quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Na Própria Pele - O Caso Stefano Cucchi (Sulla Mia Pelle)
"Na Própria Pele - O Caso Stefano Cucchi" (2018) dirigido por Alessio Cremonini (Short Night - 2006) é um filme baseado num dos mais chocantes e controversos casos judiciais da história da Itália, muitas dúvidas surgem em relação ao protagonista, mas a dor e o medo salta da tela e é impossível não sentir revolta ou pelo menos questionar e refletir acerca do sistema judiciário, as falhas, as burocracias, a falta de humanidade, o abuso de poder, é insano a medida que tomam e ainda mais estranha é a forma que conduzem o caso, extremamente desumano.
Stefano Cucchi (Alessandro Borghi) foi o protagonista de um dos mais inquietantes casos judiciais da história da Itália. Stefano foi detido pela polícia em 2009, suspeito de atividades criminosas e acusado de posse ilegal de drogas. Dias depois, ele foi encontrado morto em sua cela preventiva, em estado de desnutrição e com diversos hematomas. As investigações do caso reverberam até hoje e evidenciam um lado sombrio do sistema judicial italiano.
De modo imparcial acompanhamos a história de Stefano, que numa noite depois de jantar na casa dos pais sai de carro com um amigo e é abordado por policiais e preso acusado por posse ilegal de drogas, a polícia já o trata como se fosse um criminoso e revista até a casa dos pais no meio da noite, sem muito o que fazer é colocado atrás das grades, antes disso alguns policiais entram numa sala com Stefano e o espancam, seu histórico como dependente só piora as coisas e a juíza decide pela prisão, no depoimento por receio ele não diz sobre a violência cometida contra ele e inventa que caiu da escada, a falta de confiança nos agentes de saúde ou em qualquer outra pessoa vinculada ao poder o fez ficar calado, o espancamento foi pesado e com o passar das horas sua situação foi piorando muito, Cucchi é passado nas mãos de várias autoridades e sem nenhum tipo de auxílio médico, além de ignorarem o fato de que foi espancado, ele conta a história da escada e todos fingem acreditar, alguns agentes de saúde até perguntam, mas ele não sente que isso o ajudará. Tudo está contra ele, o veredito já aconteceu e nem seu próprio advogado foi chamado, são falhas do sistema que geram revolta, principalmente aos pais que nem notícias puderam ter, pois foi trancafiado em uma ala protegida e Cucchi não recebia nenhum tipo de visita. Em determinado ponto, já imensamente debilitado ele se recusa a receber tratamento, um modo de conseguir apelar e receber notícias de fora, ou que os médicos abrissem os olhos para a situação real.
Impressionante a interpretação de Alessandro Borghi, sua caracterização é perfeita e está completamente entregue, sua dor transpassa a tela, incomoda e pesa, isso tudo devido a sua brilhante performance física, torturado e espancado Cucchi precisou aguentar uma dor lancinante e durante um período curto e devastador passou de mãos em mãos e acabou morrendo por várias falhas, desde o abuso de poder, a violência policial, calúnias, negligência médica, entre outras. Esse é um caso que ecoa até hoje e que possui muitas reviravoltas, entre acusações, absolvições e reabertura de processos contra os policiais e médicos. A irmã de Cucchi, Ilaria Cucchi empreendeu uma dura batalha para a verdade vir à tona e para que os responsáveis respondessem ao crime, entre eles cinco policiais, seis médicos e três enfermeiros.
"Na Própria Pele - O Caso Stefano Cucchi" retrata que os direitos humanos estão cada vez mais sendo pisoteados e isso é no mundo todo, caminha-se para algo pior, infelizmente, o abuso de poder, a violência, a ignorância em lidar com as pessoas dependentes ou ex-dependentes, as falhas da lei, as burocracias, a falta de recursos em saber como se lidar com essas pessoas causam tragédias, a família de Cucchi teve força e ajuda, mas quantos e quantos outros casos semelhantes acontecem e não se tem conhecimento? É um misto de indignação e tristeza que esse filme provoca ao expor as mazelas da justiça.
