terça-feira, 14 de agosto de 2018
A Próxima Pele (La Propera Pell)
"A Próxima Pele" (2016) dirigido pela dupla Isa Campo e Isaki Lacuesta é um filme envolto por um clima de mistério, instigante retrata conflitos de relação, questões psicológicas advindas de traumas, as pistas são dadas no decorrer da trama, mas no final não importa muito a revelação e sim todas as situações que envolvem o protagonista.
Por muitos anos, ninguém sabia o que havia acontecido com Gabriel (Àlex Monner), um garoto de nove anos que sofreu um acidente nas montanhas que deixou seu pai morto. Anna, a mãe (Emma Suárez) e outras pessoas suspeitavam que ele estivesse morto, porém, oito anos depois, ele retorna para casa alegando ter amnésia. Retendo apenas memórias básicas, ele busca restabelecer sua conexão perdida com a mãe, mas suspeitas de que ele seja apenas um impostor começam a surgir.
Gabriel foi reconhecido pela mãe após oito anos desaparecido, ele estava morando em um abrigo com o nome de Leo, todas as esperanças estavam praticamente anuladas devido a complexidade do acidente, os habitantes o recebem bem, mas ficam desconfiados, principalmente o tio Enric, que diz na cara dele que sabe que é um impostor, Anna não quer nem saber de exames para comprovar de fato se é seu filho, seu coração lhe dá a certeza, aos poucos ele se acostuma à rotina e o tédio do local, por ele ser diagnosticado com amnésia seletiva, lembrar de algumas coisas e outras não, as pessoas o olham com certo receio, quando vê seu amigo Joan (Igor Szpakowski) lembra dele, mas de outras mais próximas, como o tio não, o que será que acontece com Gabriel? Seria porque bloqueou momentos ruins envolvendo essas pessoas, ou simplesmente é um impostor, um garoto carente e sem perspectivas que encontra em Anna um porto seguro e amor? Essas perguntas ficam martelando o tempo todo e ora temos certeza que ele é Gabriel e ora temos absoluta certeza que não. E isso se deve a maravilhosa interpretação de Àlex Monner, multifacetado e sedutor, que sofre em muitos momentos ataques de ansiedade e outras sofre por se sentir perdido, ele é uma mistura de carência e fúria. Um jovem atraente que coleciona histórias de lugares por quais passou enquanto estava desaparecido, seu amigo Joan o admira e se mostra seguro sobre ele ser realmente Gabriel. Já o tio o quer fora dali, ele não admite que o garoto mude toda a rotina de Anna e, que principalmente, roube o amor, que antes não era dividido com ninguém, ao saber do caso de sua mãe com ele Gabriel se torna mais ríspido e diz que não contará nada se Enric não contar sobre ele, novamente a dúvida e questões sobre os conflitos de relação do passado se tornam mais pungentes, como sobre o pai de Gabriel não ser uma boa pessoa.
É um drama que proporciona refletir sobre relações familiares, traumas e suas consequências, o título "A Próxima Pele" já nos diz muito sobre o protagonista, Leo/Gabriel. Acompanhar o processo dele é doloroso e o final se torna ainda mais tenso, quando confrontado pelo seu tio ele parece relembrar do dia em que desapareceu e os motivos. Mas nada é claro, as respostas não são explícitas, para o espectador cabe pensar em tudo que viu, o comportamento dos personagens, nas situações que desencadearam, nos segredos, nas mentiras, e assim vamos montando um quebra-cabeça.
"A Próxima Pele" é um filme lento e fechado, é todo permeado por dúvidas e muitas coisas não são aprofundadas, mas segue cativante e instigante em todo o seu desenrolar, é um drama denso e que permite ao espectador tirar suas próprias conclusões.
Está presente no catálogo da Netflix!
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
Custódia (Jusqu'à la Garde)
"Custódia" (2017) dirigido pelo estreante Xavier Legrand é um drama francês que aterroriza tamanha a sua crueza e momentos tensos, é uma história que infelizmente acontece e muito na realidade e é necessária para que se analise as leis que ao invés de dar voz à criança prefere escolher por pura sorte quem dos pais tem a razão.
O casal Besson se divorcia. Para proteger o filho de um pai que ela acusa de violências, Miriam (Léa Drucker) exige a guarda exclusiva. A juíza encarregada do caso decide pela guarda compartilhada, pois considera Antoine (Denis Ménochet), o pai, desrespeitado. Refém entre seus pais, Julien (Thomas Gioria) vai fazer de tudo para impedir que o pior aconteça.
Muito importante a temática abordada, com seriedade reflete todos os lados de uma separação, que por si só já desestabiliza os filhos, ainda mais quando os adultos não têm inteligência emocional e se há problemas maiores, como abuso e violência, piora. O início já começa impactando e nos colocando como júri, será que a mãe está querendo afastar o filho do pai? A alienação parental tem sido muito discutida e é um terreno perigoso de se passar, pois para se concluir isso, precisaria escutar a criança, coisa que não acontece, as autoridades nunca ouvem o que os filhos têm a dizer, não dispõem profissionais para isso, não levam em consideração, subestimam a criança, e assim julgam o que o pai e a mãe diz a seus advogados, estes que incrementam ou omitem fatos.
