sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
Eutanásia (Armomurhaaja)
"Eutanásia" (2017) dirigido por Teemu Nikki (Lovemilla - 2015) é um filme finlandês não só perturbador pelo que aborda, a eutanásia em animais, mas também pelas ações dos seus personagens e, principalmente, pelo seu tom com um humor obscuro e incômodo. Aos mais sensíveis, assim como eu em relação ao assunto gera desconforto, mas não deixa de ser interessante e seu andamento vai modificando a maneira com que enxergamos o protagonista, reflexões acerca de justiça, carma, violência, solidão e a relação de humanos e animais surgem em doses bem amargas.
O ganha-pão de Veijo (Matti Onnismaa) é um bocado peculiar: em uma região pobre e insalubre, seu trabalho é executar animais de rua indesejáveis ou bichos de estimação cujos donos não conseguem custear mais os devidos cuidados. Contudo, o sigilo de sua rotina e de seus quase religiosos rituais de eutanásia são ameaçados quando ele conhece uma jovem enfermeira e um mecânico com inclinações neonazistas. Petri Kettu tem um problema com seu cachorro e tenta matá-lo, porém, não consegue e contrata Veijo para fazer o serviço. O único problema é que Veijo não mata cães saudáveis.
Antes de Veijo aceitar o trabalho precisa ter a certeza que o animal está sofrendo de alguma doença, ele faz tipo um raio-x no dono e o interpreta no mesmo momento em que entra em sua oficina, ele possui uma conexão intrigante com os animais e consegue entender como foi a estadia até ali com o seu dono, Veijo julga e então parte para a ação, claro que é triste ver essa situação, porém os humanos são egoístas e o filme faz questão de exemplificar de um jeito cru e simples. A história tem um peso, um drama duro e o tom um tanto singular de humor faz com que isso se amplifique e um certo negativismo impere diante do ser humano.
Veijo é atormentado por seu passado e prefere agir conforme as suas próprias regras dentro de uma sociedade corrupta e desumana, é difícil ficar do seu lado, mas conforme o desenrolar percebemos que ele é o único que realmente pensa. Outro personagem que se sobressai nessa trama é Petri - interpretação potente de Jari Virman - ele é desprezível, insano, covarde e ignorante, está para ser aceito em um grupo neonazista e para isso precisa provar que possui realmente ódio dentro de si e cometer atos violentos, cansado de sua cadela por ela ser vira-lata decide por um fim nela, mas não consegue e a leva para Veijo, que identifica que está saudável, mas ainda sim fica com ela porque Petri certamente não é o dono ideal para uma cadela tão amável e companheira.
Veijo sente aversão às pessoas e acredita no carma e que o sofrimento precisa ser bem administrado, quando alguém aparece para sacrificar seu animal ele fala exatamente o que a pessoa não quer ouvir nesse momento, traça o perfil e o como foi a vida daquele animal. Ele também se desentende com a veterinária que só está afim de dinheiro e nada faz para os que precisam. Muitas pessoas adotam e compram animais imaginando que eles os divertirão quando quiserem, que ficarão quietinhos quando quiserem, que preencherão algum tipo de deficiência emocional, esquecem-se de respeitar as necessidades da espécie e, principalmente, de não ignorá-los quando precisarem, é triste essa relação de tê-los como brinquedos e preenchedores de vazio. Veijo entende isso e não suporta o ser humano, toda vez que alguém vai apelar para ele de algum modo incute o sofrimento para que compreendam que para toda ação existem consequências.
Outra personagem que ganha forma é a enfermeira Lotta (Hannamaija Nikander), que cuida do pai de Veijo, que para ele está cumprindo seu carma por algo ruim que fez no passado e então prefere vê-lo na cama do hospital num sofrimento agudo, Lotta se interessa por Veijo, sua forma de encarar as coisas e por estar ligado à morte a deixa confortável para que um fetiche seu venha à tona. A construção desse relacionamento é estranho, ela é mais uma pessoa solitária e perturbada que busca nesse fetiche uma maneira de se sentir viva.
