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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Dégradé

"Dégradé" (2015) escrito e dirigido pelos irmãos Arab Nasser e Tarzan Nasser é uma obra forte e eficaz em retratar a realidade de mulheres que vivem próximas a Faixa de Gaza, o ponto de vista feminino aumenta o terror de todas as consequências dos inúmeros conflitos e opressões diárias. É aflitivo, caótico e claustrofóbico.
Christine (Victoria Balitska), uma russa que vive em Gaza, gerencia um salão de beleza vizinho ao quartel-general de uma gangue. No pátio que separa os dois, Ahmed, um dos chefes locais, exibe com orgulho o leão que acaba de roubar do zoológico da cidade. Quando a polícia inicia uma operação para libertar o animal, o clima na região fica tenso, deixando Christine, sua filha, uma assistente e dez clientes sitiadas no salão. Em meio ao fogo cruzado, ela precisa preparar uma noiva e opinar sobre os problemas amorosos de suas clientes. Tudo isso enquanto o leão cochila logo ao lado.
Acompanhamos intimamente durante algumas horas várias mulheres em um salão de beleza localizado numa região perigosa e que é palco de muitos conflitos, enquanto esperam sua vez discutem, conversam e enfrentam os mais variados problemas, Christine se desdobra para atendê-las e tem a missão de preparar uma noiva que está sob os olhares atentos da sogra que dita o como deve ser o corte de seu cabelo, a opressão está por todas as partes, as conversas vão ganhando tons sombrios à medida que a confusão lá fora aumenta. São mulheres diferentes entre si, mas todas carregando pesos de suas histórias, Christine luta para manter seu salão, ela diz que ali é melhor que o lugar que veio, mesmo faltando energia dá um jeito e junto de sua assistente Wedad (Maisa Abd Elhadi), que sofre pelo romance com Ahmed e seus rompantes, lida com as clientes sem paciência, especialmente, Eftikhar (Hiam Abbass), seu comportamento antipático revela uma faceta de angústia por estar envelhecendo, a todo momento se olha no espelho e se compara com as mais novas. Dentre todas a que mais se sobressai é Safia (Manal Awad) e seus diálogos engraçados com a mais religiosa do grupo, ela toma um remédio à base de ópio e, claro, que essa sua forma de agir acaba revelando algo triste, entre essas mulheres há uma grávida que a qualquer momento pode dar à luz, só que não há como sair, estão confinadas nesse pequeno estabelecimento por conta do conflito que toma proporções caóticas onde grupos rivais se enfrentam, além da presença de um leão.

A história dá preferência aos diálogos e o ponto de vista que cada uma tem do entorno faz o espectador se aproximar da realidade da região de uma maneira única e verdadeira, as relações com os maridos, a beleza, a família, religião e política e seus diversos grupos armados nos dá uma abrangência para compreender a dificuldade de se viver nesse local opressivo. A tensão permeia todo o desenrolar, sempre se espera pelo pior e os nervos ficam à flor da pele, os cabelos que nunca são concluídos, as mulheres que impacientemente aguardam sua vez, a energia que cessa e os tiros e explosões lá fora, um verdadeiro inferno.

"Dégradé" é uma obra afitiva e que retrata com potência a tamanha instabilidade de se viver na Faixa de Gaza, os conflitos entre os grupos radicais e seus ataques levando qualquer um que esteja por perto, não vemos absolutamente nada do que acontece lá fora, sentimos o desespero junto dessas mulheres que confinadas tentam se controlar e continuar o processo de se arrumarem, algo tão corriqueiro em qualquer parte do mundo, mas que nesse local se transforma numa tour de force, deveras uma pequena e sincera amostra do quão opressiva é a vida da mulher palestina, seja diante dos grandes e inúmeros conflitos, nas relações amorosas e até mesmo nas pequenas atividades diárias. 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Chicken

"Chicken" (2015) dirigido pelo estreante Joe Stephenson é um drama delicado que vai se desnovelando para algo muito intenso, possui ótimas e emocionantes atuações e uma história marcante repleta de segredos e traumas. Ambientada num cenário rural contemplamos uma naturalidade impressionante e uma pobreza dilacerante.
Richard (Scott Chambers), 15 anos, tem dificuldades de aprendizagem e almeja criar raízes, mas seu irmão (Morgan Watkins) é inquieto e destrutivo. Quando a terra onde vivem é comprada por um novo proprietário e o fornecimento de eletricidade é cortada, suas condições já precárias, ficam ainda pior. Em seguida, um encontro casual com a filha do novo proprietário, de 17 anos, Annabel (Yasmin Paige), deixa Richard obcecado; enquanto Polly faz amizade com os rapazes que executam uma feira itinerante decadente. Richard tem uma visão otimista sobre a vida, Polly piora, segredos de família são revelados. A vida de Richard está prestes a mudar para sempre.
Richard é um adolescente que possui problemas de aprendizagem e que detém uma alma gentil, sua alegria é conversar com sua galinha de estimação, Fiona, e andar pelas redondezas e pelas fazendas ao lado, ele se autodenomina um fazendeiro, já seu irmão vive de maneira irresponsável ora roubando, ora bebendo e pouco faz para Richard, o trata com desdém enquanto diariamente Richard prepara o escasso café da manhã, eles moram em um trailer sujo que está dentro de uma propriedade particular, as coisas começam a piorar quando novos donos compram o local, mas o que mais detona a situação é o modo como Polly age, sempre querendo fugir e não ligando para o irmão. Sozinho com sua galinha anda a esmo procurando alguma fruta ou verdura que consiga roubar, até que um dia encontra Annabel, filha dos novos proprietários, ela se encanta pela doçura e se compadece pela situação, se inicia uma bonita amizade e novas cores surgem. Richard é tão meigo e Annabel tem tanta paciência, os diálogos e olhares enquanto caminham dão à história um tom natural e doce, claro que por conta da personalidade de Richard. Tudo o que ele realmente quer é o amor de seu irmão, só que este não consegue nem encará-lo. Richard sai um pouco de seu mundinho quando começa a andar com Annabel, juntos exploram o local, conversam e Richard sempre sorridente lhe conta sobre suas coisas, é uma relação que se forma de maneira sutil e se desenvolve com imenso brilho.

A trama discreta e pacata de início inesperadamente surge com momentos de emoções intensas e pesadas, sempre relegado e passando necessidade parte o coração ver Polly maltratar o irmão e dizer palavras duras, ao mesmo tempo que ele também sofre ao correr atrás de algum emprego, quando segredos se revelam aí então compreendemos os sentimentos complexos que habitam nele. 