A prepotência da juíza em decidir isso ou aquilo com base em informações que cada um deles disponibiliza para seus advogados, mesmo com a criança dizendo que não quer mais ver o pai por medo, é uma enorme irresponsabilidade para com a vida do maior interessado. Observar Julien em meio ao terrorismo psicológico destrói, causa angústia no espectador, quantas e quantas histórias não conhecemos na realidade em que pais se separam e criam um inferno para a criança, que vai desde a alienação parental, a questões de pensão alimentícia, guarda compartilhada e tantas outras, aqui o que se sucede é mais terrível, o abuso e a violência que advém do pai, que é ignorada pela juíza. Vemos a advogada dele amenizar situações e borrar fatos, no que acaba resultando-o em vítima, então o veredito é a guarda compartilhada. Claro, nesse começo o filme nos confunde em relação as personalidades e o faz de propósito, porque não é algo simples de se resolver, como a autoridade o fez, com arrogância e descaso com Julien, que sim deveria ser ouvido.
A prepotência da juíza em decidir isso ou aquilo com base em informações que cada um deles disponibiliza para seus advogados, mesmo com a criança dizendo que não quer mais ver o pai por medo, é uma enorme irresponsabilidade para com a vida do maior interessado. Observar Julien em meio ao terrorismo psicológico destrói, causa angústia no espectador, quantas e quantas histórias não conhecemos na realidade em que pais se separam e criam um inferno para a criança, que vai desde a alienação parental, a questões de pensão alimentícia, guarda compartilhada e tantas outras, aqui o que se sucede é mais terrível, o abuso e a violência que advém do pai, que é ignorada pela juíza. Vemos a advogada dele amenizar situações e borrar fatos, no que acaba resultando-o em vítima, então o veredito é a guarda compartilhada. Claro, nesse começo o filme nos confunde em relação as personalidades e o faz de propósito, porque não é algo simples de se resolver, como a autoridade o fez, com arrogância e descaso com Julien, que sim deveria ser ouvido.
Antoine começa a buscar Julien nos finais de semana e de começo pouco a pouco se intrometer na vida pessoal de Miriam, faz perguntas ao filho sobre ela ter um namorado ou quando descobre que arranjou outra casa vira um monstro ao querer saber o endereço, a filha mais velha como vai completar dezoito anos em breve tem a opção de querer ou não vê-lo e por isso se afasta completamente. Antoine não consegue se segurar por muito tempo e logo se demonstra um homem violento, segue Miriam, invade o apartamento novo, esse que seria um refúgio para ela e os filhos, faz o filho dar o número de celular dela e aterroriza com seus jogos emocionais. O medo dessa mulher é tão evidente que transpassa a tela, quando ela é atormentada na festa de aniversário da filha e a irmã a protege é essa a sensação que temos, de atravessar a tela e também fazer alguma coisa, pois ela está psicologicamente destruída e diante das consequências não é capaz é agir.
A interpretação de Thomas Gioria é visceral, seus silêncios, sua expressão de pavor toda vez que Antoine vem pegá-lo, o desespero de que algo ruim possa acontecer e de sempre ficar mediando os acontecimentos para defender sua mãe, o que faz com que o pai desconte nele quando descobre algo, a ruína psicológica dele é clara e é impressionante o como esses casos são mais corriqueiros do que pensamos, o abusador se torna a vítima, a mulher encurralada por uma decisão judicial fica de mãos atadas e a criança ao invés de ser o centro fica à deriva e acumulando traumas.
"Custódia" é intenso e não é à toa que está sendo classificado como terror por quem o assiste, pois a sensação que causa é justamente essa, a tensão crescente anuncia seu final, é inegável o caminho que a história irá tomar, o caos, mas o roteiro inteligente e cru nos leva até o ápice com grande aflição e força, a sequência final é interminável, a agonia e o nó na garganta que produz não some depois de seu término seco, persiste e ficamos ali parados com os olhos arregalados e respiração ofegante. Uma obra necessária, uma forma eficaz de se pensar em como a lei é sórdida ao não dar importância ao testemunho da criança, em tomar decisões com base somente naquilo que os advogados contam, em não se levar em consideração relatos de violência. Uma potente história que retrata o terror real e que suscita discussões urgentes.
terça-feira, 31 de julho de 2018
November
"November" (2017) escrito e dirigido pelo estoniano Rainer Sarnet (Idioot - 2011) é baseado no livro "Rehepapp Ehk November", de Andrus Kivirähk, completamente fiel ao folclore da Estônia retrata lendas e tradições que acabam demonstrando o pior do ser humano, num ambiente desolado e falido acompanhamos a rotina de alguns camponeses que fazem pacto com o demônio e pedem auxílio dos espíritos, a corrupção faz parte da vida de todos e o horror faz com que percam sentimentos nobres. Um filme estranhamente atraente e poético.