Disponível no catálogo da Netflix!
terça-feira, 16 de outubro de 2018
Errementari/The Devil and the Blacksmith (Errementari - El Herrero y El Diablo)
"Errementari" (2017) dirigido por Paul Urkijo Alijo e produzido por Álex de la Iglesia (O Bar - 2017) é baseado numa fábula do folclore basco recolhida pelo etnólogo e antropólogo basco José Miguel Barandiaran em 1903. Um curioso e surpreendente filme de fantasia, onde junta-se elementos do folclore basco com outros componentes gerais do imaginário coletivo ao terror e uma pitada de humor, o visual é um espetáculo a parte e mesmo que soe exagerado em alguns momentos cativa pela originalidade.
Oito anos depois da Primeira Guerra Carlista de 1833, em uma pequena aldeia de Álava, um comissário do governo começa a investigar uma estranha ocorrência que o leva a uma parte oculta e sombria das florestas locais. Os poucos habitantes dos arredores o contam que diversos assassinatos e roubos ali foram relacionados a pactos com o diabo, e ele descobre a veracidade das histórias da pior maneira possível. Nesse pequeno povoado, vive um ferreiro, Patxi (Kandido Uranga) tão mau que é temido até pelo Diabo. Certo dia, uma menina órfã, Usue (Uma Bracaglia) vai xeretar na sua cabana e descobre que ele mantém um demônio aprisionado.
Vale ressaltar que o cinema basco tem se destacado bastante nos últimos anos graças ao Festival de San Sebastián, cito o drama histórico "Handia" (2017), o delicado romance "Loreak" (2014), sobre a cultura e tradições versus a modernidade "Amama" (2016), e "Errementari" também se inclui com a lenda diabólica retratada, há o elemento histórico e cultural, o fantástico, o teatral e caprichados efeitos visuais.
O sinistro ferreiro mora nas profundezas da floresta condenado à solidão por a aldeia o acusar de crimes, esse homem solitário tem um enorme e terrível segredo que aos poucos é revelado quando a pequena Usue invade sua propriedade para tentar resgatar parte de sua boneca, lá dentro um ser demoníaco chamado Sartael está preso numa gaiola, quando a menina entra vê um menino lá e o solta, mas logo a verdadeira face é exposta e Patxi com suas armadilhas tenta capturá-lo, a história toda foi por conta de um pacto, esse homem conseguiu sair vivo da guerra, mas em compensação sua alma seria destinada ao inferno, Sartael meio atrapalhado não consegue dar seguimento e termina preso na casa do ferreiro, passam-se anos e anos até que Usue, que faz parte de um outro terrível acontecimento do passado de Patxi, adentra sua casa e descobre o ser das trevas. O roteiro é super bem amarrado e é cuidadoso no desenrolar, essa lenda basca foi preservada pela tradição oral, as suas raízes e os costumes estão presentes combinados a um humor vigoroso.
O sinistro ferreiro mora nas profundezas da floresta condenado à solidão por a aldeia o acusar de crimes, esse homem solitário tem um enorme e terrível segredo que aos poucos é revelado quando a pequena Usue invade sua propriedade para tentar resgatar parte de sua boneca, lá dentro um ser demoníaco chamado Sartael está preso numa gaiola, quando a menina entra vê um menino lá e o solta, mas logo a verdadeira face é exposta e Patxi com suas armadilhas tenta capturá-lo, a história toda foi por conta de um pacto, esse homem conseguiu sair vivo da guerra, mas em compensação sua alma seria destinada ao inferno, Sartael meio atrapalhado não consegue dar seguimento e termina preso na casa do ferreiro, passam-se anos e anos até que Usue, que faz parte de um outro terrível acontecimento do passado de Patxi, adentra sua casa e descobre o ser das trevas. O roteiro é super bem amarrado e é cuidadoso no desenrolar, essa lenda basca foi preservada pela tradição oral, as suas raízes e os costumes estão presentes combinados a um humor vigoroso.
A caracterização dos personagens é algo maravilhoso, o corpulento e misterioso Patxi vivido por Kandido Uranga, a menina Usue vivida pela estreante Uma Bracaglia, que consegue transmitir toda sua carência misturada a uma revolta, porém em alguns momentos soa irritante ao espectador. Mas, claro, a estrela é Eneko Sagardoy (também incrível como o gigante em Handia) e seu maligno Sartael, o demônio responsável por encontrar coisas escondidas, os seus gestuais e comportamento são marcantes e toda a sua maneira diabólica é combinada por gracejos, no decorrer ele precisa tomar decisões das quais não estava habituado até então, pactua com Usue e a leva até o inferno para encontrar a mãe, porém Patxi se intromete e usando artifícios para lá de bizarros e surreais também desce ao inferno compactuando com Sartael novamente em troca de sua alma e ataca o maior de todos os demônios. É um tanto exagerado esse final, caótico, mas não perde a linha do fantasioso misturado ao seu humor característico.