"Eutanásia" é brutal, mas também tem seu lado cômico, retrata atitudes repugnantes e relações doentias, o senso de moral do protagonista é questionável e a sensação que fica é de dor e desesperança. Particularmente o filme me atingiu, suas qualidades são inegáveis, mas foi certamente uma experiência conturbada.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Ciganos da Ciambra (A Ciambra)
"Ciganos da Ciambra" (2017) dirigido por Jonas Carpignano (Mediterranea - 2015) é um filme real e justamente por isso árduo, é o retrato da passagem da adolescência para a vida adulta de Pio, um garoto que vive numa comunidade cigana em Ciambra, na Calábria, sua família assim como tantas outras destituídas do espírito livre de outrora precisam sobreviver cometendo variados golpes e pequenos furtos, o pequeno Pio se espelha no irmão e sua família depende exclusivamente desses delitos, o retrato é extremamente atual, a crise social e política na Itália com os imigrantes, a invisibilidade dos grupos étnicos e a separação entre eles mesmos, como com os africanos. Marcante, observamos pessoas comuns driblando os obstáculos dentro de um mundo limitado e que ninguém parece querer enxergar.
Em uma pequena comunidade romana na Calábria, Pio Amato (Pio Amato), de 14 anos, está desesperado para crescer e se tornar um homem. Assim como seu irmão Cosimo (Damiano Amato), ele bebe, fuma e é um dos poucos a se infiltrar facilmente entre as facções da região, os italianos locais, os refugiados africanos e seus companheiros ciganos. Certo dia, seu irmão desaparece, fazendo com que Pio assuma seu lugar. Com uma função tão importante nas mãos, ele deve encarar uma escolha muito complicada.
Como feito em "Mediterranea" - filme anterior do diretor sobre a trilha percorrida por refugiados de Burkina Faso até a Itália - mescla ficção e realidade, os atores amadores se destacam tamanha potência em cena, Pio, o protagonista, é uma revelação, sua intensidade emociona e não desgrudamos o olhar dele, a ideia deste longa aconteceu quando o diretor teve o carro e equipamentos roubados durante uma outra produção e teve quer ir em Ciambra para negociar, assim conheceu a família Amato e resolveu retratar o ambiente.
Impressionante a força da figura de Pio, um menino que vive a perambular articulando meios de ganhar dinheiro para sua família, inicialmente ajuda seu irmão com roubos de carros, de cabos, etc. Depois que ele vai preso toma a frente e começa a furtar celulares, malas no trem e negociar os carros, as crianças se misturam no mundo dos adultos, fumam e entendem os problemas que enfrentam. A única relação de afeto que observamos é entre Pio e Ayiva (Koudous Seihon), um imigrante africano que sempre está à disposição para ajudá-lo e abraçá-lo, o elo fica mais forte depois que o irmão vai preso e Ayiva o auxilia na venda dos produtos roubados dentro da comunidade africana, então aí que Pio vai deixando o preconceito de lado e vê os seres humanos alegres e prestativos que ali habitam, Pio cria uma ligação com Ayiva, é a ele que sempre pede ajuda, mas quando o irmão sai da prisão e Pio acaba cometendo um grande erro, as coisas se tornam tensas e esse garoto precisa decidir entre ser aceito na sua própria comunidade, uma espécie de rito de passagem para se tornar homem, ou ficar do lado de Ayiva, seu grande amigo, mas que não faz parte de sua comunidade.
Como feito em "Mediterranea" - filme anterior do diretor sobre a trilha percorrida por refugiados de Burkina Faso até a Itália - mescla ficção e realidade, os atores amadores se destacam tamanha potência em cena, Pio, o protagonista, é uma revelação, sua intensidade emociona e não desgrudamos o olhar dele, a ideia deste longa aconteceu quando o diretor teve o carro e equipamentos roubados durante uma outra produção e teve quer ir em Ciambra para negociar, assim conheceu a família Amato e resolveu retratar o ambiente.
