quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Homem ao Lado (El Hombre de al Lado)

"O Homem ao Lado" (2009) é mais uma bela amostra do quão o cinema argentino é incrível. Roteiro inteligente, humor na medida exata, personagens reais e um tema muito atual. Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat (Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto - 2011) a história é sobre a desavença entre dois vizinhos por causa de uma janela.
Leonardo (Rafael Spregelburd) é um designer egoísta, arrogante e intelectualizado que ficou rico por ter desenhado uma cadeira não convencional. Sua esposa Anne é ainda pior, chata ao extremo, a típica perua que pensa sempre ser a dona da razão, professora de Yoga, dá aulas no último andar de sua casa. Lola, a filha deste casal todo certinho e modelo de uma sociedade imaginária, vive em seu quarto escutando e dançando sem ritmo uma música esquisita, ela com certeza não sabe nem o que significa a palavra afeto, sua vida é tão sem graça que parece nem ao menos existir. É necessário descrever a casa em que essa família mora, ela também é uma personagem neste filme. Super moderna, cheia de vidros, rampas e totalmente clean, foi projetada por um famoso arquiteto suíço, Le Corbusier, e fica localizada em La Plata, na Argentina.
Leonardo é o esteriótipo do ser humano que por causa de sua classe social se julga o conhecedor, ele vive numa bolha de felicidade ilusória, onde tudo parece estar no lugar. O mundo dele começa a balançar quando o vizinho abre um buraco a fim de construir uma janela, cuja dá de frente para sua casa. Victor (Daniel Araóz), um sujeito que a primeira vista parece ser agressivo por seu porte e expressão, vai se revelando numa pessoa de coração bom, que apenas deseja se inserir no mundo em que Leonardo faz parte. É a partir daí que a história se desenrola, são construídos diálogos inteligentes e sagazes. Victor argumenta que só precisa de um pouco da luz do sol, coisa que Leonardo tem de sobra, este rebate que construir uma janela ali é contra a lei, invasão de privacidade. Victor tem vivacidade, e até se diverte com Leonardo, em vários momentos afirma que vai parar a obra, oferece presentes, como um pote de conserva de porco, caçado por ele mesmo, inclusive dá a receita nos créditos finais do filme. Também dá uma escultura feita de armas e balas toda pintada em vermelho, que diz representar uma vagina. Nesta parte é engraçado pensar no conceito arte, porque se a mesma escultura fosse feita por um artista de renome, certeza que teria valor e todos fingiriam entender o que ela representa.

A mulher de Leonardo é irredutível na questão sobre a janela, ela reflete bem a mulher fútil que pouco se importa com o outro, afinal está bem aconchegada em seu mundinho, a não ser pela janela que Victor teima em construir. Vemos logo no início vários turistas e estudantes tirando fotos da única casa projetada por Le Corbusier na América Latina. Este também é um tipo de invasão, mas diferente da janela todos estão admirando a casa, enquanto Leonardo e sua família estão lá dentro sentindo uma sensação de poder em relação aos outros. Victor a abrir o buraco na parede quebra esse poder que Leonardo sente. Pela janela daria para ver a fraqueza de Leonardo, o desastre que é a sua relação com a filha, a infelicidade e o tédio que o rodeia. Por muitas vezes ele falava que estava trabalhando só para não atender os chamados de seu vizinho, mas Victor rebatia e dizia para ele a verdade e que sabia que não estava fazendo absolutamente nada. Leonardo vende a imagem do homem rico, designer criativo e muito inteligente, capaz de apreciar coisas que seriam insuportáveis à outras pessoas. O que dizer da cena em que ele e seu amigo estão na sala escutando uma música cheia de ruídos estranhos, aí o amigo dele vira e diz: "Gosto desta batida fora do ritmo", até descobrir que elas vinham das marteladas do vizinho. É sensacional!
Dá para discutir muitos e muitos aspectos sobre a sociedade e seus valores a cada cena. O humor negro está sempre presente e principalmente o sarcasmo nas falas de Victor. A arrogância de Leonardo é tanta que ele não passa seus conhecimentos e os métodos para os estudantes de design, a cena em que acontece a entrevista exalta bem isso, ele se nega a dar um conselho para os iniciantes, outra que também reflete sua mesquinhez é quando os estudantes vão mostrar seus projetos, e a única coisa que ele faz é maltratar e usar palavras desincentivadoras. Victor é um sujeito rude, simples, porém muito simpático, e é por causa dele que a filha de Leonardo consegue esboçar um sorriso, numa dança com os dedos que ele exibe a ela através da janela.

Victor é um ser humano de verdade que age conforme sua natureza, já Leonardo vive sob a  luz que emana da classe denominada artística, dá-se um valor do qual não tem. Aos poucos Victor  adentra no mundo de Leonardo e crê que se tornou amigo dele, há uma certa ingenuidade neste homem que julgamos no início um brutamontes.
O filme não poderia ter melhor desfecho, revela o quanto o ser humano pode ser egoísta em função de suas vontades, e colocar o seu ponto de vista como certo e ignorar o do outro. Leonardo tem todos os defeitos do mundo, mas se esconde numa plasticidade elegante que encanta a todos ao seu redor.
O filme questiona valores que a sociedade anula em função de aparência e elegância. Ter status tornou-se a meta, esquece-se dos sentimentos em relação ao outro, o espaço que qualquer um merece e precisa ter. Se pudéssemos ver através de uma fresta a vida de pessoas ditas perfeitas, encontraríamos apenas sujeira. Manter a imagem ilusória da felicidade tem as suas consequências. É incrível a que nível de estupidez chega o ser humano e que por tão pouco seja capaz de atos inescrupulosos.

"O Homem ao Lado" caminha a passos lentos, mas contém um suspense do qual ficamos presos o tempo todo. Com belíssimas atuações, diálogos riquíssimos, fotografia que prima por ângulos estratégicos e uma direção apurada que dá legitimidade à obra, o longa é um exemplar digno do cinema argentino que é expert em mesclar inteligência e humor.

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