quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O Tratamento (De Behandeling)

"O Tratamento" (2014) dirigido por Hans Herbots (Bo - 2010) é um filme apreensivo que aborda a pedofilia de uma maneira corajosa e cru, o drama muito bem mesclado ao suspense garante a atenção do espectador e somos absorvidos por uma atmosfera tensa ao testar até onde a sanidade do protagonista aguenta. 
O inspetor Nick Cafmeyer (Geert Van Rampelberg) parece ter tudo, inteligência e uma carreira de sucesso. Mas uma nuvem negra paira sobre sua vida: desde criança, ele tem sido atormentado pelo desaparecimento de seu irmão mais novo Bjorn, nunca resolvido. Ivan Plettinckx, criminoso sexual conhecido, foi interrogado, mas rapidamente liberado. Plettinckx mora por perto e tem um prazer diabólico em assediar Nick. Então, quando um caso perturbador vem à tona envolvendo o desaparecimento de uma criança de nove anos, Nick lidera uma busca massiva que se transforma em uma perseguição implacável.
A pedofilia retratada é nojenta, literalmente, realmente causa repulsa, o filme faz questão de expor o lado podre do ser humano e seus desvios, as cenas com as crianças não são poupadas, é chocante e cruel. 
No início acompanhamos a história do policial Nick e seu trauma de infância, enquanto brincava com seu irmão, o viu sendo levado embora por Plettinckx, ele tentou alcançá-los, mas em vão. Esse cara vive a atormentar Nick, tacando pedras em sua janela, aparecendo em seu quintal e por aí vai, nada aconteceu com ele, talvez, por ser considerado doente mental, mas a questão do seu irmão nunca foi resolvida, nunca foi encontrado. O fato é que essas lembranças se aguçam depois que entra num caso perturbador de um psicopata/pedófilo, que sorrateiramente entra nas casas, tortura os pais da criança e faz coisas horríveis e nojentas. O menino desse caso foi encontrado em cima de uma árvore com vários sinais de abuso, inclusive uma mordida nas costas. Nick e a equipe vai tentando juntar o quebra-cabeça com as pistas que encontra e vai mergulhando em algo totalmente bizarro e sombrio. A aflição vai tomando conta à medida que a história se desenrola mostrando com detalhes o como esse psicopata age, além de cruzar com a história de Nick e seu trauma de infância, ele cada vez mais acredita que esse caso tem a ver com o de Plettinckx, pois a pedofilia é uma rede e, portanto, liga-os. 

É um ótimo exemplar de suspense, vai por caminhos não convencionais e deixa um gosto amargo, certamente pesado pela abordagem que faz da pedofilia e a maldade humana. Ele tem muito em comum com o excelente "Os Suspeitos" (2013), o clima e o desenrolar, porém mais incômodo, principalmente, pelo seu desfecho.
O personagem é bastante nervoso, age muitas vezes por impulso, se desestabiliza e tem uma ansiedade para encontrar soluções e também para se vingar, essa angústia misturada à eletricidade do desespero dele difere com o ritmo lento da narrativa, o que é um grande diferencial, além de não fornecer as respostas do jeito esperado, como em seu final dilacerante.

"O Tratamento" cumpre o papel de filme de suspense, mas sem deixar nunca o drama de lado e mostrar com realismo a monstruosidade de pessoas que sentem prazer em cometer atrocidades. O mistério é bem desenvolvido e a aflição se faz presente a cada passo do protagonista. 

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ward nº6 (Palata N°6)

