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sábado, 24 de fevereiro de 2018
15 Filmes sobre Sonhos (15 Dream Movies)
Segue uma lista que explora o universo dos sonhos, suas camadas, seus mistérios, suas belezas, o onírico se mesclando à realidade, são diversas as obras que passeiam por essas características, portanto, os listados são apenas uma pequena amostra do quão fascinante é quando inconsciente e consciente se unem.
Cesar (Eduardo Noriega) é jovem, rico e bonito. Em torno dele, duas mulheres (Penélope Cruz e Najwa Ninri), mas uma armadilha do destino vai fazer com que ele viva um pesadelo terrível. Tudo começa com um acidente, em que sua namorada morreu e seu rosto foi desfigurado e, para piorar as coisas, ele foi acusado de assassinato e condenado. Ainda na prisão, se submete a várias cirurgias e consegue recuperar seu belo rosto. Mas começa a apresentar um comportamento estranho, que intriga o psiquiatra local.
14- "Sonhando Acordado" (La Science des Rêves - 2006) de Michel Gondry
Stephane Miroux (Gael García Bernal) vê seus sonhos invadirem constantemente a vida real. Quando dorme, se transforma no carismático apresentador do programa "Stephane TV", explicando sua "ciência dos sonhos" na frente das câmeras de papelão. Na vida real, tem um trabalho chato numa editora de calendários em Paris. Ele flerta com a vizinha Stephanie (Charlotte Gainsbourg), mas a moça não está disposta a encarar alguém como ele. Guy (Alain Chabat), colega de trabalho de Stephane, até tenta ajudá-lo na conquista, mas nada funciona. Incapaz de chegar ao coração de Stephanie na vida real, Stephane procurará as respostas em seus sonhos.
13- "Ladrão de Sonhos" (La Cité des Enfants Perdus - 1995) de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro
Krank (Daniel Emilfork) envelhece numa nebulosa torre aquática por não poder sonhar e tenta resolver a sua limitação sequestrando as crianças das cidades vizinhas para lhes roubar os sonhos. One (Ron Perlman), um caçador de baleias, forte como um cavalo, sai em busca de Denree, seu irmão mais novo que fora sequestrado pelos homens de Krank. Com a ajuda da menina Miette (Judith Vittet), logo eles chegam na cidade das crianças perdidas.
12- "Rabbits" (2002) de David Lynch
É assustador, estranho e até mesmo engraçado. Rabbits é a mãe e o pai de todos os pesadelos. A atuação, os movimentos, as luzes e as câmeras nos levam ao pavoroso e indecifrável mundo do subconsciente, do qual nunca mais iremos querer acordar.
11- "Alice" (Neco z Alenky - 1988) de Jan Svankmajer
Quando Alice seguiu o Coelho Branco no País das Maravilhas, iniciou-se assim uma surpreendente e perigosa aventura onírica pelo mundo infanto-juvenil. O animador tcheco Jan Svankmajer criou uma obra-prima, interpretando de maneira mais surreal e absurda possível o clássico conto de Lewis Caroll. Combinando técnicas de animação e atores reais, ele deu uma nova e fascinante dimensão para uma das melhores fantasias já escritas.
10- "Dream" (Bi-Mong - 2008) de Ki-duk Kim
Jin acorda depois de ter sonhado com um acidente de trânsito ao estar seguindo sua ex-namorada. Guiado pelo sonho, chega até o lugar dos fatos e ali se encontra com o acidente, que realmente aconteceu, e que aconteceu exatamente igual ao seu sonho. Ele segue a polícia até a casa da suspeita, Ran, e alí é testemunha de como ela nega a acusação de atropelamento e fuga, já que declara ter dormindo toda a noite. Jin explica seu sonho aos policiais e pede que acusem ele no lugar dela. A polícia o vê como um louco e prende Ran. Jin logo percebe que, cada vez que ele sonha, Ran, sonâmbula, representa inconscientemente seu sonhos na vida real.
09- "O Congresso Futurista" (The Congress - 2013) de Ari Folman
Uma atriz em fim de carreira (Robin Wright) decide aceitar uma proposta ousada, mas muito bem paga, para ter melhores condições de cuidar de seu filho, portador de deficiência física. Segundo o acordo, ela deve colaborar com uma empresa que vai fazer uma versão digital de sua imagem, criando assim uma atriz virtual idêntica à ela mesma. Enquanto a empresa pode utilizar essa imagem virtual para os fins que desejar, a atriz real será proibida de atuar até o resto de sua vida. Aos poucos, ela começa a perceber as consequências catastróficas da atitude que tomou.
08- "A História de Marie e Julien" (Histoire de Marie et Julien - 2003) de Jacques Rivette
Julien (Jerzy Radziwilowicz) é um relojoeiro frustrado de 40 anos, que está chantageando Madame X (Anne Brochet): ele sabe de coisas misteriosas que a envolvem no tráfico de objetos antigos, mas desconhece a ligação entre ela e a sublime Marie (Emmanuelle Béart), por quem Julien havia se apaixonado perdidamente cerca de um ano antes. Tendo reencontrado a amada, ele percebe que algo mudou no seu comportamento: apesar do seu crescente amor por Julien, Marie parece incapaz de encontrar a sensação das coisas. Julien fará o que puder para ajudar Marie a se liberar desse estado.
07- "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Dr. - 2001) de David Lynch
Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.
06- "Corpo e Alma" (Testről és Lélekről - 2017) de Ildikó Enyedi
Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, duas pessoas que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação se mostra ainda mais complexa. Saiba+
05- "Paprika" (Papurika - 2006) de Satoshi Kon
Num futuro próximo, o Dr. Tokita (Tôru Furuya) inventa um poderoso aparelho chamado DC-Mini, que torna possível o acesso aos sonhos das pessoas. Sua colega, a Dra. Atsuko Chiba (Megumi Hayashibara), psicoterapeuta e pesquisadora de ponta, desenvolve um tratamento psiquiátrico revolucionário a partir do aparelho. Mas, antes de seu uso ser sancionado pelo governo, o DC-Mini é roubado. Quando vários dos pesquisadores do laboratório começam a enlouquecer e a sonhar em estado de vigília, Atsuko assume seu alter-ego, Paprika, a bela "detetive de sonhos", para mergulhar no mundo do inconsciente e descobrir quem está por trás da tragédia.
04- "Sereia" (Rusalka - 2007) de Anna Melikyan
Era uma vez, uma garota chamada Alisa, que morava numa cidade litorânea, cantava no coral, sonhava em ser bailarina e tinha um dom: transformar desejos em realidade. Aos seis anos, ela parou subitamente de falar e passou a frequentar uma escola especial. Aos 17 anos, se mudou para Moscou e o destino a levou a conhecer um homem com um profundo desejo de ser salvo e protegido. Alisa decidiu ajudá-lo, sem saber que sua vida mudaria para sempre. Saiba+
03- "O Fantasma da Sícilia" (Sicilian Ghost Story - 2017) de Antonio Piazza e Fabio Grassadonia
Giuseppe (Gaetano Fernandez) é um corajoso garoto de 13 anos de idade, que desapareceu nas mediações de uma misteriosa floresta localizada na pequena aldeia em que vivia. A única pessoa que parece não se conformar com o sumiço dele é a pequena Luna (Julia Jedlikowska), que está disposta a enfrentar todos os perigos para resgatar seu amigo. Saiba+
02- "Acordar para a Vida" (Waking Life - 2001) de Richard Linklater
Após não conseguir acordar de um sonho, um jovem passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário, com quem têm longas conversas sobre os vários estados da consciência humana e discussões filosóficas e religiosas.