Impressionante a força da figura de Pio, um menino que vive a perambular articulando meios de ganhar dinheiro para sua família, inicialmente ajuda seu irmão com roubos de carros, de cabos, etc. Depois que ele vai preso toma a frente e começa a furtar celulares, malas no trem e negociar os carros, as crianças se misturam no mundo dos adultos, fumam e entendem os problemas que enfrentam. A única relação de afeto que observamos é entre Pio e Ayiva (Koudous Seihon), um imigrante africano que sempre está à disposição para ajudá-lo e abraçá-lo, o elo fica mais forte depois que o irmão vai preso e Ayiva o auxilia na venda dos produtos roubados dentro da comunidade africana, então aí que Pio vai deixando o preconceito de lado e vê os seres humanos alegres e prestativos que ali habitam, Pio cria uma ligação com Ayiva, é a ele que sempre pede ajuda, mas quando o irmão sai da prisão e Pio acaba cometendo um grande erro, as coisas se tornam tensas e esse garoto precisa decidir entre ser aceito na sua própria comunidade, uma espécie de rito de passagem para se tornar homem, ou ficar do lado de Ayiva, seu grande amigo, mas que não faz parte de sua comunidade.
O menino que carregava sempre um semblante duro e intimidador percebe-se criança precisando de carinho, sua inocência se vai de vez e a entrada para o terrível mundo adulto acontece. Suas lágrimas escorrem diante da decisão que tomou e como dói assistir esse momento. Um filme que marca por seus personagens que estão interpretando a si mesmos, um trabalho excepcional que extraiu deles naturalidade e espontaneidade, a câmera capta a dor e a alegria em suas faces de forma singela, Pio e Koudous Seihon são os destaques, a amizade entre eles e a questão da escolha que precisa tomar para ser aceito novamente em sua família depois de um equívoco. Os olhos de Ayiva no instante em que Pio chora em seus braços é dilacerante.
Os ciganos sempre brigaram com o resto do mundo por irem contra as regras sociais e, por isso, estereotipados como ladrões, pelas circunstâncias a liberdade lhes foi tirada, há tantas barreiras e fronteiras no mundo de agora, e os africanos refugiados são relegados e seus destinos incertos, eles lutam por uma vida mais digna e sem violência.
"Ciganos da Ciambra" retrata uma realidade desoladora e violenta, a linha que divide o certo e errado quando se está vivendo à margem na miséria extrema é bem tênue e não cabe julgamentos.
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Culpa/The Guilty (Den Skyldige)
"Culpa" (2018) dirigido pelo estreante Gustav Mölle é um suspense policial dinamarquês de forte tensão, os nervos ficam à flor da pele e perdemos o fôlego juntamente com o protagonista, que é filmado com a câmera grudada em seu rosto por quase todo o filme, um excepcional trabalho de Jakob Cedergren.
O policial Asger Holm (Jakob Cedergren) está acostumado a trabalhar nas ruas de Copenhague, mas devido a um conflito ético no trabalho, é confinado à mesa de emergências. Encarregado de receber ligações e transmitir às delegacias responsáveis, ele é surpreendido pela chamada de uma mulher desesperada, tentando comunicar o seu sequestro sem chamar a atenção do sequestrador. Infelizmente, ela precisa desligar antes de ser descoberta, de modo que Asger dispõe de poucas informações para encontrá-la. Começa a corrida contra o relógio para descobrir onde ela está, para mobilizar os policiais mais próximos e salvar a vítima antes que uma tragédia aconteça.
