sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
A Bruxa na Janela (The Witch in the Window)
"A Bruxa na Janela" (2018) dirigido por Andy Mitton (Yellowbrickroad - 2010) é um bom filme de horror que se sustenta no drama familiar e que se difere dos tantos exemplares envolvendo casa mal-assombrada, algo original nesse estilo é bastante difícil e por incrível que pareça este exibe elementos que não apenas assustam mas que também sugerem reflexões contundentes. É preciso saber antes de se enveredar que não é um filme comum de terror, o drama se sobressai ao demonstrar que lidar com fantasmas internos pode ser mais complexo do que supostamente os que habitam as casas.
A trama gira em torno de um pai separado, Simon (Alex Draper), e seu filho de doze anos, Finn (Charlie Tacker), que se dirigem a Vermont para consertar uma antiga casa de fazenda, e acabam encontrando o espírito malicioso do proprietário anterior, uma mulher infame e cruel chamada Lydia (Carol Stanzione). Com cada reparo que Simon faz, ele também está tornando seu espírito mais forte... até que um encontro aterrorizante o deixa duvidando se ele pode proteger seu filho do mal que está entrando em suas cabeças e corações.
Simon busca seu filho pré-adolescente para passar um tempo reformando uma casa de campo em Vermont, sua intenção é fazer uma surpresa para a esposa, que está sufocada e triste com o comportamento do filho, eles não têm uma relação fácil, o garoto está numa fase de revolta e desconta tudo na mãe, ele viu coisas na Internet que não deveria, o pai é um fracassado que apenas foge para não encarar a realidade, este momento surge como um possível recomeço e então Simon dará tudo de si a fim de se reconectar com a família. De início há bastante conflito na interação entre pai e filho, mas conforme o andamento da reforma se desenvolve a relação vai se tornando mais maleável com conversas sobre mentiras e verdades, até que quando Louis (Greg Naughton), o vizinho, vai dar uma olhada na parte elétrica conta a história da casa e da mulher que ali habitava, acusada de bruxaria ela morava na casa com seu marido e filho, que mais tarde apareceram mortos, Louis diz que a propriedade sempre lhe causou medo, que o fazia ter pesadelos o levando assim ao sonambulismo e que toda vez que abria os olhos estava diante da casa. Ao olhar para a janela ele podia ver a bruxa, até que um dia percebeu que a mulher estava imóvel em sua poltrona e descobriu depois que estava morta há algum tempo com os olhos abertos encarando o horizonte. Dai por diante pai e filho começam ter a certeza que não estão sozinhos e não demora para a fantasma aparecer sentada em sua poltrona de frente para a janela, inclusive os dois a olhando bem de perto. À medida que reformam a casa Lydia vai ficando mais e mais forte e ao contrário de tantas outras histórias a fantasma quer que eles fiquem. Simon não deixa que o filho fique na casa e sozinho decide dar prosseguimento, o que permite que ele não só encare Lydia, mas encare também os seus fantasmas internos.
O horror encontra espaço em instantes curtos parecendo alucinações ou sendo bastante explícito, mas sempre carregado de um tom sombrio e macabro ainda que o que mais se sobressaia é o drama familiar e a dificuldade de encarar o passado. Simon ao reestruturar a casa acaba encarando seus dramas e por fim precisando fazer escolhas um tanto sinistras, o que confere um desfecho original. Vale destacar o trabalho de som, a casa e seus ruídos e a atmosfera densa que a cerca.
"A Bruxa na Janela" é melancólico e emotivo ao retratar conflitos familiares, os fantasmas são expostos tanto literalmente como figurativamente. Definitivamente uma história que sai da fórmula básica de casa mal-assombrada e por isso já vale a pena ser visto.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
Melhores Filmes 2018
Segue a lista dos melhores filmes que estrearam no Brasil em 2018 que tive a oportunidade de assistir, dentre tantos escolhi 15 que me marcaram de alguma forma, são obras excepcionais dentro de seus gêneros e estilos.
15- "A Balada de Buster Scruggs" (The Ballad Of Buster Scruggs - 2018) Ethan Coen e Joel Coen
Um filme marcante e que homenageia o clássico gênero faroeste com muito estilo, arrebatador e permeado por um humor negro somos absorvidos por seis contos fascinantes sobre o velho oeste. O filme é muito bem elaborado dando a cada história uma personalidade única com personagens fascinantes, além do belíssimo trabalho de fotografia e sua ótima trilha sonora, tudo encaixadinho e que reaviva o tão aclamado gênero faroeste. Saiba+
14- "Hereditário" (Hereditary - 2018) Ari Aster
Um drama familiar atrelado ao terror, isso desencadeia diversas questões, como luto, incomunicabilidade, o sofrimento que cada um carrega, a maternidade, não é só algo que flerta com o oculto, mas que mescla os dramas e constrói a partir disso situações sinistras caminhando sempre em direção ao tão aterrorizante desconhecido.
