todos são estreantes, a imagem se sobrepõe e o ambiente é o principal personagem, a fotografia é um primor, sentimos fortemente o efeito e adentramos numa história simples, humilde e devastadora, impossível ficar imune a esta beleza do cinema latino. Imensa gratidão ao diretor por conceber uma obra tão singular e sensível.
"A Terra e a Sombra" é uma história de sofrimento, de confronto com o passado, mas também com uma possível esperança de alçar novos voos, o neto de Alfonso dá esse vislumbre, já Alicia não consegue se desvincular de sua terra.
O elenco faz um trabalho lindo e autêntico, com exceção de Marleyda Soto, todos são estreantes, a imagem se sobrepõe e o ambiente é o principal personagem, a fotografia é um primor, sentimos fortemente o efeito e adentramos numa história simples, humilde e devastadora, impossível ficar imune a esta beleza do cinema latino. Imensa gratidão ao diretor por conceber uma obra tão singular e sensível.
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
O Clube (El Club)
"O Clube" (2015) dirigido pelo chileno Pablo Larraín (No - 2012) é um filme sério que coloca em evidência a hipocrisia da igreja católica.
Um grupo de sacerdotes vive em uma casa na costa chilena, onde ficam sob cuidados de uma freira. Mas o que será que os levou até ali, praticamente no meio do nada, onde o vento sopra forte frequentemente? Quando um novo sacerdote muda-se para lá, um homem começa a lhe fazer fortes acusações. O filme adentra impiedosamente no passado sombrio desses servos de Deus e revela contradições da Igreja Católica.
A história de forma introspectiva nos mostra que a igreja é um meio fechado com suas próprias regras e que pela imagem é capaz de qualquer coisa. A sensação que o filme provoca é de um nó na garganta, um desconforto enorme.
O clube do título se refere a uma casa à beira-mar que abriga sacerdotes que estão banidos de suas funções por conta de crimes cometidos, por exemplo, a pedofilia. Com a chegada de um novo padre descobrimos isso, mas este nem se acomoda e já se desespera ao se deparar com uma situação constrangedora, afinal mexe com a sua moral. Um jovem começa a gritar detalhadamente no portão da casa que foi molestado por ele, o desfecho disso desencadeia numa investigação partindo de um outro padre que aparece na história. Padre García (Marcelo Alonso) é jovem e está decidido a fechar a casa, pois os padres ali mais parecem estar em um spa do que pagando seus pecados. Ele entrevista um por um e é aí que conhecemos os crimes cometidos. O roteiro vai jogando verdades assombrosas e revelando a complexidade humana.
A freira Mônica (Antonia Zegers) que cuida da casa é mais uma figura de ambiguidades, ela vai da resignação à crueldade. Outra atuação de peso é de Alfredo Castro como padre Vidal, um misto de sentimentos surgem e ao final nem sabemos o que pensar, a briga com os seus próprios desejos e a obscuridade em torno disso. O filme se desenrola numa atmosfera nublada, não há luz, apenas a penumbra, o que reflete o estado de cada um deles.
Impressionante e repulsivo ver que esses padres não se arrependem de nada, ao contrário, por muitas vezes eles colocam de forma até bela o ato sexual com uma criança, é nojento em algumas partes o como conseguem justificar seus podres atos. O personagem que aparece no início do filme acusando o padre recém-chegado narra minuciosamente o como foi abusado, e o mais pertinente é que ele diz que foi pelo tal padre que conheceu o amor, que se sentia mais perto de Deus.
"O Clube" é um filme pesado e claustrofóbico, porém necessário, já que coloca diante do espectador verdades sobre essa instituição religiosa, toda a sujeira e o como certos padres agem em nome de sua suposta fé para dar vazão ao seu lado mais sombrio e perverso.
É um trabalho primoroso de direção, a fotografia é de tirar o fôlego e compartilha a todo momento com o contexto da história, além de atuações fortes e tensas. O assunto não é novidade, mas é importante que cada vez mais se coloque em evidência tais barbaridades e se quebre a "política do silêncio" que envolve a igreja católica.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Gloria
"Gloria" (2013) do diretor chileno Sebastián Lelio é um raro retrato de uma mulher que está perto de completar 60 anos, no longa não há receios em expor chateações, relacionamentos, divertimento, e sexo.