"Ward nº 6" (2009) dirigido por Aleksandr Gornovsky e Karen Shakhnazarov (Tigre Branco -2012), baseado em um conto de Chekhov, "Enfermaria nº6", conta a história de um psiquiatra que se torna paciente do asilo que antes comandava. Adaptado para a Rússia dos dias atuais, o filme é uma mistura de ansiedade e mistério, mostrando como é fácil nos tornarmos o que mais tememos. A adaptação moderna de um conto de Chekhov para a Rússia contemporânea em que um médico psiquiatra se torna paciente é sem dúvidas interessante e angustiante, as conversas entre Gromov e Ragin são regadas a ansiedade e seus pontos de vista levantam questões importantes. O começo do filme em que conta-se a história do local é algo maravilhoso, assim como a união da ficção e realidade na utilização de pacientes reais. 
É um filme que serve para a reflexão sobre um tema atemporal, a corrupção institucional e o como os indivíduos categorizados loucos são marginalizados e sofrem nas mãos daqueles que obtêm algum poder, a crise existencial pulsa e diálogos filosóficos coroam a obra. Filmado em um hospital psiquiátrico em funcionamento, o local, um antigo mosteiro, mistura ficção e realidade, onde instaura-se de forma documental uma investigação acerca do médico que se tornou paciente. Além da bela e terrível apresentação sobre o lugar, alguns pacientes são entrevistados e respondem perguntas sobre fé e sonhos, em seguinte acompanhamos um jovem médico, Khobotov (Evgeniy Stychkin), que assumiu o lugar de Ragin (Vladimir Ilin), aos poucos somos introduzidos à história e as entrevistas que tentam extrair de todos no local, pacientes, funcionários e médicos, o que teria levado o homem àquele estado? Claro, tudo fica mais interessante quando Ragin estabelece vínculo com Gromov (Aleksey Vertkov), um homem inteligente, mas que sofre da síndrome de perseguição, quando Ragin o descobre começa a trocar ideias o tempo todo e isso leva os outros médicos a perguntar sobre sua sanidade.
O fato é que para Ragin ninguém é interessante, não consegue estabelecer uma conversa a não ser com seu amigo Mikhail, só que com Gromov as discussões inspiradas levam Ragin ao abismo, ele é um homem sossegado sem grandes aflições, nunca experimentou o sofrimento e por isso o despreza, seu pessimismo é tanto que nada do que venha a fazer tem valor, já que no final a única coisa que o espera é a morte, ele diz que a felicidade está dentro e independe do ambiente, mas fecha os olhos para o mundo dos outros, suas ideias começam a chacoalhar à medida que Gromov o desperta e numa cena brilhante pergunta ao médico que razões ele tem para pregar sobre o significado da vida, já que ignora o sofrimento e nunca viveu de fato. A partir daí tudo que acreditava desmorona e nada é capaz de impedir sua derrocada, enquanto isso os médicos conspiram por visualizar Ragin cada vez mais deprimido e bêbado.

Gromov propõe em seus diálogos pontos de vista que até então o médico não havia pensado, já que estava mergulhado em suas próprias ideias niilistas e apenas sentado em sua cadeira sem viver de fato a vida. Quando se passa pelo sofrimento e a ação se faz necessária algo muda e as percepções da vida se tornam diferentes. Depois dessa conversa Ragin não foi mais o mesmo e se entregou à bebida o levando a um estado apoplético. 

A atmosfera de angústia, desespero e ansiedade predomina a maior parte do tempo, discorre com maestria sobre o como os transtornos mentais surgem em sua maioria a partir da hipersensibilidade das pessoas em razão de sofrimentos, rejeições, traumas, etc. É um exemplar importante para afastar o preconceito contra os doentes mentais e ter mais compaixão e, principalmente, retratar essas instituições que os aprisionam e os sedam o tempo todo, algo extremamente desumano que só faz eliminar a personalidade do doente.
"Ward nº6" traz grandes questionamentos e faz uma ótima adaptação do conto para a Rússia contemporânea, mas que de algum modo se faz universal, até porque as dores e os sofrimentos humanos são semelhantes.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Feliz como Lázaro (Lazzaro Felice)

"Lazzaro Felice" (2018) dirigido por Alice Rohrwacher (As Maravilhas - 2014) é uma espécie de fábula inspirada como o título sugere na história bíblica de Lázaro, porém as camadas que o filme propõe são amplas e deixa em cada espectador um sentimento, a linguagem é simples, mas há metáforas e uma enorme carga reflexiva, com certeza é uma obra para revisitar e tentar compreender e absorver o máximo possível das ideias expostas. 
Nesta leitura livre da história bíblica, Lázaro (Adriano Tardiolo) é um garoto pobre e pouco inteligente, mas extremamente bondoso. Ele é explorado pelos familiares, fazendo trabalhos forçados diariamente, além de colaborar com a marquesa, proprietária das terras onde vivem. No entanto, após uma tragédia, Lázaro retorna à vida no século XXI. Ele não compreende mais a lógica deste mundo, mas pretende reencontrar a sua família e viver como antigamente.
Nos deparamos com uma comunidade de camponeses, que mais adiante percebemos serem explorados por uma marquesa, dona das terras e conhecida como "a senhora do tabaco", cuja fortuna advém desse trabalho escravo, dentro dessa engrenagem de exploração, Lázaro, um garoto ingênuo e prestativo, bondoso por essência jamais se enraivece ao ser sempre chamado pelos seus companheiros para realizar o trabalho duro, ele parece olhar o mundo sob uma perspectiva da pureza, a marquesa em determinada parte diz: "Eu os exploro e eles exploram aquele pobre homem. É uma reação em cadeia e não pode ser parada". Quando questionada pelo próprio filho se não tem medo que descubram a verdade, já que vivem sob um véu de ignorância, ela diz: "Humanos são como animais, liberte-os e só aí eles se darão conta da própria condição de escravos, condenando-os ao próprio sofrimento. Agora eles sofrem, mas não sabem disso". Os camponeses não sabem nada, o isolamento geográfico, o pensamento restrito, o fato de conhecerem somente aquele mundo e que não há outro meio a não ser se submeter à marquesa o fazem continuar nesse ciclo, enriquecendo-a e mantendo-se na extrema pobreza. Lázaro acaba por se aproximar do filho da marquesa, o rebelde Tancredi, que abomina a maldade da mãe, só que nada faz, na verdade utiliza a inocência de Lázaro também a favor de sua revolta, forja o próprio sequestro, o faz acreditar que é seu meio-irmão e toma para si o refúgio de Lázaro nas montanhas. Essa relação com Tancredi desperta em Lázaro coisas que não havia sentido antes, uma conexão em que se doa ainda mais, ele faz tudo pelo amigo e mesmo quando adoece se lembra que Tancredi está sozinho nas montanhas e vai atrás do amigo, seu medo é que Tancredi pense que ele o abandonou.