Criativo, instigante e encorpado, é um filme que pede revisões e cativa aos espectadores que curtem mais um terror enigmático e sem sustos baratos, há todo um contexto por trás e nada é de graça, é necessário prestar atenção aos símbolos, diálogos e nos detalhes de cada personagem, a escolha da entidade que possui conhecimentos e auxilia e ensina as artes de todos os tipos, além de fornecer riquezas inimagináveis foi bem acertada, pois traz à tona o universo da Goetia, os mistérios são sedutores e sai da zona de conforto dos filmes de possessões e crucifixos invertidos. Saiba+
13- "Oh Lucy!" (2017) Atsuko Hirayanagi
Uma mulher solitária de Tóquio (Shinobu Terajima) se apaixona por seu professor (Josh Hartnett) quando decide fazer aulas de inglês. Quando seu professor desaparece, ela parte em uma viagem para encontrá-lo que a leva para o sul da Califórnia.
Um filme agridoce que retrata uma personagem fechada que ao ter uma oportunidade de se reinventar e se abrir vai em frente, reflete a solidão e a carência que o ritmo de vida em sociedade gera, as relações vazias e técnicas, o caos interno. As camadas de sentimentos que a história vai desnovelando atinge o espectador em cheio e ao final não tem como não refletir no quão sozinhos estamos e o quanto cada vez mais um abraço pode nos salvar. Saiba+
12- "Feliz como Lázaro" (Lazzaro Felice - 2018) Alice Rohrwacher
Uma espécie de fábula inspirada como o título sugere na história bíblica de Lázaro, porém as camadas que o filme propõe são amplas e deixa em cada espectador um sentimento, a linguagem é simples, mas há metáforas e uma enorme carga reflexiva, com certeza é uma obra para revisitar e tentar compreender e absorver o máximo possível das ideias expostas.
Nesta leitura livre da história bíblica, Lázaro (Adriano Tardiolo) é um garoto pobre e pouco inteligente, mas extremamente bondoso. Ele é explorado pelos familiares, fazendo trabalhos forçados diariamente, além de colaborar com a marquesa, proprietária das terras onde vivem. No entanto, após uma tragédia, Lázaro retorna à vida no século XXI. Ele não compreende mais a lógica deste mundo, mas pretende reencontrar a sua família e viver como antigamente. Saiba+
11- "As Boas Maneiras" (2017) Juliana Rojas e Marco Dutra
Um filme de terror que mescla estilos de forma original, o bizarro está sempre às voltas e a tensão nunca sai de cena, mesmo que haja uma quebra na segunda parte aos poucos novamente se introduz sensações e aguça nosso interesse por todo o desenrolar. A experimentação dos elementos dentro da trama só fazem complementar uma narrativa fascinante e séria que disserta sobre temas sociais em tom de fábula. Juliana Rojas e Marco Dutra se destacam pela criatividade e inteligência, seus filmes, seja como dupla ou individual, sempre são sinônimos de satisfação.
Ana (Marjorie Estiano) contrata Clara (Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara. Saiba+
10- "O Vazio do Domingo" (La Enfermedad del Domingo - 2018) Ramón Salazar
Mais de trinta anos depois de abandonar sua família, Anabel (Susi Sánchez) recebe uma visita inesperada de sua filha Chiara (Bárbara Lennie). Ela cede a seu desejo de passar dez dias em uma vila remota entre a Espanha e a França. Melancólico, reflete profundamente a relação entre mãe e filha, o abandono, a culpa e as maneiras de se reconectar.
O roteiro tem uma evolução tocante, o que de início fica duvidoso o porquê da reaproximação da filha com a mãe, com o desenrolar percebemos que vai muito além de elo de sangue, mágoas e acerto de contas, é sobre conexões emocionais construídas a partir de um acontecimento e convivência. Nesse contexto a sutileza impera, são momentos dotados de silêncios. A maternidade é retratada sob um ponto de vista realista, sem romantizações acerca de elos e amor incondicional. O drama é envolto por mistérios e essa relação vai sendo reconstruída, mas não de maneiras clichês, são momentos dos quais ora aproximam, ora repelem, a mágoa, a culpa e a dor permeiam o ambiente, será possível estabelecer um elo materno depois de anos e anos distantes? Saiba+
09- "O Conto" (The Tale - 2018) Jennifer Fox
Um filme que aborda um tema espinhoso, o abuso infantil, é angustiante e repulsivo, mas a sensibilidade faz parte de todo o desenrolar e é de uma importância gigantesca. Por ser baseado na própria vida da diretora faz ser ainda mais pesado, porém enxergamos exatamente a visão de alguém que passou pelo abuso e o como a mente mascarou e a blindou para que pudesse seguir em frente, Jennifer se mistura a sua personagem, que faz o resgate quando sua mãe encontra um conto que escreveu quando garota, um começo e um ressurgir de memórias e do como a negação fez parte de toda a sua vida. É um drama potente e necessário para a compreensão de todos os fatores envolvendo o abuso infantil pelo próprio olhar da vítima. Jennifer Fox retrata com muita transparência e não deixa de lado momentos do mais puro horror. Saiba+
