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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Ares / Nada Ortodoxa (Unorthodox)

Segue a resenha de duas séries disponíveis no catálogo da Netflix que fazem a diferença entre a infindável lista de títulos. Confira:

"Ares" (2020) é uma série holandesa dirigida por Giancarlo Sanchez e Michiel ten Horn, com apenas oito episódios à primeira vista causa uma certa dúvida sobre seu tema que é focado em uma sociedade secreta composta pela grande elite do país, o seu desenrolar acaba enganando, mas aos poucos vai soltando pistas para então seu elaborado e inteligente desfecho. Misteriosa, sombria e fria fica a dica para os que estão interessados, se enveredem pela história sem saber muito, vale muito a pena imergir nas obscuridades e se surpreender ao final. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Uma sociedade estudantil secreta no coração de Amsterdã, onde os melhores amigos Rosa e Jacob se rendem a um mundo de riqueza e poder. Contudo, lentamente eles começam a perceber que entraram em um lugar demoníaco, construído sobre segredos do passado da Holanda. Um lugar onde o verdadeiro poder chega a um preço terrível.
Acompanhamos a protagonista Rosa (Jade Olieberg), uma estudante de medicina de origem humilde, mas que possui bastante ambição, ela encontra meios para subir quando se depara com Ares, uma sociedade secreta, através de seu melhor amigo Jacob (Tobias Kersloot), mesmo ele querendo afastá-la desse meio Rosa se interessa e adentra esse universo. Em sua casa possui a responsabilidade de cuidar da mãe mentalmente instável e seu pai se desdobra trabalhando como enfermeiro, na universidade se destaca e nas aulas sabe até mais que os professores, cansada da sua vida não pensa duas vezes quando é convidada a ir para Ares. Os membros são bizarros e sempre estão escondendo algo, todos são descendentes de famílias influentes da Holanda e lá dão seguimento à linhagem com seus ritos e regras, observamos a iniciação de Rosa envolvendo marcação na pele, submissão aos líderes e diversas privações, incluindo o mundo externo. A narrativa pode parecer confusa e extremamente lenta, mas compensa acompanhar todos os mistérios e cada camada proposta pela série, a partir de um ponto Rosa começa a vomitar um líquido preto, algo parecido com petróleo, os membros ficam chocados com a rapidez da ascensão de Rosa na sociedade, o vômito é um signo importante, descobrimos então que ele significa a culpa, enquanto isso Jacob adentra os meandros do local e cada vez mais descobre a origem dessa sociedade e a sua própria, sua confusão mental aumenta quando ao tocar uma parede é consumido e seus dedos ganham o mesmo aspecto do líquido e do qual lhe dá um poder, além de que neste espaço há um poço que vive uma criatura denominada Beal que se alimenta dessa substância. As perguntas não cessam em nossa mente e é só no final que entendemos que a série toca num assunto muito sério, o imperialismo holandês, as grandes conquistas através da exploração e escravidão dos negros, Rosa percebe que precisa se entregar e se tornar o próprio Beal, para assim acabar com Ares e fazer justiça. Realmente ela propõe reflexões contundentes do como a Holanda, um país tão pequeno se tornou tão rico rápido, do como o poder se perpetuou por causa da escravidão e do sangue negro derramado, Rosa é o símbolo da mudança e da verdade.

"Nada Ortodoxa" (2020) é uma minissérie alemã de quatro episódios dirigida por Maria Schrader e traz uma impressionante e libertadora história, reflete sobre o ultraconservadorismo da religião judaica, mas demonstra respeito às heranças culturais permeando com boas doses de conhecimento. 
Na intenção de escapar do casamento arranjado por seus pais em Nova York, Esther Shapiro (Shira Haas), uma jovem judia de 19 anos, resolve fugir para Berlim e começar uma nova vida. No novo país, ela passa a explorar a própria identidade e sexualidade para além dos valores religiosos com os quais cresceu. A história é inspirada no best-seller "Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots", de Deborah Feldman, sobre a fuga de uma jovem judia de uma seita religiosa.
A protagonista é um alento para nosso coração, inserida em um meio completamente fechado cada vez mais sente necessidade de explorar o mundo e a si mesma, esse desejo aumenta quando depois do casamento arranjado a pressão constante para que engravide a torture dia após dia. Diante de um cenário castrador, como deixar suas aulas de piano, decide pegar os documentos que sua mãe lhe deu para a cidadania alemã e com a ajuda da professora de piano consegue fugir sozinha e sem nada em mãos - só para elucidar que sua mãe foi rejeitada pela comunidade e mora em Berlim com a esposa. Longe do meio em que vive Esther se deslumbra ao mesmo tempo que sente receio por seu futuro, logo de cara consegue fazer amizades e se encaixar num grupo de músicos de orquestra, ela ama música e mais adiante até consegue fazer uma audição no conservatório, sua vida começa a tomar seu próprio destino mesmo entre tantas dificuldades, sente que a liberdade de ser é prazerosa e que não precisa sentir culpa por isso. Os amigos lhe ajudam nesse processo, alguns mais do que outros, e daí surge a mudança que começa externamente na retirada da peruca para então se tornar mais confiante e decidida. O que torna seu rito de transformação ainda mais desafiador é por estar num local cheio de histórias traumáticas para sua comunidade de descendentes de judeus sobreviventes ao Holocausto, aliás a série aborda seriamente a respeito da religião e suas regras, principalmente sobre o pensamento de que eles precisam se manter unidos e passarem de geração em geração a dor de sua história para que isso nunca se perca. É um choque para Esther, mas ela é uma alma livre e que necessita conhecer-se, viver para entender-se. É realmente muito sensível sua trajetória e traz à tona costumes e tradições culturais que são representados com cuidado e também revela o outro lado, o do poder de escolha, da ponderação, da empatia e da liberdade. Apaixonante!