Gloria (Paulina García) é ativa, leve e independente, divorciada há tempos e com os filhos já fora de casa, deseja apenas uma coisa: viver! Para isso ela frequenta bailes, onde se descontrai, dança e bebe, vemos o seu cotidiano, o esforço em manter contato com os filhos, o trabalho, a dificuldade em lidar com o seu vizinho barulhento dono de um gato que vive a invadir seu apartamento, enfim, somos introduzidos à vida desta mulher. Apesar de conviver bem consigo mesma, a solidão lhe afeta de vez em quando e ao conhecer Rodolfo (Sergio Hernández), um ex-oficial da marinha, dono de um parque de paintball, a paixão acontece, entre conversas carinhosas o romance engata, mas o dia a dia vai revelando defeitos desconfortáveis. O relacionamento deles é retratado de forma realista, o longa merece elogios por colocar a maturidade em evidência, pessoas das quais viveram tanto tempo do lado de alguém recomeçando novamente.
O ritmo segue agradável, em nenhum momento as situações caem no excesso dramático, Gloria lida à sua maneira com as circunstâncias. Por exemplo, quando leva Rodolfo para o aniversário de seu filho e lá encontra seu ex-marido e a namorada, e a filha que está grávida de um sueco, acontecem picuinhas, mas nada que estrague o momento, porém Rodolfo se sente mal e vai embora sem avisar. Gloria fica chateada e não quer mais vê-lo, mas ele liga, se desculpa e então voltam a namorar, só que ao invés de melhorar, ele segue cometendo deslizes imperdoáveis. Manter uma relação saudável com a ex-mulher é plausível, e com os filhos nem se fala, é algo imprescindível, mas Rodolfo exagera, as filhas e a ex-mulher que de ex não tem nada são completamente dependentes dele, o que faz com que seu relacionamento com Gloria comece a ruir.
O cotidiano de Gloria é o grande espetáculo, sem muito glamour, mas extremamente belo, pois ela ao contrário de muitas mulheres dessa idade não se sente velha, o estágio em que se encontra é de pura liberdade em ser, já não há responsabilidade com outros, é uma grande chance para conhecer-se melhor e viver experiências.
Paulina García executa maravilhosamente sua personagem, uma mulher forte, mas carente, decidida, que busca e não vê obstáculos em recomeçar. Vemos Gloria pulando de Bungee jumping, bebendo, fumando maconha, dançando na pista, além de cantar suas músicas preferidas. Aliás, a música é um ponto a se destacar, incluindo "Águas de Março" de Tom Jobim cantada por uma dupla com um sotaque todo especial, também tem "Lança Perfume" de Rita Lee, e fechando com chave de ouro "Gloria" de Umberto Tozzi.
A melancolia, o entusiasmo e a delicadeza são utilizados na personagem, e quando ela percebe que não há ninguém que possa preencher seu vazio, eis uma celebração de si mesma.
"Gloria" é um filme delicioso, há momentos encantadores e dolorosos, é um recorte realista de uma mulher que busca e não tem medo de viver, são as delícias e as angústias que permeiam a chamada fase "melhor idade", e que apesar dos contratempos, tudo continua, recomeços são importantes e em qualquer idade, afinal o principal é nos sentirmos bem e jamais deixar que a chama do desejo de viver se apague.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Pós Morte (Post Mortem)
"Pós Morte" (2010) dirigido por Pablo Larraín é o segundo filme de uma trilogia sobre a ditadura chilena. O primeiro "Tony Manero" - 2008, retrata Raúl Peralta (Alfredo Castro), que está obcecado com a ideia de se tornar Tony Manero, o famoso personagem interpretado por John Travolta no clássico filme da era disco "Os Embalos de Sábado à Noite". A fantasia de encarnar seu grande ídolo e assim ser reconhecido como uma estrela no mundo do entretenimento chega a tal nível que acaba levando Raúl a se transformar num assassino em série, o pano de fundo desta história se passa no ano de 1978 com o complicado contexto social da ditadura militar de Augusto Pinochet.
O terceiro fechando a trilogia é "No" - 2012, do qual conta a história do plebiscito que, em 1998, pôs fim a uma ditadura de 15 anos imposta por Augusto Pinochet. Saavedra (Gael Garcia Bernal), é um exilado que volta ao Chile e vai trabalhar como publicitário a serviço da campanha "Não", que tem como objetivo influenciar o eleitorado a votar contra a permanência de Pinochet no poder durante um referendo, feito sob pressão internacional, pelo próprio ditador. Com poucos recursos e sob constante vigilância por homens de Pinochet, ele concebeu um ousado plano para ganhar o referendo.