08- "O Animal Cordial" (2017) Gabriela Amaral Almeida
Primeiro slasher feito por uma mulher no Brasil e, sem dúvidas, um exemplar potente para indicar sem medo àqueles que ainda acham que o cinema brasileiro carece de criatividade e ousadia. A atmosfera tensa coroada por brilhantes interpretações garantem um arrepio na espinha diante do quão fácil é o ser humano se tornar um animal selvagem. O medo, a infelicidade e o desespero quando instalados no ser humano o leva em momentos cruciais a realmente revelar um lado do qual se mascara no cotiano devido as regras sociais e morais, o obscuro vêm à tona e aí a violência domina por completo. Um surpreendente filme que nos brinda com um terror bem feito e ainda consegue dialogar sobre as aflições que atingem os brasileiros. Saiba+
07- "Roma" (2018) Alfonso Cuarón
Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais. Um filme íntimo, pessoal e de um apuro técnico fabuloso. Cuarón faz um registro do México dos anos 70 em que quase tudo foi inspirado em sua infância e em suas memórias de quando vivia no bairro Roma. A obra arrebata ao retratar o cotidiano, as desigualdades sociais e momentos críticos do país de maneira cru e fluida sem qualquer interferência ou crítica, completamente sensorial propõe um exercício de observação. Saiba+
06- "Dogman" (2018) Matteo Garrone
Uma história que retrata que não se pode ter tudo, o protagonista tenta agradar a todos, mas isso acarretará em consequências cada vez mais difíceis, o fazendo ruir e perder toda a sua dignidade. Todo o tempo nos perguntamos o porquê dele sempre ceder, as respostas surgem com o desenrolar ao entendermos sua personalidade canina, onde deseja tanto estar entre os cidadãos de bem, como também estar perto daqueles não tão bem vistos como forma de sobreviver e não se tornar vítima, mas essa maneira dele se comportar não dá certo e faz com que nem um lado nem o outro lhe dê atenção. "Dogman" traz uma interpretação impressionante de Marcello Fonte, sua figura franzina, suas atitudes e seus olhares nos conduzem desde o primeiro momento, sua voz terna para falar com os cachorros, sua submissão aos demais, e então a fase final em que sua visceralidade vem à tona, um poderoso retrato de um lugar em que a lei que impera é a do mais forte, o local decadente, o clima nublado e a pobreza só acentua para a atmosfera fria e pesada. É um filme marcante que demonstra o ser humano tentando sobreviver em um ambiente pobre em todos os sentidos. Saiba+
05- "No Coração da Escuridão" (First Reformed - 2017) Paul Schrader
Um filme potente e que deixa um apanhado de questões para refletir, o existencialismo é pontiagudo e fere, nos faz mergulhar profundo em nós mesmos e remexer em tudo que se acredita ou não e perceber o quão perdidos estamos.
O ex-militar capelão Toller (Ethan Hawke) sofre pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando ele faz amizade com a jovem paroquiana Mary (Amanda Seyfried) e seu marido, que é um ambientalista radical. Toller logo descobre segredos escondidos de sua igreja com relação a empresas inescrupulosas. Ethan Hawke está sublime, completamente absorvido por um personagem complexo, cuja descrença vai alcançando vários níveis, o acompanhamos seja em seus silêncios, em seus pensamentos postos em seu diário, ou nos diálogos primorosos repletos de reflexão. Saiba+
O ex-militar capelão Toller (Ethan Hawke) sofre pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando ele faz amizade com a jovem paroquiana Mary (Amanda Seyfried) e seu marido, que é um ambientalista radical. Toller logo descobre segredos escondidos de sua igreja com relação a empresas inescrupulosas. Ethan Hawke está sublime, completamente absorvido por um personagem complexo, cuja descrença vai alcançando vários níveis, o acompanhamos seja em seus silêncios, em seus pensamentos postos em seu diário, ou nos diálogos primorosos repletos de reflexão. Saiba+
04- "Em Chamas" (Burning/Beoning - 2018) Lee Chang-dong
Um thriller dramático metafórico que perturba e encanta, uma linda e profunda obra baseada num conto de Murakami. A narrativa é permeada pelo espírito literário de Faulkner, que inclusive tem um conto chamado "Barn Burning" e o personagem Jong-soo reflete essa presença. É um filme marcante, original e que trabalha a metáfora brilhantemente.