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Them That Follow

"Them That Follow" (2019) dirigido por Brittany Poulton e Daniel Savage é um filme interessante que demonstra o terror e o absurdo de uma comunidade extremamente religiosa que usa serpentes como meio de expurgar os seus pecados, afastados da sociedade vivem sob um sistema radicalmente patriarcal e imensamente cego em sua fé.
O pastor pentecostal Lemuel (Walton Goggins) e seus crentes lidam com cobras venenosas para provar a si mesmos diante de Deus, nas florestas dos Apalaches. A filha de Lemuel, Mara (Alice Englert) guarda um segredo que ameaça separar a igreja: seu passado romântico com um não-crente, Augie (Thomas Mann). Com o casamento de Mara com um seguidor dedicado, ela deve decidir se confia ou não na matriarca de sua comunidade, Hope (Olivia Colman).
Ambientado nas montanhas dos Apalaches vemos um grupo de pessoas que creem que nesse local estão mais próximos de Deus, a seita se vale pela confiança que têm na devoção e usam as serpentes como uma amostra da fé verdadeira, nesse lugar dominado por homens vive Mara, a filha do pastor que logo irá se unir com um crente, porém ela está envolvida com Augie, filho de Hope, avesso aos dogmas e preceitos, isolado segue seus dias com o intuito de algum dia ir embora, porém Hope insiste para ele ir ao culto e ter um encontro com Deus. Mara vive servindo ao pai e indo aos cultos, sua única companhia é Dilly (Kaitlyn Dever) que foi abandonada pela mãe e possui um caráter dúbio. Mara descobre estar grávida e não pretende contar a ninguém, mas nessa comunidade existem alguns rituais antes do casamento e quando esse momento chega Hope percebe a gravidez, aliás esse dito ritual é uma invasão e de um absurdo machista horroroso, não só essa questão é nojenta como tudo que envolve o modo de vida dessas pessoas, as mulheres são subservientes e não podem fazer absolutamente nada sem a permissão de um homem, além de que Deus está acima de qualquer coisa, incluindo a medicina, no caso de uma serpente picar o fiel este agoniza até a morte enquanto esperam por um milagre. O pastor acolhe e lida rigidamente com a comunidade, ali não há chance para o pecado e todos são testados, há vários ninhos de serpentes ao redor e é através delas que provam a fé ou se limpam, seguem a risca o trecho da bíblia que diz que sobre os enfermos colocarão as mãos a fim de curá-los com oração. Se forem picados é porque a fé era fraca e então precisam provar neste momento que creem para serem curados. Augie tenta se aproximar de Mara por meio da fé após descobrir que está grávida, ele decide ir ao culto e dizer que encontrou Deus, prestes a casar com Garret não há como intervir se não adentrar na seita, ele é testado e a serpente o ataca.

Acompanhamos a devoção de Mara mesmo que entenda que em algum momento tudo irá desabar, ela continua se esforçando e seguindo à risca os dogmas, aceita se casar e se submete a tudo que o pai diz, este que se ergue como um próprio Deus diante os outros, apontando os pecadores e fazendo-os mansos por meio do medo. A ignorância e a repressão dessa fé cega é exposta sempre com uma tensão sufocante, e por mais que o longa tenha um ritmo monótono somos absorvidos por uma série de questões importantes sobre até que ponto chega a devoção do ser humano, na verdade, a única coisa que adoram são a si próprios revelando assim por meio da obediência e temor uma face vingativa e feroz.

"Them That Follow" retrata com consistência o perigo da adoração fanática, da religião como base de vida e o que há por trás dos desejos de liderar um grupo de pessoas que se sentem pecadoras, desse sistema de repressão e julgamentos só há de nascer e crescer sentimentos adversos e conflituosos. Ao final Mara toma consciência e percebe que precisará se desvincular para que Augie tenha chances de sobreviver e para que também tenha a sua liberdade.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

20 Filmes Sobre Fanatismo Religioso (20 Religious Fanaticism Movies)

Segue um apanhado de filmes que retratam o fanatismo religioso e o seu alto poder de destruição.

"Os Filhos do Padre" (Svećenikova Djeca - 2013) Croácia
Em uma pitoresca vila na Dalmácia, há mais funerais do que nascimentos. Fabian (Kresimir Mikic) é um jovem padre indicado para ser o novo pároco desse lugar. Ao ouvir a confissão de um dos fiéis, ele descobre que a baixa natalidade é culpa da alta venda de preservativos. Horrorizado e querendo modificar essa situação, ele tem uma brilhante e drástica ideia: perfurar todas as camisinhas antes que elas sejam vendidas. Para isso, se junta ao jornaleiro Petar (Niksa Butijer) e ao farmacêutico Marin (Marija Skaricic). Só que o "milagroso" "boom" de bebês causa consequências inesperadas.

"Takva: O Temor de um Homem de Deus" (Takva - 2006) Turquia/Alemanha
Muharrem é um homem humilde e introvertido que vive de uma forma limitada e solitária. Adere de forma rígida à doutrina islâmica, inclusive a abstinência sexual. Sua extraordinária devoção atrai a atenção do líder de um rico e poderoso grupo islâmico de Istambul e lhe oferece um cargo de coletor de renda das suas inúmeras propriedades. Emprego novo, Muharrem, lança-se ao mundo moderno, o mesmo que ele evitara com sucesso durante toda sua vida. Logo começam a surgir os conflitos pessoais. Ele se torna orgulhoso, dominador e desonesto. Para piorar a situação, sua paz interior está abalada pela imagem de uma mulher sedutora que o atormenta nos seus sonhos. Agora sua devoção está virada, o medo de Deus começa a dominar seus sentidos. Saiba+

"Em Nome de Deus" (The Magdalene Sisters - 2002) Irlanda/UK
Irlanda, década de 60. Margaret (Anne-Marie Duff) foi estuprada num casamento por seu primo. Bernardette (Nora-Jane Noone) é muito bonita e por isso representa um perigo para os homens da vizinhança. Rose (Dorothy Duffy) e Crispina (Eileen Walsh) são mães solteiras. Por causa disso essas quatro mulheres são mandadas para um convento por seus familiares, com o intento de "pagar por seus pecados". Essa punição é por tempo indeterminado, o que significa uma vida de trabalhos forçados na lavanderia do asilo católico. As internas são conhecidas como "as irmãs Magdalena". Elas são humilhadas regularmente pelas madres, que não toleram desobediência, muitas vezes usando até mesmo castigos físicos. Saiba+

"O Mestre" (The Master - 2012) EUA
Ao término da Segunda Guerra Mundial, o marinheiro Freddie Quell (Joaquin Phoenix) tenta reconstruir sua vida. Traumatizado pelas experiências em combate, ele sofre com ataques de ansiedade e violência, e não consegue controlar seus impulsos sexuais. Um dia, ao acaso, ele conhece Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman), uma figura carismática e líder de uma organização religiosa conhecida como A Causa. Reticente no início, ele se envolve cada vez mais com este homem e com suas ideias, centradas na ideia de vidas passadas, cura espiritual e controle de si mesmo. Freddie torna-se cada vez mais dependente deste estilo de vida e das ideias de seu Mestre, a ponto de não conseguir mais se dissociar do grupo. Saiba+

"Setembro Negro" (September Dawn - 2007) Canadá/EUA
Em Utah, no século 19, ocorre um massacre estabelecido por um grupo de mórmons renegados contra um trem de colonizadores. Porém, o comandante dos agressores conhece uma das passageiras do trem, apaixona-se e em seguida começa um romance com ela.