Nesse trajeto Lázaro sofre uma queda e morre, mas ele revive décadas depois por meio de uma dádiva e quando vai procurar pelas pessoas não há mais nada no local, tudo está abandonado e ladrões estão saqueando a grande casa, ele segue a pé o caminho até a cidade apontado pelos ladrões e, por ocasião, reencontra alguns rostos conhecidos, dos quais momentaneamente se chocam por reencontrá-lo e por permanecer com a mesma aparência, seria ele um santo ou um fantasma? Com o desenrolar percebe-se que pouco importa e Lázaro neste século também não tem chance, a bondade simples e pura não existe nesse mundo repleto de interesses. A exploração do outro é novamente exposta, só que com novas roupagens, as pessoas antes exploradas agora precisam encontrar maneiras de se sustentar e o que resta a eles é enganar e roubar. Lázaro reencontra Tancredi e reaviva o amor pelo amigo e sem entender e sem se contaminar pelo meio o tenta ajudar indo a um banco para pedir que devolva os bens dele, que claro foram tirados por conta da situação que a mãe o colocou, o escândalo da marquesa do tabaco que mantinha uma comunidade feito escravos.

"Lazzaro Felice" é um filme que trabalha com elementos do realismo fantástico que ora fascinam, ora entristecem, revela que na sociedade seja em qualquer época nunca a bondade irá resplandecer, alguém dotado desse nobre sentimento sempre é visto como um idiota ou doente mental, e que por nunca pensar mal de ninguém e querer sempre fazer o outro feliz é explorado das mais diferentes formas, a diretora Alice Rohrwacher disse: "A história é de uma menor santidade, sem milagres, poderes ou superpoderes, sem efeitos especiais. É a santidade de viver neste mundo sem pensar mal de ninguém e simplesmente acreditar em seres humanos". É um filme diferente que ecoa dentro de nós por algum tempo, são camadas preciosas para explorar e que deixa uma reflexão contundente sobre a humanidade e sua falta de ternura.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O Animal Cordial

"O Animal Cordial" (2017) dirigido pela estreante em longas-metragens Gabriela Amaral Almeida é o primeiro slasher feito por uma mulher no Brasil e, sem dúvidas, um exemplar potente para indicar sem medo àqueles que ainda acham que o cinema brasileiro carece de criatividade e ousadia. A atmosfera tensa coroada por brilhantes interpretações garantem um arrepio na espinha diante do quão fácil é o ser humano se tornar um animal selvagem.
São Paulo. Inácio (Murilo Benício) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado). Entre a cruz e a espada, Inácio - o homem pacato, o chefe amistoso e cordial – precisa agir para defender seu restaurante e seus clientes dos assaltantes.
Percebe-se algo pulsante desde o início, a relação entre patrão e empregados, há algo querendo se libertar, principalmente de Inácio e da personagem Sara, que puxa o saco de Inácio e o olha com desejo, já Djair não aguenta mais as condições em que trabalha, sem hora pra ir embora, o patrão dizendo que as receitas são deles e também o preconceito. Inácio é um ser aparentemente tranquilo apesar de conduzir o restaurante com pulso firme, mas conforme a noite avança o percebemos estranho, a cena em que ele se olha no espelho é poderosa e aí parece despertar algo diferente. Enquanto os empregados estão doidos para ir pra casa, com exceção de Sara, há um cliente comendo um coelho e um casal tomando vinho e reclamando do ambiente. O tempo vai passando e eles continuam sentados, até que dois dos empregados saem com um saco de lixo pela frente irritando Inácio, logo Djair sai também da cozinha e senta no balcão, os ânimos estão exaltados até que tudo culmina num assalto, Inácio por impulso tenta desarmá-los e logo sugere amarrá-los, desesperados alguns pedem para chamar a polícia, só que o dono do restaurante se recusa, ele quer dar uma lição nos meliantes. Como nem todos cooperam com Inácio ele decide amarrá-los com a ajuda de Sara e daí pra frente observamos o como os personagens se comportam, mudando conforme o rumo dos eventos.