Asger não gosta de apenas atender os telefonemas, mas devido seu comportamento foi colocado nesta posição, todos o olham com desconfiança e já de início percebemos ser impulsivo, ele tem uma certa ânsia em agir e quando recebe a ligação de uma mulher que finge estar falando com a filha, logo se dá conta que é um sequestro e articula meios para que sua vida seja poupada, ele passa a informação, mas não tem paciência com os protocolos e cada vez mais imerge no caso burlando regras e tomando a frente com decisões arriscadas. Tudo indica que ela está sendo sequestrada pelo ex-marido, as crianças estão sozinhas em casa, ele está levando a mulher para algum lugar em uma van e assim vamos construindo as imagens segundo o ponto de vista de Asger. Os planos são extremamente fechados, a maior parte do tempo a câmera está no rosto de Asger, nos colocando bem próximos de seus sentimentos e sua personalidade no trabalho, fixado neste caso não consegue atender mais ninguém e somente quer fazer justiça e libertar essa mulher, só que conforme o tempo passa vai tomando decisões equivocadas e autoritárias, ele passa por cima dos colegas e de todo o procedimento para tentar ao final se tornar um herói. As reviravoltas marcam a história, sentimentos como desespero, angústia, senso de justiça e culpa dão várias nuances e elevam o gênero suspense dando muito para o espectador refletir, outro ponto que faz o filme ser incrível é o como consegue nos levar junto de seu personagem, pois tudo que temos são os diálogos dos telefonemas.
Jakob Cedergren (Submarino - 2010, Faro - 2013) carrega o filme nas costas, é realmente brilhante, um personagem complexo, um homem que quer fazer a coisa certa, mas que por impulso acaba estragando tudo, cruza os limites éticos, não tem paciência com o sistema burocrático e lerdo da polícia. Sua teimosia em querer fazer do seu jeito e interferir sem saber exatamente o que se passa o prejudica, assim como o caso do qual está sendo julgado e é o motivo de estar atendendo os telefonemas na delegacia.
"Culpa" é um filme que mescla o drama e o suspense com impressionante rigor, surpreende por sua narrativa e seus desdobramentos, o clima claustrofóbico e tenso predomina e ainda trabalha bastante nossa imaginação, além de fazer refletir sobre as camadas e os dilemas que envolvem o sentimento de culpa e o de fazer justiça.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
3 Faces (Se Rokh)
"3 Faces" (2018) dirigido por Jafar Panahi (Táxi Teerã - 2015) é mais uma produção de resistência, Panahi como em "Taxi Teerã" registra a maior parte das imagens dentro do seu carro, a realidade e a ficção se confundem e mostra de maneira investigativa e emocional todo o conservadorismo do local. Proibido de filmar e sair do Irã desde 2010 injustamente por questões políticas, ele vai desafiando os obstáculos e contrabandeando seus filmes para a Europa com ajuda de amigos, ele denuncia sem ser explícito, levanta questões importantes sem necessariamente apontar e, por isso, merece todo o reconhecimento, é um cineasta sensível e lúcido, uma importante figura do cinema mundial.
Uma famosa atriz iraniana (Behnaz Jafari) recebe um vídeo perturbador de uma garota implorando por ajuda para escapar de sua família conservadora. Ela então pede a seu amigo, o diretor Jafar Panahi, para descobrir se o vídeo é real ou uma manipulação. Juntos, eles seguem o caminho para a aldeia da menina nas remotas montanhas do norte, onde as tradições ancestrais continuam a ditar a vida local.