"Errementari" é jocoso e as figuras diabólicas ganham nossa simpatia, o padre que apenas fala do inferno em suas missas é outro a se prestar atenção, pois condena todos por qualquer coisa a esse destino medonho, a pequena Usue é a única ali que não se importa com a religião e por conta da mãe ter ido supostamente para lá é revoltada e questiona todos ao redor. É um filme com um desenvolvimento que surpreende, uma ambientação que encanta e que dosa o horror e a fantasia com esmero.
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
Não Deixe Rastros (Leave No Trace)
"Não Deixe Rastros" (2018) dirigido por Debra Granik (Inverno da Alma - 2010) adaptado da obra de Peter Rock, "My Abandonment", é um belo drama que retrata por um lado o desapego à sociedade e do outro o amadurecimento e os desejos próprios tomando forma, sem apontar o certo ou o errado a história nos guia de maneira sutil e realista à vida nômade do personagem que leva junto de si sua filha, que aos poucos sente necessidade de contato humano. É um filme permeado por sentimentos bons e reflexões contundentes sobre a sociedade e nossos desejos.
Will (Ben Foster) e sua filha adolescente, Tom (Thomasin McKenzie), viveram felizes e indetectados pelas autoridades durante anos em uma vasta reserva na fronteira de Portland, nos EUA. Após um encontro inesperado, eles são retirados do acampamento e colocados sob a responsabilidade do serviço social. Will e Tom tentam retornar ao mundo selvagem enquanto são forçados a lidar com desejos conflitantes.
A fuga da civilização para ir morar em florestas tem sido bastante recorrente nos filmes, vide "A Cabana" (2011), "Sanctuary" (2013), "Vida Selvagem" (2014) e "Capitão Fantástico" (2016), do qual este se assemelha, porém evitando floreios e retratando a dificuldade em sobreviver dessa forma enquanto o sistema teima em não deixar. Ben Foster preenche a tela com suas feições, seu olhar nos diz muito sobre seus sentimentos, sua incapacidade em lidar com as pessoas, ele causa curiosidade, ficamos nos perguntando o que o fez querer deixar o meio para viver isolado, já que a narrativa não foca nos motivos, viúvo e veterano de guerra Will vive com sua filha adolescente Tom em um parque florestal nos arredores de Portland, a rotina consiste no plantio e colheita, no recolhimento de lenha, busca por água e Will ensinando Tom a sobreviver no local com aulas práticas, como encontrar esconderijo e não deixar rastros, eles sempre estão mudando a barraca de lugar e seguem assim até o dia em que Tom é vista por um guarda. A partir daí eles são incluídos num programa e reinseridos na sociedade, tidos como sem-tetos as autoridades dão uma casa, um trabalho e um manual a seguir, o que desencadeia uma depressão em Will, já em Tom cresce o desejo de descobertas e contato humano. O dia a dia vai pressionando os sentimentos dele e chega um momento que ele não consegue seguir o protocolo de se viver em comunidade, então abandona tudo e leva a filha contra sua vontade. Sem rumo percorrem estradas, conseguem carona e se infiltram em uma floresta densa, o frio congelante vai desencadeando problemas em Tom e Will precisa arranjar um jeito de sobreviverem. Esse momento é bastante tenso e encaramos o egoísmo de Will ao mesmo tempo em que tentamos entender sua visão de mundo, ele simplesmente não quer mais se socializar, seja por traumas, depressão, ou desprezo pelo sistema.
A história é dotada de sensibilidade, a relação entre pai e filha é cercada de amor, a preocupação, o elo afetivo, a cumplicidade e o carinho predomina, mas quando encontram uma comunidade alternativa em meio a floresta e se estabelecem por algum tempo para Will se recuperar de um acidente, Tom percebe que precisa se impôr e decidir sobre sua própria maneira de viver, os sentimentos do pai são apenas dele, então por mais que doa ela necessita enfrentar esse momento.
