quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Uma Grande Aventura (Watership Down) Filme/Livro

"Watership Down" (1978) traduzido no Brasil como "Uma Grande Aventura" ou "A Longa Jornada" é uma animação baseada no romance homônimo de 1972 de Richard Adams e dirigida por Martin Rosen (The Plague Dogs - 1982, também baseado na obra homônima de Richard Adams), conhecida como uma das mais perturbadoras e sanguinolentas animações, sem dúvidas, uma obra-prima atemporal que conversa tanto com o universo infantil como o adulto, há um exagero em sua fama de violência, mas o seu conteúdo é sim bastante obscuro, pois trata-se de sobrevivência. Richard Adams começou toda essa história por causa de suas filhas em uma viagem de carro pela Inglaterra, motivado ele pesquisou sobre a vida dos coelhos, o habitat, os seus modos e construiu algo grandioso, pode-se encarar "Watership Down" como uma aventura hipnotizante ou como uma metáfora para o comportamento humano, a religião, a sociedade e sua escala de poder, e tantos outros simbolismos que vão aparecendo no decorrer. 
Com sua toca ameaçada de destruição, um grupo de coelhos é obrigado a abandonar o lugar onde vivem e partir em uma grande aventura. Eles não estão prontos para essa viagem, cheia de perigos e surpresas, mas precisam encontrar uma nova casa o mais rápido possível. Os valentes coelhos são perseguidos por animais domésticos, conseguem fugir dos humanos e até encontram um coelho malvado que não quer saber de ajudá-los e sim atrapalhar o caminho. Mas juntos, eles enfrentam cada desafio e problema, com a força da amizade.
A sinopse pode enganar por seu tom fabuloso em que coelhos buscam um lugar seguro e por conta da união conseguem sobreviver, porém ao entrar em contato com o livro/filme e observar a maneira que esses coelhos são retratados, como os traços naturais do desenho no filme, desmistifica o estereótipo de candura que supostamente possuem, a história é permeada de situações ruins em que o medo é o grande protagonista, eles são movidos por esse medo e usam de suas características, como agilidade, audição privilegiada e a sagacidade para elaborar truques e ir adiante sem se deixarem abater, além de fugirem de inimigos de outras espécies também precisam lidar com as armadilhas de outros coelhos. Tudo começa quando Cinco-Folhas (Richard Briers), um coelho franzino pressente algo ruim vindo em direção à coelheira, ele visualiza uma bituca de cigarro que sinaliza a presença de homens e um pedaço de madeira fincado na terra, uma placa, e logo tem a visão do campo todo ensanguentado, junto com seu irmão Aveleira (John Hurt) vão até o chefe do Owsla - os coelhos mais fortes e superiores da coelheira - e avisam sobre a tragédia que está por vir, mas o grande coelho menospreza a recomendação de irem embora. Após isso Cinco-Folhas e Aveleira formam um grupo e partem em busca de um bom lugar para viver, nesta jornada passam por muitos perigos, encontram raposas, gatos, cachorros, pássaros, homens com espingardas e coelhos estranhos e tantas outras adversidades, precisam conquistar território, construir as próprias tocas, conseguir um local para comerem e acima de tudo permanecerem unidos são e salvos. Durante essa extenuante caminhada alguns morrem e se machucam, conhecem modos de vida diferentes e percebem que precisam de muita coragem para seguirem, principalmente, quando vão atrás de fêmeas na temida Efrafa.

