quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Gloria

"Gloria" (2013) do diretor chileno Sebastián Lelio é um raro retrato de uma mulher que está perto de completar 60 anos, no longa não há receios em expor chateações, relacionamentos, divertimento, e sexo.
Gloria (Paulina García) é ativa, leve e independente, divorciada há tempos e com os filhos já fora de casa, deseja apenas uma coisa: viver! Para isso ela frequenta bailes, onde se descontrai, dança e bebe, vemos o seu cotidiano, o esforço em manter contato com os filhos, o trabalho, a dificuldade em lidar com o seu vizinho barulhento dono de um gato que vive a invadir seu apartamento, enfim, somos introduzidos à vida desta mulher. Apesar de conviver bem consigo mesma, a solidão lhe afeta de vez em quando e ao conhecer Rodolfo (Sergio Hernández), um ex-oficial da marinha, dono de um parque de paintball, a paixão acontece, entre conversas carinhosas o romance engata, mas o dia a dia vai revelando defeitos desconfortáveis. O relacionamento deles é retratado de forma realista, o longa merece elogios por colocar a maturidade em evidência, pessoas das quais viveram tanto tempo do lado de alguém recomeçando novamente.
O ritmo segue agradável, em nenhum momento as situações caem no excesso dramático, Gloria lida à sua maneira com as circunstâncias. Por exemplo, quando leva Rodolfo para o aniversário de seu filho e lá encontra seu ex-marido e a namorada, e a filha que está grávida de um sueco, acontecem picuinhas, mas nada que estrague o momento, porém Rodolfo se sente mal e vai embora sem avisar. Gloria fica chateada e não quer mais vê-lo, mas ele liga, se desculpa e então voltam a namorar, só que ao invés de melhorar, ele segue cometendo deslizes imperdoáveis. Manter uma relação saudável com a ex-mulher é plausível, e com os filhos nem se fala, é algo imprescindível, mas Rodolfo exagera, as filhas e a ex-mulher que de ex não tem nada são completamente dependentes dele, o que faz com que seu relacionamento com Gloria comece a ruir.

O cotidiano de Gloria é o grande espetáculo, sem muito glamour, mas extremamente belo, pois ela ao contrário de muitas mulheres dessa idade não se sente velha, o estágio em que se encontra é de pura liberdade em ser, já não há responsabilidade com outros, é uma grande chance para conhecer-se melhor e viver experiências.
Paulina García executa maravilhosamente sua personagem, uma mulher forte, mas carente, decidida, que busca e não vê obstáculos em recomeçar. Vemos Gloria pulando de Bungee jumping, bebendo, fumando maconha, dançando na pista, além de cantar suas músicas preferidas. Aliás, a música é um ponto a se destacar, incluindo "Águas de Março" de Tom Jobim cantada por uma dupla com um sotaque todo especial, também tem "Lança Perfume" de Rita Lee, e fechando com chave de ouro "Gloria" de  Umberto Tozzi.
A melancolia, o entusiasmo e a delicadeza são utilizados na personagem, e quando ela percebe que não há ninguém que possa preencher seu vazio, eis uma celebração de si mesma. 

"Gloria" é um filme delicioso, há momentos encantadores e dolorosos, é um recorte realista de uma mulher que busca e não tem medo de viver, são as delícias e as angústias que permeiam a chamada fase "melhor idade", e que apesar dos contratempos, tudo continua, recomeços são importantes e em qualquer idade, afinal o principal é nos sentirmos bem e jamais deixar que a chama do desejo de viver se apague. 

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