"Pós Morte" (2010) regressa ao ano de 1973 durante os últimos dias da presidência de Salvador Allende. Um funcionário do necrotério se apaixona por uma dançarina burlesca, que desaparece misteriosamente. Loucamente apaixonado e perturbado pela perda de sua potencial amante, Mario (Alfredo Castro) começa a sua busca frenética por Nancy (Antonia Zegers). Mario é um cara esquisito que pouco sabe do período em que vive, trabalha escrevendo os relatórios das autópsias efetuadas pelos legistas, solitário tenta se aproximar de sua vizinha Nancy, uma mulher complexada.
Obcecado, segue a vida de Nancy, observando todos os seus passos. Até que, uma manhã, ele encontra a casa dela destruída. É então que, em desespero, passa a procurar o seu rosto em cada cadáver que chega à morgue. Até, finalmente, a encontrar...
Tudo se dá de forma não convencional e bizarra, enquanto isso nas ruas de Santiago várias manifestações são registradas, mas Mario pouco se importa. Só mais adiante o incomoda por atrapalhar o seu "romance" com Nancy. O personagem aparentemente é sem graça, mas sua figura silenciosamente excêntrica prende nossa atenção, justamente por querer saber qual será a sua reação diante aos fatos.
Com ritmo lento o aspecto político é tratado com sensibilidade única, os corpos que se amontoam, as autópsias que se seguem, e então a cena ápice do filme, o corpo de Allende com a cabeça desfigurada por um tiro de revólver na grande mesa fria, todos esperam a resposta do legista, mas Mario acaba se atrapalhando com a máquina de escrever elétrica, um soldado ocupa o seu lugar e a autópsia segue. Um momento que explica muito sobre o filme, o quanto este homem é inerte diante a vida, totalmente inexpressivo e alheio do que acontece em seu país. A trama é sobre uma história de amor, sobre duas pessoas apáticas e indiferentes a tudo, o contexto político é um pano de fundo para essa estranha e fantasiosa história de amor.
Interessante pelo lado político abordado elucidando sobre este período caracterizado por uma grande ebulição e também pelo personagem de Alfredo Castro. É um filme diferente e inteligente que compõe a trilogia de Pablo Larraín sobre a ditadura chilena.
O terceiro fechando a trilogia é "No" - 2012, do qual conta a história do plebiscito que, em 1998, pôs fim a uma ditadura de 15 anos imposta por Augusto Pinochet. Saavedra (Gael Garcia Bernal), é um exilado que volta ao Chile e vai trabalhar como publicitário a serviço da campanha "Não", que tem como objetivo influenciar o eleitorado a votar contra a permanência de Pinochet no poder durante um referendo, feito sob pressão internacional, pelo próprio ditador. Com poucos recursos e sob constante vigilância por homens de Pinochet, ele concebeu um ousado plano para ganhar o referendo.
"Pós Morte" (2010) regressa ao ano de 1973 durante os últimos dias da presidência de Salvador Allende. Um funcionário do necrotério se apaixona por uma dançarina burlesca, que desaparece misteriosamente. Loucamente apaixonado e perturbado pela perda de sua potencial amante, Mario (Alfredo Castro) começa a sua busca frenética por Nancy (Antonia Zegers). Mario é um cara esquisito que pouco sabe do período em que vive, trabalha escrevendo os relatórios das autópsias efetuadas pelos legistas, solitário tenta se aproximar de sua vizinha Nancy, uma mulher complexada.
Obcecado, segue a vida de Nancy, observando todos os seus passos. Até que, uma manhã, ele encontra a casa dela destruída. É então que, em desespero, passa a procurar o seu rosto em cada cadáver que chega à morgue. Até, finalmente, a encontrar...
Tudo se dá de forma não convencional e bizarra, enquanto isso nas ruas de Santiago várias manifestações são registradas, mas Mario pouco se importa. Só mais adiante o incomoda por atrapalhar o seu "romance" com Nancy. O personagem aparentemente é sem graça, mas sua figura silenciosamente excêntrica prende nossa atenção, justamente por querer saber qual será a sua reação diante aos fatos.