"Chicken" engana por sua simplicidade, na verdade ele é imenso e memorável, impossível não se desmanchar em lágrimas ao final, impacta e deixá-nos desamparados, assim como o adorável Richard, porém a esperança surge e Annabel o abraça e o acolhe, uma atitude linda e que conforta o seu tão machucado coração. Um filme sensível, emotivo e demasiado humano!

terça-feira, 12 de junho de 2018

A Infância de Um Líder (The Childhood of a Leader)

"A Infância de Um Líder" (2015) dirigido pelo ator Brady Corbet (Mistérios da Carne - 2004) é um drama sombrio que como o próprio título revela retrata a infância de uma criança que se tornará um líder fascista, é uma história interessante e que traz o terror sob uma perspectiva realmente surpreendente, aparentemente não há nada que se encaixe no gênero, porém o horror é trabalhado em pequenas doses e com total originalidade, até porque acompanhar o pequeno protagonista e seu difícil desenvolvimento durante o período final da primeira guerra é perturbador, sua personalidade vai sendo moldada a partir de eventos complexos e uma estranha relação com os pais.
1918. Prescott (Tom Sweet), um garoto americano passa a morar na França, já que seu pai (Liam Cunningham) é convidado pelo governo americano para trabalhar na criação do Tratado de Versalhes. Juntamente com a mãe (Bérénice Bejo) se instalam num imenso casarão em um lugarejo onde o fanatismo religioso impera. A abertura estonteante e ao mesmo tempo aterradora faz questão de evidenciar e nos fazer imergir neste cenário. A imagem e o som se complementam de maneira assustadora durante toda a história chegando ao ápice de modo ameaçador e vertiginoso. Acompanhamos os personagens com ansiedade e observamos tudo pelo olhar da criança que se molda a partir do desafeto da mãe, da autoridade exacerbada do pai, do fanatismo religioso, da infelicidade, opressão e as incertezas que pairam no ar.
As sensações que a história provoca são incômodas e a cada cena nos deslumbramos com o requinte visual e narrativo, seu desenvolvimento faz questão de expor com cuidado cada detalhe, a movimentação de câmera suave e a lentidão inicial só faz ficar ainda mais interessante, pois a tensão vem de forma crescente a partir do momento em que a criança se torna incontrolável, a mãe coloca a educação nas mãos da jovem professora de francês e o pouco de singeleza advém da cozinheira, já o restante é pura opressão e desamor, o ambiente contribui para a melancolia e vazio, as obrigações religiosas e o pai que administra com mãos de ferro a família, assim como faz em seu trabalho complementa arruinando a personalidade de Prescott. Impressionante a composição de personagem de Tom Sweet, seus olhares e comportamentos vão nos levando ao que se tornaria no futuro, diante de tudo que estava vivendo e dentro do contexto histórico não poderia dar em outra coisa: a empatia com ideias fascistas.  

A atmosfera do filme atinge em cheio e exemplifica que o terror é um gênero que pode ser trabalhado sob variadas vertentes, os elementos transmitem uma espécie de mau agouro, tempos ruins que se aproximam, a sensação de sufoco vai ficando cada vez mais forte e o real terror acontece num final apoteótico. 
A narrativa é dividida em capítulos que demonstram Prescott cometendo travessuras e fazendo birras, no início ele joga pedras nos outros depois do ensaio de uma peça na igreja, a mãe o força a pedir desculpas para todos e isso o faz ficar mais revoltado, o menino tem personalidade forte e uma de suas características físicas, o cabelo comprido, é alvo de perguntas e chacotas e sempre é confundido por menina, o que o deixa realmente nervoso. O relacionamento com a mãe é difícil e distante, não há afeto e há algo não esclarecido ali no ambiente familiar, pois ela é uma mulher frustrada e fria, muito do menino é com certeza vindo dela e do tratamento que destina a ele, já o pai se torna violento por não saber mais lidar e tudo culmina num rompante de raiva num jantar na casa deles em que estão comemorando o encerramento da Primeira Guerra.

"A Infância de Um Líder" inspirado vagamente num conto homônimo de Sartre retrata com primor a ascensão de um líder fascista, mas contudo não explora as questões políticas, mas sim as psicológicas, do como os traços inatos da personalidade somado a acontecimentos conturbados são capazes de formarem monstros; o vazio e o mal se solidificando remete ao filme "A Fita de Branca" (2009) que também carrega um tom de pesadelo progressivo. É um filme sombrio, instigante e singular que tem na sua ambientação e na sua trilha sonora uma força descomunal. Poderoso!

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Caminho a La Paz (Camino a La Paz)

"Caminho a La Paz" (2015) dirigido por Francisco Varone é um road movie simpático que retrata uma amizade inesperada, duas pessoas completamente diferentes, mas com o convívio do atordoante e longo trajeto até La Paz firmam um elo engrandecedor e belíssimo. 
Sebastián (Rodrigo De la Serna), 35 anos, é um homem que tem como grandes paixões a banda Vox Dei e seu antigo Peugeot 505. Recém-casado com Jazmín (Elisa Carricajo) e precisando de dinheiro, ele começa a trabalhar como motorista particular. Entre os passageiros está Jalil (Ernesto Suárez), um idoso muçulmano que o chama com frequência e que, certa manhã, lhe faz uma curiosa proposta: em troca de uma quantia muito alta de dinheiro, Sebastián precisa levar o passageiro de Buenos Aires, na Argentina, a La Paz, na Bolívia. Relutante e com dúvidas, ele aceita a viagem, que teve cada detalhe planejado pelo velho Jalil.
Sebas tenta ajeitar a vida com sua esposa, que com a crise também acaba sem emprego, por um acaso encontra a alternativa de trabalhar como motorista, ele é um homem um pouco acomodado e com uma visão de vida estreita, tem receio do futuro e é preso ao passado pela memória do pai, seu Peugeot 505 lhe conecta com a lembrança e o têm em grande estima, então dia após dia Sebas leva os passageiros ao destino ouvindo sua banda favorita, Vox Dei, até que Jalil, um senhor muito doente pede para que ele faça o favor de levá-lo até La Paz para que encontre seu irmão. Precisando de dinheiro aceita, mas jamais imaginaria que ele passaria por uma espécie de peregrinação e modificaria seu olhar para com a vida. Jalil articulou muito bem a viagem, todas as paradas e etc, sua intenção é encontrar seu irmão em La Paz e depois prosseguir em um navio até Mecca, um trajeto complicado e longo, mas visando o dinheiro Sebas aceita, ele sofrerá provações durante o caminho, no início soa até engraçado, mas a situação de Jalil é grave e requer cuidados, a todo momento precisa urinar e depende de uma máquina para fazer hemodiálise toda noite, vai surgindo em Sebas um sentimento de responsabilidade e de empatia, quanto mais o conhece e o percebe mais cresce a admiração e o desejo de chegar até o destino. 
Muitas coisas acontecem, como o atropelamento de um cachorro que Jalil obriga Sebas a levar em seu carro e que é o começo dessa sutil mudança do motorista, o seu semblante no decorrer vai se abrindo e seu desenvolvimento é brilhante. Uma atuação encantadora de Rodrigo De la Serna. 

