quarta-feira, 7 de maio de 2014

Attila Marcel

"Atilla Marcel" (2013) é dirigido por Sylvain Chomet, conhecido por suas animações, como "As Bicicletas de Belleville" (2003), "O Mágico" (2010). Este é seu primeiro filme em live-action, porém o tom de fábula permanece.
O enredo de "Attila Marcel" centra-se em Paul (Guillaume Gouix), que aos dois anos de idade vê seus pais morrerem. Por conta deste trauma perdeu a fala e a memória, e para piorar foi criado por duas tias controladoras, que só pensam em uma coisa: ver o sobrinho vencer as competições de piano. Sua rotina se resume entre o enorme piano da casa e tocar nas aulas de dança que suas tias dão. Paul não se expressa, só escreve em um quadro grudado na parede para que saibam aonde foi e para quê foi. Sua vida toma um outro rumo quando conhece a madame Proust (Anne Le Ny), que lhe oferece uma espécie de chá alucinógeno acompanhado de uma madeleine. A partir dessas visitas ele começa a se lembrar dos momentos de sua vida na infância.
É um filme caprichado que caminha pelo universo lúdico que Chomet sabe criar muito bem. Paul é um homem de 30 anos que ainda possui traços infantis, o trauma vivido na infância o deixou alheio ao mundo e com amnésia sobre os verdadeiros acontecimentos passados. A madame Proust entra na história com uma vivacidade espontânea, capaz de encantar o espectador já no início, a cada vez que oferece o chá alucinógeno a Paul, ela dá a oportunidade dele mergulhar no passado e lembrar de sua mãe e de seu pai.
Guillaume Gouix compõe um personagem minimalista, tudo é expressado através de seus olhos, já que sua postura é completamente travada, é excêntrico e admiravelmente cômico. O humor passeia pelos moldes de Jacques Tati, onde as miudezas são de grande importância, e consequentemente levam ao riso. De situações dramáticas, como o enclausuramento que as tias o submetem, seja o físico ou mental, há pitadas de um suave humor. Também lembra  o estilo de Jean-Pierre Jeunet, que cria um universo fantástico em situações cotidianas.
As viagens da qual Paul faz com o chá da madame Proust são os momentos mais inventivos, ele se lembra dos instantes de sua infância, e como nos sonhos, não há impedimentos para a imaginação. Com isso ele enfrenta seus medos e consegue clarear um pouco sua mente confusa. Madame Proust é uma personagem encantadora, em seu apartamento cultiva diversas ervas, possui pensamentos amplos e quando aparece tocando seu ukulelê é de uma beleza poética. Aliás, a música pontua perfeitamente o clima do filme.

Aos poucos as peças vão se encaixando na cabeça de Paul, as memórias aparecem e ele se dá conta e descobre que suas tias mantiveram em segredo a tragédia, e que egoisticamente o fizeram se tornar num pianista. As reviravoltas do fim são bem delicadas ao retratar algo tão dramático. As coisas para Paul vão se acertando e como nos contos fabulescos o final feliz é inevitável. Uma bela amostra de um filme de comédia diferenciado. Para quem conhece as animações de Sylvain Chomet sabe do seu grande talento e capricho.

"Achamos tudo em nossa memória: ela é uma grande espécie de farmácia, de laboratório de química, onde encontramos sem querer ora um calmante, ora um veneno perigoso." (Marcel Proust)

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