Durante um dia normal de trabalho como entregador, Jong-soo (Yoo Ah-In) reencontra Hae-mi (Jeon Jong-seo), uma antiga amiga que vivia no mesmo bairro que ele. A jovem está com uma viagem marcada para o exterior e pede para Jong-soo cuidar de seu gato de estimação enquanto está longe. Hae-mi volta para casa na companhia de Ben (Steven Yeun), um jovem misterioso que conheceu na África. No entanto, o forasteiro tem um hobby peculiar, que está prestes a ser revelado aos amigos. "Em Chamas" é um filme intrigante e fascinante todo enredado em metáforas e ambiguidades, as respostas não são importantes e sim as percepções que suscita a cada espectador, uma obra rica narrativamente e belíssima visualmente. Saiba+
03- "Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega" (Utøya 22. Juli - 2018) Erik Poppe
No pior dia da história norueguesa moderna, Kaja (Andrea Berntzen) se diverte com sua irmã mais nova Emilie (Elli Rhiannon Müller Osbourne), doze minutos antes da primeira bomba chegar ao acampamento de verão na ilha Utøya. Foi o segundo ataque terrorista de Anders Behring Breivik, em menos de duas horas, e matou 69 pessoas. Kaja representa o pânico, medo e desespero dos 500 jovens enquanto busca sua irmã na floresta. É um filme de horror, o horror real das consequências do ódio disseminado pelo mundo, a maneira que o diretor resolveu retratar esse ato cruel longe do viés político e mais próximo do humano foi um acerto e deixa-o forte, ao contrário de somente expor e fazer desse horrível episódio entretenimento preferiu dar ênfase no sofrimento humano como meio de compartilhar os sentimentos vividos pelos jovens. Saiba+
02- "Aos Teus Olhos" (2018) Carolina Jabor
Um ótimo filme brasileiro que aborda temas polêmicos e atuais, como a pedofilia e as consequências do linchamento virtual, além de refletir o comportamento nocivo dos pais em relação a seus filhos. "Aos Teus Olhos" é adaptado da peça de teatro catalã "O Princípio de Arquimedes" e remete a outros filmes sobre o tema, como "Dúvida" (2008) e "A Caça" (2012), mas o seu desenvolvimento é rápido e direto, não se aprofunda nas questões, mas reflete a irresponsabilidade de postagens com intuito de espalhar discórdia, causando danos irreversíveis na vida do "acusado", transforma-se as redes sociais num tribunal que destila ignorância, preconceitos e que promove apenas o caos, esse é um assunto que precisa muito ser debatido e o filme o faz com precisão. Saiba+
01- "Custódia" (Jusqu'à la Garde - 2017) Xavier Legrand
Um drama francês que aterroriza tamanha a sua crueza e momentos tensos, é uma história que infelizmente acontece e muito na realidade e é necessária para que se analise as leis que ao invés de dar voz à criança prefere escolher por pura sorte quem dos pais tem a razão. "Custódia" é intenso e não é à toa que está sendo classificado como terror por quem o assiste, pois a sensação que causa é justamente essa, a tensão crescente anuncia seu final, é inegável o caminho que a história irá tomar, o caos, mas o roteiro inteligente e cru nos leva até o ápice com grande aflição e força, a sequência final é interminável, a agonia e o nó na garganta que produz não some depois de seu término seco, persiste e ficamos ali parados com os olhos arregalados e respiração ofegante. Saiba+
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
Melhores Álbuns 2018
Segue a lista dos melhores álbuns do ano segundo o meu gosto pessoal, a maioria foi descoberto durante esse ano, outros são artistas que acompanho. Confira.
11- Jack White - Boarding House Reach (EUA) Rock, Blues Rock, Folk Rock
Boarding House Reach dividiu opiniões, particularmente adorei sua confusão, diferenciado utiliza-se de vários efeitos digitais para conceber estranhamento em suas faixas, ousado e inventivo passa longe da sonoridade do começo de sua carreira com o The White Stripes, experimental e moderno carrega o rock, o blues, mas também influências de hip hop. Um caos que mescla o retrô e o moderno de maneira peculiar e que só poderia sair da mente visionária de White. Confira.
10- The Sound Reasons - Walk With My Shadow (EUA) Garage rock, Power Pop
Delícia de álbum, são dez faixas rápidas com batidas e guitarras marcantes, um pouco de psicodelia e atmosfera sessentista, uma joia que merece ser descoberta. Difícil escolher apenas uma música, mas deixo aqui a segunda faixa "Love"
09- Pushy - Hard Wish (EUA) Hard Rock, Heavy Rock
Début da banda Pushy, o disco evoca com perfeição a atmosfera setentista, as músicas parecem clássicos consagrados, são oito faixas descontraídas, vibrantes e marcantes. Ótima estreia e mais uma banda que precisa ser descoberta, resgata o amado rock'n roll, mas mesmo assim consegue ter sua personalidade própria. Confira.
08- The Northern Rocket - Homemade (Espanha) Hard Rock
A estreia da banda espanhola Northern Rocket aconteceu no ano passado, mas só a conheci em 2018, por isso faço questão de colocá-la na lista, seu hard rock setentista e stoner com riffs potentes têm presença e merecem reconhecimento por acender a chama do rock'n roll.
07- Cedric Burnside - Benton County Relic (EUA) Blues
Cedric Burnside é neto da lenda do blues do norte do Mississippi, R.L Burnside, então seu som tem raízes fortíssimas, mas também uma sensibilidade ímpar em colocar influências contemporâneas, ele imprime personalidade com sua bela voz que possui um tom suave mesmo tendo potência. É um álbum revigorante de blues! Confira.
06- Fantastic Negrito - Please Don't Be Dead (EUA) Rock, Blues
Fantastic Negrito tem uma baita história de vida e é um artista espetacular, sua música é rasgante e forte, nesse novo álbum mais uma vez se mostra consciente com uma reflexão muito além sobre a situação dos Estados Unidos, e ele o faz de maneira esplêndida fundindo gêneros, como blues, rock, funk, r&b. Confira.