01- "Sonhos" (Dreams - 1990) de Akira Kurosawa
"Sonhos" é uma obra baseada em sonhos verdadeiros que Kurosawa teve ao longo de sua vida, dividido em oito segmentos destaca-se alguns temas bem recorrentes, como a morte e a guerra. Somos contemplados por tradições e passeamos pela cultura japonesa. Por mais que se fale deste filme nunca será o suficiente, é daqueles que toda vez que é assistido tira-se algo de novo. Saiba+
terça-feira, 16 de maio de 2017
Sereia (Rusalka)
"Sereia" (2007) dirigido pela russa Anna Melikyan (Star - 2014) mescla fantasia à dura realidade vivida pela protagonista com sensibilidade, ternura e naturalidade.
Era uma vez, uma garota chamada Alisa (Mariya Shalayeva), que morava numa cidade litorânea, cantava no coral, sonhava em ser bailarina e tinha um dom: transformar desejos em realidade. Aos seis anos, ela parou subitamente de falar e passou a frequentar uma escola especial. Aos 17 anos, se mudou para Moscou e o destino a levou a conhecer um homem com um profundo desejo de ser salvo e protegido. Alisa decidiu ajudá-lo, sem saber que sua vida mudaria para sempre.
Acompanhamos a vida desta menina desde sua concepção, vinda de uma família disfuncional, Alisa quando criança sonhava em ser bailarina e estava sempre à espera do pai, a ausência da figura paterna e mais a sua solidão nesta cidadezinha litorânea a tornou em uma garota sonhadora e que acreditava possuir poderes. Dada as circunstâncias em sua casa Alisa decide parar de falar e acreditava-se que isso tinha a ver com um eclipse, mas é óbvio que essa decisão foi porquê ela percebeu que sua mãe se irritava quando falava, principalmente sobre o retorno de seu pai, todas essas peculiaridades acabaram dificultando a sua vida e a mãe a colocou numa escola especial, onde passou toda a adolescência. Aos 18 anos Alisa parte para Moscou, tenta a faculdade, mas é incrível como atraí as coisas para ela e sempre de formas estranhas, seguindo em frente começa a trabalhar andando pelas ruas fantasiada de celular gigante e logo depois como faxineira na casa de um rico empresário que vende terrenos na lua, engraçado como nada parece absurdo para ela e segue sorrindo apesar de que não haja indícios de melhoras. Falta malícia, Alisa é de outro universo, tanto que sua aparência denota isso, aliás, ela sente-se ainda mais confortável consigo mesma quando pinta seus cabelos de verde inspirada pelo visual de Milla Jovovich no filme "O Quinto Elemento".
Alisa segue sonhando em se tornar bailarina e acredita que seu grande amor é Sacha (Yevgeni Tsyganov), o cara que tem uma vida luxuosa vendendo terrenos na lua e que sente um vazio gigantesco dentro de si, Alisa o protege, lhe dá afeto, se doa, mas em nenhum momento é retribuída. O amor platônico é alimentado pelo sentimento de tristeza que acomete Sacha, ele convive com ela, desabafa e também é salvo diversas vezes por Alisa, mas ele não se interessa e nem sabe de onde e como ela apareceu em sua casa, são momentos curiosos que demonstram mais a frente que quase nunca a nossa doação é garantia da realização de nossos desejos.
É uma linda fábula moderna que retrata a sociedade russa contemporânea que como qualquer outra metrópole carrega uma forte carga de solidão e caos, pessoas tentando sobreviver e também serem enxergadas, tem um momento muito delicado em que ela fala para Sacha que não é ninguém, mas em nenhum instante perde o lado pueril de sua personalidade, Alisa vai adentrando na vida de alguns personagens e sem eles perceberem são tocados, outro exemplo de troca é a amizade que faz com uma moça que não tem as pernas, são belas passagens que mostram o modo como cada um lida com sua solidão. O mundo está repleto de Alisas, pessoas que não se encaixam e veem tudo de forma diferente.
"Sereia" é um filme de camadas, existem vários assuntos abordados, fascina por seu visual excêntrico todo colorido e também pela analogia feita de maneira super livre do conto "A Pequena Sereia", a ligação com o mar, a forma que essa imagem de sereia é construída em torno dela é muito interessante, desde a sua concepção dentro do mar à conexão com ele na infância e o forte poder de atração que acredita possuir. A realidade e a fantasia se entrelaçam lindamente, é um conto de uma menina comum e deslocada que criou um mundo a partir de sua pureza e solidão. Mergulhamos fundo na vida de Alisa e depois dessa experiência emergimos sentindo e refletindo um bocado de coisas diferentes.
terça-feira, 2 de maio de 2017
Garage
"Garage" (2007) dirigido por Lenny Abrahamson (Frank - 2014 e Room - 2015) retrata um ser humano com grandes características e caráter irretocável, bondoso, inofensivo e puro, porém com uma existência solitária e praticamente insignificante justamente por ter essas qualidades. Todos que o conhecem e convivem com o grandalhão Josie faz deboche e o tem como um sujeito passivo, ninguém o ouve ou quer saber o que se passa, até que um garoto entra em sua vida modificando a sua maneira de ver as coisas e que o fará compreender como infelizmente o mundo realmente é.
Tido por seus vizinhos como um inofensivo desajustado, que motiva bondade, tolerância e ocasional abuso, Josie (Pat Shortt) passou toda sua vida adulta como guarda de um decadente posto de gasolina nos arredores de uma pequena cidade no meio-oeste da Irlanda. Ele é limitado, solitário, apesar de sempre otimista e, ao seu modo, feliz. Até que, durante o decurso de um verão, o mundo de Josie sofre mudanças. Um adolescente, David (Conor Ryan), chega para trabalhar com ele. David gosta de Josie. Eles se abrem um para o outro e de repente o solitário adulto está bebendo cerveja nos trilhos do trem com os garotos da cidade. Josie descobre necessidades pessoais nunca antes despertadas. E Carmel (Anne-Marie Duff), que trabalha na loja local e tem sido sempre amável com ele, provoca sentimentos em seu interior que lutam para se expressar. É quando a vida de Josie muda perigosamente para sempre.
É com amabilidade que acompanhamos a rotina tediosa de Josie, que consiste em cuidar do posto de gasolina pouco frequentado e suas idas ao bar da cidade, a interação com os moradores é distante e a maior parte o trata com desdém, ironia, ou se aproveitando, poucos são os que se importam, a tranquilidade impera na vida desse homem, mas o cotidiano é alterado, lentamente também, com a vinda de um adolescente tão estranho quanto Josie, os dois começam a se falar, a beber cerveja juntos e logo um vínculo é formado mesmo que de maneira esquisita, pois David é quieto e está numa fase confusa.
Josie age inocentemente, não há malícia em seu interior, ele é um homem que pouco sabe do funcionamento de uma sociedade e suas leis, e por isso acaba caindo numa teia complexa que o fará perder a vontade de seguir.
Josie age inocentemente, não há malícia em seu interior, ele é um homem que pouco sabe do funcionamento de uma sociedade e suas leis, e por isso acaba caindo numa teia complexa que o fará perder a vontade de seguir.
