domingo, 31 de maio de 2020

The Lodge

"The Lodge" (2019) dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz (Boa Noite, Mamãe - 2014) é um filme de terror que foge dos clássicos sustos e prima mais pela atmosfera tensa e sufocante, é lento no desenvolvimento e trabalha em detalhes a personalidade dos personagens, uma boa amostra do quão aterradora é a mente humana, se familiariza com alguns elementos de "Hereditário" e também lembra em alguns pontos "O Iluminado". Sem dúvidas, uma obra marcante! 
Durante o feriado de fim de ano, Grace (Riley Keough) viaja com seu futuro noivo e os dois filhos dele para um remoto chalé. Quando a relação entre ela e as crianças finalmente começa a se estabelecer, uma nevasca e estranhos acontecimentos ameaçam despertar demônios psicológicos de sua infância. 
Acompanhamos logo de início uma cena chocante, daí parte para como os irmãos Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) lidam com o ocorrido, o pai (Richard Armitage) sem dar tempo para que eles sofram e passem pelo luto os arrasta para uma casa isolada junto de sua namorada para passarem o natal, tudo com a intenção de aproximá-los, mas os dois não querem e antes de ir investigam a vida da moça, Grace tem um passado sombrio e traumático envolvendo uma seita religiosa liderada pelo próprio pai, vive a base de remédios e seu semblante demonstra sempre cansaço, não há dúvidas de que essa ideia é irresponsável já que ele precisa ir trabalhar e deixá-los nesse local à deriva das próprias emoções. O roteiro brinca demasiadamente com o espectador, as várias situações nos dão certas dicas que ao se desenrolarem acabam caindo por terra, o fato é que Grace tenta a aproximação e os irmãos relutam, depois eles se aproximam e começam a confundir a mente dela, objetos somem, inclusive seu remédio, vai ficando cada vez mais grave e o ápice é o sumiço de seu cachorro que a faz perder o senso de realidade, eles continuam a inventar que estão numa espécie de limbo por conta da culpa e a fazem crer que ela é a causadora disso tudo, ela entra na paranoia religiosa novamente e quando Aidan e Mia se dão conta é tarde demais, não adianta contar a verdade e restabelecer qualquer tentativa de conexão, o mal está feito. Quando o pai chega ao local invadido pela nevasca não parece haver saída e o que se segue é caos e tragédia. O misto de sensações que a história provoca é incrível, os personagens oscilam em seus sentimentos e ações, perturbam e criam revolta, principalmente o pai que foi um irresponsável e insensível com os filhos, não deu tempo para entenderem e passar pelo fardo, logo os joga numa isolada casa cheia de lembranças junto com a namorada instável em meio a uma nevasca horrorosa. É um redemoinho de ações erradas.

O filme possui em grande parte uma ambientação fantasmagórica e sufocante onde tensões se estabelecem e refletem em imagens as emoções das crianças em relação a situação, e apesar de cair o ritmo em determinado momento é uma obra perturbadora e que choca pela ousadia de muitas cenas, a construção dos personagens é um primor, além da incrível direção de arte. 

"The Lodge" tem uma trama que cria enigmas e tensões que arrepiam pela carga dramática. Forte e desagradável em inúmeros momentos, mas isso é um atributo formidável do roteiro mesmo que algumas partes caiam na monotonia. O destaque vai para a beleza plástica e a perturbação intensa vivida por Riley Keough.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando (Elvira - Te Daría Mi Vida Pero la Estoy Usando)

"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (2014) dirigido por Manolo Caro - da série "A Casa das Flores" (2018) é um filme mexicano de dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.
Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido.
Cecilia Suárez abrilhanta o filme com uma maravilhosa personagem que vai de uma mulher cercada pelos afazeres domésticos e pela criação dos filhos para uma transformação avassaladora que a liberta e a faz se conhecer e se amar. Tudo acontece numa madrugada quando Gustavo decide dar a velha desculpa do ir comprar os cigarros e já volto e não retornar mais, desesperada Elvira começa buscar pistas e inventar coisas para que as pessoas ao redor não vejam que está abandonada e conta com a ajuda de uma vizinha carente que lhe auxilia com os dois filhos, ela precisa arranjar um emprego e sempre com a desculpa de que o dinheiro não está sendo suficiente, Gustavo trabalha numa companhia de seguros e emprego mais formal que esse não existe, o que desencadeia o espanto quando descobre o que de fato aconteceu, um turbilhão de sentimentos invade Elvira e dia após dia continua a esconder a ausência do marido e se empenha em descobrir seu paradeiro, angustiada recorre a uma amiga que possui uma funerária e pede um emprego, o fato é que ela não sabe fazer nada e ela própria diz que o que faz de melhor é chorar, portanto, ali seria uma maneira de ganhar dinheiro e colocar seus sentimentos para fora. Vamos juntos de Elvira, a cada passo e a cada escolha que faz para tentar achar soluções, também estamos bem perto dela quando inicia sua transformação ao cortar o cabelo, já de certa forma uma outra mulher pronta para encarar os obstáculos, entre tantas loucuras por quais passa, pois após descobrir que Gustavo fugiu com um amante que conheceu em seu trabalho ela pira e começa a enxergar o rapaz em Ricardo (Luis Gerardo Méndez), um dos funcionários da funerária, os dois começam a se envolver e Elvira o leva justamente para o local em que se encontra Gustavo e o amante.

