quarta-feira, 2 de julho de 2014

Submarino

"Submarino" de Thomas Vinterberg (A Caça - 2012) é um filme denso e dolorido, retrata o fardo de uma família desajustada, uma mãe que não é capaz de absolutamente nada por estar afundada em seus vícios, é decadente a situação, o início já demonstra isso.
Dois meninos cuidam do irmão mais novo, um bebê, até batizam a criança e lhe dão um nome. Desprezados pela mãe alcoólatra os dias seguem de forma nada convencional, e é claro que não poderia acontecer boa coisa num ambiente desses, a cena que se sucede é chocante, algo que marcará principalmente Nick. A história avança e vemos Nick (Jakob Cedergren), um homem solitário e perceptivelmente marcado por seu passado, ele tem apenas contato com sua vizinha Sofie (Patricia Schumann), outro ser humano perdido, e Ivan (Morten Rose), do qual encontra caído na rua, um antigo amigo que tem problemas para se relacionar com mulheres.
A primeira parte foca em Nick, observamos que ele é bom apesar das circunstâncias que o rodeiam. A ocasião envolvendo sua vizinha e Ivan demostra bem o seu caráter, Nick tem o semblante cansado e parece não se importar com mais nada. Adiante o filme foca em seu irmão (Peter Plaugborg), cuja vida está pior, viúvo com um garoto para criar ele é viciado em drogas, e por mais que tente resistir aos poucos sua relação paternal vai se destruindo. Seu filho, o pequeno Martin é uma criança adorável, parte o coração pensar que a vida dele está sendo marcada por situações dolorosas que mais tarde pesará. Em uma das cenas o pai do menino rouba uma senhora, é impressionante, não dá nem para sentir raiva vendo a maneira que acontece. Ele simplesmente não vê alternativas, então desesperado acaba indo pro ramo do tráfico, mas a polícia não demora para descobrir, pois ele já estava na mira.

A história dos irmãos são contadas separadamente, mas elas se cruzam em determinados momentos, como no enterro da mãe, e na prisão. A narrativa é genialmente delineada, é impactante as consequências dos atos, Nick fica com todo o arco dramático, desde o início ele é responsabilizado, e por isso sempre o vemos de maneira mais íntima, como não se condoer com a cena em que olha pra câmera com os olhos cheios d'água? Já seu irmão, que em nenhum momento tem o nome revelado aparece mais como uma vítima, ele tem aspecto de uma pessoa doente, seus olhos demonstram vergonha. O que eles vivenciaram na infância não é superado, do mesmo jeito que a mãe buscava consolo no vício, assim é Nick que passa os dias bebendo por não conseguir encontrar nas pessoas o que necessita, e seu irmão, um viciado em drogas, que leva adiante o mesmo que passou para seu filho.

O filme tem personagens muito bem construídos e carrega uma aura de tristeza, a fotografia fechada e o clima frio só faz ressaltar esse vazio. Thomas Vinterberg é um diretor muito primoroso, e tem o dom de construir filmes com temas que retratam a desordem familiar. É um tipo de cinema mais reflexivo e que expõe dramas humanos reais. "Submarino" não dá trégua, é cruel, dilacera, e é exatamente por isso que merece todos os elogios.

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