"Garage" é um filme bonito, tanto esteticamente com as locações naturais irlandesas quanto pela história ao retratar um ser humano que foge do comum, do padrão social aceitável, que por ser bom é alvo de piadas e desprezo, o filme arranca sorrisos no decorrer, é lindo e ao mesmo tempo triste observar Josie, pois é uma raridade que tem pouco valor, considerado retardado e até doente mental, aliás, duvido que haja pessoas bondosas e que têm a pureza de essência perante a este mundo que vivemos. Um filme simples, autêntico e que deixa grandes reflexões, especialmente em seu desfecho que pesa em nosso coração.
terça-feira, 14 de março de 2017
Cegos (Blind)
"Cegos" (2007) dirigido pela holandesa Tamar van den Dop (Supernova - 2014) é um filme belíssimo que disserta sobre um puro e intenso amor. Será mesmo que o amor verdadeiro é cego?
Em uma mansão, Ruben (Joren Seldeslachts), um jovem cego e arisco, vive com sua mãe (Katelijne Verbeke). Esperando ajudar o filho, ela contrata Marie (Halina Reijn), uma jovem albina, como leitora. Com paciência, a garota consegue acalmar Ruben, sem imaginar o que virá.
Ambientada no final do século XIX, o que predomina nesta obra é a atmosfera gélida e melancólica, se assemelha a uma narrativa literária e fascina exatamente por conter esses elementos poéticos. Aliás, os livros são uma constante na trama, já que Marie lê para Ruben, inicialmente vemos um garoto agressivo, fechado em seu quarto inferniza a vida de sua mãe, que sem alternativas encontra o anúncio de Marie. Ela chega na casa, uma mulher albina, reprimida e enigmática, sua feição é estranha e a sua pele repleta de cicatrizes devido um acidente na infância, acompanhamos partes de quando era criança em flashbacks, instantes dolorosos que fazem com que compreendamos o porquê de algumas de suas atitudes. O fato é que Marie consegue acalmar com sua bela voz Ruben, e inebriado de paixão quer tocá-la, mas como um animal arisco ela foge. Com o passar dos dias a convivência se estreita e ambos apaixonados vivem momentos únicos. Complexada, Marie evidentemente mente sobre sua imagem para o garoto, ele a imagina diferente e quando toca em suas mãos diz que há flores congeladas nelas, o despertar sexual acontece e a mãe inconsolada com a relação pede ajuda ao médico da família, que diz que com os avanços da medicina é possível que Ruben volte a enxergar, o que deixa Marie triste e a faz fugir. A alegria de poder ver as cores do mundo contrasta com a tristeza de ter perdido seu amor, daí uma gama de reflexões surgem sobre o significado do amor em sua essência.
"Ele sentou-se duro e frio no salão vazio e gelado. Ela o reconheceu logo de cara e se jogou em seus braços. Lágrimas escorriam por seu rosto vermelho e atingiam seu peito. Seu coração de gelo derretido. Ela beijou seus olhos, ele chorou. Ela beijou suas mãos, suas bochechas, e ele chorou de novo. Lágrimas lavaram a lasca de seu olho. Ele a reconheceu."
"Ele sentou-se duro e frio no salão vazio e gelado. Ela o reconheceu logo de cara e se jogou em seus braços. Lágrimas escorriam por seu rosto vermelho e atingiam seu peito. Seu coração de gelo derretido. Ela beijou seus olhos, ele chorou. Ela beijou suas mãos, suas bochechas, e ele chorou de novo. Lágrimas lavaram a lasca de seu olho. Ele a reconheceu."
Ruben se apaixonou por Marie, foi a sua voz, seu cheiro (algo muito evidenciado), esses detalhes únicos que imprimem personalidade, interessante quando volta a enxergar e a encontra e a reconhece justamente pelo cheiro, novamente entre os livros, numa cena lindíssima pede para que ela volte para ele, mas Marie resiste e não crê que com a sua aparência o amor continuará sendo tão intenso e puro. A carta que ela lhe escreve diz sobre isso e o desfecho não poderia ser mais clássico, porém com vários elementos peculiares que dão um tom especial.
O filme é permeado por cenas estonteantes e interpretações de tirar o fôlego, os diálogos são escassos, mas bem pontuados, a atmosfera de sentimentos dominam a tela, e a trilha sonora erudita compõe perfeitamente o cenário.
"Cegos" é sensorial, poético, melancólico, trágico e expõe que o amor pode ser contaminado pelo que se vê, mas esse sentimento arrebatador sempre será indecifrável, nunca saberemos o porquê amamos e o que de fato é o amor.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Entardecer (Nachmittag)
"Não acho que ter medo seja algo para se envergonhar. Nada é mais fácil de se entender do que o medo. Somos mais ou menos feitos de medo."
Uma adaptação livre e pessoal, transposta para o aqui e agora, da peça de teatro "A Gaivota", de Anton Tchekhov. Irene, atriz de teatro, vai para sua casa no lago nas proximidades de Berlim, onde seu irmão mais velho e seu filho Konstantin moram. Verão, sol, lago - aparentemente um cenário idílico, mas os personagens estão escondidos em si mesmos. Uma atmosfera de cansaço, tristeza e de amor perdido paira sobre as cenas cotidianas.
"Entardecer" (2007) é um filme de silêncios que retrata o vazio e o reconhecer-se. É desconfortável assisti-lo e também cansativo, mas vale muito a pena, principalmente àqueles que gostam de refletir sobre si mesmos e a vida. Fria e distante são as relações, mãe, filho, tio, namorada, e amante, a solidão de cada um é medonha. Konstantin, filho de Irene é um jovem escritor que sente na pele toda uma inadaptação, sua mãe é atriz de sucesso no teatro, ausente ela não demonstra qualquer tipo de sentimento, Max, seu namorado atual é um escritor famoso que também aparece muito distante de Irene, Agnes é a vizinha de Konstantin, ele é apaixonado por ela, que é apaixonada por Max. Konstantin adora a melancolia do lugar em que mora com o tio, este que sofre com as dores da velhice. Já Agnes não gosta de viver ali e por isso acaba sempre desistindo de Konstantin.
Um belo filme, sua plasticidade é estonteante rodeada de melancolia e silêncios. A luz natural é algo que marca a direção de Angela Schanelec, que também atua no filme como Irene.
O tédio é exposto em "Entardecer", e nada melhor para simbolizar do que a imagem do lago. A particularidade do filme é justamente refletir instabilidades emocionais, as relações e o como é difícil nos ajustarmos perante à sociedade. De certa forma todos estamos à deriva tentando se agarrar n'algum lugar.
Os diálogos são inteligentes e poéticos, um dos pontos mais altos do filme consiste no encontro de Agnes e Max, eles falam de si mesmos e refletem sobre medo e reconhecimento. Muitas ideias surgem a partir disso, por exemplo, enquanto via o filme pensei na autenticidade de algumas ações, afinal fazemos as coisas para nós mesmos ou pelos outros esperando reconhecimento? Max complementa no diálogo que o ser humano de tempos em tempos necessita que alguém nos reconheça, que olhem o que nem mesmo enxergamos em nós.
"De tempos em tempos queremos ser reconhecidos por alguém. A alma quando reconhecida se modifica. Torna-se mais bonita."
Por fim, "Entardecer" deve ser visto por almas sensíveis e pensantes que conseguem captar beleza nos silêncios, e que gostam de se aprofundar em questões que permeiam o cotidiano. É uma obra singular e que promove sentimentos diferentes em cada um que o assiste.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Indo Para Casa (Luo Ye Gui Gen)
"Indo Para Casa" (2007) do chinês Zhang Yang (Banhos - 1999) é uma comédia de humor negro bem leve e que enfatiza valores, como amizade e lealdade, além das tradições.