Uma das coisas que mais chama a atenção na animação é a sua estética, os coelhos não são retratados como seres bonitinhos e a natureza deles é exposta de maneira real, os hábitos e a luta pela sobrevivência, e claro, aí entra a violência, arranhões e mordidas que arrancam pedaços, além de imprevistos, mas nada é gratuito, quando percebem que só lutando poderão escapar se tornam impetuosos e selvagens, as cenas sangrentas são poucas na verdade, o conteúdo foi baseado realmente na vida dos coelhos, a fonte de inspiração do autor foi o livro de Ronald Lockley, "A Vida Privada dos Coelhos", portanto, a agressividade faz parte, mas nada tão estarrecedor, existe um exagero em torno.
O filme é um clássico e merece toda a atenção, só que funciona isoladamente do livro, a reprodução não é fiel e os acontecimentos não estão na ordem, alguns personagens não são focados e demora-se a distingui-los, porém visualizar o cenário e todo o percurso alimenta ainda mais a nossa imaginação, é uma experiência que nutre. Condensar um livro de centenas de páginas cheio de detalhes é complicado e a imersão acaba não funcionando por ter uma abordagem rápida, a ação é quem manda, chama-se isso de plot-driven, onde o personagem está à mercê dos acontecimentos e por conta do tempo seu perfil não é explorado por completo. O que é uma pena, pois cada coelho exibe uma característica única, Cinco-Folhas é intuitivo, Aveleira é confiável, Manda-Chuva é forte e corajoso, Dente-de-Leão é um exímio contador de histórias, Amora-Preta é astuto, estes são os principais, mas quando abre espaço para algum coelho em cena percebe-se algo que se sobressai em cada.

Em dado momento da jornada eles encontram uma coelheira com hábitos diferentes dos demais coelhos, são bem recebidos pelo grande e melancólico Prímula, mas algo parece estranho em seus hábitos polidos e desinteressados, por exemplo, quando por agradecimento pela acolhida querem contar uma história sobre a mitologia deles, que envolve El-ahrairah - uma espécie de Deus, eles rejeitam veementemente, no decorrer perceberam que dia após dia um coelho desaparecia, e então descobriram que os homens não eram generosos em tratá-los, mas ali era um viveiro e todos os coelhos tinham consciência disso. A mitologia mencionada a cada nova empreitada inspira os coelhos a não desistir, já que El-ahrairah, o herói deles venceu utilizando inúmeras artimanhas, o mito no livro é muito mais desenvolvido e não tem como não relacioná-lo com a religião, é dito que o mundo foi criado por Frith, representado pelo sol, e que nesse mundo habitava muitos animais e todos viviam em paz, até que os coelhos liderados por El-ahrairah se proliferaram demasiadamente e acabaram com a comida dos outros animais, estes imploraram a Frith para que pedisse ao coelho controlar seu povo, mas foi ignorado e Frith decidiu dar aos outros animais garras e presas para caçar os coelhos, e assim foram sendo mortos, até que restou somente El-ahrairah, que acabou ganhando também várias características, como a aguçada percepção para poder sobreviver com tantos inimigos a sua volta.

A história toca em temas muito pertinentes, como confiança, companheirismo, hierarquia social, religião, sacrifício, e demonstra a amizade improvável entre os coelhos e a gaivota, Kehaar, uma personagem maravilhosamente bem adaptada para o filme, na voz de Zero Mostel, sem dúvidas, as cenas que participa são as melhores, a ave tem um misto de simpatia e impaciência com os coelhos, eles a ajudaram a se recuperar depois de um ataque de um gato e o pássaro grato os ajuda a encontrar Efrafa e libertar as fêmeas de lá, essa coelheira tem um sistema ditatorial, horários determinados para comer e há patrulhas por todos os cantos, são coelhos que não temem a luta e são muito leais. As fêmeas estão bastante insatisfeitas e estressadas e quando Manda-Chuva (Michael Graham Cox) entra lá com o pretexto de se juntar e se tornar um deles, observa tudo ao redor e as convence a fugir direto para a liberdade. Claro que esta fuga não é fácil e dependem muito da engenhosidade e da sorte, e os efrafianos não se dão por vencidos. 
A sobrevivência requer sacrifício e isso os coelhos não temem, outro ponto interessante é a conversa que Aveleira vai tentar com o general Vulnerária (Harry Andrews), onde ele diz que é estupidez guerrear entre a mesma espécie enquanto poderiam ampliar o território e usufruir juntos dos recursos naturais, as alegorias estão por toda a parte, basta se atentar a narrativa que tudo tem um paralelo com a nossa sociedade e o comportamento humano, mas se quiser ter uma interpretação literal, onde a fantasia e a aventura predomina também pode, inclusive essa é a grandeza da obra, fazer com que cada leitor/espectador tenha sua própria perspectiva da história. A aura melancólica é penetrante mesmo com toda a ação, uma parte que evidencia muito esse sentimento é quando Cinco-Folhas pressente algo em relação a seu irmão e a canção "Bright Eyes" de Art Garfunkel, que acompanha a cena torna ainda mais forte essa melancolia.
♪ Há uma névoa ao longo do horizonte,
um estranho brilho no céu
e ninguém parece saber para onde você vai
E o que isto quer dizer,
  oh, é um sonho? ♪