Com ritmo lento o aspecto político é tratado com sensibilidade única, os corpos que se amontoam, as autópsias que se seguem, e então a cena ápice do filme, o corpo de Allende com a cabeça desfigurada por um tiro de revólver na grande mesa fria, todos esperam a resposta do legista, mas Mario acaba se atrapalhando com a máquina de escrever elétrica, um soldado ocupa o seu lugar e a autópsia segue. Um momento que explica muito sobre o filme, o quanto este homem é inerte diante a vida, totalmente inexpressivo e alheio do que acontece em seu país. A trama é sobre uma história de amor, sobre duas pessoas apáticas e indiferentes a tudo, o contexto político é um pano de fundo para essa estranha e fantasiosa história de amor.
Interessante pelo lado político abordado elucidando sobre este período caracterizado por uma grande ebulição e também pelo personagem de Alfredo Castro. É um filme diferente e inteligente que compõe a trilogia de Pablo Larraín sobre a ditadura chilena.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
A Criada (La Nana)
O filme chileno "La Nana" (2009) do diretor Sebastián Silva traz a história de Raquel, que trabalha há 23 anos como criada na casa dos Valdês, uma família de classe média alta de Santiago. Ela não possui amigos e destina pouco tempo de seus dias atarefados para falar com a mãe que mora longe. Raquel acha mesmo que é da família e até os Valdês chegam a brincar com o fato. Mas por mais que a brincadeira pareça divertida, a verdade é que Raquel não é um membro desta família e quando tenta o ser sem pudores, os mundos díspares entram em choque. Pilar, a patroa, não tem coragem de despedir Raquel, ela parece ter medo de enxergar a perturbação mental evidente de sua criada e tenta sucessivamente arrumar empregadas com quem Raquel possa dividir o trabalho. Pilar teima em achar que o comportamento estranho da empregada é apenas o cansaço.
Raquel é quem dá as cartas para os filhos de Pilar, eles a obedecem e tem muito carinho por ela, a não ser a filha mais velha que acha que a empregada implica demais. Pilar contrata uma moça para dividir as tarefas, mas Raquel é antipática e faz de tudo para que a moça vá embora, e é dessa maneira que prossegue o filme, entre as tramóias de Raquel para que as ajudantes não persistam no emprego. Mas o fato é que Raquel realmente está doente e necessita de ajuda, e isso muda quando desmaia e precisa ficar de repouso, então a patroa contrata uma mulher para ficar no lugar de Raquel, e a partir daí acabamos por conhecer um pouco mais dessa mulher tão retraída e fechada em si mesma.
Catalina Saavedra como Raquel nos mostra o quanto uma empregada se torna dependente de seu patrão, depois de tantos anos dando seu empenho, compartilhando o dia a dia, é inevitável que esta se torne um membro da família. O que acontece com Raquel é que ela é uma pessoa sozinha, não tem nada além do trabalho, por isso sua situação psicológica não é das melhores, ela sente ciúmes dos filhos da patroa, sente medo de perdê-los. Ela nos irrita inicialmente, mas com o desenrolar nos aproximamos do ser humano, e de certa forma nos encantamos com sua inocência.
Muitas crianças crescem sob os cuidados de babás e as têm como mães, já que muitas mulheres trabalham e têm tarefas diferenciadas, de qualquer forma esta mulher se torna algo muito importante querendo ou não, ela está criando, educando, brincando, arrumando a casa, cozinhando. Como não valorizar esta pessoa? Muitos veem isso apenas como uma função, como uma criada, a sua profissão é essa, e portanto, é uma obrigação, mas esquecem do aspecto humano e da rotina diária que se cria.
No filme Raquel começa a se descobrir fora daquela família quando vai passar o natal na casa dos parentes de sua ajudante, esta que a conquistou aos poucos com sua personalidade cativante e espontânea, muito esperta ela encontrou o ponto de Raquel. Nessa viagem ela enxerga um mundo exterior além daquele que vive todos os dias, em que consiste em acordar e já começar a arrumar. Na verdade o que ela precisava era uma faxina interna, a mudança de Raquel não é brusca, acontece sutilmente. Ao final a vemos indo correr após o expediente, em que vagarosamente vai se soltando, percebemos que é o início de uma liberdade interna, mesmo que não mude nada dentro de seu cotidiano.