A história é ambientada em uma aldeia pagã estoniana onde lobisomens, a peste e espíritos vagam. O problema principal dos aldeões é como sobreviver ao inverno frio e escuro. E, para esse objetivo, nada é tabu. As pessoas roubam umas das outras, dos seus senhorios alemães, dos espíritos, do diabo e de Cristo. A personagem principal é uma jovem fazendeira chamada Liina, que está desesperada e apaixonada por um garoto da aldeia chamado Hans.
O horror retratado não advém especificamente das criaturas, mas sim da atmosfera pesada que circula nesse vilarejo, as atitudes dos habitantes que roubam uns dos outros, e que preguiçosos tentam enganar até o diabo ao levar groselhas em troca de um Kratt, que é feito a partir de utensílios domésticos, eles sempre precisam estar trabalhando, são escravos dos humanos, este que deveria dar o sangue, a alma em troca, pois os Kratts são almas roubadas. Na mitologia estoniana são descritos como uma criatura mágica criada por utensílios domésticos ou feno pelo seu mestre que então daria três gotas de sangue para o diabo trazer uma alma a ele. No livro de Andrus Kivirähk sugere que muitos usavam groselhas para enganá-lo e assim salvar suas vidas. O Kratt faz tudo que o mestre manda, trabalha, rouba e até voa para isso, caso o trabalho não surgisse ele se tornaria violento se revoltando contra seu dono, uma artimanha para se livrar de um Kratt, era sugerir um trabalho impossível de realizar e que de tanto tentar pegaria fogo ou se desmancharia. A maioria dos camponeses fabricam seus Kratts, que constantemente são vistos trabalhando em meio a floresta, os homens terminam folgados e vingativos, eliminando qualquer rastro de um bom sentimento para com o outro.
Em meio a um cenário gélido tanto pelo clima quanto pelo modo de se relacionarem há Liina (Rea Lest), que ama intensamente em segredo Hans (Jörgen Liik), que por sua vez ama a baronesa (Jette Loona Hermanis), Liina faz de tudo para que Hans a note e Hans faz de tudo para que a baronesa o ame, ambos desesperados utilizam feitiços, meios que talvez pudessem de alguma forma trazer o coração do amado para perto dos seus. O pai de Liina a prometeu em casamento para um velho do vilarejo, desnorteada ela tenta até matar a jovem baronesa, que todas as noites sobe até o telhado e quando está para cair sempre é salva por alguém, Hans recorre ao diabo e troca sua alma por um Kratt, dessa vez o diabo não se engana com as groselhas e dá vida a um Kratt que conta histórias de amor, alimentando ainda mais a sua paixão pela baronesa.
Em meio a um cenário gélido tanto pelo clima quanto pelo modo de se relacionarem há Liina (Rea Lest), que ama intensamente em segredo Hans (Jörgen Liik), que por sua vez ama a baronesa (Jette Loona Hermanis), Liina faz de tudo para que Hans a note e Hans faz de tudo para que a baronesa o ame, ambos desesperados utilizam feitiços, meios que talvez pudessem de alguma forma trazer o coração do amado para perto dos seus. O pai de Liina a prometeu em casamento para um velho do vilarejo, desnorteada ela tenta até matar a jovem baronesa, que todas as noites sobe até o telhado e quando está para cair sempre é salva por alguém, Hans recorre ao diabo e troca sua alma por um Kratt, dessa vez o diabo não se engana com as groselhas e dá vida a um Kratt que conta histórias de amor, alimentando ainda mais a sua paixão pela baronesa.
O filme é um primor não só em sua narrativa, o visual é um deslumbre, a fotografia em preto e branco, na maior parte do tempo prevalecendo um branco translúcido e a paisagem gelada com sua floresta densa hipnotiza e gera angústia, porém mesmo assim o humor está presente em variadas situações bizarras e nos maneirismos e nas incríveis performances físicas dos atores, o belo está continuamente de mãos dadas com o horror. Excepcional em todos os quesitos, como os ruídos da natureza, o vento e o fogo, ou o barulho das passadas na neve, roupas, mastigação, além da trilha fúnebre que anuncia o mal ou o sofrimento. O conto nos transporta para um mundo fantástico, habitado tanto por demônios, espíritos, bruxas, criaturas pagãs e Cristo, mas também conversa com o realismo ao expor o lado traiçoeiro, ganancioso e mesquinho do ser humano, e claro, a tragédia, um clássico das histórias de amor.
"Eu fecho os olhos e finjo que as palavras que ele diz a ela são para mim."