"Não Deixe Rastros" retrata o amadurecimento e os desejos e coloca do outro lado sem apontar o certo ou errado o desapego à sociedade e a fuga para a natureza, que nesse filme se assemelha muito com a realidade, onde os riscos e a solidão são consequências desta decisão. Também reflete o modo burocrático das autoridades em lidar com essas pessoas, não há qualquer traço de humanismo, ao contrário da comunidade alternativa que acolhe Tom e a faz sentir que enfim encontrou um lar. É um filme interessante, belo e que inspira compaixão.
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
Oh Lucy!
"Oh Lucy!" (2017) dirigido pela estreante em longas-metragens Atsuko Hirayanagi é uma adaptação do seu curta-metragem homônimo, o filme possui momentos que oscilam entre angustias e expectativas, solidão e descobertas, a protagonista cansada da rotina se permite a embarcar no desconhecido e dar um sentido para sua vida.
Uma mulher solitária de Tóquio (Shinobu Terajima) se apaixona por seu professor (Josh Hartnett) quando decide fazer aulas de inglês. Quando seu professor desaparece, ela parte em uma viagem para encontrá-lo que a leva para o sul da Califórnia.
O filme se inicia retratando uma Tóquio cinzenta com pessoas com máscaras cirúrgicas se amontoando no metrô, atrás de Setsuko um homem cantarola e logo se joga nos trilhos, a tristeza e o suicídio paira no ar por todo o filme, reflexo de uma sociedade individualista, acelerada e carente de elos, depois de presenciar esse episódio acompanhamos a entediante vida de Setsuko, no trabalho a relação com os demais é fria, principalmente pela hipocrisia que reina, seu único elo é a sobrinha que vive brigada com a mãe e que sempre recorre a ela para livrá-la de alguma situação, tudo começa de fato quando ela vai fazer aulas de inglês no lugar da sobrinha, ao chegar se depara com um professor americano que a faz colocar uma bolinha na boca para aprender a falar sem sotaque, que lhe dá um nome americano, Lucy, uma peruca e distribui abraços, ela acha estranho de início, mas esse inesperado contato a despertou para algo, ela se apaixona e começa a se olhar, se arrumar e enfim viver. Nessa aula ela ainda conhece outro aluno, Komori/Tom (Kōji Yakusho) que mais ao longo descobrimos um pouco de sua triste vida, ele acaba sendo de imensa importância para Setsuko. Quando ela aparece para a próxima aula não encontra o professor, ela fica sabendo de sua demissão e que em breve uma outra professora virá, na saída ela o vê pegando um táxi juntamente com sua sobrinha, isso a faz desmoronar e cair novamente na sua tediosa vida.
Setsuko é uma personagem com uma profundidade enorme, seu apartamento reflete a sua personalidade, todo abarrotado de coisas, embalagens de comida, todo bagunçado e ao mesmo tempo vazio, a sua saga por John começa quando recebe um postal da sobrinha de um hotel da Califórnia, ela não pensa duas vezes e pede férias em seu emprego, avisa a irmã e esta vai junto, é uma série de momentos que captam a diferença entre os costumes do ocidente e oriente, todos pontuados com muita sensibilidade e inteligência, garantindo à história diversas camadas.
Setsuko é uma personagem com uma profundidade enorme, seu apartamento reflete a sua personalidade, todo abarrotado de coisas, embalagens de comida, todo bagunçado e ao mesmo tempo vazio, a sua saga por John começa quando recebe um postal da sobrinha de um hotel da Califórnia, ela não pensa duas vezes e pede férias em seu emprego, avisa a irmã e esta vai junto, é uma série de momentos que captam a diferença entre os costumes do ocidente e oriente, todos pontuados com muita sensibilidade e inteligência, garantindo à história diversas camadas.
De um lado vemos gestos, como um abraço ser algo praticamente técnico, não possuir nenhum tipo de sentimento contido nele, já do outro essa demonstração possibilita uma mudança. Lucy está cansada do trabalho burocrático que faz, das pessoas que ali circulam, bajuladoras e hipócritas, a sua irmã sempre a diminuindo e depois a sobrinha tirando o sarro dela, a viagem parece ser uma ideia um tanto doida, mas por trás de uma mulher arisca existe um desejo de viver imenso, que ao longo dos anos foi abafado, tanto pela relação com a irmã, trabalho e tantas outras, sua curiosidade e autoconfiança vão surgindo, ela enfrenta a irmã, chega em John e por mais que se decepcione ao final, pelo menos ela tentou, se arriscou.
