segunda-feira, 19 de maio de 2014

Pedalando com Molière (Alceste à Bicyclette)

"Pedalando com Molière" (2013) dirigido por Philippe le Guay conta a história de dois atores que se reúnem para ensaiar a peça "O Misantropo", neste processo a ficção se confunde com a realidade. Gauthier Valence (Lambert Wilson) é um ator conhecido, principalmente por uma série em que interpreta um médico, decidido a fazer algo fora da mídia, vai até a pequena e isolada ilha de Ré, onde seu amigo, um ator aposentado, Serge Tanneur (Fabrice Luchini) mora, e o chama para interpretar "O Misantropo", de Molière. Serge inicialmente se recusa, não quer mais saber de atuar, mas ao mesmo tempo se sente tentado a interpretar o clássico personagem da história, este que tem tudo a ver com sua atual condição. Serge faz uma proposta a seu amigo, durante uma semana ensaiarão a primeira cena da peça e depois disso dará a resposta se irá aceitar ou não o convite. Durante esses dias acontece um jogo de poder e manipulação entre os dois. Serge e Gauthier ensaiam vorazmente as falas e cada um tenta ser melhor que o outro, inclusive trocando os papéis, ora Gauthier é Alceste e Serge é Philinte e vice-versa, só que por mais que Gauthier queira ser o protagonista Alceste, Serge é o que mais cabe ao papel. Ele assim como o personagem perdeu a fé na humanidade e é revoltado com a hipocrisia da sociedade.
São diálogos ricos, deliciosos e recheados de trechos da peça, todas as cenas contém um tom cômico, sarcástico, do qual dá uma força imensurável ao filme. Todos os detalhes e as pequenas coisas são importantes, como o passeio de bicicleta que fazem. Há momentos densos que nos tiram o ar, mas também alívios cômicos que dão dinâmica ao filme. É notável o respeito que os dois amigos nutrem pelo texto de Molière, a cada palavra pronunciada, seja nos modos contidos de Gauthier, ou no modo explosivo de Serge. É um duelo saboroso. Gauthier deseja comprar uma casa na ilha, e Serge lhe arranja um corretor, em meio as visitas que fazem conhecem Francesca, uma italiana que está se divorciando e por isso os trata mal. Porém, dias depois ela pede desculpas e uma amizade acaba nascendo entre os três, nesta parte o orgulho tanto de um quanto do outro começa a aflorar.

O modo como a arte é vista por ambos é o grande diferencial. Serge se aposentou por não conseguir suportar o meio que só viabiliza lucro, já Gauthier é o ator que todos amam, devido a série da qual protagoniza. Um papel medíocre na opinião de Serge, que em dado momento assistindo a série na sala despreza e sai atender o telefone. Gauthier se sente extremamente mal com isso. Por mais que os dois sejam diferentes, há uma grande amizade, mas que é rodeada de orgulho, vaidade e ressentimentos.
O final é incrível e completa a obra de maneira amarga, representar um papel exige-se muito mais que decorar falas e utilizar vestimentas elegantes, é saber retirar a essência do personagem e senti-la em si mesmo para o ser de forma natural, Serge tinha isso de sobra, mas infelizmente as coisas não funcionam por este lado.

É uma obra impecável, uma comédia francesa inteligente que soube dosar drama e comédia na medida exata, e ainda brincar com o texto de Molière, usando o personagem Serge que mistura-se ao Alceste. É um estudo sobre a amizade e todos os sentimentos que a envolvem, como admiração, enfrentamento, orgulho, vaidade, inveja, alegrias e tristezas.
As atuações são perfeitas e nos brinda com diálogos ágeis e instigantes, além da belíssima fotografia. "Pedalando com Molière" é um filme leve, mas que carrega uma crítica satírica em relação a sociedade e o quanto o ego pode ser destruidor.

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