A história segue Zhao (Benshan Zhao), um operário que decide levar o corpo do amigo que morre repentinamente numa mesa de bar de volta à sua terra natal, para que assim ele seja enterrado segundo as tradições do local. Sem dinheiro para transporta-lo da forma devida, tenta conduzi-lo até a cidadezinha, ele percorre quilômetros e mais quilômetros com seu amigo nas costas, no caminho passa por varias cidades do interior da China e acompanhamos diversas situações engraçadas e cheias de detalhes.
O título original dessa bela obra resume tudo, "Luo Ye Gui Gen", é um provérbio chinês que significa: "a folha que cai, retorna às suas raízes". O filme é uma espécie de road movie, todo o desenrolar é marcado por humor mesmo tratando de um assunto difícil, no início quando percebe que seu amigo está morto Zhao o coloca no ônibus e diz para todos que ele está dormindo, mas quando assaltantes invadem expõe sua situação e por incrível que pareça comove os bandidos, que até deixam todo o dinheiro que tinham roubado, é um diálogo cômico, mas revela o quão digno é esse homem que carrega seu amigo morto nas costas; os passageiros após saberem não o querem mais lá e é deixado na estrada. Ele tenta pegar carona, mas não consegue, aí ele finge que o amigo está passando mal, e assim chega numa cidade e logo se hospeda num local de caminhoneiros e tenta mais uma vez uma carona, mas o único que ia para o mesmo caminho se nega, enquanto isso todos estão curiosos com o amigo. Por Zhao ser um alguém bom de coração ele cativa as pessoas e faz com que elas falem, o cara que não queria levá-lo acaba dando uma carona e até desabafa.
São belos diálogos, belas paisagens, esse filme é aconchegante. São episódios únicos que trazem mensagens de grande teor humano, também evidencia a cultura e tradições de cada lugar retratado. Observamos durante seu trajeto a falta de solidariedade e a ignorância, mas o amor se sobrepõe de forma sublime. É um filme para guardar na memória e ser visto mais vezes durante a vida, principalmente para que lembremos de certos valores que estão se perdendo. É uma obra linda, que mostra um personagem raro, de essência pura.
"Indo Para Casa" tem cenas memoráveis, como quando Zhao decide cometer suicido e experimenta a cova e acaba gostando de estar lá, apesar que desiste de morrer, ou quando acomoda seu amigo em um grande pneu, ou veste ele de espantalho para ir roubar comida num velório do qual conversa com o "morto". Também quando conhece uma mulher que doa seu sangue para conseguir dinheiro e Zhao promete a ela que voltará depois de cumprir sua missão. Mas uma das mais bonitas se dá quando Zhao em cima de um caminhão juntamente com seu amigo morto contempla a paisagem e diz estar muito feliz, e recita: "Se minha pátria fosse uma estrada, eu seria um carro dirigindo contente por ela. Se minha pátria fosse uma árvore, eu seria uma folhinha balançando alegremente em seu tronco."
O diretor Zhang Yang consegue mesclar perfeitamente drama e comédia, tudo está na medida exata se focando em detalhes muito significativos. O filme reaviva em nós o sentimento de compaixão e solidariedade. Assim como Zhao também aprendemos, e essa lição é daquelas que jamais esqueceremos. Assistir "Indo Para Casa" é um bem que fazemos a nós mesmos!
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Tango With Lions
"Tango With Lions" é uma banda grega formada em 2007 por Katerina Papachristou. Atualmente fazem parte do grupo Kat (voz, piano, guitarra, harpa e baixo), Yannos (guitarras e vocais), Stravos (cello e bandolim), Nikos V (bateria, percussão e vocais) e Jimmy Estrela (trombone). O álbum de estreia "Verba Time" (2010), foi bem recebido e o single "In a Bar" obteve grande sucesso. O segundo álbum "A Long Walk" foi lançado em 2013.
O gênero é um folk rock hipnótico e as músicas carregam uma certa melancolia, mas sem soar tristes, elas nos ativam a imaginação e por isso se fazem uma ótima companhia. É pra divagar sem medo. O mistério é algo que permeia muitas das canções, e ao mesmo tempo que soa particular e característico é também muito fácil de gostar. É deliciosamente encantador o vocal feminino.
"Tango With Lions" é para aqueles momentos em que queira relaxar apenas com você mesmo. Encontrei a banda já algum tempo e só agora senti a necessidade de compartilhar, pois é um som que é necessário se ouvir em pequenas doses, música por música, sem pressa. É ir se fascinando aos poucos, como uma paixão inesperada. O nome da banda traz um aspecto sonhador e letras que inevitavelmente te levam.
"Verba Time" (2010)
"Verba Time" é um álbum de estilo acústico, muito atmosférico, canções que revelam segredos em um vocal sedutor, são composições pessoais e emocionais. A arte que enfeita a capa foi inspirada pela pintura de Nick Gentry. O álbum conta com doze faixas: "House On Fire", "In A Bar", "Pilgrim Said", "Policeman", "On The Floor", "Right From The Start", "Black", "Red And Yellow Rooms", "Underskin", "Sad Big Blue Eyes", "Angel's Arms", e "Prayers".
O cheiro de madeira, a pose, a piada.
"A Long Walk" (2013)
"A Long Walk" alterna com momentos mais otimistas, porém a maioria das melodias contém uma sombria beleza, o piano e a guitarra são bem marcantes. Dramático e quente, o álbum conta com dez canções, sendo elas: "Slippery Roads", "A Long Walk", "News", "Rainy Fall", "Kite", "People Stare", "Obituary", "Where Heroes Die", "Over The Neon Lights", e "Playground".
Porque você não vem comigo esta noite?
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Vocês, os Vivos (Du Levande)
"Alegre-se então, por existir, na sua quente e deliciosa cama, antes que a fria brisa bata nos seus pés descalços."
"Vocês, os Vivos" (2007) é o segundo filme da trilogia sobre a existência de Roy Andersson, que começou com "Canções do Segundo Andar" (2000). O diretor ironiza situações cotidianas, papéis que nos submetemos todos os dias, seja no trabalho, família e lazer, geralmente não pensamos, agimos automaticamente, mas ao assistir este longa vemos de fora, e por isso a experiência se torna grandiosa. As cenas provocam riso perante atitudes risíveis, sem sentido, mas que fazem parte da vida de qualquer pessoa.
Um olhar sobre o ser humano, sobre suas conquistas e misérias, sua alegria e seu sofrimento, sua autoconfiança e ansiedade. Personagens que trazem em comum um aspecto solitário, mesmo quando estão cercados por outras pessoas. Um ser humano de quem se quer rir e também chorar por ele, ou ela. É simplesmente uma trágica comédia ou uma cômica tragédia sobre todos os homens e mulheres. Situado em Estocolmo, o tema se encaixa universalmente em qualquer lugar ou qualquer época. Composto por 57 vinhetas com a câmera estática acompanhamos diversas situações, como a professora que não consegue dar aula e sai chorando, a mulher deprimida que acha que ninguém a entende e briga com seu marido que diz frases feitas, como por exemplo: "A vida é dura", "Você precisa tentar", também há a garota obcecada por um músico famoso, o marido que diz ter perdido a aposentadoria em péssimos investimentos enquanto faz sexo com a mulher, o homem condenado a cadeira elétrica por ter derrubado em uma brincadeira um vaso de porcelana valioso, o psiquiatra que cansou de ouvir as pessoas, pois são todas egoístas e resolve prescrever apenas antidepressivos, entre tantas outras. Todos em uma condição de inadaptação, solidão e desespero.