Jafar interpreta ele mesmo, simples e natural viaja com sua amiga, a atriz Behnaz Jafari, que também interpreta a si mesma, desnorteada pelo vídeo amador que recebeu de uma menina, Marziyeh, de uma aldeia nas montanhas, busca no diretor respostas, se foi editado ou se é verdadeiro. O filme começa exatamente mostrando o vídeo gravado pelo celular, onde a garota anda pelas cavernas da região dizendo sobre seu desejo de ser atriz, de estudar no conservatório em Teerã e o como a família a oprime, então diz que tentou falar com Behnaz inúmeras vezes sem obter nenhuma resposta e novamente pede o seu apoio, ao fim coloca uma corda no pescoço e o celular cai. O desespero de Behnaz a acompanha durante todo o difícil trajeto que faz com Panahi, que está sempre sereno e desconversando sobre seus supostos futuros filmes. O jogo entre o que é real e ficção é tão bem conduzido, não fica claro se Panahi armou tudo, o fato é que a câmera registra a aldeia e as pessoas que ali habitam de modo leve e até cômico, situações que poderiam soar desagradáveis por um outro ângulo acabam sendo simplórias. É um registro cru e naturalista, belo e emocional!
Nessa aldeia os pensamentos são restritos e patriarcalistas, as mulheres servem apenas para serviços domésticos, procriação e sempre se espera um bebê do sexo masculino, poucas são as meninas que estudam e possuem sonhos, Marziyeh não é bem vista por ser revoltada, não querer ficar ali, servir ao marido e apenas procriar, ela deseja ser atriz e passou no prestigiado conservatório em Teerã, porém sua família não aceita, principalmente seu irmão, que é ignorante, machista e grita o tempo todo sobre seu comportamento desrespeitoso.
São colocados em tela três gerações, Marziyeh é o futuro, a quebra de regras, de que por mais afastada que a aldeia seja e de que as leis são feitas e mudadas pelos próprios homens do lugar, as ideias chegam, através das novelas e séries, que aliás todos assistem, inclusive quando Behnaz aparece todos a reconhecem e a tratam bem, ela é a segunda geração, a atriz que conseguiu a fama e viver seus próprios desejos, o que no caso a atriz da qual Marziyeh se refugia nem é mostrada, a da primeira geração - protagonista de filmes do período pré-revolução Islâmica - que sofreu por ser a pioneira ao querer seguir o ramo artístico, na aldeia ela é rejeitada e vista como louca. Se Behnaz está onde está é porque essa mulher teve resistência e lutou.
"3 Faces" tem uma construção simples, mas rica em significados, é metalinguístico e humanista, Panahi observa a maior parte do tempo dentro de seu carro o rumo que a história vai tomando, as três mulheres é que discutem e arranjam as coisas. Por mais devagar que aconteça as mudanças, as transformações, não tem como barrá-las, por mais limitado e violento que seja o pensamento e o meio, a arte precisa seguir, pois através dela é que a maior parte dessas mudanças acontecem.
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
A Balada de Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs)
"A Balada de Buster Scruggs" (2018) dirigido por Ethan Coen e Joel Coen (Inside Llewyn Davis - 2013, Ave, César! - 2016) é um filme marcante e que homenageia o clássico gênero faroeste com muito estilo, arrebatador e permeado por um humor negro somos absorvidos por seis contos fascinantes sobre o velho oeste.
Uma antologia em seis segmentos focada na fronteira americana. Acompanhando de foras da lei a colonizadores, até todo tipo de personalidade do velho oeste, essa série de histórias vai desde profundas reflexões até o mais completo absurdo.
O filme é muito bem elaborado dando a cada história uma personalidade única com personagens fascinantes, além do belíssimo trabalho de fotografia e sua ótima trilha sonora, tudo encaixadinho e que reaviva o tão aclamado gênero faroeste.
A narrativa baseia-se nas histórias de um livro do qual a câmera revela imergindo em suas páginas e imagens, a primeira história serve praticamente como uma introdução ao universo western, ao mesmo tempo em que também lembra que a identidade dos diretores está presente, o ousado cavaleiro quebra a quarta parede para nos mostrar de perto as suas destrezas em um tom bizarro carregado de humor negro embalado por canções originais típicas, a incrível interpretação de Tim Blake Nelson cativa e nos faz imergir e quando menos se espera termina, seu desfecho já denota que as características dos Coen vão adornar todos os contos por mais diferentes que sejam entre si e seus estilos sejam variados, há um tom tragicômico próprio deles, é uma boa pedida para quem é fã dos diretores e, claro, do gênero.