"Nada de Mal Pode Acontecer" (Tore Tanzt - 2013) Alemanha

O jovem Tore busca em Hamburgo uma nova vida entre um grupo religioso chamado The Jesus Freaks. Quando ele encontra por acaso uma família e é ajudado por ela a reparar seu carro, acredita que tudo aconteceu por um milagre celestial. Ele começa uma amizade com o pai da família, Benno. Logo, decide morar com eles, sem saber que a crueldade virá de lá. Fiel à sua crença religiosa, Tore permanece na casa, embora seja frequentemente atacado por Benno, numa violência crescente. Tore precisa lutar contra o tormento com as suas próprias armas. Assim, uma luta perigosa entre as ações libidinosas e o altruísmo começa.

"A Maçã" (Sib - 1998) França/Irã
Narra a história verídica de duas irmãs gêmeas, Massoumeh e Zahra, trancafiadas em casa pelos pais - uma senhora cega e um senhor desempregado - durante 11 anos, o que as levou a um processo de atraso em seus desenvolvimentos. A prisão domiciliar era justificada por uma passagem de um texto religioso do Alcorão, segundo o qual as jovens são como pétalas, que fenecem ao contato do sol e não podem ser tocadas por homens. No filme, acompanhamos o drama dos pais (do pai, principalmente) para não ver as filhas ficarem sob a tutela do Estado. Ele tentará ensinar as meninas a desenvolver habilidades essenciais, como varrer o terreiro e fazer comida, para provar a uma assistente social que elas devem ficar com a família. O instigante é que não só a história das irmãs é verídica como os envolvidos no drama representam a si mesmos no filme. O pai, por exemplo, aceitou representar a si mesmo por acreditar que, assim, poderia defender seu nome, que fora, em sua opinião, caluniado.

"As Bruxas de Salém" (The Crucible - 1996) EUA
Em Salem, Massachusetts, 1692, algumas jovens fazem "feitiços". Uma delas, Abigail Williams (Winona Ryder), tinha se envolvido com John Proctor (Daniel Day-Lewis), um fazendeiro casado, quando trabalhou para ele, mas após o fim do caso foi despedida. Assim, desejava a morte de Elizabeth Proctor (Joan Allen), a esposa deste. Elas são descobertas no seu "ritual" e, acusadas de bruxaria, provocam uma histeria coletiva que atinge várias pessoas, sendo que Abby, a jovem desprezada por John, faz várias acusações até ver Elizabeth ser atingida.

"Um Caminho de Luz" (Camino - 2008) Espanha
Baseado na vida de Alexia González-Barros, conta sobre uma aventura emocional em torno de uma linda menina de onze anos, muito religiosa, que enfrenta ao mesmo tempo dois acontecimentos que são completamente novos para ela: apaixonar-se e morrer. "Camino" é acima de tudo uma luz brilhante capaz de atravessar todas e cada uma das tenebrosas portas que se vão fechando ante ela, e que pretendem em vão sumir na escuridão seu desejo de viver, amar e sentir-se definitivamente feliz. Baseada na história de uma filha de uma família pertencente ao Opus Dei, que faleceu em 1985 aos 14 anos de idade, e que atualmente está em processo de canonização.

"Meteora" (2012) Grécia
Nas planícies aquecidas da Grécia central, monastérios ortodoxos elevam-se acima de pilares de arenito, suspensos entre o céu e a terra. O jovem monge Theodoros e a freira Urania dedicaram suas vidas aos estritos rituais e costumes de sua comunidade. Um afeto que cresce entre eles coloca suas vidas monásticas em risco. Divididos entre a devoção espiritual e o desejo humano, eles devem decidir que caminho devem seguir. Saiba+

"Os Cavalos de Deus" (Les Chevaux de Dieu - 2012) França/Bélgica/Tunísia/Marrocos
Yachine, 10 anos, vive com a família no bairro da lata de Sidi Moumen em Casablanca. A mãe, Yemma, comanda a família como pode. Há um pai depressivo, um irmão no exército, um outro quase autista e um terceiro, Hamid, 13 anos, pequeno malfeitor do bairro e protetor de Yachine. Quando Hamid é preso, Yachine faz então pequenos trabalhos para sair deste marasmo onde reinam a violência, a miséria e as drogas. Após sair da prisão, Hamid sofre uma grande mudança, tornando-se um islamita radical durante o seu encarceramento, e persuade Yachine e os amigos a juntarem-se aos seus "irmãos". O Imame Abou Zoubeir, chefe espiritual, começa então com eles uma longa preparação física e mental. Um dia, anuncia-lhes que foram escolhidos para serem mártires. Este filme é livremente inspirado nos atentados terroristas de 16 de Maio de 2003 em Casablanca.

"A Fita Azul" (Electrick Children - 2012) EUA
A adolescente Raquel vive em uma comunidade mórmon conservadora, no estado de Utah. Aos 15 anos de idade, ela descobre uma fita cassete e ouve pela primeira vez o rock and roll. Esta experiência incrível transforma sua vida: 3 meses mais tarde, ela aparece grávida, e insiste que a música foi responsável por sua gestação. Quando seus pais tentam casá-la contra sua vontade, ela foge em busca da voz misteriosa da fita cassete. Saiba+

"Luz Silenciosa" (Stellet Licht - 2007) México/Alemanha/França/Holanda
Johan (Cornelio Wall) é um menonita casado que vive ao norte do México. Os menonitas defendem o pacifismo radical e rejeitam o progresso, mas a comunidade de Johan é mais moderada. Eles usam carros e os benefícios da medicina moderna, mas ainda se recusam a utilizar comunicações com o exterior, como telefone ou internet. Neste ambiente Johan se apaixona por outra mulher, contrariando as leis de sua religião.