O aspecto dos personagens é de cansaço, a palidez evidencia que todos estão mortos em vida, apenas continuando a seguir suas rotinas. Apesar de apresentar a decadência, os episódios dão um ar engraçado, mas de forma peculiar, o interessante é exatamente o poder de se estar observando, como se víssemos nossas próprias atitudes ali expostas, e percebamos o quão bizarras elas são. Todos estão perdidos em suas próprias solidões. Roy Andersson é um cineasta corajoso, vai contra a maré, não está interessado em agradar, mas sim em colocar sua arte para fora e quem desejar vê-la será bem-vindo, não há preocupações em atrair o público, seus filmes são diferentes e precisam ser refletidos, falam da existência e de coisas que preferimos não pensar.
Essa obra retrata a imperfeição do ser humano, a complexidade que revela o ridículo, o tédio, e a banalidade. Algumas cenas são bem explícitas e outras absurdas e que talvez tenham algum simbolismo, ou não. "Vocês, os Vivos" provoca inicialmente o riso, mas não demora para que ele suma de nosso rosto e entre uma certa angústia.
O título do filme já revela ironia, ao falá-lo um certo sorriso se forma, daqueles quando só nós vemos algo enquanto o restante não percebe.
Poucos são os cineastas que refletem a vida com pessimismo sem cair em total melancolia, ou parecer pretensioso a ponto de ser um cinema exclusivo, Roy Andersson compartilha conosco suas visões sobre o ser humano e faz de maneira universal. O terceiro filme que fecha a trilogia "Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência" já saiu e ganhou o Leão de Ouro deste ano (2014).
Uma das melhores cenas consiste neste desabafo: "Sou um psiquiatra há 27 anos. Estou completamente exausto. Ano após ano ouvindo pacientes que não estão satisfeitos com suas vidas, que querem se divertir, que querem que eu lhes ajude. Isso esgota, podem acreditar. A minha vida não é exatamente muito divertida. As pessoas exigem tanto. Essa é a conclusão a que cheguei: elas querem ser felizes mas são egocêntricas, egoístas e pouco generosas, quero dizer que elas são simplesmente mesquinhas. A maioria. Passar horas tentando fazer uma pessoa mesquinha feliz não faz sentido. Não dá pra aguentar. Atualmente, só receito remédios, quanto mais forte melhor. É isso aí."
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
A Banda (Bikur Ha-Tizmoret)
"A Banda" (2007) é um filme israelense dirigido por Eran Kolirin, e conta de forma deliciosa a trajetória de uma pequena banda da polícia egípcia que foi convidada para tocar na inauguração de um centro cultural em Israel. Chegando no aeroporto eles percebem que não há ninguém ali os esperando, por pura falta de sorte são esquecidos. A banda então decide se deslocar por conta própria, mas acabam se perdendo e vão parar em uma cidade em algum lugar no coração do deserto. Lá tentam buscar informações em um bar e descobrem estarem no local errado e o ônibus só passará no dia seguinte, daí por diante conhecemos mais a fundo os integrantes da banda, assim como Dina, a ousada dona do bar, e os dois amigos dela que vivem lá sentados. Dina hospeda dois deles, o líder sisudo da banda Tawfiq, vivido pelo maravilhoso Sasson Gabai, e Haled, o rapaz mais novo. Os outros se dividem na casa dos amigos de Dina.
Através de sutilezas vemos o choque cultural entre o velho e o novo, o conflito entre árabes e israelenses é mostrado com total delicadeza, e a mulher é vista sob um ponto de vista distinto, Dina é extravagante, forte, cabelos soltos, uma beleza diferente mas muito feminina. A todo momento as diferenças acontecem, porém todos ali desejam o mesmo, a felicidade.
Para os mais sensíveis "A Banda" se faz necessário, é um deleite acompanhar personagens tão ricos e que apesar de diferentes se complementam, a fotografia é belíssima, o tom azul contrasta com a paisagem, é engraçado toda a estranheza que o figurino dos integrantes da banda causa nas pessoas. O amor por suas tradições também é retratado, e o respeito que cada um deve ter com o outro independente de religião é evidenciado com muita leveza e um fino humor, do qual o ator Sasson Gabai realiza magistralmente, ele mescla comicidade e sensibilidade perfeitamente, um outro filme dele que exemplifica essa qualidade é "O Porco de Gaza" (2011)
A amizade que cresce entre Tawfiq e Dina é linda, ele pouco fala, mas seu olhar diz muito, Dina o convida pra comer e fala sobre relacionamentos, é uma mulher que conserta o carro e que toma a frente, por vezes Tawfiq se sente estranho, mas não demora para que se abra e conte fatos de sua vida. Os dois são tristes, há muitos sentimentos guardados, enquanto Dina está desesperada para conseguir um pouco de amor, ele está num constante silêncio, é muito difícil dar o próximo passo, mas a grande mudança se dá no final na relação de Tawfiq e Haled.
O filme dá uma lição do quanto o ser humano precisa se aproximar uns dos outros, pois todos nós temos dores e buscas insaciáveis, poderíamos tentar compreender, ao invés de nos apegarmos a rivalidades que só aumentam o desequilíbrio. É triste ver que as relações cada vez mais se vão, e o que fica é apenas solidão e sentimentos que destroem tanto os demais como a nós mesmos.
"A Banda" é uma joia do cinema, emociona, diverte, causa a reflexão, tem um roteiro impecável, cenas memoráveis, interpretações únicas, e uma trilha sonora que embeleza ainda mais toda esta história. Ao final eles conseguem pegar o ônibus e ir à inauguração do centro cultural, a música tocada é das coisas mais belas que acontece nesta pequena obra de arte.
O filme ganhou 38 prêmios em festivais mundo afora, e não é à toa, ele cativa mesmo e cria-se uma simpatia imensa, é pra indicar sem medo e desfiar elogios. Merecedor de aplausos a cada frame!
Através de sutilezas vemos o choque cultural entre o velho e o novo, o conflito entre árabes e israelenses é mostrado com total delicadeza, e a mulher é vista sob um ponto de vista distinto, Dina é extravagante, forte, cabelos soltos, uma beleza diferente mas muito feminina. A todo momento as diferenças acontecem, porém todos ali desejam o mesmo, a felicidade.
Para os mais sensíveis "A Banda" se faz necessário, é um deleite acompanhar personagens tão ricos e que apesar de diferentes se complementam, a fotografia é belíssima, o tom azul contrasta com a paisagem, é engraçado toda a estranheza que o figurino dos integrantes da banda causa nas pessoas. O amor por suas tradições também é retratado, e o respeito que cada um deve ter com o outro independente de religião é evidenciado com muita leveza e um fino humor, do qual o ator Sasson Gabai realiza magistralmente, ele mescla comicidade e sensibilidade perfeitamente, um outro filme dele que exemplifica essa qualidade é "O Porco de Gaza" (2011)
A amizade que cresce entre Tawfiq e Dina é linda, ele pouco fala, mas seu olhar diz muito, Dina o convida pra comer e fala sobre relacionamentos, é uma mulher que conserta o carro e que toma a frente, por vezes Tawfiq se sente estranho, mas não demora para que se abra e conte fatos de sua vida. Os dois são tristes, há muitos sentimentos guardados, enquanto Dina está desesperada para conseguir um pouco de amor, ele está num constante silêncio, é muito difícil dar o próximo passo, mas a grande mudança se dá no final na relação de Tawfiq e Haled.
O filme dá uma lição do quanto o ser humano precisa se aproximar uns dos outros, pois todos nós temos dores e buscas insaciáveis, poderíamos tentar compreender, ao invés de nos apegarmos a rivalidades que só aumentam o desequilíbrio. É triste ver que as relações cada vez mais se vão, e o que fica é apenas solidão e sentimentos que destroem tanto os demais como a nós mesmos.