Somos conquistados pela naturalidade, a simplicidade e o modo intimista com que tudo se desenrola, é abordado o fator do desemprego que assola não só a Argentina, mas os países vizinhos, além de retratar a paisagem sem qualquer artifício, todo o trajeto é penoso e contém perigos, a amizade vai sendo aos poucos firmada através de diálogos reflexivos e espontâneos, a questão da cultura e a religião também fazem parte da trama, Jalil é muçulmano e em um momento específico retrata um ritual auto-hipnótico que leva a Sebas admirar apesar de não ter conhecimento e intimidade com a religião, esse é um ponto importante da trama em que cresce ainda mais o respeito entre os personagens, e há também outra parte significativa em que Sebas renasce a partir de um acontecimento terrível que tem a ver com seu carro, é o ponto crucial de seu recomeço e de certa forma aliviante.  

"Caminho a La Paz" ainda conta com uma ótima trilha sonora que acompanha toda a peregrinação dos personagens, há momentos cômicos, mas sem deixar de ser terno, a transformação de Sebas atinge o espectador de forma gentil e espontânea. É um filme que provoca sentimentos agradáveis. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Girls Lost (Pojkarna)

"Girls Lost" (2015) dirigido por Alexandra Therese Keining (Kyss Mig - 2011) é uma adaptação do romance sueco homônimo de Jessica Schiefuer, que traz o despertar da adolescência de uma forma inusitada e poética, a fantasia é uma bela aliada para nos inserir em variados temas que rodeiam o universo das três garotas que passam por transformações e autoconhecimento, o amadurecimento surge com pitadas de deslumbramento e o clima sombrio caracteriza a dor que cada uma sente para se encontrar e se aceitar. A obra enche os olhos tanto visualmente como em sua narrativa que capta a essência de todas as questões do desabrochar.
Kim (Tuva Jagell), Bella (Wilma Holmén) e Momo (Louise Nyvall) são três amigas inseparáveis muito incomodadas pelos seus colegas de classe. Uma noite, após outro dia ruim na escola, elas ficam bêbadas e decidem provar do misterioso néctar que escorre de uma flor. Após passarem mal logo ao inserirem o líquido, elas acordam horas depois como meninos. Intrigadas com a mudança de seus corpos elas decidem explorar o mundo dos homens e desenvolvem autoconfiança. Porém, as emoções se transformam em perigo à medida que uma das três desenvolve uma forte ligação com sua nova identidade e inesperados sentimentos surgem.
Numa pacata cidade da Suécia três meninas estão se descobrindo enquanto lidam com o bullying na escola porque seus colegas acreditam que elas sejam lésbicas, são alvos de chacota e violência todos os dias e isso faz com que cada vez mais se unam, um dia Bella recebe uma planta, ela possui um lindo jardim em sua casa e adora estudá-las, mas essa é especial e floresce do dia para a noite, encantadas bebem do néctar que as fazem se transformarem em meninos. Em corpos masculinos usufruem da liberdade e saem, se juntam a outros garotos, jogam bola, e Kim, especialmente, se sente atraído por Tony (Mandus Berg), que é totalmente desconectado e vive de modo perigoso. Esse acontecimento mágico deu a Kim uma nova percepção de si e quando passou o efeito da planta percebeu que precisava voltar a sentir aquilo, ao contrário de Momo e Bella que encarou somente como uma aventura, a situação de Kim fica bastante preocupante, pois além de lidar com a confusão de não saber o que se passa consigo mesma, parte para uma vida sombria e arriscada perto de Tony, que ao lado de Kim percebe algo diferente e como não consegue encarar age com desprezo e violência. São variados os temas que o longa aborda, abarca o universo juvenil perfeitamente e expõe os conflitos de uma forma pontual, a amizade, o bullying, o despertar sexual, a identidade de gênero, o amadurecimento e a aceitação de si próprio.

Kim fica dependente do néctar, ela se identifica como menino e quando volta para a "realidade" como menina se sente fraca e padece com a figura que se mostra ao espelho, Bella cuida da flor que adoece e, Momo, que é apaixonada por Kim faz de tudo para acalmar a amiga, ela vai atrás de Kim quando percebe que está se perdendo ao seguir Tony, um garoto perigoso e que não sabe lidar nem um pouco com os seus desejos e usa da violência como escape. A elucidação sobre identidade de gênero é maravilhosa e recorre a elementos e diálogos belíssimos, que mesmo cercados por uma aura de fantasia são claros e precisos, os efeitos utilizados na transformação corporal das meninas hipnotizam, assim como o clima sombrio e sua trilha sonora que segue esse tom, como as canções de Fever Ray, "Keep The Streets Empty For Me" e "Now's The Only Time I Know".

"Às vezes sinto que tenho um zíper. Se fosse valente o bastante para abrir haveria outra pessoa por baixo. Meu verdadeiro eu."

"Girls Lost" é uma obra sensível que retrata com primor o despertar da adolescência e com originalidade disserta sobre orientação sexual, e principalmente, identidade de gênero - a dificuldade de se aceitar e lidar com a própria imagem, a agonia de se olhar no espelho e não se reconhecer e a árdua tarefa de lidar com as pessoas ao redor. O sofrimento até atingir a autoconfiança e, por conseguinte, a liberdade de si é um caminho longo e doloroso. Criativo na abordagem, é um filme que surpreende em todos os quesitos, essencial a todos!

sexta-feira, 9 de março de 2018

A Festa de Aniversário de Henry Gamble (Henry Gamble's Birthday Party)

"A Festa de Aniversário de Henry Gamble" (2015) dirigido por Stephen Cone (The Wise Kids - 2012) é um filme que retrata com realismo todo o falso moralismo que permeia o universo cristão, os conflitos pessoais são expostos com sinceridade e cada personagem possui seus segredos, seus desejos e suas confusões devido a repressão causada pela religião.
Henry (Cole Doman), que comemora seu aniversário de 17 anos, está claramente lutando com sua sexualidade, já que seu pai (Pat Healy) é um pastor evangélico de uma mega-igreja suburbana. Henry não é o único membro de sua família com questões pessoais: sua mãe (Elizabeth Laidlaw) é profundamente infeliz em seu casamento, e sua irmã (Nina Ganet), está voltando para casa depois de seu primeiro ano na faculdade. Um filme sobre pessoas divididas entre suas crenças religiosas e a vertiginosa liberdade do mundo.
Acompanhamos o adolescente Henry ao longo do dia de seu aniversário, ele está se descobrindo sexualmente e reprime seus desejos por conta de sua rígida criação cristã, aliás todos os personagens apresentados sofrem com isso, a mãe é infeliz no casamento, a irmã possui problemas com seu próprio corpo e é confusa por sentir desejos pelo namorado, o pai, um pastor evangélico que segue à risca as regras, e todos os amigos que frequentam a comunidade exibem essa faceta hipócrita, mas aos poucos e muitas vezes sem diálogos a imagem deles de seres perfeitos caem por terra. Ao redor da piscina cristãos e não-cristãos dividem espaço, como as duas amigas de Henry que nada têm a ver com os da comunidade da igreja, todos se adaptando e curtindo o momento, com o passar das horas conhecemos mais os personagens, no caso Henry está ainda se descobrindo e tentando não demonstrar, por outro lado há um personagem atormentado pelo fato das pessoas não o compreenderem, julgam e negam a verdade. Essa repressão destrói o ser humano de um jeito irreversível. Vemos personagens bebendo escondido, assistindo coisas proibidas, personagens que apenas apontam o dedo e que foram para criticar o modo dos jovens, esses que em vários diálogos exibem ideias retrógradas e preconceituosas. Sem dúvidas, uma baita crítica a essas comunidades ditas perfeitas que pregam o amor e que na verdade só disseminam ódio, que fazem as pessoas se sentirem péssimas por aquilo que elas são e assim repreender suas vontades e seus desejos.