Djair é justo e lidera a cozinha com as receitas de sua família, por isso Inácio de certa forma é dependente dele, o funcionamento do restaurante se dá pela capacidade e talento de Djair, isso o irrita e até parece invejá-lo, mas ele também não gosta de sua forma de ser, os seus cabelos compridos o enoja profundamente, mas no cotidiano tudo é velado e as relações seguem cordialmente, até que a noite do assalto muda tudo e o que estava adormecido levanta-se e se mostra da pior maneira. Sara fantasia a oportunidade do seu chefe a enxergar e faz o que ele pede e se torna tão selvagem quanto, Inácio e Sara deixam de lado todas as regras sociais e morais e mergulham no desespero de suas infelicidades.
Murilo Benício neste filme mostrou uma faceta que até então, particularmente, não havia visto ainda, está perfeito na pele de Inácio, suas feições e olhares antes de acontecer o assalto o traduzem para nós, aliás todos estão espetaculares, Irandhir Santos e Luciana Paes também se destacam poderosamente.

"O Animal Cordial" não é somente um slasher ou um thriller, também carrega uma boa dose de crítica social, as relações entre patrão e empregados, a angústia gerada entre classes sociais, como a cena do casal rico no restaurante debochando de Sara, esta que se submete a Inácio sem ser vista, já Inácio dependente de Djair, o responsável pelo restaurante ir pra frente, e este mesmo com condições de trabalho ruins e todos os olhares reprovadores por conta de sua figura se mantém no emprego. Essa tensão entre eles é o que faz o desabrochar de cada um ser ainda mais perturbador e suas ações cada vez mais perversas, cujas cenas maravilhosas são regadas a muito sangue, erotismo e pitadas de ironia.
O medo, a infelicidade e o desespero quando instalados no ser humano o leva em momentos cruciais a realmente revelar um lado do qual se mascara no cotiano devido as regras sociais e morais, o obscuro vêm à tona e aí a violência domina por completo. Um surpreendente filme que nos brinda com um terror bem feito e ainda consegue dialogar sobre as aflições que atingem os brasileiros.

*Murilo Benício recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio, em 2017. No FantasPoa 2018, o filme foi premiado nas categorias Melhor Direção e Melhor Atriz, para Luciana Paes.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Rent-a-Cat (Rentaneko)

"Rent-a-Cat" (2012) dirigido por Naoko Ogigami (Entre-Laços - 2017) é um filme carinhoso e que aquece nosso coração, um mimo, especialmente, a quem adora gatos, simplesmente foi feito para esse público, mas com certeza aqueles que se aventurarem não sairão ilesos tamanho a sua ternura, a história aborda a solidão, onde todos estão preocupados apenas em trabalhar e ganhar dinheiro, no japão especificamente essa sensação de solidão é bastante aguda e como numa fábula a protagonista tem a linda missão de proporcionar aconchego e preencher os "buracos" dessas pessoas tristes e solitárias alugando seus gatos, herança de sua querida avó. Claro que os gatos aos poucos dominam a nossa atenção e fica até difícil acompanhar o andar da história que passeia entre a melancolia e um humor surreal. Com certeza mais um achado para integrar a lista "Gatos em Filmes".
Sayoko (Mikako Ichikawa) é diferente e sempre teve um estranho magnetismo com os gatos, que foi por causa de sua avó que a vida toda os teve por perto, após a morte da avó uma imensa solidão a invade, porém com a companhia dos gatinhos o buraco do seu coração foi sendo preenchido, assim ela decide ajudar outras pessoas a se sentirem menos sós alugando seus gatos, ela sai pra rua carregando os gatos numa espécie de carroça e com um megafone oferece o estranho serviço: "Rentaaaaaa neko, neko neko". Ela sempre visualiza os possíveis solitários e anuncia insistentemente até a pessoa se interessar, a primeira é uma senhora que se alegra ao visualizar uma gatinha também idosa que se assemelha com uma ruivinha que tinha, Sayoko vai até a casa inspecionar o ambiente e ter certeza que o gato será bem tratado, a senhora fala um pouco de sua vida e de sua solidão e com a companhia do gato tem a certeza de que sua partida será mais amena, consentido o aluguel Sayoko lhe dá um papel para informações do felino e até quando deseja ficar com ele, no caso da senhora, até a sua morte. Com tudo certo se despedem e Sayoko volta para casa feliz. O filme vai repetindo as mesmas coisas, Sayoko alugando os gatos, inspecionando, falando as mesmas frases, como quando diz o valor do aluguel e chocados com o preço ínfimo indagam se não vai fazer falta e ela pergunta se tem cara de quem passa fome, são situações bem engraçadas e que retratam simplicidade e compaixão, além das metáforas envolvendo os buracos, outro ponto é o ar de encantamento que permeia o longa, como os devaneios e os sonhos de Sayoko e até a presença de uma vizinha, um homem vestido de mulher que sempre vai a sua cerca e lhe diz o quanto é estranha e que dessa forma nunca arranjará um marido, o que é uma preocupação grande pra ela, mas o único esforço que faz é escrever em um papel esse desejo e pendurar na parede. O humor que a história tem é muito peculiar e é adorável o clima com sua musiquinha doce e melancólica, por mais que a narrativa seja solta não perde a intenção em colocar o como as pessoas estão cada vez mais sozinhas e sem expectativas de amor.