"A Banda" é uma joia do cinema, emociona, diverte, causa a reflexão, tem um roteiro impecável, cenas memoráveis, interpretações únicas, e uma trilha sonora que embeleza ainda mais toda esta história. Ao final eles conseguem pegar o ônibus e ir à inauguração do centro cultural, a música tocada é das coisas mais belas que acontece nesta pequena obra de arte.
O filme ganhou 38 prêmios em festivais mundo afora, e não é à toa, ele cativa mesmo e cria-se uma simpatia imensa, é pra indicar sem medo e desfiar elogios. Merecedor de aplausos a cada frame!
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
XXY + O Lar (Home)
"A escolha é do indivíduo e ninguém tem o direito de impor o que você é, tendo horas de vida ou 80 anos de idade."
O filme de Lucia Puenzo (O Médico Alemão - 2013) tem uma ideia interessante e considerada tabu, pois dificilmente vemos ser discutida a intersexualidade em nossa sociedade. Apesar da narrativa permanecer quase sempre no mesmo lugar faz com que pensemos na questão de gêneros.
Alex (Inés Efron) nasceu com ambas as características sexuais. Tentando fugir dos médicos que desejam corrigir a ambiguidade genital da criança, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Eles estão convencidos de que uma cirurgia deste tipo seria uma violência ao corpo de Alex e, com isso, vivem isolados numa casa nas dunas. Até que, um dia, a família recebe a visita de um casal de amigos, que leva consigo o filho adolescente. É quando Alex, que está com 15 anos, e o jovem 16, sentem-se atraídos um pelo outro.
O que o filme coloca em questão é o olhar preconceituoso das pessoas que a veem como uma aberração, mas no seu mundo interior Alex não quer escolher entre ser feminino ou masculino, até porque não há necessidade de rotular e definir. A opção do pai em decidir a não fazer a cirurgia e deixar que Alex escolhesse é o grande ponto do filme, é uma abertura da qual não estamos acostumados e por isso choca, mas quer amor maior do que dar a liberdade de escolha a quem se ama? E se este decidir permanecer do jeito que é, que assim seja!
O fato é que a sociedade não sabe lidar com o diferente, aquele que foge dos padrões, a decisão do pai em afastar e deixar Alex livre das opiniões e olhares foi incrível, pois deu a ela uma melhor maneira de se conhecer, ainda mais na fase da adolescência em que os hormônios borbulham. O filme não é conclusivo, mas foi muito acertado ao colocar em pauta um tema tão complexo. É para pensar e rever conceitos!
Marthe, Michel e seus três filhos moram tranquilamente em uma casa isolada no meio do nada, em frente à qual uma larga estrada permanece vazia, fechada desde sua construção. No início do verão, ela é finalmente inaugurada. A família tenta manter sua rotina, mesmo com o estresse causado pelo barulho incessante de centenas de carros. Mas os efeitos a longo prazo do incômodo com a constante perturbação instauram um clima crescente de tensão familiar. Ainda assim, eles se recusam a deixar o lar construído com tanta dedicação.
Dirigido por Ursula Meier (Minha Irmã - 2012), "O Lar" é um filme rico em significados, apesar de monótono, mas é para se analisar as situações que vão ocorrendo, o pouco de sossego que nós temos no nosso cotidiano é um dos pontos. O porquê da família ter se mudado em um lugar isolado não é explicado, mas fica óbvio que é por conta do estresse da cidade e a convivência forçada diária, isso é principalmente retratado na personagem de Isabelle Huppert. De início tudo está tranquilo, mas quando inauguram a rodovia que fica bem em frente à casa, as coisas vão se complicando, tanto no dia a dia que muda completamente, quanto ao estado físico e psicológico da família, porém mesmo com as dificuldades eles não se mudam, ficam e acabam vedando inteiramente a casa.
É um filme intrigante e com uma narrativa que beira o bizarro, na verdade é uma fábula contemporânea que diz: Não há para onde escapar das chatices da sociedade, sempre haverá algo para atrapalhar e nos afundar.
sábado, 1 de março de 2014
O Banheiro do Papa (El Baño del Papa)
Dirigido por César Charlone e Enrique Fernández, "O Banheiro do Papa" (2007) é baseado em acontecimentos reais. Em maio de 1988, o Papa João Paulo II visita o Uruguai e a cidade de Melo, próxima a fronteira com o Brasil. O povo espera a visita de milhares de pessoas e decidem aproveitar para ganhar dinheiro, montando barracas de linguiça, chouriço, algodão, doce, torta frita, balões, etc. Beto, o personagem central é um contrabandista, viaja todos os dias com sua inseparável bicicleta ao Brasil a fim de comprar encomendas para as vendas e mercadinhos de sua cidade. Na esperança de conseguir algum dinheiro tem a brilhante ideia de construir um banheiro no quintal de sua casa, porque acredita piamente que virá muitas pessoas à cidade ver o Papa, e consumindo, com certeza terão vontade de ir ao banheiro.
Beto é o retrato de um homem trabalhador, que luta pelo sustento de sua família, a esperança salta de seus olhos. O filme cativa pela sua simplicidade, os personagens são reais. Não se trata de religião neste longa, a chegada do Papa é apenas um pano de fundo para mostrar os conflitos dos personagens, os percalços e toda a trajetória por uma vida melhor. O que acontece é o seguinte: O Papa vem à cidade, porém os visitantes não! A maioria são habitantes do Uruguai, e ninguém comprou nada, o banheiro de Beto ficou esperando seus visitantes. Um ponto a ser destacado deste filme é que faltava a privada do banheiro, e Beto literalmente correu para conseguir que desse tempo antes que as pessoas pudessem querer usá-lo, esse é o momento mais emocionante, ver aquele homem cansado fisicamente e psicologicamente de uma vida pobre e modesta. Os moradores sofreram muito com isso, sobraram comidas, bebidas e foram desperdiçadas ou doadas, foi uma tremenda falta de sorte, como avisa os créditos inciais. Uma calamidade econômica. A mídia contribuiu imensamente para esse desastre, dizendo que milhares de brasileiros visitariam a cidade de Melo, isso mostra o quão sensacionalista e mentirosa são os meios de comunicação.
Sonhos foram criados por conta disso, a filha de Beto tinha o desejo de se tornar radialista e com certeza o dinheiro iria ajudá-la. Tudo foi por água abaixo. "O Banheiro do Papa" se mostra um filme humanista, o Papa foi, falou algumas palavras, abençoou o local e se mandou, o povo percebeu que ele não pode fazer nada, quem faz são eles mesmos, todos os dias tentando melhorar suas vidas. O grande evento era uma oportunidade, em desespero ou pura ignorância, o povo se endividou ao invés de lucrar, mas o olhar otimista persiste e nos mostra que ideias sempre surgem, e a esperança está entranhada no ser humano, principalmente nos mais simples.
"O Banheiro do Papa" é um filme triste e feliz, que nos conta uma história simpática sobre um povo pobre que busca melhorar de vida como qualquer outro, acho que qualquer um veria a visita do Papa como um meio de ganhar dinheiro, mas quem adivinharia que não iria aparecer a quantidade de pessoas dita pela mídia? Por isso é que não se deve acreditar em tudo que aparece na televisão.
Um filme criativo que esbanja esperança, esperança de um cinema maravilhoso bem pertinho de nós. E Beto não se deu tão mal, ficou com um banheiro novinho!