05- Black Joe Lewis & The Honeybears - The Difference Between Me & You (EUA) Rock, Blues, Funk, Soul
É um álbum apaixonante, vivo e bastante sexy, as melodias passeiam deliciosamente pelo blues, o rock e o funk e o vocal enérgico de Lewis é fascinante, outro artista que reaviva o blues e o rock com originalidade e intensidade. Confira.
04- Evil Knievel – Evil Knievel (Itália) Hard Rock, Garage Rock
Álbum de estreia da banda italiana Evil Knievel e já de primeira mandam uma sonzeira excepcional, são nove faixas explosivas com ares psicodélicos e muita atitude. Confira.
03- Dead Can Dance - Dionysus (Austrália) Alternativa, World Music, Tribal Fusion, Dark Wave
O duo composto por Lisa Gerrard e Brendan Perry formado em 1981 surge com o nono álbum, um primoroso registro inspirados pelas tradições folk europeias, não só em termos musicais, mas também religiosos e espirituais, Dionysus, é uma jornada que leva à floresta e aos ritos que são praticados até hoje. O álbum consiste em dois atos e sete momentos que representam as diferentes facetas do mito de Dionísio e seu culto. Apesar de ser inspirado pela história de Dionísio, a arte da capa traz o desenho de uma máscara feita por huichóis que habitam na Sierra Madre Ocidental, no México. Confira.
02- Carach Angren - Dance And Laugh Amongst The Rotten (Holanda) Black Metal Sinfônico
Tem algo muito particular e original no estilo da banda, o horror e o obscuro é fascinante e seu modo teatral particularmente me agrada, a vibe se torna até divertida, é um álbum dinâmico, rápido e afiado, grandes arranjos musicais, além de seu tom progressivo, certamente dentro do cenário do Black Metal a banda se destaca e esse prazeroso álbum demonstra o movimento e a criatividade. Dennis Droomers com suas variáveis de gutural e vocalizações é um show a parte. O álbum é de 2017, mas mesmo assim tá valendo. Confira.
01- Kovacs - Cheap Smell (Holanda) Soul, Jazz
Segundo álbum da holandesa Kovacs, Cheap Smell é um deleite, canções emocionais, melodias fortes, voz penetrante, um registro pessoal em que ela canta sobre sexo, relacionamentos amorosos, perdas e vícios. Uma grande cantora e um grande álbum. Confira.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
Em Chamas/Burning (Beoning)
"Em Chamas" (2018) dirigido por Lee Chang-dong (Poesia - 2010) é um thriller dramático metafórico que perturba e encanta, uma linda e profunda obra baseada num conto de Murakami. A narrativa é permeada pelo espírito literário de Faulkner, que inclusive tem um conto chamado "Barn Burning" e o personagem Jong-soo reflete essa presença. É um filme marcante, original e que trabalha a metáfora brilhantemente.
Durante um dia normal de trabalho como entregador, Jong-soo (Yoo Ah-In) reencontra Hae-mi (Jeon Jong-seo), uma antiga amiga que vivia no mesmo bairro que ele. A jovem está com uma viagem marcada para o exterior e pede para Jong-soo cuidar de seu gato de estimação enquanto está longe. Hae-mi volta para casa na companhia de Ben (Steven Yeun), um jovem misterioso que conheceu na África. No entanto, o forasteiro tem um hobby peculiar, que está prestes a ser revelado aos amigos.
Jong-soo é um rapaz que está sem rumo, se formou em escrita criativa, mas trabalha como entregador, está de volta para cuidar da vaca em sua antiga casa porque seu pai foi preso, ele está numa situação de decadência e aos poucos o conhecemos melhor e criamos empatia, num dia comum Hae-mi, uma antiga amiga o reconhece e vai puxar assunto, pelo que parece ele não se lembra de muita coisa e os dois passam o dia juntos, ela diz que viajará para África para conhecer o "grande faminto" e pede para que Jong-soo alimente seu gato, então ela parte em busca de respostas para o significado da vida. Ela é uma incógnita e na maior parte do tempo nos perguntamos se as histórias que conta aconteceram ou não. Jong-soo vai todos os dias ao apartamento alimentar o gato que nunca aparece e se masturba olhando o horizonte. Quando Hae-mi retorna com Ben, um jovem rico e misterioso o mundo de Jong-soo começa a mudar. O estranho triângulo se forma e Jong-soo fica curioso e com ciúmes, pois não sabe que tipo de relação Hae-mi tem com Ben, e ele próprio nutre um fascínio peculiar pelo rapaz, já que não entende o como ficou tão rico sendo tão jovem, até o compara com Gatsby, personagem do clássico de Oscar Wilde. Entre jantares e conversas o suspense vai se formando e um emaranhado de questionamentos surgem, metáforas são postas como pistas, mas nada é definitivo.
Impressionante como o filme prende a atenção e somos absorvidos por suas imagens, os personagens crescem e por mais que seja uma narrativa longa o seu desenvolvimento é inteligente e extremamente original.
Impressionante como o filme prende a atenção e somos absorvidos por suas imagens, os personagens crescem e por mais que seja uma narrativa longa o seu desenvolvimento é inteligente e extremamente original.