"November" é uma fábula fascinante e que não se detém a sentimentalismos ao retratar as lendas estonianas, expõe-se preconceito, miséria, angústias e corrupção, além de agradar aos olhos com seu visual estonteante. O humor nada convencional permeia muitas das cenas, citando uma delas, quando a peste chega ao vilarejo na forma de um bode e os habitantes tentam se desvencilhar enganando-a colocando as calças na cabeça, que pelo cheiro não saberia identificá-los, a peste volta depois sob a forma de um porco, realmente estranho, mas efetivo ao demonstrar os comportamentos das pessoas sempre agindo para de algum modo se beneficiarem. Para quem busca por filmes fora da caixinha é mais que indicado, há beleza, lirismo e crueza. Filmaço!
segunda-feira, 30 de julho de 2018
Severina
"(…) as vidas dos indivíduos consistem em certas coisas classificáveis, divididas entre as reais, que são raras e valiosas; as simples, que são ordinárias e normais; e as fantasmas, ou ‘névoas’ — como febre, dor de dente, terríveis decepções…"
"Severina" (2017) dirigido por Felipe Hirsch (Insolação - 2010), baseado na obra do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa é um filme brasileiro/uruguaio delicado e imersivo, um exercício metalinguístico sedutor e que consegue captar perfeitamente a atmosfera literária. Melancólico, agradável, um delírio fascinante que traz um sabor amargo e ao mesmo tempo prazeroso.
Dono de livraria (Javier Drolas) se encanta com uma mulher (Carla Quevedo) que visita sua loja e volta dia após dia para cometer furtos. Inicialmente ele não reage, mas numa das vezes, mais interessado em puxar conversa do que recuperar o prejuízo, ele a encurrala. Ela passa então a pegar livros em outros estabelecimentos, porém ele não está disposto a se libertar da misteriosa obsessão.
Somos introduzidos a um ambiente dominado por um ar literário, as ruas clássicas de Montevidéu repleta de sebos, prédios antigos, um charme romântico único, a fotografia escura acentua o clima de elegância e melancolia. Dividido em capítulos, a narrativa flui exatamente como se estivéssemos lendo um livro, as cenas são páginas que mesclam realidade aos devaneios do protagonista que se apaixona de forma obsessiva por uma moça misteriosa que entra em sua livraria e rouba livros, o livreiro consumido pelo tédio e que sonha em escrever um romance vê nela uma chance de quebrar a monotonia e viver um amor. R. promove encontros de leitura em sua livraria, lá é ponto de encontro dos bibliófilos, e num dia aparece uma moça e vasculha as prateleiras e pega alguns livros e enfia debaixo da blusa, R. a olha com admiração e espanto e nos dias que se sucedem ele parece não se importar com os roubos, mas sim em querer vê-la novamente e puxar assunto, assim quando ela volta e rouba mais alguns livros ele a prende no local e a faz devolvê-los e, por consequência, conhecê-la, mas a moça é misteriosa e não permite muitas perguntas, quando ela quer dizer algo ela diz sem a necessidade de perguntas, diz se chamar Ana e que mora com o pai em uma pensão, que rouba os livros para consumo deles próprios, pois são amantes de histórias e das muitas vidas que pululam delas.
Somos introduzidos a um ambiente dominado por um ar literário, as ruas clássicas de Montevidéu repleta de sebos, prédios antigos, um charme romântico único, a fotografia escura acentua o clima de elegância e melancolia. Dividido em capítulos, a narrativa flui exatamente como se estivéssemos lendo um livro, as cenas são páginas que mesclam realidade aos devaneios do protagonista que se apaixona de forma obsessiva por uma moça misteriosa que entra em sua livraria e rouba livros, o livreiro consumido pelo tédio e que sonha em escrever um romance vê nela uma chance de quebrar a monotonia e viver um amor. R. promove encontros de leitura em sua livraria, lá é ponto de encontro dos bibliófilos, e num dia aparece uma moça e vasculha as prateleiras e pega alguns livros e enfia debaixo da blusa, R. a olha com admiração e espanto e nos dias que se sucedem ele parece não se importar com os roubos, mas sim em querer vê-la novamente e puxar assunto, assim quando ela volta e rouba mais alguns livros ele a prende no local e a faz devolvê-los e, por consequência, conhecê-la, mas a moça é misteriosa e não permite muitas perguntas, quando ela quer dizer algo ela diz sem a necessidade de perguntas, diz se chamar Ana e que mora com o pai em uma pensão, que rouba os livros para consumo deles próprios, pois são amantes de histórias e das muitas vidas que pululam delas.
Ana é sua musa de carne e osso, antes ele nutria-se e livrava-se do tédio com o que lia, com a enigmática moça que rouba livros se vê enredado numa narrativa que ele mesmo quer tecer, sua curiosidade é aguçada a cada visita que ela faz e seu interesse torna-se obsessivo quando ela se afasta após um sarau, eles se amam e ele a acompanha para a pensão, crê que está namorando, quer conhecer o pai/namorado e Ana diz que é complicado e que a vida é uma merda. R. desesperado por perder sua musa num impulso pega suas malas e muitos livros e se hospeda na mesma pensão a fim de encontrar Ana, no dia seguinte seus livros desapareceram junto de sua amada. O mistério cresce e o livreiro começa a procurar pistas, vai até o sebo de Ahmed (Alejandro Awada), um muçulmano ateu com grande conhecimento sobre a doutrina cristã, ele o avisa que ele não foi o primeiro a se apaixonar e que era frequente os roubos, contou algumas coisas que poderiam ser ou não verdades e que demoraria até o inverno para a moça regressar.