"Oh Lucy" é um filme agridoce que retrata uma personagem fechada que ao ter uma oportunidade de se reinventar e se abrir vai em frente, reflete a solidão e a carência que o ritmo de vida em sociedade gera, as relações vazias e técnicas, o caos interno. As camadas de sentimentos que a história vai desnovelando atinge o espectador em cheio e ao final não tem como não refletir no quão sozinhos estamos e o quanto cada vez mais um abraço pode nos salvar.
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
Mandy
"Mandy" (2018) dirigido por Panos Cosmatos (Além do Arco-Íris Negro - 2011) é um filme lisérgico, insano, trash, maníaco, sangrento e cheio de referências, é uma jornada de vingança estilizada. Muito se fala da volta triunfal de Nicolas Cage, certo que ele faz tempo que desandou na escolha dos papéis e que ultimamente um ou outro se salva, cito aqui o dramático "Joe" (2013), o tarantinesco "Dog Eat Dog" (2016) e o surtado "Mom and Dad" (2017), mas ele é um grande ator e aqui demonstra a sua versão alucinante ampliada.
Noroeste Pacífico. 1983 d.C. Forasteiros, Red Miller (Nicolas Cage) e Mandy Bloom (Andrea Riseborough) levam uma amorosa e pacífica vida. Quando seu refúgio é selvagemente destruído por um culto liderado pelo sádico Jeremiah Sand (Linus Roache), Red é arremessado para uma jornada fantasmagórica repleta de vingança sangrenta e entrelaçada com fogo.
O filme começa mostrando a vida idílica do apaixonado casal Red e Mandy, a estranheza permeia a obra desde o começo com uma atmosfera de sonho, a psicodelia vai tomando conta à medida que o culto liderado por Jeremiah (Linus Roache) surge. Jeremiah é um louco que fica obcecado por Mandy e convoca seu séquito para raptá-la, só que Mandy não sucumbe ao charme do ex-cantor de rock e ainda por cima ri da cara dele, o que o deixa irritado e a mata enquanto torturam Red. Os membros por descuido ou burrice deixam Red vivo e assim desvairado de dor e raiva começa a planejar sua vingança, com direito a uma besta e uma arma forjada por ele mesmo - que é inspirada no "F" do logo da banda Celtic Frost. A sua transformação acontece entre gritos, choro e bastante raiva, sua descida ao inferno é retratada com exagero e estilo, o vemos enlouquecido no ácido matando criaturas satânicas com muito sangue no olho, literalmente.
O filme tem uma mistura fantástica de elementos que nos leva aos aclamados filmes B dos anos 80, é um trash estilizado, suas imagens amolecidas garantem uma viagem alucinógena ao espectador, assim como sua potente e sinistra trilha sonora composta por Jóhann Jóhannsson (falecido em fevereiro deste ano) que contém uma aura permeada pelo metal extremo. É realmente hipnotizante!
O filme tem uma mistura fantástica de elementos que nos leva aos aclamados filmes B dos anos 80, é um trash estilizado, suas imagens amolecidas garantem uma viagem alucinógena ao espectador, assim como sua potente e sinistra trilha sonora composta por Jóhann Jóhannsson (falecido em fevereiro deste ano) que contém uma aura permeada pelo metal extremo. É realmente hipnotizante!
A seita perturbada à la Charles Manson denominada como Black Skulls tem desde o líder, um músico falido exibido totalmente maluco à uma gangue de motociclistas da noite à la cenobitas, e Red se infiltra nesse antro e vai matando um por um com muito furor, em uma cena há uma briga com serras elétricas antológica, o personagem de Cage bebe vodca, cheira um pó e viaja no ácido, uma delícia acompanhar a sua alucinante vingança.
"Você é um floquinho de neve cruel"
"Mandy" é um filme que já nasceu cult, para os adoradores do terror e slasher dos anos 80 é um baita presente, claro que o diretor entre tantas referências imprime suas características e o faz delirantemente com muito estilo.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Sob a Pele do Lobo (Bajo la Piel de Lobo)
"Sob a Pele do Lobo" (2017) dirigido por Samu Fuentes é um filme seco que retrata que a ideia de viver em meio a natureza dando vazão somente aos instintos não é sinônimo de liberdade, a natureza é linda, mas também é cruel, quanto mais solitário lidando com as intempéries e os meios de sobrevivência mais o lado animal acaba predominando.