Os gatos estão por todas as partes, dormindo no sofá, em cestas, no tapete, brincando ao fundo, comendo seus petiscos, miando e ronronando por todos os cantos, inclusive no altar da avó de Sayoko, ela conversa com eles, conta suas memórias, seus desejos e com apenas a presença deles ali sua sensação de solidão se ameniza. O filme é claro que se o problema é solidão basta um gatinho para solucionar. 
A personalidade de Sayoko é cativante, seu espírito livre e sensível ao outro, toda vez que aluga um gato faz questão de conhecer a pessoa e lhe incentivar a receber o amor do gato, pois tem certeza que será suficiente para preencher os buracos do coração, ela escuta bastante e isso também acaba sendo de grande valor.

Os personagens que alugam os gatinhos são bem aleatórios e diferentes entre si, todos tem as suas solidões e buscam por carinho, mas certamente uma das que mais se sobressaem é a secretária de uma loja de aluguel de carros, cujo trabalho entendiante acabou transferindo o hábito de dividir tudo em classes, e daí surge algumas questões interessantes, como categorizar os gatos de raças como classe A e os vira-latas como classe C, sugerindo que eles não seriam tão especiais quanto, como todas as outras coisas na vida que também são divididas por classes, desde a roupa que usamos, o perfume, o carro, etc. É uma boa discussão e que faz esmorecer esse pensamento fechado e bobo, como Sayoko diz, é bom ter carros e gatos de marca, mas mesmo nas coisas mais caras dá pra perceber quando não amadas. 

"Rent-a-Cat" é desses filmes que nos coloca um sorriso no rosto e nos traz sentimentos bons, a solidão que a sociedade produz, as relações superficiais e técnicas do dia a dia acabam desmotivando e cada vez mais o desejo de ficar só aumenta, porém chega um momento que a necessidade de afeto vem à tona e o filme com delicadeza e bom humor coloca os gatos como um poderoso meio de aliviar a solidão e a tristeza. E quem tem gatos sabe que é a mais pura verdade! Um filme gentil, adorável e feito sob medida para os amantes de gatos.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Daphne