A segunda traz a história de um ladrão de bancos, vivido por James Franco, que ao tentar assaltar um banco acaba sendo pego de uma forma inesperada, ele se livra dessa, mas em compensação a má sorte anda ao seu lado, as reviravoltas são ótimas apesar de sua curta duração. O terceiro segmento tem um ar mais sombrio e um gosto amargo, dois artistas itinerantes, Liam Neeson como o chefe do negócio e Harry Melling interpretando um ingênuo homem deficiente que declama trechos da bíblia e da literatura inglesa, os trocados já não vêm diante de outras novidades artísticas e, por isso, um destino cruel se aproxima. Este não carrega nem uma ponta de humor sequer, talvez, surja apenas quando na apresentação as recitações não tenham fim, mas, do contrário, seu tom obscuro e completamente trágico esmaga nosso coração, o personagem de Liam Neeson é calado e vemos o medo que acompanha o rapaz. Por ter um ritmo mais lento e destacar outras emoções há uma quebra da ação, mas nada que prejudique, as histórias são ricas imageticamente e além de entreter traz reflexões acerca do ser humano, violência e morte.
A quarta história retrata um velho viajante mineiro vivido pelo grandioso Tom Waits, andando pelas paragens intocadas do oeste americano em busca de ouro, eis que depois de muito labutar acaba encontrando, a paisagem salta aos olhos e seu tom de fábula cria um efeito genial, onde no fim mostra a efemeridade do homem em relação à natureza, o homem trabalha e trabalha ao ponto de quase enlouquecer e luta pelas suas conquistas para no fim nada adiantar, o que resta é uma trágica e cômica morte.
O quinto segmento é o mais longo e se inicia de forma até desinteressante, mas à medida que avança e as situações se apresentam termina por deixar o espectador em choque. De todas com certeza tem o melhor desfecho, ela acompanha uma comitiva pelo deserto com destino a Oregon, nela está Alice (Zoe Kazan), que viaja com seu irmão a negócios, só que depois que ele morre as incertezas a corroem, ela se aproxima de Billy Knapp (Bill Heck), um dos guias da caravana, que se apaixona, a pede em casamento e diz que acertará as dívidas que o irmão deixou e ainda lhe dará um lar, mas o perigo sempre está rondando e a falta de perspicácia da moça a faz tomar decisões um tanto trágicas.
Para encerrar surge um conto de suspense em que a atmosfera de mistério invade uma carruagem que leva cinco pessoas diferentes entre si para um destino enigmático. Preconceitos e motivações são explorados em diálogos potentes, o trajeto vai ficando mais e mais sinistro à medida que os embates se tornam mais afiados, o cocheiro nunca para e os dois homens que acompanham os cinco passageiros revelam coisas que os perturbam. É interessante que nas seis histórias apesar de haver os elementos do clássico gênero também não deixa de subvertê-los dando aspectos e perspectivas novas.
"A Balada de Buster Scruggs" é um filme que homenageia o faroeste com suas histórias que passeiam por diferentes situações e estilos, um exemplar moderno rico em humor e beleza. Os Coen não decepcionam, sempre trazem roteiros inteligentes recheados com crueza e acidez, imaginação e metáforas sobre os dilemas existenciais.
Sem dúvidas se configura entre os melhores do ano! Disponível no catálogo da Netflix!
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Paraíso Perdido
"Esqueçam a vida lá fora e sejam quem são. Sejam felizes aqui no Paraíso Perdido, o lugar para aqueles que sabem amar."