"Deserto Interior" (Desierto Adentro - 2008) México
Uma história cheia de metáforas e símbolos sobre a culpa, o fanatismo, a religião, a solidão e a loucura. Através de quadros pintados de forma rústica, Aureliano conta a história de sua família, predestinada a morrer por um pecado que seu pai cometeu. Com a guerra civil mexicana como pano de fundo, mostra toda a transformação de um homem cuja obsessão é obter o perdão de Deus, mesmo que para isso condene seus próprios filhos ao mais profundo confinamento. Saiba+

"O Pecado de Hadewijch" (Hadewijch - 2009) França
Céline (Julie Sokolowski), estudante de teologia, adota o nome de Hadewijch, místico do século XIII do Brabant, no norte da França. Chocada com a fé cega e estática da moça, a madre superiora (Brigitte Mayeux-Clerget) a envia para fora do convento, no intuito de que encontre sua vocação no mundo. Ela então volta a ser uma menina comum, filha de um ministro francês. Um dia conhece Yassine (Yassine Salime), africano do subúrbio, que a apresenta ao seu irmão Nassir (Karl Safaradis), muçulmano praticante e professor de religião. O amor de Céline por Deus, assim como sua raiva e seu desejo de entregar-se ao sacrifício, a lançam num caminho perigoso.

"O Estudante" ((M)uchenik - 2016) Rússia
Um adolescente descobre a sua vocação nas palavras da Bíblia e se transforma num católico muito dedicado, capaz de citar versículos de trás para frente. Ele começa a usar os ensinamentos cristãos para questionar as palavras de sua mãe, da escola onde estuda e principalmente de uma professora de biologia liberal.

"Além das Montanhas" (Dupa Dealuri  - 2012) Romênia
Romênia. Alina (Cristina Flutur) e Voichita (Cosmina Stratan) são grandes amigas que vivem em um monastério isolado. Alina viveu por vários anos na Alemanha e deseja voltar ao país, Voichita está feliz no convento, onde acredita ter encontrado um lar e a fé. Sem entender a amiga, Alina passa a enfrentar constantemente um padre local. Ele, por sua vez, passa a acreditar que a jovem está possuída.

"Ida" (2013) Polônia
A jovem noviça Anna (Agata Trzebuchowska) está pronta para prestar seus votos e se tornar freira, só que antes disso, por insistência da Madre Superiora (Halina  Skoczynska), vai visitar a única familiar restante: tia Wanda (Agata Kulesza), uma mulher cínica e mundana, defensora do Partido Comunista, que revela segredos sobre o seu passado. O nome real de Anna é Ida, e sua família era judia, capturada e morta pelos nazistas. Após essa revelação, as duas resolvem partir em uma jornada de autoconhecimento, para descobrir o real desfecho da história da família e onde cada uma delas pertence na sociedade. Saiba+

"14 Estações de Maria" (Kreuzweg - 2014) Alemanha
Maria (Lea Van Acken) se encontra dividida entre dois mundos. Na escola, a menina de 14 anos tem todos os interesses típicos de uma adolescente de sua idade, mas quando está em casa com a família, ela precisa seguir com rigidez os tradicionais ensinamentos católicos. Qualquer coisa que Maria faça ou pense deve ser examinado por Deus, o que a deixa com um medo constante de cometer algum pecado. Preocupada em agradar a todos, a menina logo se vê em meio ao fogo cruzado: como conciliar seus sentimentos pelo colega de classe com seus votos de pureza em nome de Deus? Saiba+

"Paraíso: Fé" (Paradies: Glaube - 2012) Áustria/Alemanha/França
Anna Maria é uma católica fervorosa e fanática que se flagela, caminha de joelhos pela casa, impreca os pecadores e chega ao ponto de se masturbar com o crucifixo. Anna Maria acha que a felicidade suprema tem de vir da fé. Radiologista durante o dia, no tempo que lhe sobra empenha-se na missão de evangelizar almas perdidas - um casal que vive em pecado, um alcoólatra e outros seres humanos sem rumo. Através da abnegação total dos prazeres carnais, da penitência diária, da tentativa de conversão dos "hereges", da limpeza obsessiva e de orações e cânticos, Anna tenta manter-se afastada do sexo e outros pecados. A sua fé é apenas posta à prova pelo marido que, apesar de impedido de andar, não desiste do seu ideal de amor, que inclui um casamento consumado. Mas Anna é implacável na sua decisão de direcionar a vida e o amor para Jesus. Um sentimento que parece infinito mas não é apenas etéreo. Saiba+

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Feliz como Lázaro (Lazzaro Felice)

"Lazzaro Felice" (2018) dirigido por Alice Rohrwacher (As Maravilhas - 2014) é uma espécie de fábula inspirada como o título sugere na história bíblica de Lázaro, porém as camadas que o filme propõe são amplas e deixa em cada espectador um sentimento, a linguagem é simples, mas há metáforas e uma enorme carga reflexiva, com certeza é uma obra para revisitar e tentar compreender e absorver o máximo possível das ideias expostas. 
Nesta leitura livre da história bíblica, Lázaro (Adriano Tardiolo) é um garoto pobre e pouco inteligente, mas extremamente bondoso. Ele é explorado pelos familiares, fazendo trabalhos forçados diariamente, além de colaborar com a marquesa, proprietária das terras onde vivem. No entanto, após uma tragédia, Lázaro retorna à vida no século XXI. Ele não compreende mais a lógica deste mundo, mas pretende reencontrar a sua família e viver como antigamente.
Nos deparamos com uma comunidade de camponeses, que mais adiante percebemos serem explorados por uma marquesa, dona das terras e conhecida como "a senhora do tabaco", cuja fortuna advém desse trabalho escravo, dentro dessa engrenagem de exploração, Lázaro, um garoto ingênuo e prestativo, bondoso por essência jamais se enraivece ao ser sempre chamado pelos seus companheiros para realizar o trabalho duro, ele parece olhar o mundo sob uma perspectiva da pureza, a marquesa em determinada parte diz: "Eu os exploro e eles exploram aquele pobre homem. É uma reação em cadeia e não pode ser parada". Quando questionada pelo próprio filho se não tem medo que descubram a verdade, já que vivem sob um véu de ignorância, ela diz: "Humanos são como animais, liberte-os e só aí eles se darão conta da própria condição de escravos, condenando-os ao próprio sofrimento. Agora eles sofrem, mas não sabem disso". Os camponeses não sabem nada, o isolamento geográfico, o pensamento restrito, o fato de conhecerem somente aquele mundo e que não há outro meio a não ser se submeter à marquesa o fazem continuar nesse ciclo, enriquecendo-a e mantendo-se na extrema pobreza. Lázaro acaba por se aproximar do filho da marquesa, o rebelde Tancredi, que abomina a maldade da mãe, só que nada faz, na verdade utiliza a inocência de Lázaro também a favor de sua revolta, forja o próprio sequestro, o faz acreditar que é seu meio-irmão e toma para si o refúgio de Lázaro nas montanhas. Essa relação com Tancredi desperta em Lázaro coisas que não havia sentido antes, uma conexão em que se doa ainda mais, ele faz tudo pelo amigo e mesmo quando adoece se lembra que Tancredi está sozinho nas montanhas e vai atrás do amigo, seu medo é que Tancredi pense que ele o abandonou.