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
O Segredo do Grão (La Graine et le Mulet)
"O Segredo do Grão" (2007) é mais um maravilhoso filme de Abdellatif Kechiche (Vênus Negra - 2010), neste a história gira em torno do sessentão Silmane Beiji (Habib Boufares), um homem de feição cansada que enfrenta um divórcio após anos de casamento. Seu emprego no estaleiro vai por água abaixo, pois segundo seu patrão estava atrapalhando a produção, devido a sua lerdeza. Silmane tem uma família grande, muitos filhos do casamento anterior, e uma enteada da relação atual com Latifa (Hatika Karaoui), também descendente de argelinos e dona de um pequeno hotel. A relação entre as famílias não é boa, há muito ciúmes e fofocas. Seu maior sonho é abrir um restaurante num barco, o sentido de sua vida está todo depositado neste sonho, e com ajuda de sua enteada Rym vai realizando aos poucos. Com a indenização que ganha de seu antigo trabalho no estaleiro compra um barco caindo aos pedaços, então surge os problemas burocráticos, são muitas autorizações, correm de lá para cá, e com muito esforço conseguem reformá-lo. Estando tudo em ordem, ele recebe o alvará provisoriamente para que prove que seu negócio pode dar certo, todos são convidados para comer o cuscuz, mas nada é fácil para Silmane.
O cenário desta história se passa na cidade de Sète, no sul da França, as margens do mar mediterrâneo. São duas culturas que se chocam, os imigrantes argelinos e os franceses. Isso é muito enfatizado no hábito das refeições, a cena que exemplifica é quando a família de Silmane come desenfreadamente em um almoço, onde a comida é farta e não há problemas em se usar as mãos, conversar e brigar na mesa, o contraste se dá na lenta burocracia para que ele consiga abrir seu restaurante, e especialmente no dia da inauguração a mistura acontece e a tradição deles é mostrada de verdade. O grão do título é referente a semolina, base preparatória do cuscuz marroquino.
"O Segredo do Grão" é um filme de longos planos que prioriza gestos e olhares. Muito interessante o estilo naturalista de filmagem, os atores interpretam pessoas comuns repletas de conflitos familiares. A câmera focaliza atos corriqueiros, como as refeições e às vezes a câmera não filma quem está falando, mas sim aquele que está chegando para se sentar à mesa, detalhes e minúcias são enquadrados enquanto conversas acontecem.
Todos ajudam Silmane a realizar seu sonho, inclusive sua ex-mulher, que prepara o cuscuz, mas há muito olho gordo e fofocas se o negócio irá dar certo ou não. A família ajuda, mas quem coloca a semente da esperança no coração de Silmane é Rym, há uma força de crescer nesta menina, de ver naquele homem de semblante tão cansado uma centelha de alegria.
Silmane vê que os filhos fazem coisas erradas, especialmente um deles, mas acaba não se intrometendo, o seu desgaste emocional e físico chega a nos cansar também, principalmente na cena em que ele sai a procura de seu filho descabeçado para resgatar o cuscuz do qual levou embora no porta-malas do carro. Ao chegar na casa da mulher de seu filho ela está chorando e sem pausa grita o quanto seu marido é um idiota que não a respeita. Nessa parte a tensão cresce, pois todos no restaurante estão esperando o cuscuz, as filhas de Silmane servem bebidas, e Rym tem a grande ideia de dançar, o grupo de músicos ajudam e então o público vai ao delírio. A garota dá um show, é a força de uma cultura que jamais morrerá. A jovem Hafsia Herzi que interpreta Rym é o grande destaque.
A cena da dança é longa e impressionante, enquanto desesperados procuram um meio de conseguir o cuscuz, Rym dança selvagemente. É interessante, pois às vezes julgamos tanto, no caso as filhas de Silmane falavam mal de Latifa e Rym, mas ao final quem mostrou preocupação com Silmane foram elas. É a tal questão, se dá demasiado valor para laços de sangue, mas os maiores laços são aqueles formados pelo coração.
O final gera um certo desconforto, mas Rym é o novo tomando conta, ela é a certeza de que tudo irá dar certo. O resultado já não importa, o que é válido é todo o esforço feito.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Hora de Morrer (Pora Umierac)
Dorota Kędzierzawska é uma diretora de muita sensibilidade, em "Eu Existo" - 2005 retratou um menino cuja solidão era sua única companhia, abandonado sem saber o que fazer, tenta se encontrar, já em "Hora de Morrer" (2007) o foco é em uma velhinha. Aniela é uma enérgica inflexível relíquia do passado, como a grande casa em estilo dacha rodeada por árvores altas em que vive sozinha com sua impetuosa cadela, Filadélfia. Ela observa do outro lado da rua, um homem gordo, novo rico grosseiro, que mora em uma grande casa nova e a quem desaprova, e na esquina, uma escola de música que luta para sobreviver. Todo mundo quer a casa e o terreno de Aniela. Quando o vizinho auxiliado pelo filho interesseiro de Aniela, traça planos para obter a propriedade, ela encontra uma maneira de ser mais esperta que eles.
Vivendo somente com sua cadela, da qual mantém diálogos interessantes e intimistas, Aniela segue seus dias só em sua grande linda casa, mas que está caindo aos pedaços, essa casa é sua paixão, pois foi onde passou toda a sua vida, incluindo o período da guerra. Todos a criticam e desejam tirá-la de lá, principalmente seu filho, que quer vendê-la para o morador rico ao lado. Várias tentativas acontecem, mas com o desenrolar Aniela mostra que não é porque está velha que não pode decidir sobre suas próprias coisas.
A cena inicial é muito realista, Aniela é mal recebida por uma médica, aliás ela nem chega a entrar no consultório. A médica diz: "Tira sua roupa e deita aí" de forma ríspida, sem nem olhá-la. Inconformada ainda pergunta novamente o que foi que disse; a médica lhe diz o mesmo, e então a velhinha solta um palavrão e vai embora. Nas ruas pensa sobre o ocorrido, e não entende como alguém formado em tal profissão lhe dedica tal tratamento.
O filme em preto e branco é elegante, a fotografia salta aos olhos e os closes no rosto expressivo de Aniela ou em Filadélfia são os pontos altos. Mesmo se tratando de um filme que fala do inevitável, impossível não assisti-lo com um sorriso no rosto. Ele demonstra bem o universo solitário da velhice, a rotina permeada de esquecimentos e dos pensamentos atordoantes sobre o que virá.
Aniela observa com seu binóculo a rotina de seus vizinhos chatos, além da escola de música para crianças que fica próxima de sua casa, por vezes as crianças dessa precária escola invadem seu quintal para brincar no balanço. Em dado momento aparece um menino falante que escala até o alto da casa, sua intenção era roubar, mas ao se deparar com Aniela lhe diz algumas coisas e pede um trocado, seu apelido é Dostoiévski, que segundo ele, era um pintor russo.
O filme todo se passa dentro da casa, Aniela é muito agitada, dificilmente se deita. Todas as cenas são muitas especiais, principalmente quando envolve sua cadela Filadélfia.
Há muitas lembranças envolvendo sua juventude e passagens de seu filho pequeno correndo pela casa. Interessante que nada de sua vida nos é explicado, mas percebe-se muito fortemente que seu filho não se importa muito, e mais tarde visualizamos a tristeza de Aniela ao ver que ele está de conluio com o vizinho para adquirir sua casa. Nesta parte o desgosto toma conta de Aniela. O diálogo que o filho tem com a esposa retrata um ser humano pobre e movido apenas pelo dinheiro. Muito real também é a maneira que a neta a trata, o descaso que faz quando Aniela mostra a casa e os brinquedos da época de seu pai. Reflete a educação que a maioria das crianças recebem hoje em dia, nada de diálogos, apenas bens materiais para suprir desejos, que na verdade nunca serão satisfeitos, o que mais tarde os tornam adultos de plástico.