"Daphne" (2017) dirigido por Peter Mackie Burns retrata a crise que beira os 30 anos, mas não necessariamente com os clichês, e sim abraça a vida de uma personagem que por vários motivos prefere se esquivar das pessoas, mantém uma vida independente, não cria laços e se recusa a ficar muito perto da mãe, com os amigos do trabalho é fria e sempre esta agindo de forma cínica. O filme foca nessa personagem e não pede que sintamos empatia, ela acontece ou não, não força em momento algum, ao longo com certos acontecimentos ela própria vai se perguntar no que acabou se tornando e, talvez, compreender que exista muita humanidade em si. 
Londres, Inglaterra. Aos 31 anos, Daphne (Emily Beecham) constantemente tem a sensação assustadora de que sua vida está parada, pois se sente jovem demais para se estabelecer e velha demais para ficar zoando por aí. Para distrair, ela mantém os dias e as noites ocupada com pessoas, amigos e amantes. Certa noite, um assalto violento a força a confrontar esse limbo existencial, analisando de perto a pessoa que se tornou.
Daphne é descolada e por vezes inconveniente com seu sarcasmo, suas conversas filosóficas acerca de que amor não existe assusta os possíveis casos amorosos e então segue a maior parte do tempo andando a noite sozinha e bêbada, ela trabalha em um restaurante, não se dá com os colegas, com seu chefe consegue dialogar, mas sem qualquer tipo de apego, a solidão e a rotina permeiam sua vida e ela vai criando uma casca para não se machucar, evita o sofrimento, como com a mãe que enfrenta um câncer e prefere não estar por perto, e assim passa seus dias, dormindo, bebendo, trabalhando no restaurante e fazendo sexo casual, até que numa noite presencia um ato violento contra o dono de um mercadinho, sua reação na hora foi ajudá-lo e chamar a ambulância, mas parece que na cabeça dela esse instante ficou um pouco vago, o trauma pode ter embaçado seus sentimentos e conforme os dias vão passando isso a atormenta, só que o filme não revela seus sentimentos de forma explícita, seus modos é que escancaram a dor, pois Daphne prefere mascarar, não quer enfrentar nada e isso só vai aumentando sua frieza em relação aos demais e consigo mesma. Muitas coisas incomodam Daphne e a maneira que demonstra é sendo cínica e, por consequência, perturbando e afetando bastante não só quem convive com ela, mas a si mesma, negando e desconhecendo a sua própria natureza.

Daphne tem um certo magnetismo e seu cinismo às vezes é inteligente e bem humorado, ela analisa tudo e não confia em ninguém, mas na maior parte do tempo o usa para se defender e esconder o que não gostaria de encarar. O ato violento que presenciou com certeza deixou marcas, mas como podemos ver ela segue sem dizer uma palavra sobre isso, mas suas atitudes cada vez mais secas revelam que a está incomodando. As suas idas ao psicanalista, fornecidas pela polícia por causa que ela presenciou o ocorrido, são compostas por afiadas e ácidas frases, mas a sua última ida nos aproxima mais do que sente verdadeiramente e nos faz finalmente enxergar que por baixo de uma mulher durona e independente há muitas dúvidas, tristezas e que por mais pessimista que seja, há camadas de fragilidade e humanidade.

"Daphne" é feito de momentos, em sua maioria lentos e sem aprofundamentos, mas que demonstra uma personagem real, que incomodada se fecha em si mesma para não ter que lidar com os possíveis sofrimentos das relações, mas querendo ou não esse confronto uma hora acontece e é necessário passar por ele, como o psicanalista diz: "Nossas ações contam. Mesmo se não as acharmos grande coisa, talvez mais tarde acharemos, mas não precisamos esperar por isso para fazer as coisas". E ao final é isso, ela faz mesmo achando que não sente nada e que não fez muito pelo dono do mercado que sofreu o ato violento, mas ouvindo o relato dele percebeu o quão escondida estava em si mesma, se negando e negando a todos. É um retrato fiel e atual de uma grande parcela da juventude que se agarra ao cinismo como forma de defesa.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

12 Filmes que Mudaram a Minha Vida

A lista consiste em filmes que de algum modo me mudaram, que ampliaram minhas percepções e que me engrandeceram como ser humano, além de serem os responsáveis pela minha vontade de escrever e daí o blog existir. 

*Os números só são uma questão de ordem e não de preferência.

12- "Um Doce Olhar/Mel" (Bal - 2010) Turquia
"Um Doce Olhar" mostra a jornada de Yusuf, um garoto turco que está aprendendo a ler e a escrever, e que nas horas vagas ajuda o seu pai, um simples apicultor que guarda as colmeias nos galhos mais altos das maiores árvores de uma misteriosa floresta. Mas quando seu pai parte em busca de descobrir porque as abelhas estão sumindo, Yusuf se prepara para viver a sua maior aventura, tentando dar algum sentido à sua vida.
Um dos filmes mais sensíveis que pude acompanhar logo no começo quando me interessei por obras mais contemplativas, o cinema turco foi de grande valia para que eu pudesse trabalhar a paciência e absorver as imagens mais do que diálogos. Repleto de cenas grandiosas e sentimentos preciosos. Saiba+

11- "Vermelho Como o Céu" (Rosso Come il Cello - 2006) Itália
Anos 70. Mirco (Luca Capriotti) é um garoto toscano de 10 anos que é apaixonado pelo cinema. Entretanto, após um acidente, ele perde a visão. Rejeitado pela escola pública, que não o considera uma criança normal, ele é enviado a um instituto de deficientes visuais em Gênova. Lá descobre um velho gravador, com o qual passa a criar histórias sonoras.
Um filme inspirador e emocionante que marca por sua delicadeza em demonstrar a paixão de um garoto pelo cinema e toda sua força e imaginação para conseguir vencer o preconceito e realizar seus sonhos. A atuação dos meninos que realmente são cegos encanta e nos presenteia com momentos muito bonitos, como quando Mirco explica as cores para um amigo. Saiba+