Ana é um mistério, ao lado de um homem (Alfredo Castro) cuja identidade é uma incógnita vai de lá para cá, assume vidas diferentes, mas sempre roubando livros e seduzindo os livreiros, R. se apaixona pelo mistério que Ana provoca, tirando-lhe da monotonia e o transformando num desses personagens de romances clássicos com seu amor obsessivo. A trama conduz o espectador para situações que bambeiam entre realidade e surrealidade, colocando em dúvida sobre o que de fato é ou não é, seria tudo produção da mente do livreiro, ou realmente essa mulher fascinante existe?
O filme entrelaça literatura e cinema de um jeito delicioso e deixa no espectador o sabor de um livro lido, o encanto de contemplar uma história de amor, fonte inesgotável, tanto para as criações de obras literárias quanto cinematográficas. A união dessas artes resulta num filme melancolicamente charmoso em todos os quesitos.
"Severina" como o próprio personagem diz é um "delírio amoroso", um conto entre uma ladra de livros e um livreiro aspirante a escritor, uma ode à literatura.
Não tem como não se apaixonar pelos lugares retratados, as ruas por onde os personagens passam, ou os interiores das livrarias remetendo à épocas passadas. Traz a magia das palavras escritas, tão esquecidas nos dias de hoje em que tudo é pressa e imagem, há uma nuvem de decadência pairando sobre esses lugares abarrotados de livros, prateleiras que guardam verdadeiras relíquias e histórias atemporais, cujas fronteiras entre realidade e imaginação são invisíveis, como outro personagem diz, "livreiros são como alquimistas".
É um abraço apertado e gostoso entre cinema e literatura. Um mimo adorável para os bibliófilos e os cinéfilos!
sexta-feira, 27 de julho de 2018
11 Filmes + 2 Séries Sobre Medicina
Segue uma lista de 11 filmes e 2 séries que têm como tema a medicina, histórias que destacam os bastidores, as descobertas, as dificuldades e a paixão pela profissão.
11- "Moscati - O Doutor Que Virou Santo" (Giuseppe Moscati - 2007) Itália
Giuseppe Moscati, um médico ainda muito admirado na Itália pelo trabalho que fez com os pobres no final do século XIX e inicio do século XX, é um dos poucos leigos a ser canonizado pela Igreja Católica, tornando-se assim um santo. Vemos nesse filme sua trajetória e sua ajuda no tratamento de pessoas necessitadas pela epidemia da Cólera, das que sofreram da erupção do vulcão Vesúvio e na condução das investigações que levaram a descoberta da insulina como cura para a diabetes.
10- "Nise: O Coração da Loucura" (2015) Brasil
Ao sair da prisão, a doutora Nise da Silveira volta aos trabalhos num hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro e se recusa a empregar o eletrochoque e a lobotomia no tratamento dos esquizofrênicos. Isolada pelos médicos, resta a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início à uma revolução regida por amor, arte e loucura. Saiba+
09- "Quase Deuses" (Something the Lord Made - 2004) EUA
A historia de dois homens, um branco, cardiologista, e seu assistente negro, que lutaram contra os preconceito dos anos 50. Juntos revolucionaram a medicina e foram pioneiros em cirurgia cardíaca. Nashville, 1930. Vivien Thomas (Mos Def) é um hábil marceneiro, que tinha um nome feminino pois sua mãe achava que teria uma menina e, quando veio um garoto, não quis mudar o nome escolhido. Ele é demitido quando chega a Grande Depressão, pois estavam dando preferência para quem tinha uma família para sustentar. A Depressão o atinge duplamente, pois sumiram as economias de 7 anos, que ele guardou com sacrifício para fazer a faculdade de medicina, pois o banco faliu. Thomas consegue emprego de faxineiro, trabalhando para Alfred Blalock (Alan Rickman), um médico pesquisador que logo descobre que ele tem uma inteligência privilegiada e que poderia ser melhor aproveitado. Blalock acaba se tornando o cirurgião-chefe na Universidade Johns Hopkins, onde está pesquisando novas técnicas para a cirurgia do coração. Os dois acabam fazendo um parceria incomum e às vezes conflitante, pois Thomas nem sempre era lembrado quando conseguiam criar uma técnica, já que não era médico.