O filme segue com um ritmo tranquilo e as situações vão se apresentando naturalmente e sem necessariamente serem resolvidas, o realismo é a grande marca do longa, assim como as sensíveis interpretações, os olhares e a maneira de se comportarem nos revela muito mais do que qualquer diálogo, as tensões e os desconfortos são delineados com sutileza, porém sempre com uma imensa dose de reflexão. A trilha sonora também ajuda a conduzir a trama, na festa o pai permite que Henry coloque as suas playlists, somos envolvidos por canções que mesclam melancolia e sensualidade, como "Only For You", de The Pass, "Everyone is Dark", de New Canyons, "Mylene", de YAWN, entre tantas outras.

"A Festa de Aniversário de Henry Gamble" trata da repressão sexual no meio cristão de maneira sincera e vai pincelando os problemas de cada personagem para expor o como encaram a homossexualidade, desejos e a liberdade; o falso moralismo é gritante e incomoda. É um filme bonito, crítico e encantador!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Atração (Córki Dancingu)

"A Atração" (2015) dirigido pela polonesa Agnieszka Smoczyńska é um musical excêntrico que tem como tema sereias, mesclando drama, comédia, musical e horror o resultado final é original e surpreendente. Baseado  no conto de fadas de Hans Christian Andersen "The Little Mermaid", publicado em 1837, a obra segue duas irmãs, Prateada (Marta Mazurek) e Dourada (Michalina Olszanska), que são sereias. Com fome de amor e de carne, as duas chegam a Varsóvia, assumem uma forma humana e vão trabalhar num clube noturno. Contudo, quando uma delas se apaixona, surge a inveja, a obsessão e com isso o perigo.
Numa bela noite, Prateada e Dourada surgem e encantam um grupo de amigos músicos, que as levam e as acolhem no clube onde trabalham, lá começam a fazer alguns números que chamam bastante atenção do público, com o passar do tempo se apegam à forma humana, principalmente, Prateada que se apaixona pelo guitarrista vivido por Jakub Gierszal - Sala do Suicídio (2011), os dois tentam ficar juntos de qualquer maneira, mas pelo fato de serem de espécies diferentes atrapalha, porém ela o seduz e mostra que pode ser possível, como a cena da banheira, onde ela mostra o corte em sua grande cauda, a bizarrice toma conta da história e é preciso embarcar na proposta, é realmente diferente, a lenda da sereia não ganha tons suaves apesar de todo o romance envolvendo os personagens, as sereias são maliciosas e a paixão logo se torna uma obsessão difícil de controlar, a vontade de ser inteira e vivenciar o amor domina Prateada e as consequências de seu ato são trágicos, enquanto isso sua irmã experimenta inveja, raiva e começa a agir conforme seu instinto. 
As atrizes encarnam com destreza as sereias e nos passam exatamente toda a aura misteriosa, sensual e sangrenta, Michalina Olszanska (Eu, Olga Hepnarová - 2016) está hipnotizante e demonstra tudo pelo olhar, a raiva por sua irmã ter se apaixonado, pois a ideia era só de passarem pelo local e seguirem viagem, tudo isso sem comer ninguém, mas nada dá certo e as duas entram em atritos, também o dono do clube as usam, cantam e dançam sem receberem nada, os clientes do bar ficam loucos a cada apresentação, o clima de lascívia impera, os números musicais tem um quê de comédia ao mesmo tempo que fascina, além de a história caminhar também por um tom de melancolia. As cores vibrantes se mistura ao macabro, Prateada quer de todo jeito se tornar humana, ter pernas e um órgão genital para enfim ser amada, só que o moço apenas a usa e deixa claro em várias partes que por ela ser de uma espécie diferente nunca dará certo, e quando ela decide passar por uma bizarra cirurgia em prol dessa paixão aí é que tudo dá errado e Prateada se dá conta, uma metáfora maravilhosa sobre preconceito e exploração. 

A trilha sonora é a grande protagonista e é numa vibe anos 80 que tudo se dá, são canções originais em polonês e outras repaginadas, como "Byłaś Serca Biciem", de Andrzej Zaucha, além de contar com coreografias divertidas, como a sequência inicial com a música "I Feel Love", de Donna Summer. Para quem não gosta de musicais cansa ver tantas sequências de canto e dança, a narrativa às vezes se perde nessa loucura toda, mas ao todo é uma produção que com certeza deixará alguma marca, a ambientação estilizada, a comunicação entre as irmãs com sequências de sons arrepiantes, a cauda nada bonita e impressionantemente longa, as cenas macabras e pela lenda ser retratada com tanta personalidade.

"A Atração" é um filme incomum que conta com interpretações brilhantes e cativa por sua estranheza por misturar gêneros, é divertido e sedutor ao trazer alguns conflitos morais e sentimentais numa fábula de sereias com toques de horror, provoca com as esquisitices e termina poeticamente interessante. Uma boa pedida para quem busca por produções que não seguem cartilha.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Coro (Chorus)