10- "Para Sempre Lilya" (Lilja 4-Ever - 2002) Suécia/Dinamarca
Lilya (Oksana Akinshina) tem 16 anos e vive em um subúrbio pobre, em algum lugar da antiga União Soviética. Sua mãe mudou-se para os Estados Unidos, com seu novo marido, e Lilya espera que ela lhe envie algum dinheiro. Após algum tempo sem receber notícias nem qualquer quantia dela, Lilya é obrigada a se mudar para um pequeno apartamento, que não possui luz nem aquecimento. Desesperada, ela recebe o apoio de Volodya (Artyom Bogucharsky), um garoto de apenas 11 anos que de vez em quando dorme no sofá de Lilya. A situação muda quando Lilya se apaixona por Andrei (Pavel Ponomaryov), que a convida para iniciar uma nova vida na Suécia. Apesar da desconfiança de Volodya, Lilya aceita o convite e viaja com Andrei.
Foi através do programa "Mostra Internacional de Cinema" da TV Cultura - que infelizmente não existe mais - que tive acesso a essa obra chocante, que foi o primeiro a me deixar absurdamente mal e assim me interessar por histórias cruas e críticas. 

09- "Rann" (2010) Índia
 Este filme é sobre a batalha travada entre um proprietário de um canal de notícias na Índia, líder em audiência, com altos princípios éticos, contra o seu principal concorrente, sensacionalista e sem ética. O canal "Índia 24x7", líder em audiência e confiabilidade nas notícias, se vê na iminência de ser ultrapassado pelo "Headline News", dirigido por um executivo sem escrúpulos e que privilegia notícias sensacionalistas, onde vale tudo pela audiência. Quando uma bomba explode em um ato terrorista, ambos os canais começam a caçar a notícia de quem está por trás do atentado, sendo atropelados por políticos corruptos. É neste momento que a ganância e a falta de ética se mostram em toda a sua extensão, deixando bem claro o quanto a televisão pode influenciar candidaturas e rumos de um país, e provando que até mesmo os mais honestos podem ser envolvidos em armadilhas se não estiverem bem assessorados e calçados em seus princípios.
Um dos primeiros exemplares indianos que assisti e o primeiro que me fez arregalar os olhos, justamente por conter um tema tão pertinente e que apesar de possuir as músicas e as danças tão características também carrega uma aguda crítica à mídia e política. Potente e marcante foi um dos principais filmes a acender minha curiosidade acerca de filmes de outros países e também compreender o gigantesco mercado de Bollywood.

08- "O Enigma de Kaspar Hauser" (Jeder Für Sich und Gott Gegen Alle - 1974) Alemanha
Um homem jovem chamado Kaspar Hauser (Bruno S.) aparece de repente na cidade de Nuremberg em 1828, e mal consegue falar ou andar, além de portar um estranho bilhete. Logo é descoberto que sua aparição misteriosa se deve ao fato de que ele ficou trancado toda sua vida em um cativeiro, desconhecendo toda a existência exterior. Quando ele é solto nas ruas sem motivo, muitas pessoas decidem ajudá-lo a se integrar na sociedade, mas rapidamente Kaspar se transforma em uma atração popular.
O sentimento que esse filme me causa é único, desde quando o encontrei na locadora escondido entre tantos outros por um valor mínimo até a descoberta de uma história sensível e intrigante sobre um ser humano puro que descobre o mundo por si mesmo. Profundo e reflexivo, Kaspar Hauser se configura entre os filmes mais tocantes e misteriosos que assisti. Saiba+

07- "As Confissões de Henry Fool" (Henry Fool - 1997) EUA
Simon Grim (James Urbaniak) é um lixeiro que tem fama de ser retardado mental. Ele vive com sua mãe Mary (Maria Porter) e a irmã Fay (Parker Posey), uma ninfomaníaca. Um dia surge em sua vida Henry Fool (Thomas Jay Ryan), que o incentiva a escrever suas ideias. Fool não tem emprego e está escrevendo suas confissões, as quais diz que irão revolucionar o planeta. Simon escreve polêmicos poemas, que são aclamados por alguns e considerados pornográficos por outros. Já instalado na casa dos Grim, Henry serve de mentor para Simon, ajudando-o também a divulgar o trabalho do pupilo.
Outro achado em locadora que me fascinou, diálogos maravilhosos, personagens incríveis e uma potente reflexão sobre a condição humana. Saiba+