08- "Histeria" (Hysteria - 2011) UK
Em 1880, a Inglaterra ainda tem dificuldade em abandonar velhos hábitos, em especial na medicina. Nessa época, que não se acredita na existência de germes e bactérias, ainda são usados métodos iguais para qualquer tipo de doença. Mortimer Granville (Hugh Dancy) é um jovem médico de pensamentos modernos que sofre para conseguir ajudar as pessoas ao seu redor, e para manter um emprego fixo, já que ninguém gosta de suas inovações. Quando começa a trabalhar com o Dr. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce), Mortimer conhece a "doença" chamada Histeria, que estaria afetando metade das mulheres de Londres. O jovem também conhece as duas filhas do velho doutor, a comportada Emily (Felicity Jones) e a revoltada Charlotte (Maggie Gyllenhaal). Ao mesmo tempo que os tratamentos para a Histeria evoluem, Mortimer começa a ver com outros olhos o papel das mulheres na sociedade em que vive e a duvidar se a Histeria realmente é uma doença. Saiba+
07- "Síndromes e um Século" (Sang Sattawat - 2006) Tailândia/França/Áustria
A primeira parte se passa numa clínica rural da Tailândia. Depois de atender um velho monge budista, a Doutora Toey entrevista Nohng, um médico que começa a trabalhar com ela. Na sala de odontologia, o Doutor Ple conversa com um jovem monge que queria ser DJ. Eles falam de vidas passadas e do amor. A segunda parte acontece num moderno hospital de Bangcoc. Toey volta a entrevistar Nohng... Nas duas partes, as espelhadas narrativas, no passado e no presente, repetem-se. Rotinas que se manifestam na memória e nas sensações de felicidade, despertadas por coisas aparentemente insignificantes.
06- "Sob Pressão" (2016) Brasil
Durante um dia tenso no centro da sala de emergência, sala de trauma e cirurgia seguimos o cirurgião Evandro e sua equipe em três casos que necessitam de cirurgias de alto risco: um traficante de drogas, um policial e um filho de uma família rica, todos feridos durante um tiroteio em uma favela perto do hospital. De frente para a emergência, as condições limitadas do hospital e a pressão de familiares e outras pessoas ligadas aos pacientes, Evandro se vê diante de escolhas difíceis, fazendo o que é possível e tentando o impossível.
05- "O Físico" (Der Medicus - 2013) Alemanha
Inglaterra, século XI. Ainda criança, Rob vê sua mãe morrer em decorrência da "doença do lado". O garoto cresce sob os cuidados de Bader (Stellan Sarsgard), o barbeiro local, que vende bebidas que prometem curar doenças. Ao crescer, Rob (Tom Payne) aprende tudo o que Bader sabe sobre cuidar de pessoas doentes, mas ele sonha em saber mais. Após Bader passar por uma operação nos olhos, Rob descobre que na Pérsia há um médico famoso, Ibn Sina (Ben Kingsley), que coordena um hospital, algo impensável na Inglaterra. Para aprender com ele, Rob aceita não apenas fazer uma longa viagem rumo à Ásia mas também esconde o fato de ser cristão, já que apenas judeus e árabes podem entrar na Pérsia. Saiba+
04- "150 Miligramas" (La fille de Brest - 2016) França
Irene (Sidse Babett Knudsen) é uma médica especializada em tratamento de doenças pulmonares. Ela começa a suspeitar das recentes mortes e relacioná-las com a prescrição de remédios específicos. Suas investigações a levarão até uma empresa farmacêutica que controla a produção da droga - e que ela acredita que esteja envolvida direta e deliberadamente com as mortes.
03- "A Morte do Sr. Lazarescu" (Moartea Domnului Lazarescu - 2005) Romênia
Sr. Lazarescu (Ion Fiscuteanu), um homem solitário de 63 anos, passa mal e chama a ambulância. Quando a ajuda chega, os parmédicos decidem levá-lo ao hospital, mas ao chegarem lá, decidem mandá-lo para outro hospital e, em seguida, para mais outro. À medida que a noite vai se desenrolando e eles não conseguem achar um hospital para o Sr. Lazarescu, a saude dele fica cada vez pior.
02- "Hipócrates" (Hippocrate - 2014) França
Benjamin vai se tornar um grande médico, ele tinha certeza. Mas, para seu primeiro treinamento interno no serviço de seu pai, nada sai como planejado. A prática é mais grosseira do que a teoria. A responsabilidade é enorme, seu pai é claramente ausente e o outro interno, Abdel, é um médico mais experiente do que ele. Benjamin, de repente, enfrenta os limites e medos, tanto os seus quanto os dos pacientes, das famílias, dos médicos e funcionários. Saiba+
01- "Morfina" (Morfiy - 2008) Rússia
Adaptação da história homônima de Mikhail Bulgakov, baseada na experiência real do autor russo, quando, como um médico rural se tornou viciado em drogas, após uma pequena dose prescrita. Balabanov cuidadosamente reconstrói o momento em que Bulgakov cai nos braços da morfina, os anos da Revolução Russa, e mostra com rigor a aspereza da prática da medicina nesse período histórico. Saiba+
Séries:
"The Knick" (2014 - 2015) EUA
Em Nova Iorque, num tempo tumultuoso de grandes mudanças e progresso, os protagonistas serão os cirurgiões, enfermeiras e funcionários do Hospital Knickbocker, que vão até os limites próprios e aos da medicina para salvar os pacientes, numa época de mortalidade altíssima e anterior à invenção dos antibióticos. Entretanto as barreiras morais de sua época, a equipe médica liderada pelo Dr. John W. Thackery (Clive Owen) explora novas técnicas com o objetivo de ampliar os horizontes da medicina. Além das novas tecnologias, a série também tratará de temas como o preconceito racial, os direitos das mulheres, a imigração, as diferenças de classes sociais, a corrupção e a dependência de drogas. Saiba+
"Diário de um Jovem Médico" (A Young Doctor's Notebook - 2012 - 2013) UK
Situada na Sibéria, no ano de 1917, a história acompanha um jovem médico que mora em uma pequena comunidade convivendo com pessoas com baixa escolaridade, dominadas pelas superstições. Tentando ajudá-las, o médico começa a sentir o peso da responsabilidade, o que o leva ter dúvidas sobre sua capacidade profissional.