"Coro" (2015) dirigido por François Delisle (Le Météore - 2013) é um filme pesado, difícil de assistir, retrata uma dor profunda, o luto pela perda de um filho, o tempo que não sana as feridas, os sentimentos confusos, culpa e saudade que se misturam, o trauma e as  lembranças que inevitavelmente surgem e o quão penoso é seguir adiante. Aborda de maneira intimista, simples e direta o sofrimento e o quanto solitário é passar por ele.
Um casal separado reúne-se novamente depois de 10 anos quando encontram o corpo do filho desaparecido. Ambos lidam com a morte do filho a sua própria maneira. Em meio a culpa de perder um ente querido, eles tentam aceitar a morte e até mesmo a possibilidade de reconciliação. 
A angústia transpassa a tela, a fotografia em preto e branco já anuncia o peso, a história abre com um homem fazendo uma confissão, o como conheceu um garoto de 8 anos num parque, é claro desde o início, não há espaço para nenhum suspense, de cara sabemos o que aconteceu, o menino despareceu há 10 anos, os pais se separaram tamanha a dor de conviverem juntos, Christophe (Sébastien Ricard) encontrou refúgio no México, o mar e o sol acalmando o redemoinho em seu coração, Irene (Fanny Mallette) canta em um coral, mas isso não a alivia, entra em pânico toda vez que encontra crianças ou pessoas conhecidas, a reação delas varia entre tentar consolar, o que é impossível, pois a dor é um sentimento solitário, ou ignorar o acontecido e conversar sobre outras coisas, isso acaba a destruindo ainda mais, são tantos pensamentos que lhe atormentam, "se eu fosse buscá-lo aquele dia na escola", esse "se" a consome, mas tudo vem à tona de fato quando o corpo é encontrado depois de 10 anos, o casal se reencontra e precisa lidar com o funeral, a confissão do assassino, uma das cenas mais cortantes, e novamente com o adeus ao filho. A convivência entre eles é estranha, pouco dialogam, mas respeitam a dor que cada um sente, não há como reverter e nem seguirem juntos, eles trocam olhares e se abraçam e até revivem o amor, mas não há um caminho juntos, o sofrimento é maior, a culpa é bem evidente nos dois, a sensação de não ter sido bons pais e também é intenso quando pensam o que poderiam ter vivido com o filho, ele teria 18 anos e uma das cenas mais representativas é quando surge um amigo da infância dele e os pais esboçam pela primeira vez um reconforto e uma tranquilidade, principalmente ao lerem uma carta que o filho deles destinou ao amigo. 

A história não exibe adornos e a direção mantém uma certa distância, o que possibilita observar os pontos de vista de cada personagem e não o tornar melodramático apesar de toda a dramaticidade, explora brilhantemente as nuances do emocional, os conflitos internos, as necessidades e carências quando se está em luto e revela a realidade, o embaçamento do cotidiano, a inércia causada pela perda. A mãe de Irene tenta ajudar quando ela tem seus rompantes, o pai de Irene se suicidou não fazia muito tempo e esse luto ainda estava presente, Irene até questiona o porquê da mãe não chorar e ela responde que era para protegê-la, nesta parte expõe a revolta, a raiva da perda, um certo egoísmo também, a negação em ser ajudada pela mãe, que diz estar fazendo o melhor. Do outro lado Christophe volta a rever o pai depois de 10 anos, um reencontro silencioso e cuidadoso, ambos perguntam se têm raiva um do outro, o silêncio é a melhor opção, pois palavras e ações nada valem quando se está dilacerado.

"Coro" traz uma história cruel com muita sensibilidade e introspecção, este tema costuma ser rejeitado pelo público, é complicado refletir sobre a perda, luto, a dor incomensurável, mas depois do término somos surpreendidos por uma obra com argumento preciso, real e imensamente poderoso. A trilha também é impecável, tanto com as músicas cantadas pelo coro, quanto as que tocam em seu final, a banda canadense Suuns foi uma descoberta maravilhosa.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Monstro no Armário (Closet Monster)

"O Monstro no Armário" (2015) escrito e dirigido por Stephen Dunn é um belo filme com uma história realista e que traz momentos vividos na infância do protagonista que ficam marcados e que mais tarde pesarão na personalidade e nas escolhas. 
Oscar Madly (Connor Jessup) é um adolescente emocionalmente instável e traumatizado, porém muito criativo que deseja fugir das memórias de sua infância complicada e dolorosa. Certo dia, sua vida muda por completo quando um hamster falante (Isabella Rossellini) o ajuda a descobrir sua identidade.
Quando pequeno Oscar (Jack Fulton) vivenciou a separação dos pais, a mãe foi embora de casa por estar sufocada pela possessividade e descontrole do marido e o garoto sofreu as consequências, o pai (Aaron Abrams) supriu de maneira carinhosa a ausência da mãe mesmo com todos os seus defeitos, inclusive o preconceito, mas observamos cenas de afeto entre eles, outro trauma importante foi a agressão cometida contra um garoto num cemitério perto de sua escola por um grupo de homofóbicos, a imagem que ele viu marcou sua trajetória de se descobrir e se aceitar. Ainda na infância ele ganha um hamster do qual será um grande companheiro e conselheiro, pois esse hamster fala na imaginação dele, na adolescência vemos um jovem solitário que se expressa através de sua arte com maquiagem e fotografia, seu sonho é estudar numa prestigiada escola de arte cinematográfica em NY, Gemma (Sofia Banzhaf) é sua única e presente amiga, o pai de Oscar pensa que ela é sua namorada, pois não quer pensar que seu filho possa ser de fato gay. Oscar é reprimido e vive angustiado pelos traumas passados, sua mente sempre volta ao abandono da mãe e a violência presenciada. 
Oscar precisa enfrentar o monstro que habita em si quando se apaixona por Wilder (Aliocha Schneider), um colega de trabalho descolado que vai abrindo as portas para que ele se liberte, não é um processo fácil, a sua jornada é angustiante, sofre decepções, experimenta momentos de fúria e uma enxurrada de sentimentos. A aceitação de sua sexualidade é dolorida, toda uma gama de lembranças ruins voltam e o ataca, as imagens da violência, as palavras do pai sobre cortar o cabelo para não aparentar ser gay, as meninas da escola fazendo o teste das unhas e o abandono da mãe. São sensações conflituosas que Oscar sente, as brigas com o pai sobre ele ser um derrotado e ainda sentir mágoa pela esposa tê-lo abandonado, as roupas que ele se recusa a devolver e que são guardadas no armário no quarto de Oscar. Essas coisas atingem ele de forma monstruosa, esmagando tudo o que ele é.

Nos aproximamos bastante do personagem e criamos um vínculo emocional com a história, Oscar interpretado por Jack Fulton na infância é brilhante e consegue passar com sua postura toda a dificuldade de uma criança para lidar com o abandono da mãe e presenciar uma agressão brutal. Outra coisa é o comportamento instável do pai, que passa de zeloso e gentil para ignorante e frouxo. Bastante perturbador para Oscar ter crescido nestas circunstâncias e vemos na interpretação de Connor Jessup as consequências, totalmente angustiante, o jovem não experimentou quase nada a vida e pouco sabe de si mesmo, claro que sabe que é diferente, mas não sabe lidar com o que está aflorando dentro de si. Uma poética e sensível interpretação.
O filme é lindo em todos os quesitos, fotografia de encher os olhos e que estimula sentimentos, trilha sonora que brinca com as nuances da música eletrônica, enquadramentos certeiros, ângulos asfixiantes e também o uso da câmera lenta, tudo evidenciado as emoções, criando uma atmosfera tensa e provocando ansiedade no espectador. 