Ben destoa da vida dos dois amigos, o abismo social é grande e Jong-soo não entende ou tem ciúme de sua aproximação, ele observa e desconfia, há um misto de sentimentos entre os três personagens, em alguns momentos Ben olha para Hae-mi como se a presença dela entre seus amigos ricos fosse meramente entretenimento, como expondo um animal, Jong-soo permanece calado e vai construindo suas percepções. Quando eles se juntam em sua casa e fumam maconha e daí surge a cena mais lírica do filme protagonizada por Hae-mi dançando em direção ao pôr do sol, os dois então conversam e Ben termina revelando seu hobby, de colocar fogo em estufas, um momento que deixa o espectador perplexo e que incute ainda mais questionamentos. Depois disso Jong-soo fica irritado com Hae-mi e a chama de prostituta por ter tirado a roupa enquanto dançava e aí nunca mais a encontra, ela simplesmente desaparece, isso faz com que fique cada vez mais obcecado com Ben e o persiga para conseguir encontrar pistas, já que ele todos os dias conferia as estufas e nenhuma foi realmente queimada, o que conclui que as falas de Ben se referia a outra coisa.
As interpretações são maravilhosas, Yoo Ah-In como Jong-soo, um jovem desinteressante, entediado e sem perspectivas que se vê de repente envolvido por Hae-mi, vivida por Jeon Jong-seo, uma moça sonhadora e que se mostra uma incógnita por nunca sabermos se realmente fala a verdade, e Ben vivido notavelmente por Steven Yeun - o Glenn do The Walking Dead - que se mostra superior e brinca com os dois de forma provocativa.
"Em Chamas" é um filme intrigante e fascinante todo enredado em metáforas e ambiguidades, as respostas não são importantes e sim as percepções que suscita a cada espectador, uma obra rica narrativamente e belíssima visualmente. Certamente um dos melhores do ano!
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
O Grande Bazar
"O Grande Bazar" (2006) dirigido por Licínio Azevedo (Comboio de Sal e Açúcar - 2016) exibe com muita pureza a realidade de um garoto pobre no Moçambique. Aos olhos acostumados com estéticas rebuscadas pode soar um tanto incômodo, mas a beleza está justamente na simplicidade de sua composição e história.
O filme centra-se na figura de Paíto, um moçambicano de 12 anos que, após ter sido roubado por um bando de rapazes, decide não voltar para casa enquanto não recuperar o que perdeu. Paíto passa a viver num mercado da capital moçambicana onde conhece Xano, um pequeno ladrão com o qual forja amizade e partilha aventuras. Vendedores, clientes, ladrões e a vida insólita do bazar constituem o pano de fundo. Pelos olhos do jovem Paíto percebemos bem de perto o que significa (sobre)viver numa cidade no sul de África. O filme aprecia com vagar ambientes e cenas comovedoras, transmitindo um olhar sem disfarce sobre o cotidiano.
O recorte social é sincero e em qualquer parte do mundo em que a miséria impera a criatividade em se ganhar dinheiro surge, claro que há a parte que prefere roubar, mas nosso pequeno protagonista faz parte daquela que se vira como dá, cria um jeito aqui e ali, ele vende na porta de sua casa uma espécie de biscoito feito de farinha de trigo, sua mãe pede que ele vá comprar mais, só que chegando lá a farinha acabou e precisa esperar, vendo o pessoal indo comprar cigarro se anima e compra com o dinheiro da farinha um maço e vende os cigarros separadamente a fim de dobrar a quantia que tinha, mas é pego desprevenido por uma gangue local que a maioria teme, sem saber o que fazer e com medo de voltar para casa pega o trem e desce na capital, mais precisamente no grande mercado, lá conhece Xano, um garoto praticamente abandonado que comete pequenos delitos, que no caso Paíto não gosta, mas acabam se ajudando e formando um laço de amizade, além dele conhece um fotógrafo que possui em seu dedo mindinho uma unha com um buraco do qual faz o seu foco e também um vendedor de sapatos que sempre divide sua comida com ele. Com leveza e bom humor seguimos esses meninos pelo grande bazar a tentar ganhar algumas moedas, seja ajudando os turistas ou criando novos meios que agucem a clientela, Paíto é observador, muito simpático e detém grande criatividade, ao ver o preço do alho ao invés de receber uma moeda pelo serviço prestado pede uma cabeça de alho e assim vende os dentes separadamente na feira. São jeitinhos que ele encontra para poder voltar pra casa com a farinha, mas toda vez acontece algo ruim ou é roubado. Nisso a amizade ganha formas ao mesmo tempo em que não concordam, realmente os meninos encantam pela espontaneidade em frente a câmera, eles estão vivendo suas próprias vidas, a câmera passeia pelos cantos do bazar e retrata um pouco dessa realidade pobre e dessas pessoas que criativamente se viram para ganhar dinheiro.
É um filme curto, uma média-metragem na verdade, e retrata os desafios cotidianos e a capacidade das pessoas ultrapassarem desafios para a própria sobrevivência, se por um lado há uma gangue denominada "ninjas" que roubam alimentos, dinheiro, ameaçam e até batem nos pequenos, por outro lado Paíto mantém sua ética e ingenuidade, para ele o certo é voltar para casa apenas quando conseguir dinheiro e comprar a farinha pedida pela mãe. Esses dias perambulando pelo mercado e enfrentando todo tipo de adversidade termina por ser um degrau a mais para sua maturidade e na amizade construída obter seu reconhecimento. Lindo o que o amigo faz por ele ao fim.