O misto de sensações que a história provoca ganha nossa atenção e transforma a tensão de muitos momentos em alívio, a montanha russa de sentimentos por qual a protagonista atravessa é de enlouquecer, mas passa, e é bom ver sua transformação e libertação, aliás muito bem conduzida, sem pressa e de acordo com os acontecimentos, fica a reflexão de que precisamos nos escutar mais e aceitar quem somos, levar a sério nossos desejos e escolhas, pois as consequências delas podem ser amargas e traumáticas. 

"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" é uma delícia e não bobeia na importância da mensagem, além do mais possui uma trilha sonora apaixonante que traz à tona canções regionais, vide a música tema "Suavecito", de Laura Léon, e também com a versão mais atual com a doce voz de Julieta Venegas. A melodia se encaixa perfeitamente à narrativa e não há melhor definição para o filme do que Suavecito, suavecito!

terça-feira, 5 de maio de 2020

11 Filmes Sobre Alienígenas / Terror Cósmico

Segue a lista de filmes que abordam a vida extraterrestre, alienígenas e criaturas estranhas vindas das profundidades do universo, alguns flertam com o terror cósmico, outros já assumem uma postura mais dramática e que refletem a nossa sociedade, todos muito intrigantes e que merecem destaque dentro dessa temática. Confira:

11- "Terra para Echo" (2014) EUA
Depois que uma construção começa a escavar em sua vizinhança , os amigos Tuck, Munch e Alex inexplicavelmente começam a receber estranhas mensagens codificadas em seus celulares. Convencidos de que algo está acontecendo, eles procuram seus pais e as autoridades. Quando todos ao seu redor se recusam a levar a sério as mensagens, os três embarcam em uma aventura secreta para decifrar o código e segui-lo até sua fonte. Mas cuidar do assunto por conta própria coloca o trio diante de algo além da sua imaginação quando se deparam com um misterioso ser de outro mundo precisando de ajuda.

10- "The Hole in the Ground" (2019) Irlanda
Enquanto tenta escapar de um passado conturbado, a jovem Sarah (Seána Kerslake) luta para reconstruir sua vida em uma cidade no interior da Irlanda com seu filho, Chris (James Quinn Markey). Tudo vai bem, até que um encontro misterioso com um novo vizinho faz com que Sarah entre em uma onda crescente de medo e perseguição, fazendo-a duvidar a respeito do que é real e o que não é.

09- "Contato Visceral" (Wounds - 2019) EUA/UK
Depois que um cliente do bar onde Will (Armie Hammer) trabalha esquece o seu celular no balcão devido a um incidente atípico, ele decide levar o aparelho para casa. No dia seguinte, Will começa a receber estranhas mensagens ameaçadoras e tenta não se envolver em nada, mas rapidamente eventos bizarros e aterrorizantes tomam conta da situação.

08- "Spring" (2014) EUA
Após a morte de sua mãe, o inconsolável Evan vai afogar as mágoas com seus amigos no bar onde trabalha. No entanto, ele se envolve numa briga que acaba fazendo com que seu chefe o demita. Sem rumo e com a possibilidade de ser perseguido por seu novo desafeto, Evan decide viajar para fugir de seus problemas. Numa pequena e turística cidade costeira na Itália, ele conhece e se interessa por uma linda e misteriosa mulher. Logo se torna claro que ela possui segredos obscuros que podem destruí-los. Uma produção de baixo orçamento que passeia por alguns gêneros, como romance, horror e ficção científica, no próprio cartaz do filme está escrito: "Um híbrido entre Richard Linklater e H.P. Lovecraft". Saiba+

07- "A Região Selvagem" (La Región Salvaje - 2016) México
Um meteorito cai em uma montanha. Em uma cidade próxima, um jovem casal se esforça para se reconectar, e o homem trai a mulher. O processo é autodestrutivo para ambos. De repente, algo de fora deste mundo surge, mudando suas vidas para sempre. Um filme polêmico e poderoso que traz uma história envolvendo uma mulher traída e um alienígena que desperta prazeres sexuais, uma crítica ao conservadorismo, a repressão, o machismo e preconceitos, tudo exposto de forma bizarra, mas que com certeza captura nossa atenção. Saiba+

06- "A Chegada" (Arrival - 2016) Canadá/EUA
Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade.