Nesse trajeto Lázaro sofre uma queda e morre, mas ele revive décadas depois por meio de uma dádiva e quando vai procurar pelas pessoas não há mais nada no local, tudo está abandonado e ladrões estão saqueando a grande casa, ele segue a pé o caminho até a cidade apontado pelos ladrões e, por ocasião, reencontra alguns rostos conhecidos, dos quais momentaneamente se chocam por reencontrá-lo e por permanecer com a mesma aparência, seria ele um santo ou um fantasma? Com o desenrolar percebe-se que pouco importa e Lázaro neste século também não tem chance, a bondade simples e pura não existe nesse mundo repleto de interesses. A exploração do outro é novamente exposta, só que com novas roupagens, as pessoas antes exploradas agora precisam encontrar maneiras de se sustentar e o que resta a eles é enganar e roubar. Lázaro reencontra Tancredi e reaviva o amor pelo amigo e sem entender e sem se contaminar pelo meio o tenta ajudar indo a um banco para pedir que devolva os bens dele, que claro foram tirados por conta da situação que a mãe o colocou, o escândalo da marquesa do tabaco que mantinha uma comunidade feito escravos.

"Lazzaro Felice" é um filme que trabalha com elementos do realismo fantástico que ora fascinam, ora entristecem, revela que na sociedade seja em qualquer época nunca a bondade irá resplandecer, alguém dotado desse nobre sentimento sempre é visto como um idiota ou doente mental, e que por nunca pensar mal de ninguém e querer sempre fazer o outro feliz é explorado das mais diferentes formas, a diretora Alice Rohrwacher disse: "A história é de uma menor santidade, sem milagres, poderes ou superpoderes, sem efeitos especiais. É a santidade de viver neste mundo sem pensar mal de ninguém e simplesmente acreditar em seres humanos". É um filme diferente que ecoa dentro de nós por algum tempo, são camadas preciosas para explorar e que deixa uma reflexão contundente sobre a humanidade e sua falta de ternura.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

No Coração da Escuridão (First Reformed)

"First Reformed" (2017) dirigido por Paul Schrader (Cães Selvagens - 2016) é um filme potente e que deixa um apanhado de questões para refletir, o existencialismo é pontiagudo e fere, nos faz mergulhar profundo em nós mesmos e remexer em tudo que se acredita ou não e perceber o quão perdidos estamos.
Um ex-militar capelão (Ethan Hawke) é torturado pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Ele é ainda desafiado após fazer amizade com Mary (Amanda Seyfried), uma jovem paroquiana e seu marido ambientalista radical. Ele logo descobre segredos escondidos da cumplicidade de sua igreja com empresas inescrupulosas.
O reverendo Ernst Toller é solitário e dependente do álcool, está a frente de uma pequena e importante centenária igreja protestante, que atualmente é praticamente uma atração turística e que está agregada a uma organização, que mais tarde ele descobre estar ligada a ações negativas, ou seja, nada relacionado ao conceito humanitário da qual a religião diz pregar. Observamos que Toller é um sujeito reservado e que está sofrendo de alguma doença, além da tristeza do seu passado, ele está se dedicando a escrever um diário do qual destruirá no final do ano, sua escrita é perturbada e recheada de perguntas, mas todos da comunidade o têm em alto valor por ser o líder e, portanto, ele também é uma espécie de conselheiro, e é a partir do encontro com Mary que sua confusão interior se torna ainda maior, ao pedir a ele que converse com Michael (Philip Ettinger), seu marido, questões sobre depressão, a destruição do meio ambiente, interesses econômicos, o rumo que o homem está dando ao planeta sem nem se importar surgem, o marido de Mary luta pela causa e está cansado de ser taxado como um lunático, ele exibe ao reverendo provas do caos e acende nele questionamentos acerca do aquecimento global e todo o sofrimento entre as espécies, Michael se recusa a colocar um filho neste mundo podre e sem futuro, mas a questão é que Mary não quer abortar, Michael parece disposto a agir de forma desesperada para ser "escutado", desolada Mary se aproxima cada vez mais do reverendo e ilumina a vida de Toller, que se atormenta entre dor e dúvidas, sua fé é posta em xeque, a hipocrisia do meio e a dele também o consome, e contaminado por tudo isso decide fazer algo no dia da festa do centenário da igreja.

Paul Schrader construiu um drama sombrio, carregado e que causa desconforto, os diálogos são atuais e pungentes, capazes de nos transformar ao final da sessão, o filme  tem como influências "Luz de Inverno", de Ingmar Bergman e "Diário de um Pároco de Aldeia", de Robert Bresson, além de seu próprio "Taxi Driver", mas apesar de beber de várias fontes o filme é original e causa impacto, impossível ir dormir tranquilo após assisti-lo, o sentimento crescente de desolação, a descrença, os conflitos internos, a obra aponta para muitas questões, para cada um pesará de um jeito, por exemplo, a degradação do meio ambiente provocada pelas mãos do homem em prol de seu bem-estar, até quando o planeta irá aguentar, que futuro terão as próximas gerações? Ninguém se importa se terá recursos naturais, a imensidão de lixo predomina, todo o equilíbrio já está comprometido, aquecimento global, devastação de florestas, extinção de espécies, rios contaminados, etc.