Paíto é o retrato sincero da luta pela sobrevivência, de se manter forte perante tantas coisas tristes e traiçoeiras, seu sorriso em conseguir seu próprio negócio fecha o filme com esperança, é um tanto bem-humorado, por exemplo os objetos que se vendem na feira, guarda-chuva com poucos furos ou panela de pressão sem tampa, e é justamente dessa forma leve que o diretor constrói e demonstra a vulnerabilidade e a desigualdade social na sociedade moçambicana.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
A Costureira de Sonhos (Sir)
"A Costureira de Sonhos" (2018) dirigido por Rohena Gera é um filme indiano agridoce que retrata os entraves da cultura para uma mulher que corre atrás de seus desejos e sonha em se tornar pelo menos um pouco livre, o roteiro é leve, inteligente e não cai em clichês, tudo acontece de forma progressiva e assim nos dá tempo para conhecer cada personagem e entendê-los, um olhar feminino sobre a Índia contemporânea e as fortes e corajosas mulheres que se arriscam na cidade grande mesmo tendo dificuldades por conta da origem e posição social. Encanta pela beleza das cores, dos sentimentos que se misturam e, principalmente, pela fascinante interpretação de Tillotama Shome.
Ratna (Tillotama Shome) trabalha como empregada doméstica para Ashwin (Vivek Gomber), um homem rico que parece ter tudo, porém vive desesperançoso e perdido pela vida. Enquanto isso, Ratna, que parece ter nada, vive a vida determinada a alcançar seus sonhos.
Acompanhamos tudo sob o olhar de Ratna, uma jovem viúva que trabalha de doméstica em Mumbai, sua vida é restrita devido as leis para as viúvas, mas mesmo assim sai de sua aldeia para ganhar dinheiro e ajudar sua irmã a se formar na faculdade, no início a vemos arrumando as suas malas e voltando às pressas para a casa do patrão, o casamento não ocorreu, pois ele não conseguiu perdoar a traição da sua companheira, desolado e sem perspectiva Ashwin passa seus dias lamentando o ocorrido com amigos, e Ratna por sua vez, o tratando como um rei, ela lhe serve com muito esmero e se preocupa com seu estado emocional, é dedicada e não se deixa abater por seu trabalho excessivo, até porque tem a vontade a impulsionando, primeiro em tirar sua irmã da aldeia dando a oportunidade de estudar e segundo para se tornar design de moda. Os empecilhos são inúmeros, a sua posição social é o maior e parece que por conta disso nunca vai sair do lugar, o sistema de castas na Índia é triste e realmente as pessoas não se misturam, Ratna segue trabalhando lá depois do ocorrido com o casamento e devagar a relação tímida vai ganhando contornos de amizade, um diálogo aqui, um gesto afetuoso ali, Ashwin percebe o como Ratna é espirituosa e o esforço que faz para realizar seus desejos, além de confortá-lo espontaneamente com belas palavras quando ninguém o fez, assim ele vai a notando e de certa forma uma relação se constrói, um carinho e um sentimento de amor cresce, pode ser que Ashwin abalado tenha se apegado a figura protetora de Ratna e também por admirá-la, o que não deixa de ser amor.
A simplicidade comanda a trama, somos absorvidos completamente pela rotina de Ratna, que está sempre cozinhando, limpando e servindo o "Sir", ouvimos o tempo todo ela o chamando assim e até para fazer o curso de costura necessita da autorização, ela aceita ser aprendiz de um alfaiate, mas acaba sendo explorada pelo comerciante e o aprendizado não acontece, decepcionada faz seu trabalho na casa mais calada e Ashwin percebe, nesse momento já há uma sintonia bonita entre eles, mas não é forçada ou prevista. Outro ponto da trama é a amizade de Ratna com outra doméstica, elas se apoiam e ali vemos uma interação mais tranquila, pois estão entre iguais, o que separa Ashwin e Ratna é uma imensa barreira social e que devido ao sistema nunca será transposta. Há momentos bem ternos e emocionantes, percebe-se a dificuldade no semblante deles e o mais bonito é que o egoísmo é deixado de lado.
"A Costureira de Sonhos" é singelo e capta a nossa atenção, o aprofundamento nos personagens, na cultura e nas diferenças entre os modos de vida nas vilas e cidade grande, todo o funcionamento do machismo em relação à mulher, desde o casamento como negócio até as restrições quando se torna viúva com seus direitos tolhidos e sendo praticamento invisível. Muito importante retratar que por mais empecilhos a mulher pode ir atrás de seus sonhos nessa sociedade, Ratna foi em busca disso e jamais se abateu por estar ali servindo, ela sabe de suas necessidades e compreende sua posição, ganhar seu dinheiro e estar no curso de costura é uma grande porta se abrindo. Como Ashwin diz em determinado momento, Ratna é audaciosa, e é por essa e outras características que sua personagem encanta e acaba criando uma consciência social no espectador.
