segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Cemitério do Esplendor (Rak ti Khon Kaen)

"Cemitério do Esplendor" (2015) dirigido pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul (Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas - 2010) é um filme contemplativo que nos transporta para uma atmosfera espiritualista e que faz crítica ao sistema com belas metáforas. É uma obra artística profunda, sensível e ampla. A vida é muito mais do que podemos ver, e conforme vivemos muitos muros são construídos nos levando à cegueira, porém as possibilidades de derrubá-los existem e quando isso ocorre, a visão com certeza é surpreendente. A compreensão se dá pela nossa imaginação, o esplendor consiste não no concreto, mas nas inúmeras experimentações, sensações do que não se pode enxergar. A filosofia de vida dos tailandeses está presente, a concepção budista, porém vai além de crenças em outras vidas, é algo inominável que só se completa na imaginação. 
Soldados com uma misteriosa doença do sono são transferidos para uma clínica temporária em uma antiga escola. O espaço repleto de memórias se torna um mundo revelador para a dona de casa e voluntária Jenjira (Jenjira Pongpas) enquanto ela cuida de Itt (Banlop Lomnoi), um belo soldado que não recebe visitas. Jen torna-se amiga da jovem médium Keng (Jarinpattra Rueangram), que usa seus poderes psíquicos para ajudar entes queridos a se comunicarem com os homens em coma. Os médicos exploram diferentes maneiras, incluindo terapia de luz colorida, para aliviar os sonhos perturbados dos doentes. Jen descobre um caderno de Itt, cheio de desenhos e escritos estranhos. Pode haver uma ligação entre a enigmática síndrome dos soldados e o antigo local mítico que se encontra abaixo da clínica. Mágica, cura, romance e sonhos são parte do tenro caminho de Jen para uma consciência mais profunda de si mesma e do mundo ao seu redor.
A narrativa é rica e engrandecedora, os símbolos são identificáveis e a delicadeza com que tudo é abordado nos traz à lucidez, um abrir de olhos para si e para o mundo. É incrível a união da aura mística e enigmática a um despertar de imaginação e consciência.
A doença que acomete os soldados é um mistério, tem a ver com vidas passadas que sugam a energia daqueles homens, o que representa o esgotamento da existência, o vazio que toma o ser humano. Jen após se encontrar com duas deusas que lhe contam que o hospital foi no passado um palácio e que os reis que ali habitavam absorvem a energia dos soldados para lutar suas batalhas, se aproxima mais da jovem médium e convive com Itt quando desperta, eles conversam e há algo inexplicável nesta relação, uma mistura de afeto materno e uma tensão sexual que paira no ar, em dado momento Itt adormece no meio de um lanche a tarde e encorpora em Keng, ali no jardim Keng/Itt mostra o que vê, as salas de um suntuoso palácio, enquanto Jen vê apenas o local repleto de árvores que remetem a sua juventude. É o encontro entre passado e presente que metaforiza com questões sociais da Tailândia.
O filme expõe que é preciso ter consciência dos sonhos da mesma forma que temos dos nossos pensamentos, que por sinal não se diferem. Há uma crítica em relação à alienação, o tédio que o cotidiano provoca e o estado de dormência que nos assola.

O mundo real se confunde com o mundo onírico de maneira leve e orgânica, o conceito de reencarnação está presente e tanto as pessoas como os lugares carregam uma carga espiritual, não adianta querer entender a narrativa pelo modo convencional, a lógica dela vai além do que está se passando na tela, a naturalidade permeia toda a obra, as interpretações, o som do vento, dos pássaros, cenas que contemplam a natureza das coisas, é calmo, e estranhamente por mais que pareça confuso, chega fácil a quem já está habituado ao clima dos filmes de Apichatpong.
"Cemitério do Esplendor" segue um fluxo que não se conclui, mas que se transforma, a sensação é de que as imagens nos captura e hipnotiza, temos a certeza de que mesmo não compreendendo sairemos satisfeitos, é um filme que diz sobre o que não somos capazes de enxergar, portanto gera desconforto, mas sem dúvidas abre novos olhares e amplia percepções.

Vida e morte, realidade e imaginação não são conceitos separados, são experiências ininterruptas que estão lado a lado. Além desse viés espiritual, pode-se ler também algo político na trama, devido a recente crise política na Tailândia, há inúmeras metáforas, como o projeto governamental que escava no local onde fica a clínica em que estão os homens adormecidos.
É um filme sensorial, instigante e prazeroso, mesmo tendo um ritmo lento em que aparentemente nada acontece e questões que não compreendemos, seja por conta da cultura ou religião. Mas exibe pensamentos inquietantes e que despertam a nossa consciência, que no dia a dia sem percebermos adormece diante a rotina entediante, relações fastidiosas e cansaço perante as injustiças.

Um comentário:

  1. Dos trabalhos do diretor, que por sinal tem o apelido de Joe, eu assisti três filmes.

    Tio Bonmee, Síndromes e e um Século e Mal dos Trópicos.

    São obras completamente diferentes do que estamos acostumados. Como vc bem citou no texto deste novo filme, são obras sensoriais, com um ritmo lento para o espectador apreciar as imagens e analisar as entrelinhas da história.

    É um estilo de cinema indicado para poucos.

    Abraço

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