06- "Eu Existo" (Jestem - 2005) Polônia
Um menino de 11 anos foge do orfanato e volta para sua cidade natal. Lá encontra a mãe alcoólatra com quem tem sérios problemas. Ele decide viver numa barca abandonada onde suas únicas companhias são a fome e a eventual presença de uma menina.
Um dos filmes mais belos que vi, de uma delicadeza ímpar, inocente, singelo, uma história simples, mas que engrandece e com certeza faz com que enxerguemos a vida sob outros pontos de vista. Esse tem um lugar garantido no coração e na memória! Saiba+

05- "Filhos do Paraíso" (Bacheha-Ye Aseman - 1997) Irã


Ali (Amir Farrokh Hashemian) é um menino de 9 anos proveniente de uma família humilde e que vive com seus pais e sua irmã, Zahra (Bahare Seddiqi). Um dia ele perde o único par de sapatos da irmã e, tentando evitar a bronca dos pais, passa a dividir seu próprio par de sapatos com ela, com ambos revezando-o. Enquanto isso, Ali treina para obter uma boa colocação em uma corrida que será realizada, pois precisa da quantia dada como prêmio para comprar um novo par de sapatos para a irmã.
Esse filme foi o início da minha paixão pelo cinema iraniano com suas histórias simples, porém corajosas, onde situações cotidianas ganham importantes significações e belíssimas reflexões. Saiba+

04- "O Milagre de Anne Sullivan" (The Miracle Worker - 1962) EUA
A incansável tarefa de Anne Sullivan (Anne Bancroft), uma professora, ao tentar fazer com que Helen Keller (Patty Duke), uma garota cega, surda e muda, se adapte e entenda (pelo menos em parte) as coisas que a cercam. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram, sem nunca terem lhe ensinado algo nem lhe tratado como qualquer criança.
Esse filme é uma lição de vida, forte, emocional, inspirador, "O Milagre de Anne Sullivan" tem um enorme valor social. Helen Keller é muito mais que uma história de superação, ela demonstra esperança e humanidade, saída da escuridão total para se tornar uma pessoa exemplar. Saiba+

03- "Osama" (2003) Afeganistão

Em pleno regime Talibã no Afeganistão uma menina é obrigada a cortar o cabelo e se vestir como se fosse um menino para ajudar sua família, que é composta apenas de mulheres. A farsa é descoberta na escola, quando percebem que ela está sangrando por entre as pernas.
Toda vez que esse filme me vem à mente me arrepia tamanha a sua potência, é uma história triste e que revolta muito, a crueza se mistura com a delicadeza e a interpretação da menina é sublime, seu rosto sempre amedrontado é marcante, um retrato cruel do país e de todo o ódio disseminado contra às mulheres. Saiba+

02- "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom - 2003) Coreia do Sul/Alemanha

Ninguém é indiferente ao poder das quatro estações e de seu ciclo anual de nascimento, crescimento e declínio. Nem mesmo os dois monges que compartilham a solidão, em um lago rodeado por montanhas. Assim como as estações, cada aspecto de suas vidas é introduzido com uma intensidade que conduz ambos a uma grande espiritualidade e a tragédia. Eles também estão impossibilitados de escapar da roda da vida, dos desejos, sofrimentos e paixões que cercam cada um de nós. Sobre os olhos atentos do velho monge vemos a experiência da perda da inocência do jovem monge, o despertar para o amor quando uma mulher entra em sua vida, o poder letal do ciúme e da obsessão, o preço do perdão, o esclarecimento das experiências. Assim como as estações vão continuar mudando até o final dos tempos, na indecisão entre o agora e o eterno, a solidão será sempre uma casa para o espírito.
Um filme silencioso e introspectivo, mas grandioso em suas reflexões sobre os valores da vida, o ser humano e sua evolução, os desejos, a natureza, a solidão, ao fim a sensação de renovação e a certeza que se está diante de uma obra-prima. Saiba+


01- "Poesia" (Shi - 2010) Coreia do Sul
Mija, de 66 anos, solitária e batalhadora, amante das flores e da poesia, descobre estar sofrendo de Alzheimer. Além disso, ela descobre que o neto, de quem cuida sozinha, participou do estupro coletivo de uma garota que teria, por esta razão, cometido suicídio.
Um filme extremamente sensível que traz a poesia em todos os detalhes e, principalmente, no cotidiano difícil, nos sentimentos que doem, como a culpa, a protagonista se dedica a aprender escrever suas poesias a fim de libertar a sua forma de encarar a vida. Profundo e melancólico, reflete que para escrever poesia é necessário deixar vibrar seus sentimentos, deixar que fluam mesmo que doam. Saiba+