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Hagazussa - A Heathen's Curse (Hagazussa)
"Hagazussa" (2017) dirigido pelo estreante Lukas Feigelfeld é um filme austríaco primoroso de atmosfera sombria, uma experiência intrigante e hipnótica, sua lentidão e diálogos escassos geram dúvidas, perturbam e nos faz imergir no ambiente, um trabalho excepcional de arte que invoca a idade média com toda a sua obscuridade e superstições.
A lenda da jovem órfã Albrun e sua luta para preservar sua sanidade em um período no qual existe uma linha muito tênue entre magia, fé e loucura; e a população de zonas rurais é assombrada por crenças pagãs de bruxas e espíritos da natureza. O inverno frio estende-se pelos Alpes do século XV. Uma jovem pastora vive com a sua mãe (Claudia Martini) numa cabana no meio dos bosques. Quando, certo dia, a mãe adoece misteriosamente e morre, Albrun fica sozinha e profundamente traumatizada. 20 anos passa e, já depois de se tornar ela própria mãe, Albrun (Aleksandra Cwen) começa a pressentir uma presença negra na floresta. Numa espécie de delírio psicótico, as fronteiras entre a realidade e o pesadelo começam a fundir-se, à medida que ela é novamente confrontada com a morte de sua mãe e o mal que existe dentro de si mesma.
O filme tem um poder de absorção maravilhoso, a cada cena e a cada acontecimento mergulhamos mais e mais, certamente uma obra de terror não convencional, sua atmosfera é o principal e também não é somente um filme de bruxa, tudo é muito ambíguo. Albrun vive com a mãe em meio a floresta, sozinhas lidam com os vizinhos que as atacam e os mistérios que as cercam por serem denominadas bruxas, o local frio e vazio rodeado pelos alpes faz toda a diferença para certas coisas serem tomadas como reais, como superstições, espíritos da natureza e bruxaria. Um dia sem mais nem menos a mãe de Albrun adoece e ela precisa cuidar dela, a relação é estranha e quando de fato está para morrer há uma cena que retrata um abuso, a menina teve sua primeira menstruação e a mãe sente o cheiro do sangue e num acesso de prazer e fúria sai e cai na floresta, há muitos simbolismos e é preciso estar atento a cada detalhe da trama, realmente não é um filme que diz sobre paganismo ou satanismo de forma óbvia, suas camadas são complexas, a fragilidade da linha que separa fé e magia é imensa e as crenças dominam a vida das pessoas. Depois da morte da mãe se passam vinte anos e Albrun está com um bebê para cuidar e sozinha lida com as intempéries da natureza, mas ao contrário da mãe quer se socializar, mesmo que a olhem diferente por não seguir as regras, como ir à igreja e casar, até que começa a manter uma relação de amizade com uma mulher que por curiosidade sobre sua vida se aproxima, Albrun é quieta e passa seus dias cuidando das cabras e da criança, essa mulher vai até sua casa e diz que o padre quer vê-la. Albrun vai e depois dele dizer coisas sobre seu modo de vida e o como isso é danoso e enlouquecedor lhe dá o crânio de sua mãe marcado por desenhos de rosas ao redor.
Quando essa mulher vai visitá-la e percebe alguns símbolos, como o bode e o crânio tem a certeza de que é pagã, mais tarde ela comete um ato desprezível em que Albrun se converterá na mais pura dor e raiva. Quando algo é dito por inúmeras vezes se torna uma verdade, a população diz que quem está fora das regras consequentemente está adorando outras coisas, agindo com espíritos da natureza e, por isso, não merece estar entre eles. Albrun dentro desse contexto resolve libertar esse mal e a forma com que o filme expressa isso é de uma beleza e de um capricho que enche os olhos apesar de todo o desconforto e da aura carregada e obscura.
A aceitação do desconhecido vem da superstição que todo o ambiente proporciona, a escura floresta, a ampla natureza, a solidão, as dificuldades em se prover, as pessoas que a tem como louca e bruxa, a repressão da igreja, uma vida castigada, e a idade média como ambientação só ajudou a criar esse panorama com mais veracidade, a ida dela para o lado do mal foi uma consequência de toda essa superstição e modo de vida que a rodeava, não tinha outro pensamento e escapatória. A intensidade dos vinte minutos finais em que alucinação, loucura e dor se misturam são incríveis e a trilha sonora tem grande importância para ditar nossas reações, provocando-nos e esmagando-nos. Muitas perguntas surgem, mas há muita liberdade de interpretação, é uma obra instigante que proporciona sentimentos diferentes em cada um que assiste.
O título, "Hagazussa", vem de uma antiga palavra alemã que derivou a palavra bruxa, que descreve uma entidade feminina que vive na fronteira entre civilização e natureza, dividido em quatro capítulos – Sombras, Cornos, Sangue, Fogo, muito tem sido comparado com "A Bruxa" - 2015, mas os elementos são outros, como se sustentar em sua atmosfera deixando de lado diálogos, retrata com perfeição o desconhecido, a solidão, a repressão religiosa, o preconceito contra aqueles que não seguem as mesmas regras; a loucura, a dor e o inferno que isso tudo pode ocasionar.
Um belo, hipnótico e provocante filme de horror!
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