"O Monstro no Armário" reflete o quanto situações traumáticas vividas na infância podem moldar mais a frente a personalidade e definir escolhas, reprimindo e estragando várias experiências, desmotivando a autoaceitação e gerando mágoa e solidão. Um filme delicado, minucioso, esteticamente notável e que demonstra de forma real os conflitos de relação com a família e consigo mesmo. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vovó Está Dançando na Mesa (Granny's Dancing on the Table)

"Vovó Está Dançando na Mesa" (2015) dirigido pela sueca Hanna Sköld (Velhos Asquerosos- 2009, primeiro filme livre, produzido sob a licença Creative Commons, sua estreia ocorreu no The Pirate Bay) é um filme que mescla live-action e o stop-motion, uma junção bastante interessante e ousada dentro do contexto pesado e doloroso do longa, que foi produzido por uma campanha no Kickstarter. O stop-motion é utilizado para contar o passado, ele é todo narrado pela protagonista que não articula nenhuma palavra em seu cotidiano, nem um mínimo som, apavorante acompanhar seu monótono dia a dia. Eini (Blanka Engström) é uma jovem garota de 13 anos que vive nas profundezas das florestas suecas com seu pai (Lennart Jähkel). Porém, a morada na natureza não é um refúgio, mas sim um pesadelo, já que o pai de Eini é um feroz maníaco controlador e um fanático religioso que regularmente conta os poucos bens da casa para descobrir as infrações de Eini. Em meio a esse caos, a garota encontra na remota figura da avó, além de sua própria imaginação uma importância quase mítica, tanto como símbolo de liberdade, quanto razão para o seu atual sofrimento e que permitem que ela crie um mundo interior e encontre força para sobreviver.
Eini segue uma série de regras rígidas, o pai é violento e o menor deslize seja ele de qualquer natureza gera punição à menina, são cenas tensas, por exemplo, na contagem dos utensílios da cozinha, onde o silêncio sufoca e deixa-nos esperando pelo pior. O clima de opressão pesa, só quando o pai sai para buscar alimentos, Eini tem lampejos de vida, ao encontrar um rádio, ao passear pela floresta, vestir outras roupas e ao recorrer a sua imaginação para relembrar a sua infância ao lado da avó. A história de sua avó e de sua mãe é contada por Eini, os únicos momentos em que escutamos sua voz, a técnica do stop-motion nos conduz para uma fábula rude e perturbadora, que retrata um histórico de violência e submissão. São retratados duas figuras femininas opostas, a avó de Eini junto à irmã que precisa se mudar para a casa de um homem rico, este que se mostra abusivo e opressor, a avó de Eini vai embora depois de dar à luz e segue sua vida na cidade grande. O pai de Eini então é criado por esse homem violento, o menino presencia agressões e acredita que não há outro modo de vida, ele perpetua esse gesto na criação de sua filha, a afastando do mundo civilizado e sob muita opressão e abuso. 

O desconforto na interação entre pai e filha é extremo, é triste toda a situação, a menina não tem vida nos olhos, nos perguntamos porquê não foge, mas com o desenrolar percebemos que aquela é a única vida que conhece até então, e sim, ela quer sair desse ambiente claustrofóbico, mas, infelizmente, não sabe como, em outros momentos adentramos em seus desejos profundos, onde ela sonha em arrancar a própria mão, um sinal de que ela quer uma mudança. Isso tudo acontece aliado a sua transição, o despertar sexual, o que lhe dá mais impulso para deixar e acabar com essa vida.
O filme vai alternando entre o cotidiano de Eini com as passagens em stop-motion retratando a história da avó e de sua mãe e, que inclusive, são muito perturbadoras, desde o estilo dos bonecos à carga da história, de toda a violência e visão estreita que o jovem presenciou e então reproduz mais tarde com Eini. Há algumas cenas contrastantes com o ritmo do filme, o que causa agonia e revolta, a violência e o silêncio incomoda e esperamos demais que esse ciclo se rompa.

Triste e incômodo, mas extremamente necessário, "Vovó Está Dançando na Mesa" toca num assunto importante, o abuso e violência passada de geração em geração. A perspectiva dura do filme serve para provocar, pois só com elucidação, conhecimento que esse tipo de mentalidade pode ser rompida e eliminada da sociedade.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Flesh and Bone (Série)

"Flesh and Bone" (2015) do canal Starz, criada por Moira Walley-Beckett, roteirista de primeira, alguns de seus trabalhos inclui "Breaking Bad" e "Anne with an E". Esta série sombria retrata as entranhas do mundo do balé e prometia ser uma inovação, mas, infelizmente, não vingou e se tornou uma minissérie de apenas 8 episódios. É uma história intrigante e perturbadora que trabalha em cima das obsessões.
A personagem central, Claire Robbins (Sarah Hay) busca se tornar uma bailarina de sucesso, para isso foge de Pittsburgh para NY e logo na primeira audição adentra na prestigiada academia de Ballet de NY, mas a rapidez com que tudo acontece, sua ascensão dentro do corpo de balé junto a problemas pessoais e emocionais torna tudo muito inquietante.
Claire tem feição assustada, mas por outro lado é determinada, exibe seu talento e encanta logo de primeira o rígido e arrogante Paul (Ben Daniels), isso provoca a ira das outras meninas, pois ela se destaca e é convocada para ser a primeira bailarina de um espetáculo que está sendo montado, aliás tudo muda e monta-se um espetáculo novo devido a sua entrada. A pressão e a inveja dentro do ambiente é tóxico e é preciso muito autocontrole, além de que o trabalho é maçante para buscar a perfeição, não há espaço para erros, ali estão os melhores dos melhores. Claire acaba dividindo um apartamento com Mia (Emily Tyra), uma garota com problemas alimentares, a relação é distante e a competição não só entre elas, mas com todos é obsessiva, algo muito, mas muito bem retratado na série, a obsessão está em todos os setores, seja na dança, ou na vida pessoal, Claire tem uma relação tensa com seu irmão, ele a ama e ela também, mas esse sentimento conforme vemos é sufocante tamanha a sua complexidade, é um baita estudo psicológico. Há outros personagens intrigantes na história, como Romeo (Damon Herriman), um mendigo que vive em cima do prédio em que Claire e Mia moram, ele é uma incógnita, parece ser amigável, porém sua mente viaja e as coisas envolvendo Claire o afetam de maneira obsessiva também.
Logo de início percebemos que não será nada fácil para Claire se adaptar, o mundo que está se abrindo é traiçoeiro, é preciso se submeter a alternativas sórdidas, Claire não se encaixa, mas ao mesmo tempo flerta com essas possibilidades, ela não é tão meiga quanto aparenta, característica que irrita os outros alunos e que lhe rende vários apelidos. A pessoa que a "ajuda" de certa forma a adentrar neste mundo que se abre é Daphne (Raychel Diane Weiner), que nas horas vagas dança num clube de strip-tease, cujo dono, um russo, é apaixonado por balé. 