quarta-feira, 25 de julho de 2018
Mary Shelley
"Mary Shelley" (2017) dirigido por Haifaa Al-Mansour (O Sonho de Wadjda - 2012) é uma biografia delicada e fascinante sobre a precursora do gênero de ficção científica, a criadora do romance gótico Frankenstein. Apesar de não ter profundidade e peso a história consegue cativar por seus personagens interessantes e sua atmosfera literária.
A história do romance entre o poeta Percy Shelley (Douglas Booth) e Mary Wollstonecraft (Elle Fanning), uma jovem de 17 anos que viria a se tornar a aclamada escritora Mary Shelley, autora do livro "Frankenstein ou o Prometeu Moderno".
Mary Goldwin estava destinada às palavras, criada num ambiente intelectual e libertário, filha do filósofo William Godwin e da escritora e feminista Mary Wollstonecraft desenvolveu desde pequena paixão pela escrita, o pai a incentivava a encontrar sua própria voz e seu próprio estilo, e para isso a enviou para o campo, onde conheceu o poeta e seguidor de seu pai Percy Shelley, que mais tarde se tornaria seu marido, quando Percy e Mary se apaixonaram decidiram viver juntos mesmo Percy já sendo casado, seu espírito de amor livre gerou consequências dramáticas, inclusive o suicídio da sua primeira mulher, Mary viveu muitas tristezas e decepções e a partir delas criou sua obra-prima, todas as agruras, desde a perda do filho, as dívidas, o ostracismo, os altos e baixos do relacionamento contribuíram para sua evolução como escritora. E foi num verão tedioso e libidinoso em que passaram na casa de Lord Byron que Mary começa a conceber a ideia de seu romance, lá junto de sua meia-irmã Claire Clairmont, amante de Byron e o médico e escritor John William Polidori têm a ideia de cada um escrever uma história de fantasmas depois de lerem alguns contos de horror. Assim nasce uma poderosa história de horror sobre abandono, uma novidade na época ainda mais para uma mulher, a história foi recusada por inúmeras editoras, não acreditavam que tinha sido ela a autora, uma moça de aparência delicada ter colocado tais palavras sombrias e tristes no papel, então como última alternativa aceitou que o livro fosse publicado anonimamente com o prefácio de seu marido, o que gerou grande interesse dos leitores, mais tarde seu pai descobriu a verdade e conseguiu fazer uma nova remessa colocando o nome de Mary, as outras obras concebidas a partir do jogo na casa de Byron também geraram polêmicas, Polidori criou a primeira história de vampiro inglesa, "O Vampiro", mas foi publicada e creditada a Byron, foi um enorme sucesso e mais tarde Byron viria refutar a autoria, o vampiro descrito por Polidori era um ataque ao amigo, afetado, arrogante, mas que também sabia ser sedutor. Já as outras não tiveram tanta fama, Percy Shelley redigiu "Fragmento de uma História de Fantasma" e a verdadeira história de Byron tão pouco viria a ser comentada, esse verão em que ficaram presos na mansão de Byron por conta de uma tempestade foi cenário de muito ócio e de elucubrações, Mary era uma ouvinte silenciosa e tinha curiosidade na ciência, nas teorias de Darwin e por isso se aproximou bastante de Polidori, a concepção de "Frankenstein" foi uma junção de todos os seus sentimentos e seus interesses.
No filme o relacionamento de Percy e Mary é retratado com muito romantismo, Percy tinha ideias de amor livre e acreditava que por Mary ter sido criada em meio a ideias liberais também nutria esse desejo, porém ela queria somente Percy e sua paixão era demasiada forte, sofreu muitas desventuras e decepções, a vida dos dois foi marcada por perdas, infidelidades e dívidas, mas se amavam e se admiravam intensamente, além da paixão compartilhavam e se dedicavam ao amor à leitura e escrita.