Dentre todas as cenas maravilhosas que este filme possui, destaco a do balanço. É como se ela se livrasse de todas as mágoas e decidisse não se importar mais, ela diz repetidamente: enlouqueci, enlouqueci, mas o fato é que ela entrou no estado de lucidez, e é o que a faz tomar uma decisão justíssima, ela se desprende totalmente do seu amor maior, a casa, e enfim descansa em paz. O desfecho é uma grande renovação.
"Hora de Morrer" é daqueles filmes que todos deveriam assistir, traz uma reflexão contundente sobre velhice, abandono, solidão e valores esquecidos.
Vivendo somente com sua cadela, da qual mantém diálogos interessantes e intimistas, Aniela segue seus dias só em sua grande linda casa, mas que está caindo aos pedaços, essa casa é sua paixão, pois foi onde passou toda a sua vida, incluindo o período da guerra. Todos a criticam e desejam tirá-la de lá, principalmente seu filho, que quer vendê-la para o morador rico ao lado. Várias tentativas acontecem, mas com o desenrolar Aniela mostra que não é porque está velha que não pode decidir sobre suas próprias coisas.
A cena inicial é muito realista, Aniela é mal recebida por uma médica, aliás ela nem chega a entrar no consultório. A médica diz: "Tira sua roupa e deita aí" de forma ríspida, sem nem olhá-la. Inconformada ainda pergunta novamente o que foi que disse; a médica lhe diz o mesmo, e então a velhinha solta um palavrão e vai embora. Nas ruas pensa sobre o ocorrido, e não entende como alguém formado em tal profissão lhe dedica tal tratamento.
O filme em preto e branco é elegante, a fotografia salta aos olhos e os closes no rosto expressivo de Aniela ou em Filadélfia são os pontos altos. Mesmo se tratando de um filme que fala do inevitável, impossível não assisti-lo com um sorriso no rosto. Ele demonstra bem o universo solitário da velhice, a rotina permeada de esquecimentos e dos pensamentos atordoantes sobre o que virá.
Aniela observa com seu binóculo a rotina de seus vizinhos chatos, além da escola de música para crianças que fica próxima de sua casa, por vezes as crianças dessa precária escola invadem seu quintal para brincar no balanço. Em dado momento aparece um menino falante que escala até o alto da casa, sua intenção era roubar, mas ao se deparar com Aniela lhe diz algumas coisas e pede um trocado, seu apelido é Dostoiévski, que segundo ele, era um pintor russo.
O filme todo se passa dentro da casa, Aniela é muito agitada, dificilmente se deita. Todas as cenas são muitas especiais, principalmente quando envolve sua cadela Filadélfia.
Há muitas lembranças envolvendo sua juventude e passagens de seu filho pequeno correndo pela casa. Interessante que nada de sua vida nos é explicado, mas percebe-se muito fortemente que seu filho não se importa muito, e mais tarde visualizamos a tristeza de Aniela ao ver que ele está de conluio com o vizinho para adquirir sua casa. Nesta parte o desgosto toma conta de Aniela. O diálogo que o filho tem com a esposa retrata um ser humano pobre e movido apenas pelo dinheiro. Muito real também é a maneira que a neta a trata, o descaso que faz quando Aniela mostra a casa e os brinquedos da época de seu pai. Reflete a educação que a maioria das crianças recebem hoje em dia, nada de diálogos, apenas bens materiais para suprir desejos, que na verdade nunca serão satisfeitos, o que mais tarde os tornam adultos de plástico.
Dentre todas as cenas maravilhosas que este filme possui, destaco a do balanço. É como se ela se livrasse de todas as mágoas e decidisse não se importar mais, ela diz repetidamente: enlouqueci, enlouqueci, mas o fato é que ela entrou no estado de lucidez, e é o que a faz tomar uma decisão justíssima, ela se desprende totalmente do seu amor maior, a casa, e enfim descansa em paz. O desfecho é uma grande renovação.
"Hora de Morrer" é daqueles filmes que todos deveriam assistir, traz uma reflexão contundente sobre velhice, abandono, solidão e valores esquecidos.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
O Visitante (The Visitor)
Walter Vale, um professor de Economia de Connecticut, precisa ir a Nova Iorque para uma conferência. Porém, descobre que tem um casal morando em seu apartamento: Tarek e Zainab, imigrantes ilegais que tocam suas vidas normalmente na Big Apple. Após um habitual período de desentendimentos, o professor acaba propondo abrigo para eles em seu apartamento e, aos poucos, vai se envolvendo com essas pessoas e com o tambor sírio, instrumento que Tarek toca.
Apesar de falar sobre as complicações da imigração, "O Visitante" (2007) é sobre transformações feitas a partir da diversidade cultural, Walter é um homem que já não tem ambições na vida, depois de perder sua mulher, sua vida se resume a dar aulas repetitivas para apenas uma turma e fingir que escreve um livro. A cena inicial o mostra tentando tocar piano, a professora tenta, mas percebe que o dom não existe nele, sua cisma em aprender deve ser para ficar próximo de algo que sua mulher adorava fazer. Walter é solitário e angustiado, um homem completamente fechado. Quando vai para NY para a conferência dá de cara com dois imigrantes morando em seu apartamento, ao invés de expulsá-los ou ficar assustado, ele tenta entender o que se passa e no fim das contas deixa-os ficar lá. Com o tempo Walter se interessa pela música de Tarek, este sempre animado decide ensiná-lo, e eis que uma mudança começa a acontecer no interior desse homem enclausurado. Os personagens são apaixonantes, a diversidade cultural fascina, Tarek é sírio e sua namorada que fabrica artesanatos é senegalesa, também há a mãe de Tarek que é da palestina. Essa mistura acrescenta um dinamismo interessante à história.
Uma amizade se forma entre Walter e Tarek e juntos chegam a tocar tambor no Central Park, porém na volta pra casa Tarek é preso no metrô acusado de não pagar o bilhete, e acaba indo para uma casa de detenção para imigrantes. Walter se sentindo culpado pelo incidente no metrô contrata um advogado para Tarek, mas as leis são rígidas quando se trata de imigrantes ilegais, ainda mais com o recente atentado de 11 de setembro, todos eram vistos como suspeitos. Alguns ficavam presos por anos e anos, outros deportados. A situação sobre a imigração é tratada sob uma ótica despretensiosa e leve, o que importa na verdade é a relação que se forma entre pessoas tão diferentes entre si.
Com a chegada de Mouna, mãe de Tarek, a vida de Walter ganha mais cor e significado, como ela também está ilegal no país ele a convida para ficar em seu apartamento, entre conversas e cafés os dois se apaixonam e formam uma amizade mais que especial, é inevitável não ficarmos apaixonados pelos dois, mais ainda por Walter, que carrega em si uma personalidade rica e afetuosa. Walter é o tipo que já perdeu muito pelo caminho e por isso se fechou, mas mesmo assim esbanja doçura.
As melhores cenas é as que Walter batuca seu djembê, é a transformação feita através da música e da diversidade cultural.
Walter é o visitante de sua própria terra, um homem discreto, mas terno que carrega em si lindos valores, a sua personalidade aparentemente fechada é apenas consequência de uma vida que não lhe dava mais nada, toda sua doçura aparece quando encontra um caminho para uma bela mudança interior recheada de música e cultura.
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