A série é apaixonante por vários fatores, começando pelo tema, o balé, que nos presenteia com movimentos belíssimos, coreografias elegantes e vivazes, e o mais interessante, nos permite observar os bastidores, a concepção de um espetáculo, desde os pequenos detalhes ao grand finale, mas até chegar aí muitos sentimentos e obstáculos surgem, o principal deles, a competição, os olhares de inveja e ciúmes chegam a cortar a pele, tanto quanto os machucados de verdade que os bailarinos vão adquirindo com os exaustivos ensaios, é desde perder unhas a problemas de articulações. É uma exímia tour de force. A rigidez ou a própria falta de educação de Paul com todos ali é bastante evidenciada e para quem já passeou por este universo sabe que não é muito diferente disso que está sendo retratado, realmente aguentar a pressão psicológica é mais difícil do que suportar o estresse e dores físicas. Outra questão pertinente que a série aborda são os problemas particulares de Claire que envolvem o irmão, a necessidade um do outro, pelo fato da carência que têm dos pais, sempre foram eles dois e nisto gerou uma relação bastante perturbadora e que moldou a personalidade ambígua de Claire, realmente percebe-se facetas diversas durante a história. 
As interpretações são ótimas, Sarah como Claire irrita por muitas vezes com sua feição, olhos sempre arregalados, em contrapartida, há firmeza e profissionalismo em suas atitudes, principalmente por ter confiança em seu talento, mas quem ganha a tela é Ben Daniels como Paul, um ser humano egoísta, invejoso, falso, solitário e que destila suas angústias sem o menor discernimento, mas que incrivelmente chama nossa atenção, seu olhar penetrante, sua postura e voz cativa.

 
"Flesh and Bone" foi concebida por pessoas que entendem do assunto, e os atores, todos que estão no corpo de balé são de fato bailarinos, a protagonista Sarah Hay, atualmente é solista do Ballet Semperoper em Dresden, na Alemanha - sua primeira atuação foi no filme "Cisne Negro" em 2010. A ex-bailarina Irina Dvorovenko (American Ballet Theatre) que interpreta Kiira, a mais velha, que já está numa fase complicada, porém a mais profissional e a única que Paul respeita, ela tem prestígio, mas devido a lesões e o uso de drogas para amortecer a dor sofre pressão para parar e enfim pensar na vida particular, a chegada de Claire é um baita agravante nisto tudo. Outro excepcional bailarino é Sascha Radetsky (American Ballet Theatre) que dá vida a Ross, ele é a perfeição, seus movimentos hipnotizam.

Com um vasto número de personagens interessantes a série acaba não dando chance para o desenvolvimento deles, alguns são deixados de lado e outros tem desfechos desinteressantes dentro de todo o contexto em que foram envolvidos, como Romeo e Mia, o que demonstra o quanto a série tinha potencial, mas não deixa de ser impecável quanto ao tema principal, o balé e seus meandros, a obscuridade por trás de algo tão belo, os movimentos; o corpo. 
Não posso terminar e não dizer sobre a abertura, assombrosamente linda com a canção "Obsession" de Karen O, juntamente à coreografia de Ethan Stiefel. Uma série apaixonante e perturbadora, traça perfis complexos e que sugere muitas discussões, variadas visões e aprendizados. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi)

"Nas Estradas do Nepal" (2015) dirigido pelo estreante Min Bahadur Bham retrata um pouco dos efeitos da guerra civil no Nepal entre 1996 a 2006, os preceitos maoístas de um lado e o governo monárquico do outro e no meio pessoas simples tentando sobreviver, além de que tradições como o sistema de castas também são empecilhos e dificultam a vida nas aldeias. O filme tem um tom natural e une a ficção com a realidade, semidocumental, os atores não profissionais têm uma sintonia de amizade verdadeira e exprimem inocência, amor e esperança em meio à calamidade da guerra.
Estamos no ano de 2001, e um cessar-fogo temporário traz uma ruptura tão necessária para uma pequena aldeia devastada pela guerra no norte do Nepal, trazendo muita alegria entre os moradores. Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya), dois jovens muito amigos, também estão começando a sentir a mudança no ar. Embora sejam divididos por castas ou credos sociais, eles permanecem inseparáveis e começam a pensar na galinha dada a Prakash por sua irmã, com a esperança de economizar dinheiro com a venda dos seus ovos. No entanto, um dia a galinha desaparece. Para encontrá-la, eles embarcam em uma jornada, mas inocentemente desconhecem a tirania trazida pelo frágil cessar-fogo.
Prakash é muito pobre e faz parte dos dalits, seu único elo afetivo depois que a irmã foge para lutar ao lado dos maoístas é uma galinha chamada Karishma e seu amigo de uma casta superior Kiran, família da qual seu pai trabalha. Acompanhamos a rotina da aldeia cheia de tradições e festividades, inclusive por causa da visita do rei todos devem dar suas galinhas, mas Prakash esconde a sua e espera poder vender os ovos para comprar ingressos e ir ao cinema, o que se destaca é a pureza e a inocência dessas crianças e também o como estão isentas dos preconceitos devido a suas diferenças nesta sociedade. O pai de Prakash acaba vendendo a galinha por achar que ela traz mau agouro, porém Prakash junto de seu amigo vão atrás e tentam recuperar o animal, negociam e dizem que levarão todo o dinheiro em três dias, são muitas as adversidades em volta desse desejo de ter a sua adorada galinha de volta, seu amigo se mostra companheiro e leal e o ajuda muito, mas cada vez mais essa saga se complica. A situação do país se agrava e tudo nos é mostrado com naturalidade e em etapas, para Prakash é confuso e vemos o seu ponto de vista através de seus sonhos. Nestes momentos o filme hipnotiza com as imagens, imergimos em cenas angustiantes, especialmente, quando Prakash anda enquanto o resto está estático. A jornada de Prakash junto de seu amigo Kiran em busca de Karishma é linda, arrebatadora, realista e também simbólica.

É com singeleza que a história se desenrola, aos poucos e dolorosamente compreendemos a situação crítica dos habitantes, dos direitos negados, da pobreza, injustiças e da miscelânea de religiões e culturas, riquíssimo em sua linguagem, seja em seus personagens, paisagens e cenas simplórias. É um filme necessário, pois quase nada sabemos desse caos vivido pelo Nepal, onde mais de 12.700 vidas foram dizimadas, toda a questão sociopolítica e a relação de castas são expostas com muita sutileza, mas mesmo diante desse doloroso quadro a beleza se sobressaí e isso se deve as inspiradas interpretações, os meninos passam total sensação de amizade, mesmo com tudo indo contra permanecem juntos e esse retrato tem a função de quebrar barreiras e propiciar críticas e reflexões. 