"Paraíso Perdido" (2018) dirigido por Monique Gardenberg (Ó Paí, Ó - 2008) é um filme nacional que esbanja afeto e esperança, a família retratada é cativante, a atmosfera melancólica envolve juntamente com a trilha sonora brega que em sua maioria traz saudosas canções. O sobrecarregamento de personagens e o fato de não explorá-los acaba deixando a história sem profundidade, a trama os entrelaça de forma confusa e possui contornos de fábula, mas todos são tão apaixonantes que não tem como não sermos fisgados pela personalidade de cada um e também pelo ambiente descontraído da boate, a estreia de Jaloo e a presença de Erasmo Carlos abrilhantam a obra, mas todo o elenco é incrível, Júlio Andrade, Lee Taylor, Seu Jorge, Hermila Guedes, Malu Galli e Humberto Carrão.
Paraíso Perdido é um clube noturno gerenciado por José (Erasmo Carlos) e movimentado por apresentações musicais de seus herdeiros. O policial Odair (Lee Taylor) se aproxima da família ao ser contratado para fazer a segurança do jovem talento Ímã (Jaloo), neto de José e alvo frequente de homofóbicos, e aos poucos o laço entre o agente e o clã de artistas românticos vai se revelando mais e mais forte.
Odair é contratado por José para cuidar do neto, o jovem talentoso Imã depois que este sofre um ataque homofóbico, o policial se encanta pelo local e pelas pessoas tão amorosas e talentosas que ali habitam, Angelo, tio de Imã, é um eterno apaixonado e vive a relembrar de um antigo amor, sua filha Celeste está grávida e está confusa sobre sua relação com o namorado, Teylor, vivido por Seu Jorge é o único que não é da família, na trama também tem Pedro, vivido por Humberto Carrão, que se apaixona por Imã e não entende muito bem de início esse sentimento, a filha de José, Eva, vivida por Hermila Guedes, está presa há vinte anos, e a mãe de Odair, vivida por Malu Galli, que, infelizmente, sofre pela perda da audição e por não poder fazer o que mais ama, cantar, ela possui um passado com essa família e Odair aos poucos vai juntando as pistas e o entrelaçamento das histórias vai acontecendo aos trancos, Odair fica quieto e só se manifesta quando descobre algo pesado envolvendo Eva e seu pai.
É um filme regado a sentimentos e isso se deve as canções e as belíssimas interpretações destas, Jaloo especialmente encanta em cada apresentação, Júlio Andrade toda vez que surge rouba a cena e é uma pena que sua trama não avançou, o amor que ele cultiva e sua personalidade é das melhores coisas do filme. A aura agridoce predomina, por mais que essas pessoas sofram pelos desencontros e traumas, a felicidade sempre está às voltas, a esperança e o afeto, a certeza de que um tem o outro para se apoiar independente de qualquer coisa. É uma perfeita quebra da ideia tão falada de "família tradicional", é uma amostra de que laços são formados por sentimentos e não rótulos.
É um filme regado a sentimentos e isso se deve as canções e as belíssimas interpretações destas, Jaloo especialmente encanta em cada apresentação, Júlio Andrade toda vez que surge rouba a cena e é uma pena que sua trama não avançou, o amor que ele cultiva e sua personalidade é das melhores coisas do filme. A aura agridoce predomina, por mais que essas pessoas sofram pelos desencontros e traumas, a felicidade sempre está às voltas, a esperança e o afeto, a certeza de que um tem o outro para se apoiar independente de qualquer coisa. É uma perfeita quebra da ideia tão falada de "família tradicional", é uma amostra de que laços são formados por sentimentos e não rótulos.
"As pessoas não te odeiam pelo que você é, mas pelo que não conseguem ser."