"First Reformed" é um filme introspectivo e inteligente na abordagem, o desenvolvimento do personagem é maravilhoso, ele de início mesmo sendo descrente se dispõe a ajudar, mas as conversas e o desfecho de Michael só aumentam os seus conflitos internos, sua visão se amplia e acaba desesperançoso não só consigo mesmo, mas com tudo ao redor, com o ser humano; a única luz, o resquício de pureza e esperança é Mary, mas seus sentimentos em relação a ela se misturam e sua hipocrisia vem à tona, assim como seu egoísmo. Ethan Hawke está sublime, completamente absorvido por um personagem complexo, cuja descrença vai alcançando vários níveis, o acompanhamos seja em seus silêncios, em seus pensamentos postos em seu diário, ou nos diálogos primorosos repletos de reflexão.
Paul Schrader é um exímio argumentista e marcante como realizador, em "First Reformed" conseguiu transcender-se, uma obra de atmosfera meditativa, incômoda e que passeia por vários assuntos importantes dos quais a maioria prefere se esquivar. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Caminho a La Paz (Camino a La Paz)

"Caminho a La Paz" (2015) dirigido por Francisco Varone é um road movie simpático que retrata uma amizade inesperada, duas pessoas completamente diferentes, mas com o convívio do atordoante e longo trajeto até La Paz firmam um elo engrandecedor e belíssimo. 
Sebastián (Rodrigo De la Serna), 35 anos, é um homem que tem como grandes paixões a banda Vox Dei e seu antigo Peugeot 505. Recém-casado com Jazmín (Elisa Carricajo) e precisando de dinheiro, ele começa a trabalhar como motorista particular. Entre os passageiros está Jalil (Ernesto Suárez), um idoso muçulmano que o chama com frequência e que, certa manhã, lhe faz uma curiosa proposta: em troca de uma quantia muito alta de dinheiro, Sebastián precisa levar o passageiro de Buenos Aires, na Argentina, a La Paz, na Bolívia. Relutante e com dúvidas, ele aceita a viagem, que teve cada detalhe planejado pelo velho Jalil.
Sebas tenta ajeitar a vida com sua esposa, que com a crise também acaba sem emprego, por um acaso encontra a alternativa de trabalhar como motorista, ele é um homem um pouco acomodado e com uma visão de vida estreita, tem receio do futuro e é preso ao passado pela memória do pai, seu Peugeot 505 lhe conecta com a lembrança e o têm em grande estima, então dia após dia Sebas leva os passageiros ao destino ouvindo sua banda favorita, Vox Dei, até que Jalil, um senhor muito doente pede para que ele faça o favor de levá-lo até La Paz para que encontre seu irmão. Precisando de dinheiro aceita, mas jamais imaginaria que ele passaria por uma espécie de peregrinação e modificaria seu olhar para com a vida. Jalil articulou muito bem a viagem, todas as paradas e etc, sua intenção é encontrar seu irmão em La Paz e depois prosseguir em um navio até Mecca, um trajeto complicado e longo, mas visando o dinheiro Sebas aceita, ele sofrerá provações durante o caminho, no início soa até engraçado, mas a situação de Jalil é grave e requer cuidados, a todo momento precisa urinar e depende de uma máquina para fazer hemodiálise toda noite, vai surgindo em Sebas um sentimento de responsabilidade e de empatia, quanto mais o conhece e o percebe mais cresce a admiração e o desejo de chegar até o destino. 
Muitas coisas acontecem, como o atropelamento de um cachorro que Jalil obriga Sebas a levar em seu carro e que é o começo dessa sutil mudança do motorista, o seu semblante no decorrer vai se abrindo e seu desenvolvimento é brilhante. Uma atuação encantadora de Rodrigo De la Serna. 

Somos conquistados pela naturalidade, a simplicidade e o modo intimista com que tudo se desenrola, é abordado o fator do desemprego que assola não só a Argentina, mas os países vizinhos, além de retratar a paisagem sem qualquer artifício, todo o trajeto é penoso e contém perigos, a amizade vai sendo aos poucos firmada através de diálogos reflexivos e espontâneos, a questão da cultura e a religião também fazem parte da trama, Jalil é muçulmano e em um momento específico retrata um ritual auto-hipnótico que leva a Sebas admirar apesar de não ter conhecimento e intimidade com a religião, esse é um ponto importante da trama em que cresce ainda mais o respeito entre os personagens, e há também outra parte significativa em que Sebas renasce a partir de um acontecimento terrível que tem a ver com seu carro, é o ponto crucial de seu recomeço e de certa forma aliviante.  

"Caminho a La Paz" ainda conta com uma ótima trilha sonora que acompanha toda a peregrinação dos personagens, há momentos cômicos, mas sem deixar de ser terno, a transformação de Sebas atinge o espectador de forma gentil e espontânea. É um filme que provoca sentimentos agradáveis. 

quinta-feira, 22 de março de 2018

O Filho de Joseph (Le Fils de Joseph)

"O Filho de Joseph" (2016) dirigido por Eugène Green (La Sapienza - 2014) é um drama singular que aborda a questão da ausência paterna e os elos que se formam ao acaso e que transformam os sentimentos em relação no que se entende como família. O modo como tudo se desenvolve é a grande beleza do longa, assim como a sua filmagem peculiar explorando a figura humana de um jeito imensamente intenso e íntimo - ao mesmo tempo em que os atores olham para a câmera também olham para seus interlocutores, outro ponto interessante é a falta de naturalidade, falas e gestuais robóticos que caracterizam a grande carência afetiva, e claro, a arte intermediando, como a pintura "O Sacrifício de Isaac", de Caravaggio simbolizando a revolta do protagonista em relação ao pai.
Verão em Paris. Vincent (Victor Ezenfis) vive com sua mãe solteira Marie (Natacha Régnier) e, finalmente, quer descobrir quem é seu pai. Suas investigações o levam a uma editora famosa com um personagem detestável. Quando ele conhece Joseph (Fabrizio Rongione), o irmão do editor, sua vida muda num piscar de olhos.
Vincent é um garoto quieto, apático e insatisfeito, o convívio com a mãe é bom, mas ele a perturba para descobrir quem é seu pai, ela é uma mulher melancólica que se dedicou ao filho e que esqueceu de si mesma, quando Vincent encontra uma carta com o nome de seu pai fica obcecado em encontrá-lo e enfim tapar o vazio que sente, porém nada é como imaginado e o que ele vê o decepciona, Oscar é um editor renomado que usa de seu poder para usufruir de quem quiser e como bem quer, aos poucos Vincent se aproxima em silêncio, apenas observando, frequenta as festas e até invade o escritório para analisá-lo, sua curiosidade dá lugar à decepção e a raiva se instala. A aura poética do filme se dá pela mescla de arte e religião, os momentos são marcados por grandes doses de reflexão, o enorme quadro de Caravaggio, "O Sacrifício de Isaac", no quarto de Vincent nos revela a sua vontade, que ao contrário do quadro é o filho que deseja sacrificar o pai e que nos minutos derradeiros espera a mensagem de um anjo que diga para não fazê-lo. Nessa confusão que Vincent se encontra acaba se esbarrando em Joseph, o irmão de Oscar, que é totalmente o oposto, ele é sereno, carinhoso e ajuda Vincent no decorrer, saem para passear por museus e trocam ideias, inúmeras vezes de forma didática ampliando a nossa visão sobre a cultura e a arte.