O cinema tem essa linda missão de mostrar culturas e tradições desconhecidas, de expor as dores e as belezas do mundo, de tirar do espectador o máximo de emoções verdadeiras, "Nas Estradas do Nepal" cumpre esse papel, entrega uma história delicada com diversas camadas e que instiga a querer saber mais sobre esse período histórico e os costumes locais do Nepal. Une ficção e realidade, beleza e dor, inocência e maldade, violência e esperança, e acima de tudo, solidariedade. Para coroar esta produção a música tema é de arrepiar de tão poderosa!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cordeiro (Lamb)

"Cordeiro" (2015) dirigido pelo estreante Yared Zeleke é um filme autêntico que retrata a cultura etíope e todas as dificuldades de se viver em um local onde reina machismo, preconceitos e ignorância. É um filme importante por se tratar de uma ficção em tom naturalista, ou seja, conhecemos e ficamos próximos da realidade vivida pelo protagonista, ao mesmo tempo que entretê também informa, a simplicidade da história encanta, a sutileza dos detalhes, a cultura é totalmente diferente, mas os sentimentos são universais: amor, amizade e esperança.
Ephraim (Rediat Amare) tem nove anos e acaba de perder sua mãe, ele vive com o pai em uma aldeia no norte da Etiópia, a maior preocupação do pai é o que irá comer já que não tem mais mulher, Ephraim tem talento na cozinha, mas mesmo assim o pai decide ir embora atrás de trabalho na cidade, então Ephraim fica aos cuidados do tio em uma outra aldeia inóspita no sul da Etiópia, sua única companhia é seu cordeiro, ou melhor, a ovelha estéril Chuni, que em breve será abatida, a família passa por dificuldades e desnutrição. Ephraim desesperado para salvar seu único amigo se arrisca e cada vez mais vai ganhando a antipatia do tio. Ephraim tem a ideia de vender samosas - um tipo de pastel - no mercado, porém com a escassez de tudo na casa fica difícil, mas ideias é que não faltam ao menino, então começa a preparar e vender, dando uma parte do dinheiro para a tia e o restante guarda para poder ir embora e encontrar seu pai, sua vida ali é uma agonia, na maior parte do tempo invisível e na outra um intruso. Sempre com um ar reflexivo, Ephraim vai levando seus dias, sozinho e sem nenhum carinho, apenas anda de lá pra cá com a ovelha, na casa do tio mal come, a comida é insuficiente e então sua ovelha está com os dias contados, mas ele elabora um plano junto de Tsion (Kidist Siyum), que bem aos poucos se afeiçoa a ele, Tsion é uma personagem extremamente interessante e que destoa da maioria, pois tem uma mentalidade aberta e não deseja se casar apenas para procriar e alimentar esse círculo fechado do machismo, onde mulher não estuda e só tem como missão cuidar da casa, todas as cenas em que está presente existe uma crítica acerca desses assuntos. 

A fotografia explora o contraste, rico em cores e uma paisagem deslumbrante e a pobreza por outro lado, uma miséria que assola não só a condição física, mas também a psicológica.
A delicadeza em Rediat Amare é admirável, sua força em persistir mesmo tendo que se arriscar em um meio onde o menor deslize pode ter sérias consequências, além de que ele é uma criança em fase de transição e sua personalidade denota um ser humano sensível e com talentos que são considerados femininos, como cozinhar, é doído ver o desamparo estampado em seus olhos, a solidão, a pobreza em todos os quesitos é desolador. 

"Cordeiro" exemplifica com Ephraim e Tsion a sociedade jovem que mora em locais onde existem muitas tradições, essas nem sempre bonitas, mas que causam danos ao progresso, pensamentos fechados devido a inúmeras questões, como religião e pobreza, essa sociedade jovem está em busca de outros rumos, como estudar e definir sua personalidade por si mesmo, há um ponto extremamente interessante na trama que é a questão de gênero, Ephraim preferindo cozinhar do que arar a terra junto ao tio, por exemplo. É um filme agridoce e delicado que passeia por essa cultura tão distante da nossa, mas que traduz sentimentos universais. Uma obra que une ficção e realidade com esmero e sensatez. 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

The Fits

"The Fits" (2015) dirigido pela estreante Anna Rose Holmer abarca o tema rito de passagem feminino com um quê de mistério e passeia pelo suspense ao retratar um certo tipo de histeria que acomete as meninas e que seria contagioso, uma excelente e intrigante metáfora para explicitar o quão difícil é o despertar da adolescência feminina.
Toni (Royalty Hightower), tem 11 anos de idade e sua rotina se resume a treinar boxe junto de seu irmão que também cuida do ginásio, constantemente ela está em meio aos rapazes, mas Toni ao visualizar as aulas de dança das meninas que se preparam para uma competição se apaixona pela confiança e força dos movimentos, não demora e ela entra no grupo, porém não é muito aceita e desde antes era motivo de risos por estar dentro do mundo masculino, então se esforça ao máximo para aprender os passos e fazer parte do grupo, o desejo de ser aceita vem com outras descobertas e transformações. De repente, começa a acontecer surtos epilépticos nas meninas mais velhas e que deixam as menores com medo, pois diz-se que é contagioso, e à medida que a narrativa se desenrola novos ataques são retratados e Toni vai descobrindo esse mundo novo que se abre diante de si.
Toni é uma menina que até então teve apenas referências masculinas e que inspirada pelo irmão praticava boxe e se socializava apenas com os garotos, as conversas eram sobre meninas e sexo, o que acabava a isolando independentemente de estar no meio. Ao se inserir no mundo da dança ela encontra novas possibilidades e a partir do momento que ela se conecta ao grupo vai experimentando e se redefine.
A interpretação de Royalty Hightower é delicada e profunda, somos conduzidos por suas expressões e gestuais, a câmera fixa em seu rosto por vários momentos e nos tornamos cúmplices, o filme não possui muitos diálogos, a potência está justamente nas imagens, Toni vai vivenciando os seus anseios, como na cena em que fura a orelha para pôr os brincos, um símbolo que identifica as meninas dos meninos, ou quando passa o esmalte, dessa maneira, consequentemente, vai conhecendo a si mesma e achando seu lugar.

"The Fits" é um filme independente com atrizes amadoras da comunidade local, Royalty Hightower é um achado e merecia ganhar diversos prêmios por ter desempenhado seu papel com tamanha beleza, outro destaque são as cenas de dança tão enérgicas e que fazem um elo magnífico com o despertar e as sensações que advém disso. De estilo peculiar e ritmo lento, a aura misteriosa permeia a narrativa e expõe toda a complexidade e magia do desabrochar feminino.