"Coelhos (diz o Sr. Lockley) são, em muitos aspectos, parecidos com seres humanos. Um desses é, sem dúvida, sua grande habilidade em superar desastres e deixar que o fluxo da vida os transporte além dos limites do terror e do dano. Têm uma certa qualidade, que não seria justo descrever apenas como resistência ou indiferença. Trata-se, melhor dizendo, de uma imaginação abençoadamente restrita e o sentimento intuitivo de que Vida é Presente."  

Colocando o livro e o filme lado a lado, o livro certamente sai em disparada com sua profundidade e imersão, mas não diminui o valor da adaptação, que mesmo não satisfazendo o leitor ainda consegue emocionar e incutir o interesse, a quem se deparou inicialmente com o filme e ficou sabendo do livro depois com certeza terá vontade de se enveredar pelas páginas de "Watership Down". As descrições, os cenários, os hábitos, os diálogos, o vocabulário criado pelo autor, simplesmente mágico apesar de carregar um tom sombrio, o fato de se basear na vida natural dos coelhos é o diferencial do livro, que em nenhum momento esconde ou floreia as atitudes difíceis e selvagens para a sobrevivência. Outra questão que permeia a história é a destruição da natureza causada pelas mãos do homem, o quão distantes e separados da natureza estão e todo o desequilíbrio que isso tudo causa no ambiente devido a ambição desmedida e egoísmo. Crítica ambiental, social, política e religiosa, por mais que o autor negue que fez qualquer alegoria ou metáfora, elas estão presentes e saltam aos nossos olhos. "Watership Down" é um livro original, cru, melancólico, fascinante e memorável; o filme também impressiona pela representação dos coelhos e ao dar ênfase nas decisões que precisam tomar diante do caos. A obra cinematográfica é notável, mas a leitura é imprescindível.


"Para os coelhos, tudo que é desconhecido é perigoso. A primeira reação é se assustar, a segunda é correr. Várias e várias vezes eles se assustaram, até chegar ao ponto da exaustão. Mas o que eram esses sons e para onde, nesse ambiente selvagem, eles poderiam correr?". 

"Chegar ao fim de um período de ansiedade e temor! Sentir a nuvem que pende sobre nós, leve e dispersa - a nuvem que reanima o coração e faz com que a felicidade não fique apenas na lembrança! Isto, pelo menos, é uma alegria que deve ser conhecida por quase toda criatura vivente."

"Muitos seres humanos dizem apreciar o inverno, mas do que realmente gostam é de se sentir protegidos. Não enfrentam problemas de alimentação. Têm lareiras e roupas quentes. O inverno não os fere fundo e, portanto, aumenta seu sentimento de habilidade e segurança. Para pássaros e animais, e para pessoas sem recursos, o inverno é cruel."

*A Netflix e a BBC One anunciaram a produção de uma minissérie animada de 'Watership Down" em quatro episódios. Estamos no aguardo!  

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