terça-feira, 9 de agosto de 2016

Mistress America

"Mistress America" (2015) dirigido por Noah Baumbach (Enquanto Somos Jovens - 2014) é um filme espontâneo que não tem receio em retratar personagens que fracassam e que ainda não encontraram seu lugar no mundo. Além de roteirizar em parceria com Noah, Greta Gerwig protagoniza magnificamente, ela se encaixa muito bem neste tipo de personagem, vide "Frances Ha" (2013).
Tracy (Lola Kirke), uma solitária caloura de faculdade em Nova York, é resgatada de sua solidão por sua futura meia-irmã Brooke (Greta Gerwig), uma garota aventureira da cidade que a envolve em esquemas atraentes e loucos. "Mistress America" é uma comédia sobre buscas por sonhos, acertos de contas, famílias temporárias e roubos de gatos.
Tracy está no primeiro semestre da faculdade e está deslocada, depois de algum tempo conhece Tony (Matthew Shear), que como ela quer entrar na sociedade literária da universidade, um grupo bem restrito. Ao ligar para sua mãe, que está prestes a se casar com um cara que conheceu pela internet, sugere que ela conheça a futura irmã que também mora em NY. Ela surge e inspira Tracy, Brooke é uma mulher de 30 anos, com inúmeros trabalhos, cheia de planos, inventiva, popular e impulsiva. O filme se desenrola a partir do encontro das duas, surge uma admiração mútua e logo elas se envolvem em várias situações interessantes e engraçadas.
O ponto forte certamente são os ricos diálogos que colocam em questão o amadurecimento tardio, a ansiedade de se tornar "alguém", a necessidade de estar em um grupo, ser bem-sucedido e ter uma bagagem de vida. Brooke está na idade que é proibido errar, pois se tem a sensação de ficar para trás, ela se desdobra, mas ao fim coloca tudo a perder, pede auxílio aos amigos para concretizar o sonho do restaurante, o que garante cenas hilárias, mas que termina de maneira tensa. Porém, Brooke não desiste e segue em frente. Fracassar faz parte, não há vergonha em admitir, também o peso, a cobrança que a sociedade coloca que se tem que estar estabelecido quando tiver certa idade é pura balela e causa apenas estresse, quando for pra ser, será. E aliás, cada um tem uma necessidade e um tempo de amadurecimento, e o importante é não deixar que sua personalidade seja massacrada por conceitos de vida pré-estabelecidos.
Tracy fica tão encantada com Brooke que cria uma história sobre ela, intitulada "Mistress America", Brooke fica louca de raiva, pois Tracy traça um perfil não muito agradável, ainda ela vai resolver pendências do passado com uma amiga, que roubou a ideia de estampas para camisetas, seu namorado e seus gatos. A intenção é conseguir viabilizar a ideia do restaurante. Nesse meio tempo recebe a notícia de que o pai desistiu do casamento e, portanto, não será mais irmã de Tracy, esta que entra para o grupo literário da faculdade por causa do conto sobre Brooke. 

"E não sei se esse mal tem um nome, fico sentada vendo TV e Internet por muito tempo, tentando evitar isso. E depois mentindo para mim mesma. Daí me empolgo com algo e aquilo toma conta de mim e não durmo e nem faço nada. E me apaixono por tudo, mas não descubro como me fazer funcionar no mundo."

É divertido, consegue expor a relação que se constrói entre as duas de forma delicada, com seus altos e baixos, uma afinidade e uma admiração bonita de se ver. Também por colocar traços de personalidades interessantes, que atrai e conquista. Brooke é encantadora e é muito fácil gostar dela, cria-se uma identificação. 
Vale salientar a maravilhosa trilha sonora que compõe perfeitamente com a ambientação e narrativa, com canções originais da dupla Dean & Britta com um quê de anos 80/90, destaque para "No More Lonely Nights", de Paul McCartney, "Dream Baby Dream", de Suicide, "All That She Wants", de Ace of Base e "Souvenir", de Orchestral Manoeuvres In The Dark. 

"Ela era o último caubói, uma romântica fracassada. O mundo mudava e pessoas como ela não teriam para onde ir. Ser uma luz de esperança para os outros é um trabalho solitário."

"Mistress America" é um filme delicioso, com diálogos inteligentes e certeiros, além de atuações cativantes, o tema nunca se esgotará, pois o processo de amadurecimento é constante, não há prazos estipulados, a vida é ampla e somos passíveis de mudanças. O jeito é aprender a lidar com fracassos e ter consciência de que estar perdido no mundo, apesar de desconfortante, é absolutamente normal. 

Um comentário:

  1. Como escrevi no blog outro dia, os filmes de Baumbach que assisti me pareceram superestimados.

    Ainda não conferi "Francis Ha" e este que você comenta aqui, talvez mude minha opinião com eles.

    Abraço

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