A história destaca bastante os outros personagens e cria a curiosidade no espectador em querer saber mais sobre eles, um filme de cada um seria ótimo, Lord Byron, por exemplo, magnifico e repulsivo na pele de Douglas Booth, a animada e carente meia-irmã de Mary, vivida por Joanne Froggatt, que presenciou boa parte dos dissabores, assim como os vivenciou, principalmente ao engravidar de Byron.
"Mary Shelley" retrata a trajetória de Mary Shelley até sua criação mais famosa e que ainda continua sendo referência do horror gótico e ficção científica, e claro, uma crítica à arrogância e prepotência humana e cuja descrição da solidão e abandono são sentimentos que conseguem penetrar à alma.
É um filme de atmosfera romântica, o peso e a decadência são amenizadas, mas os elementos literários cativam e embelezam à obra, para quem quer conhecer mais da autora vivida por Elle Fanning e do fatídico verão na mansão de Byron até a publicação de um dos romances mais famosos e influentes, é um exemplar encantador e poético.
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Calibre
"Calibre" (2018) dirigido por Matt Palmer traz uma trama envolvente e tensa em que boa parte das situações poderiam ocorrer na vida real, a partir de um acidente questões morais são levantadas e os personagens à medida que o desespero avança tornam o clima opressivo e de pura desconfiança. O vilarejo, a floresta ao redor e as atitudes das pessoas ajudam na sensação de angústia e cria-se uma atmosfera sobrecarregada, um ótimo suspense que se não fosse pelo final destoante, seria um filme seco, direto e realista.
Dois amigos de longa data, Vaughn (Jack Lowden) e Marcus (Martin McCann), viajam até uma isolada vila escocesa para um final de semana onde possam caçar juntos. Mas nada os preparariam para o que iria acontecer. Atenção: Possíveis Spoilers a Seguir!
Marcus planeja uma viagem até uma vila da qual conhece bem para caçar com o amigo Vaughn, este que se tornará pai em breve, animado com sua primeira vez caçando chegam ao local e já começam a comemorar, bebem a noite toda e enquanto Marcus sai com uma moça, Vaughn segue a madrugada conversando com outra. Os habitantes são experientes caçadores e ficam curiosos sobre o local em que irão caçar. Na manhã Vaughn acorda de ressaca e esquece a sua arma, assim termina usando a de seu amigo mesmo sabendo da ilegalidade, ele encontra um cervo e se posiciona para atirar, só que no momento o animal foge e a bala atinge outro alvo, ele vai na direção e encontra o corpo de um menino, fica desesperado, não sabe como proceder e daí surge o pai da criança que depois de ver seu filho morto aponta a arma para Vaughn, mas a bala vem de outro ponto, Marcus mata o homem. A situação vai numa crescente de emoções, Vaughn fica impressionado com o acontecido e Marcus friamente articula os meios de se proceder, esconde os corpos e saem dali para irem em outro lugar e fingirem estarem caçando. Fica difícil para Vaughn esconder sua apreensão e age de maneira estranha perto dos outros, de madrugada eles seguem para o local e cavam uma cova para os corpos, essa parte é uma das mais aflitivas e que reflete muito sobre a moral diante de fatos acidentais, a linha entre o certo e errado é tênue e acompanhamos o declínio psicológico dos amigos. Depois de alguns dias o pessoal sai em busca dos desaparecidos, eles eram parentes de Logan (Tony Curran), o primeiro homem a recepcionar Marcus e Vaughn e perguntar sobre onde iriam caçar. O medo toma conta de Marcus e ele vai entrando numa certa paranoia, pois é visível a desconfiança do pessoal, eles dão indícios de que algo está errado e na noite em que a vila festeja saem para a floresta junto com os outros na procura, o desconforto e o desespero predomina até o momento em que finalmente encontram os corpos escondidos.
Até esse ponto da história o filme segue direto e apesar de ser mais atmosférico garante instantes de adrenalina por conta das decisões dos personagens, a partir do momento que são descobertos o rumo da trama toma formas um pouco duvidosas, os habitantes da vila decidem não envolver a polícia e sim promover uma vingança, mas não matando os dois e sim dando uma escolha para Vaughn. Esse tempo em que decidem o que fazer perde um pouco da realidade proposta, mas mesmo assim termina bem retratando até onde o ser humano é capaz de ir num momento de desespero para de algum modo resolver seus problemas.
"Calibre" é um ótimo suspense que se desenvolve com muita tensão e consegue fazer penetrar a angústia e a agonia vivida pelos personagens, a culpa e a perturbação gerada por causa das escolhas em frente ao desespero é terrível e triste, mas eles sabiam que as consequências inevitavelmente mais cedo ou mais tarde chegariam. É interessante como o filme lida com as questões morais e coloca o espectador para refletir sobre o que faria se estivesse na pele deles, é fácil dizer que Vaughn foi passivo enquanto Marcus agiu e decidiu encobrir tudo, o fato é que quando algo inesperado acontece o que predomina é o desespero e ações imprevisíveis. A vida está totalmente nas mãos do acaso e num minuto tudo pode virar de cabeça para baixo colocando os princípios e a moral em xeque.
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