As referências bíblicas e a pomposidade da arte rodeia toda a trama para nos revelar uma história sobre a figura paterna, a ausência que dói e a transformação de Vincent ao encontrar em Joseph o que tanto queria, o filme retrata a construção de um nova família e deixa para nós uma grande reflexão sobre os encaixes constitucionais referentes à família. O vínculo formado entre Joseph e Vincent e logo depois com Marie é belo e único, assim como deve ser para cada um. 
As peculiaridades do longa garantem uma experiência cinematográfica incrível e singular, como os diálogos que carecem de emoções, porém com as imagens suprindo-as, a câmera capturando os olhos dos personagens assegura profundidade e intimidade, e a aura erudita que vai fisgando devagar coroa com perfeição.

Quando menos se espera "O Filho de Joseph" envolve e faz com que reflita as questões sobre as relações, nada no filme acontece naturalmente, mas há algo misterioso que o torna poderoso e é só assistindo pra entender. Cada um sentirá e interpretará a seu modo, os símbolos, as referências e todas as sombras que cercam a vida.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A Festa de Aniversário de Henry Gamble (Henry Gamble's Birthday Party)

"A Festa de Aniversário de Henry Gamble" (2015) dirigido por Stephen Cone (The Wise Kids - 2012) é um filme que retrata com realismo todo o falso moralismo que permeia o universo cristão, os conflitos pessoais são expostos com sinceridade e cada personagem possui seus segredos, seus desejos e suas confusões devido a repressão causada pela religião.
Henry (Cole Doman), que comemora seu aniversário de 17 anos, está claramente lutando com sua sexualidade, já que seu pai (Pat Healy) é um pastor evangélico de uma mega-igreja suburbana. Henry não é o único membro de sua família com questões pessoais: sua mãe (Elizabeth Laidlaw) é profundamente infeliz em seu casamento, e sua irmã (Nina Ganet), está voltando para casa depois de seu primeiro ano na faculdade. Um filme sobre pessoas divididas entre suas crenças religiosas e a vertiginosa liberdade do mundo.
Acompanhamos o adolescente Henry ao longo do dia de seu aniversário, ele está se descobrindo sexualmente e reprime seus desejos por conta de sua rígida criação cristã, aliás todos os personagens apresentados sofrem com isso, a mãe é infeliz no casamento, a irmã possui problemas com seu próprio corpo e é confusa por sentir desejos pelo namorado, o pai, um pastor evangélico que segue à risca as regras, e todos os amigos que frequentam a comunidade exibem essa faceta hipócrita, mas aos poucos e muitas vezes sem diálogos a imagem deles de seres perfeitos caem por terra. Ao redor da piscina cristãos e não-cristãos dividem espaço, como as duas amigas de Henry que nada têm a ver com os da comunidade da igreja, todos se adaptando e curtindo o momento, com o passar das horas conhecemos mais os personagens, no caso Henry está ainda se descobrindo e tentando não demonstrar, por outro lado há um personagem atormentado pelo fato das pessoas não o compreenderem, julgam e negam a verdade. Essa repressão destrói o ser humano de um jeito irreversível. Vemos personagens bebendo escondido, assistindo coisas proibidas, personagens que apenas apontam o dedo e que foram para criticar o modo dos jovens, esses que em vários diálogos exibem ideias retrógradas e preconceituosas. Sem dúvidas, uma baita crítica a essas comunidades ditas perfeitas que pregam o amor e que na verdade só disseminam ódio, que fazem as pessoas se sentirem péssimas por aquilo que elas são e assim repreender suas vontades e seus desejos.

O filme segue com um ritmo tranquilo e as situações vão se apresentando naturalmente e sem necessariamente serem resolvidas, o realismo é a grande marca do longa, assim como as sensíveis interpretações, os olhares e a maneira de se comportarem nos revela muito mais do que qualquer diálogo, as tensões e os desconfortos são delineados com sutileza, porém sempre com uma imensa dose de reflexão. A trilha sonora também ajuda a conduzir a trama, na festa o pai permite que Henry coloque as suas playlists, somos envolvidos por canções que mesclam melancolia e sensualidade, como "Only For You", de The Pass, "Everyone is Dark", de New Canyons, "Mylene", de YAWN, entre tantas outras.

"A Festa de Aniversário de Henry Gamble" trata da repressão sexual no meio cristão de maneira sincera e vai pincelando os problemas de cada personagem para expor o como encaram a homossexualidade, desejos e a liberdade; o falso moralismo é gritante e incomoda. É um filme bonito, crítico e encantador!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Menashe