Martinón (Mario Casas) é o último habitante de Auzal, uma vila remota nas montanhas. No início da primavera e no final do verão, ele desce até os vales, onde faz negócios e obtém provisões para o restante do ano. Depois de um encontro tórrido e fugaz com Pascuala (Ruth Díaz), Martinón começa a considerar seriamente a sua solidão e decide comprá-la de seu pai, Severino (Kandido Uranga). Com Pascuala ao seu lado, Martinón começa a experimentar novos sentimentos.
O filme praticamente não possui diálogos e as cenas são diretas, não há romantizações, é a natureza selvagem imperando, o rústico caçador permanece na isolada vila montanhosa, ele é o único a morar no local e enfrentar as situações extremas, como o inverno rigoroso, no verão ele desce, um longo e difícil caminho para vender as peles dos lobos dos quais caçou e comprar mantimentos, um dia bebendo e comendo alguém lança a ideia de que ele precisa de uma mulher e filhos para amenizar a solidão, Martinón diz que aquele não é lugar para uma mulher e crianças, porém, logo após decide fazer uma transação, compra Pascuala e a leva para as montanhas, as condições climáticas não demoram a prejudicá-la, além de ter sido vendida pelo pai como um produto precisa enfrentar o jeito animalesco de Martinón, a partir da convivência com a mulher parece que ele começa a pensar, principalmente na questão da proteção, algo ainda ligado ao instinto animal, mas diante dos acontecimentos alguns sentimentos vêm à tona revelando seu lado humano.
Sua forma de tratar a mulher é puramente animal, não há diálogo, afeto, o sexo é bruto, não há prazer, a intenção é apenas para a reprodução. Os dias vão passando e Pascuala fica mais e mais doente, o serviço é pesado, a solidão é imensa e então acaba morrendo. Martinón volta ao vilarejo e briga com o pai dela por vendê-la já grávida, este como compensação lhe oferece outra filha, Adela (Irene Escolar), dessa vez o homem está querendo proteger a mulher, principalmente quando descobre que está grávida, não a deixa fazer trabalho pesado e sempre relembra o sangue escorrendo entre as pernas da primeira mulher, Adela diferente de Pascuala deixa claro com o olhar que repudia a situação, as cenas de sexo, estupro na verdade, são cada vez mais pesadas e a ânsia dela vai aumentando dia após dia, o convívio é insuportável, a sua tristeza é colossal, até que ela decide agir, quando o pai a entregou para Martinón lhe deu um embrulho com ervas "no caso de não aguentar mais", e é com essas ervas que começa a envenenar Martinón.
Sua forma de tratar a mulher é puramente animal, não há diálogo, afeto, o sexo é bruto, não há prazer, a intenção é apenas para a reprodução. Os dias vão passando e Pascuala fica mais e mais doente, o serviço é pesado, a solidão é imensa e então acaba morrendo. Martinón volta ao vilarejo e briga com o pai dela por vendê-la já grávida, este como compensação lhe oferece outra filha, Adela (Irene Escolar), dessa vez o homem está querendo proteger a mulher, principalmente quando descobre que está grávida, não a deixa fazer trabalho pesado e sempre relembra o sangue escorrendo entre as pernas da primeira mulher, Adela diferente de Pascuala deixa claro com o olhar que repudia a situação, as cenas de sexo, estupro na verdade, são cada vez mais pesadas e a ânsia dela vai aumentando dia após dia, o convívio é insuportável, a sua tristeza é colossal, até que ela decide agir, quando o pai a entregou para Martinón lhe deu um embrulho com ervas "no caso de não aguentar mais", e é com essas ervas que começa a envenenar Martinón.
Martinón vai ficando debilitado, mas ainda reúne forças para caçar, um dia Adela pega suas coisas e decide fugir, só que no caminho cai numa das armadilhas que ele fez para os animais, passa a noite num frio congelante e de manhã ele a encontra e a leva para casa, cuida de sua ferida e a esquenta como pode, a cena em que demonstra pela primeira vez afeto. Depois desse acontecimento ele se dá conta que está sendo envenenado e permite que Adela vá embora, até porque tinha perdido o bebê, e aí é que ele sente o desamparo e a incapacidade de dar seguimento, no início antes de sentir que precisava se relacionar a solidão era companhia, já a solidão do fim, um profundo abismo.
