segunda-feira, 3 de junho de 2013

Poesia (Shi)

"Poesia" (2010) dirigido por Lee Chang-Dong conta a história de Mija, uma senhora de 65 anos que mergulha no mundo da poesia em meio a situações tristes que lhe ocorrem. Mija cuida de seu neto adolescente, um garoto alheio a tudo, não sabemos sobre o passado e o porquê desta condição, de repente, ela recebe a notícia de que seu neto participou de um estupro coletivo, cuja garota teria, por esta razão, cometido suicídio. Para piorar, Mija descobre estar sofrendo de Alzheimer. Em meio a essas circunstâncias Mija se depara com um cartaz que diz ensinar poesia, encantada decide entrar e tentar escrever pelo menos um poema. Para ganhar dinheiro ela cuida de um velho que aparentemente sofreu derrame, ela lhe dá banho, o troca, um trabalho duro para uma senhora, mesmo que esteja sempre sorrindo e de bem com a vida.
A trama se desenrola num condomínio de bairro popular, num apartamento bem pequeno, a relação de avó e neto é distante, o típico adolescente que não conversa, sempre mal-humorado, na frente da TV, no computador ou dormindo. Ela tenta a aproximação cuidando e cozinhando para ele. De início ela parece ignorar ou não querer acreditar que o garoto pudesse agir daquela maneira tão desumana. Mija sempre bem arrumada, elegante, uma figura por si só poética, há algo nela que é diferente e ela mesma diz: "gosto de flores e sempre digo coisas estranhas", mas ao entrar nas aulas de poesia percebe que para escrever é necessário muito mais do que vislumbrar os pequenos detalhes da vida, enxergar os pormenores das situações, é preciso sentir a poesia pulsar dentro de si, deixar que ela transpasse todo o corpo, deixando vibrar seus sentimentos. Para entender a poesia é necessário se abster do pensamento que ela é colorida, recheada de paisagens sublimes e paraísos secretos.
O filme tem vários olhares, a trama gira em torno desse crime cometido pelos seis alunos da escola, os pais tentam acobertar juntamente com a polícia, o jornal e até o colégio, formulando uma quantia de indenização para que a mãe se calasse e não prejudicasse o futuro dos meninos.

Enquanto isso, Mija passeia pela cidade, fazendo todo o trajeto da garota que sofreu o abuso. A quantia estipulada pelos pais é de três milhões, e as cenas que mostram o descaso desses adultos em relação ao sofrimento da mãe, apenas focando no dinheiro para garantir o silêncio de uma pessoa simples é repugnante, reflete o quanto as pessoas são movidas a egoísmo e prepotência somente por terem dinheiro. A mãe da menina é pobre, trabalha na zona rural e usam disso descaradamente a favor deles. Quando Mija se depara com essa mulher algo nela é despertado, e nós somos contemplados por pequenas poesias que vêm dos olhares, das palavras e dos gestos que essa senhora faz a partir desse momento. É uma lição de ética, de coragem e de honra.
A poesia está em qualquer lugar, e que lugar melhor senão o cotidiano para extraí-las? Os momentos mais árduos são os mais engrandecedores.

É um filme muito simples, mas com poder de nos mudar, os dramas cotidianos ampliados nos permite chegar perto da personagem, Mija é uma senhora muito cativante, sua brandura e ingenuidade de querer ver os detalhes nos fascina, há momentos que parece estar alheia as situações, mas a verdade é que ela sente de maneira diferente, interiormente intensa. Em seu caderninho, faz anotações e coloca suas observações, no final do longa quando finalmente consegue compor seu poema "A Canção de Agnes", é o momento em que mostra o real poder das palavras e o quanto elas podem significar e permitir a renovação.
É um filme grandioso em toda sua simplicidade, muito bonito em toda sua composição, é preciso que obras assim sejam mais vistas e admiradas.
Lee Chang-Dong diretor e roteirista foi Ministro da Cultura de seu país, a Coréia do Sul. Em 2010 recebeu o prêmio de melhor roteiro do Festival de Cannes por esse filme.

Um comentário:

  1. "A Canção de Agnes"

    Como são as coisas por aí?
    É muito solitário?
    O poente se tinge de vermelho?
    Os pássaros cantam a caminho da floresta?
    Pode receber a carta que não ousei enviar?
    Pode ouvir a confissão que não ousei fazer?
    O tempo vai passar e as rosas vão murchar?

    É hora de dizer adeus
    Como um vento que vai embora
    Como uma sombra
    Às promessas nunca cumpridas
    Ao amor que nunca chegou
    À grama que beija meus tornozelos cansados
    Aos passos leves que me seguem
    É hora de dizer adeus
    Desce agora a escuridão
    Vão ascender uma vela?
    Fico aqui rezando
    Ninguém deve chorar
    Quero que você saiba
    O quanto amei você

    A longa espera num dia quente de verão
    Uma antiga trilha que lembra o rosto de meu pai
    Uma solitária flor do campo que vira o rosto timidamente
    Quão profundamente eu amei
    Como meu coração se apertou ao ouvir sua canção distante
    Eu quero abençoar você
    Antes de atravessar o rio escuro
    Com o último suspiro de minha alma
    Estou começando a sonhar
    Uma manhã brilhante de sol
    Desperto novamente, cega pela luz
    E encontro você
    Ao meu lado.

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