"Menashe" (2017) dirigido por Joshua Z. Weinstein traz uma história muito interessante sobre a forma de vida das pessoas nas comunidades judaicas ultra-ortodoxas, são retratados dilemas, tabus, ritos, hábitos, e por muitas vezes, a contradição.
Dentro da ultra-ortodoxa comunidade judaica do Brooklyn - a maior fora de Israel, um viúvo luta pela custódia de seu filho. Um sensível drama realizado inteiramente em iídiche, que explora intimamente a natureza da fé e o preço da paternidade.
Menashe (Menashe Lustig) trabalha dobrado em um mercado e tenta de todas as maneiras ter a guarda de seu filho, mas como não tem condições e, principalmente, uma esposa, pois as leis judaicas determinam que um lar necessita de uma figura feminina e que um viúvo é incapaz de fornecer o que uma criança precisa, Reiven tem dez anos e é cuidado pelo cunhado e esposa enquanto Menashe não dá um jeito em sua situação, a pressão em cima do assunto é forte, o cunhado e o rabino insistem, mas Menashe não quer saber de casar, quer apenas criar seu filho e ter um vínculo com ele. Para todos da comunidade Menashe é um desafortunado, desde o emprego até o seu jeito de ser, ele é um pouco desatento, como quando vai fazer entregas de van e esquece de fechar a porta de trás e todo o peixe se espalha pela rua causando um grande prejuízo, para pagar a dívida faz horas extras junto dos hispânicos, além disso Menashe não segue à risca os hábitos, como vestir cafetã ou o chapéu e até questiona alguns ritos, como o shabbat, ele destoa do ambiente, mas também não quer dizer que seja menos devoto. Menashe contesta o severo cunhado sobre ter o direito de ver Reiven e criá-lo, o menino entende a situação do pai e são poucos os momentos que discute ou se entristece, mas sempre está de olho em tudo, como quando seu pai é humilhado pelo patrão, ou o tio o desmerecendo por conta da vida corrida e sem pontualidade.

Para mostrar que pode criar seu filho sozinho e se impor diante a comunidade, Menashe decide fazer um jantar, uma tradição em que os parentes próximos visitam o túmulo e rezam, ele fica incumbido de preparar as comidas, arrumar o pequeno ambiente e seguir todos os hábitos para esse dia, nada pode dar errado, ele segue firme e dedicado, mas o seu jeito não harmoniza com todo o resto, a comida acaba queimando e olhares se entrecruzam na mesa, porém o rabino enxerga seu sacrifício.
A comunidade que se concentra no Brooklin é uma amostra de como a cidade é recheada de diversidade e cultura, todos falam em iídiche e mantêm suas vidas à base das leis judaicas, como Menashe que as têm como o único empecilho para criar seu filho, é um mundo à parte, Reiven não possui contato com outras coisas ou tecnologia, por exemplo, eles isolam tudo e se fecham entre si. 

O filme é muito direto e não faz apontamentos de certo ou errado, apenas demonstra o estilo de vida e retrata Menashe como um ser humano repleto de falhas, como qualquer outra pessoa. Difícil entender aonde é que o personagem realmente escolhe por si, já que todos palpitam em sua vida.
"Menashe" é um filme natural e real, os personagens vivem de fato no contexto judeu-ortodoxo, então é uma boa dose de conhecimento e compreensão da realidade vivida por eles, a devoção, o comprometimento com os estudos, as dificuldades em território estrangeiro, o fechamento entre eles, a opressão das leis, os tabus, as contradições e também a beleza da cultura, vide as canções que são belíssimas, e a força da identidade judaica. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mãe! (Mother!)

"Mãe!" (2017) escrito e dirigido por Darren Aronofsky (Cisne Negro - 2010) não é um simples suspense ou terror psicológico, é um filme complexo de muitas camadas que passeia por diversas metáforas e alegorias. Um obra grandiosa que disserta sobre religião, natureza, feminismo e tantos outros temas que se desnovelam ao decorrer e que cada espectador sentirá, absorverá e interpretará de uma forma, as questões são amplas e isso é algo maravilhoso, o poder de reflexão é imenso. 
Um casal vive recolhido no meio de um campo em um imenso casarão de estilo vitoriano. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções. 
O início começa com uma narrativa comum com uma esposa dedicada e submissa e um marido egocêntrico que vive um bloqueio criativo, enquanto ela conserta e se doa para manter a casa aconchegante, o marido só pensa em si. Essa rotina é quebrada quando um estranho visitante (Ed Harris) aparece e é acolhido sem nem ao menos a dona da casa ser consultada, a visita não é agradável e o desconforto dela aumenta quando bate a porta uma mulher (Michelle Pfeiffer), justamente a esposa deste que está em sua casa, e para sua surpresa ela é mais invasiva ainda. Ela não os deseja ali, mas os dois são colocados para dentro de sua casa e as situações vão se tornando cada vez mais constrangedoras e insustentáveis. A força da personagem de Lawrence é sugada pouco a pouco e isso nos atinge de maneira desconfortável, ela vai perdendo sua dignidade toda vez que é ignorada, que não é ouvida. Toda a perspectiva da história é passada através de sua personagem, sob o seu ponto de vista e por isso a câmera não desgruda dela, são enquadramentos claustrofóbicos e sequências angustiantes em que ela experimenta sensações e visões, essas que só são compreensíveis e encaixadas em seus momentos finais. 

O filme te captura inicialmente por uma narrativa aparentemente simples, mas a medida que avança o suspense com a invasão domiciliar o terror vai tomando conta, perturbando o espectador com cenas surreais, mas que vão se encaixando em metáforas e muitas possibilidades de interpretação. A segunda metade do filme é o caos total, a casa se torna um antro, os efeitos sonoros eclodem criando uma atmosfera enlouquecedora, a alegoria religiosa está bem delineada, a fé, a idolatria dos símbolos cristãos, a guerra, a destruição e o ciclo. O personagem de Javier Bardem representa Deus, vaidoso e egoísta, que necessita criar sua obra para ser amado e idolatrado, daí então conceber a vida, para isso necessita da Mãe, Jennifer Lawrence é a Casa, a Mãe Natureza. Ela cuida, se doa, se sacrifica. 

São várias as referências bíblicas do Gênesis ao Apocalipse, como "A Criação de Adão e Eva", "Expulsão do Paraíso", "Caim e Abel", "O Grande Dilúvio", "A Queda de Lúcifer", "A Crucificação de Jesus Cristo", "O Apocalipse", "A Nova Terra", mas o filme não se resume a esta representação e revela temas como opressão feminina, culto aos ídolos, narcisismo, natureza, feminilidade, moralismo; a relação entre o abuso do patriarcado à mulher ao tratamento que os humanos destinam à natureza.
Apesar de triste e até niilista há uma ponta de esperança, pois o novo nasce do caos e da mais profunda escuridão, surge a luz!. "Mãe!" é sádico e causa desconforto, são inúmeras metáforas visuais e a cada cena somos inseridos nesse universo amplo e onírico, é um filme que exige atenção e pede revisões, uma experiência cinematográfica intrigante, desesperadora e grandiosa.