"Sob a Pele do Lobo" é um filme interessante e um estudo sobre o Homem, sobre o quanto o instinto aflora quando não se está rodeado pelas regras sociais e sem nenhum tipo de relação, sozinho em meio a natureza selvagem foca-se apenas na sobrevivência e o filme o faz de maneira bruta, talvez, por isso, se torne enfadonho e até indigesto. São cenas cruas que refletem que para o ser humano basta o isolamento para se transformar em animal.
Mais uma pérola espanhola que a Netflix disponibiliza!
terça-feira, 25 de setembro de 2018
Maktub
"Maktub" (2017) dirigido por Oded Raz é uma comédia israelense que mescla momentos afetuosos e violentos, é um olhar leve sobre os costumes e brinca com estereótipos, como religião e terrorismo, a dupla de protagonistas esbanja carisma e é impossível não se encantar com o desenrolar da história, que apesar de ter ações violentas e maneiras de se agir duvidosas o que prevalece ao fim é o sentimento de amizade e lealdade.
A palavra título dá alma ao filme, Maktub, que significa "já estava escrito", toda vez que um contratempo aparece tem significação de que tudo já estava predeterminado pelo destino, e daí por diante as escolhas precisam ser mais cuidadas. O peixe que cai de uma janela que é considerado má sorte é seguido logo após por um ato terrorista no restaurante, que é encarado como um aviso de que precisam mudar suas vidas. Steve (Hanan Savyon) e Chuma (Guy Amir), dois criminosos, são os únicos sobreviventes de um ataque terrorista em um restaurante em Jerusalém. Esse acontecimento inspirou neles uma mudança de vida, decidindo ajudar o próximo. Eles passam a realizar os pedidos deixados entre as pedras do Muro das Lamentações.
Steve e Chuma são capangas de um mafioso em Jerusalém, que cobram dívidas dos comerciantes de restaurante enquanto degustam e opinam sobre o cardápio, são praticamente especialistas nas mais diversas receitas e dizem com o quê e como devem ser servidos os pratos, um dia uma bomba explode destruindo o restaurante onde almoçavam, apenas os dois sobrevivem porquê estavam no banheiro no momento, quando saem se chocam e fogem com a mala cheia de dinheiro destinada ao chefe. Claro que falam que o dinheiro não estava com eles e sim com o estrangeiro que presta serviço também ao mafioso, Steve diz que não querem mais trabalhar devido o trauma, mas o chefe apenas diz para tirarem umas férias, ao mesmo tempo em que o chefe procura o estrangeiro com a mala de dinheiro, Steve e Chuma decidem mudar de vida e vão até o Muro das Lamentações, local sagrado em que as pessoas depositam seus pedidos, por um acaso Steve retira um papel do muro para escrever algo para Chuma, que ficou surdo após o ataque e, de repente, se veem ajudando as pessoas, retirando os papeizinhos do muro e realizando seus desejos a fim de agradecer o milagre de sobreviverem.
Os personagens são imensamente cativantes, principalmente Chuma que possui afeto pelo filho de Steve, este que não quer nem que fale sobre o assunto, o menino deseja que o pai se aproxime, mas quem é que se preocupa de fato é Chuma, Steve é mulherengo e irresponsável, mas mesmo assim consegue fazer com que gostemos dele. A química entre a dupla é o que faz com que a história se desenrole de forma agradável e engraçada. É até ingênua e por vezes brega, mas traz traços interessantes da cultura e costumes do país, além de usar os estereótipos a seu favor, a mistura de gêneros também é um ponto a favor, vai desde o drama do filho que quer ter um pai e o pai que rejeita o filho, da ação que envolve mafiosos e seus esquemas e a comédia que permeia a mudança que aos poucos ocorre nos personagens, após o ataque terrorista Chuma principalmente, sente necessidade de fazer ações boas para que de certa forma compense a sorte que teve, Steve por amizade vai na onda. São cenas hilárias e recheadas de diálogos incríveis, a fotografia enche os olhos com a Jerusalém retratada com seus subúrbios e o Muro das Lamentações, que não é nada fora da realidade.
"Maktub" é um longa que preenche o coração com sentimentos bons, traz a amizade e a lealdade, a empatia e o amor pelo outro, além das questões paternais que afloram, ao fim o choro e o riso vêm junto com a certeza de que o que emanamos para o universo uma hora volta para nós mesmos.
Disponível no catálogo da Netflix!
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