O filme tem um toque de humor, mesmo que as situações não sejam necessariamente feitas para rir, Raquel apenas com o olhar nos diz muito, há muita tensão nas cenas e seu resgate pela humanidade no fim é realmente muito bonito. É uma homenagem para as empregadas domésticas que geralmente nem são lembradas, mas que são necessárias no cotidiano de muitas famílias, aquelas que trabalham há anos em apenas uma casa, se dedicando e que acabam perdendo muito de suas vidas e até se esquecem de si mesmas.
Observar o ser humano que acha que pode se sentir superior e tratar as pessoas da maneira que quiser só porque tem dinheiro, chega a ser constrangedor e ridículo. No filme vemos a família tratando bem Raquel, mas há uma certa hipocrisia nisso tudo, pois a vontade verdadeira deles é despedi-la.
"A Criada" é um filme lento, com situações parecidas, mas completamente válido em todo seu contexto.
"A Criada" é um filme lento, com situações parecidas, mas completamente válido em todo seu contexto.
sábado, 20 de abril de 2013
No (2012)
Depois de 15 anos no poder, desde o golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende em 11 de setembro de 1973, o general Pinochet convocou em 1988 um plebiscito para obter, via dispositivo democrático, mais oito anos no posto de chefe de Estado. O "sim" e o "não" disputaram espaço na TV, confrontando duas opções políticas. Mais importante, a campanha pelo "não" pôde aproveitar, pela primeira vez, as brechas da censura para expôr a face negativa da ditadura, o avesso do progresso econômico percebido como vantajoso pelos partidários de Pinochet, a fatia da sociedade beneficiada pelo regime.
Baseado na peça do escritor chileno Antonio Skármeta, "El Plebiscito", a história nos conta sobre René Saavedra (Gael Garcia Bernal), um exilado que volta ao Chile e vai trabalhar como publicitário a serviço da campanha "Não", que tem como objetivo influenciar o eleitorado a votar contra a permanência de Augusto Pinochet no poder, feito sob pressão internacional, pelo próprio ditador. Com poucos recursos e sob constante vigilância por homens de Pinochet, ele concebeu um ousado plano para ganhar o referendo. O publicitário Saavedra aborda o "Não" como um produto, organiza a campanha seguindo as fórmulas de persuasão da propaganda e, para horror dos puristas, demonstra como, desde sempre, a democracia funciona com base em discursos que tornam legítimos seus processos.
O filme começa e termina com esta frase: "Este comercial está inserido em um contexto social. Hoje o Chile é um país que pensa no futuro". As campanhas de Saavedra tem o objetivo de mostrar a alegria do povo chileno, o passado de torturas e perdas não pode ser esquecido, mas o contexto de uma campanha mais colorida e cheia de vida dá o sentido de esperança, exatamente o que o povo precisa.
O diretor Pablo Larrain (Tony Manero - 2008, Post Mortem - 2010) mescla imagens reais da época a seu filme, a fotografia é retrô e realmente parece que estamos assistindo um filme dos anos 80. Ele expõe um fato importante da história do Chile de maneira sublime, mostra as artimanhas de publicidade em uma campanha política, a censura, e tudo o que envolve esse meio. Gael Garcia Bernal contribui muito para que o filme se torne rico, seu personagem não é feliz, sua mulher é rebelde e luta contra a ditadura, e constantemente é presa por isso. Os dois não estão mais juntos, mas percebe-se que há algo que não está bem definido dentro de René, este que apesar de ter sido exilado, volta ao seu país para trabalhar nesse período no referendo, ele é um publicitário respeitado, inteligente, que vê além e não aprova a ditadura, mas há um certo distanciamento entre ele e a realidade daquele país. O final retrata bem a ambiguidade do personagem, que durante a vitória não sabe como reagir em meio as pessoas que gritam e festejam.
Muitos dos esquerdistas da campanha "Não" nem mesmo acreditavam que ganhariam, mas de alguma forma era uma oportunidade para demonstrar o desgosto para com a ditadura e tentar tirar a venda dos olhos das pessoas diante ao sistema ilusório de Pinochet.
É interessante que o filme nos causa um sentimento de melancolia, os closes, a trilha sonora, tudo contribui para isso. É um filme inteligente que aborda um retrato político com uma fluidez impressionante.
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