"Paraíso Perdido" é um filme agradável, sentimental e aconchegante, a família unida pela arte e o amor nos traz sentimentos bons e fazem nossos olhos brilharem diante das belas apresentações musicais, onde romantismo e sofrimento imperam, um encanto relembrar as canções românticas populares, como "Não Creio em Mais Nada", de Paulo Sérgio, "Escalada", de Augusto Cesar, "Minhas Coisas", de Odair José e também clássicos de Raul Seixas, Reginaldo Rossi, Belchior, Angela Maria e Roberto Carlos. Há espaço também para as novas, como "Amor Marginal" de Jhonny Hooker, que inclusive é uma das apresentações mais intensas de Jaloo. É um filme brasileiro acolhedor, amável e nostálgico!
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Sam Was Here/Nemesis (A Deusa da Vingança)
"Sam Was Here" (2016) dirigido por Christophe Deroo é daqueles filmes que dão dor de cabeça ao tentar juntar as pistas para criar teorias e possíveis explicações, sua atmosfera enigmática e situações estranhas envolvem e mergulhamos profundo para tentar compreender pelo menos um pouco do que está acontecendo. O título em francês e em português sugerem uma explicação, ao contrário do americano que segue a linha do mistério, é praticamente impossível decifrar logo de cara e talvez nem tenha que ser decifrado, o diretor mesmo disse que o intuito foi conceber um longa atmosférico.
Sam (Rusty Joiner), um vendedor ambulante preso em uma cidade deserta, passa a questionar sua sanidade quando é ameaçado por moradores que o confundem com um assassino.
O filme tem alguns elementos que dão a entender facilmente que se passa fora da realidade, quando Sam chega na cidade desértica supostamente trabalhando como vendedor, percebe-se um ar fora do comum, a trilha sonora cósmica ajuda a criar maravilhosamente essa vibração, Sam bate na porta de possíveis clientes, mas parece que os habitantes estão se escondendo, outro ponto é uma luz vermelha no céu vista por Sam, tudo soa estranho a ele e então decide ligar para o chefe e ir embora dali, só que cai na caixa postal, assim como todas as ligações que realiza, como para a esposa. Ele vaga pela cidade deserta, vai parar num motel onde tem uma porta fechada com correntes, o clima de pesadelo vai tomando conta cada vez mais do cenário, o rádio sempre está sintonizado no programa local, onde pessoas ligam e reclamam, o radialista, Eddy, pede para que a população ligue e faça as reclamações ou que se souberem de algo relacionado ao pedófilo/assassino que denunciem. Mas onde estão essas pessoas que participam desse programa? Até que Sam recebe em seu pager uma mensagem anônima o acusando de "porco pedófilo", Sam fica confuso, mas não se preocupa, segue passando pelos lugares à procura das pessoas, ele vai deixando bilhetes com a frase: "Sam esteve aqui". Depois de algum tempo Sam visualiza uma viatura e quando vai de encontro leva um tiro, começa uma perseguição e logo depois mais algumas pessoas entram nessa perseguição contra Sam, ele se vê obrigado a fugir e lutar por sua vida.
Sam encontra cartas escritas por Eddy destinadas à população dizendo que ele é o assassino/pedófilo e que é preciso encurralá-lo e matá-lo, desesperado não entende a situação da qual se encontra e fica mais perturbado por não conseguir falar com a esposa, essa caçada é muito enigmática, nada é respondido e ficamos procurando pistas para entender se Sam é inocente ou não. Realmente a atmosfera construída é o grande destaque e é preciso acompanhá-la, graças a ela podemos formular algumas teorias, como se Sam está no purgatório refazendo seus passos e sendo julgado, ou mesmo no inferno, onde acertará as contas e o equilíbrio cósmico entre o bem e o mal será enfim restaurado.
"Sam Was Here" foge das fórmulas convencionais e deixa muitas pontas soltas para que o espectador reflita sobre o que assistiu, as perguntas deixadas provocam sensações perturbadoras, instiga a querer encontrar respostas, mas tudo o que criamos são apenas hipóteses, a tensão e o medo diante disso causa desconforto e é exatamente por esse motivo que vale a pena ser visto.
Disponível no catálogo da Netflix!
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