05- "Sob a Pele" (Under the Skin - 2013) UK
Um alienígena (Scarlett Johansson) chega à Terra e começa a percorrer estradas desertas e paisagens vazias em busca de presas humanas. Sua principal arma é sua sexualidade voraz... Mas ao longo do processo, ela descobre uma inesperada porção de humanidade em si mesma.

04- "Vivarium" (2019) EUA
Quando o casal de noivos Tom (Jesse Eisenberg) e Gemma (Imogen Poots), à procura da casa perfeita para começar a vida juntos, conhecem um estranho corretor imobiliário, eles não pensam duas vezes quando são apresentados à Yonder, uma misteriosa vizinhança suburbana de casas idênticas. No entanto, logo eles vão perceber que estão presos em um pesadelo - tendo que criar uma criança de outro mundo. Um filme que aborda de maneira peculiar a vida doméstica, os papéis e estereótipos que cada um carrega dentro desse modelo, as responsabilidades da maternidade, os compromissos da paternidade e o truque do tempo que absorve o cotidiano e faz envelhecer. É uma proposta criativa que prende o espectador junto da armadilha montada. Saiba+

03- "A Cor que Caiu do Espaço" (Colour Out of Space - 2020) EUA
Os Gardners são uma família que se muda para uma fazenda remota na zona rural da Nova Inglaterra para escapar da agitação do século XXI. Eles estão ocupados se adaptando à sua nova vida quando um meteorito cai no seu quintal da frente. O misterioso aerólito parece fundir-se com a terra, infectando tanto a terra quanto as propriedades do espaço-tempo com uma estranha cor sobrenatural. Para seu horror, a família Gardner descobre que essa força alienígena está gradualmente transformando todas as formas de vida que ela toca… incluindo-as.

02- "O Culto" (The Endless - 2018) EUA
Dois irmãos, Justin e Aaron, foram criados num culto religioso do qual fugiram quando Justin percebeu a possibilidade da ocorrência de um suicídio em massa. Dez anos depois, eles, recebem uma mensagem em vídeo bastante enigmática. Nela, um membro do culto fala de uma ‘ascensão’ iminente e então resolvem regressar ao local aonde eram realizados os cultos em busca de respostas. Mas, ao chegarem, descobrem que o ‘culto’ pode afinal não ser o que pensavam e começam a duvidar, inclusive, se serão bem-vindos. "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido", e é na atmosfera de criaturas lovecraftianas que o filme se inicia, mas não se engane com o que parece ser simplesmente uma seita de adoração a seres extraterrestres, pois a história é uma reflexão contundente sobre a existência, as repetições, a rotina e o conformismo, de maneira intrigante o roteiro vai se desnovelando, porém sem dar respostas concretas, a percepção é individual. Saiba+

01- "Distrito 9" (District 9 - 2009) África do Sul/EUA/Canadá
Há 20 anos uma gigantesca nave espacial pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul. Como estava defeituosa, milhões de seres alienígenas foram obrigados a descer à Terra. Eles foram confinados no Distrito 9, um local com péssimas condições e onde são constantemente maltratados pelo governo. Pressionado por problemas políticos e financeiros, o governo local deseja transferir os alienígenas para outra área. Para tanto é preciso realizar um despejo geral, o que cria atritos com os extra-terrestres. Durante este processo Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), um funcionário do governo, é contaminado por um fluido alienígena. A partir de então ele se torna um simbionte, já que seu organismo gera algumas partes extraterrestres. Com o governo desejando usá-lo como arma política, Wikus conta apenas com a ajuda do extraterrestre Christopher para escapar.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Ares / Nada Ortodoxa (Unorthodox)

Segue a resenha de duas séries disponíveis no catálogo da Netflix que fazem a diferença entre a infindável lista de títulos. Confira:

"Ares" (2020) é uma série holandesa dirigida por Giancarlo Sanchez e Michiel ten Horn, com apenas oito episódios à primeira vista causa uma certa dúvida sobre seu tema que é focado em uma sociedade secreta composta pela grande elite do país, o seu desenrolar acaba enganando, mas aos poucos vai soltando pistas para então seu elaborado e inteligente desfecho. Misteriosa, sombria e fria fica a dica para os que estão interessados, se enveredem pela história sem saber muito, vale muito a pena imergir nas obscuridades e se surpreender ao final. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Uma sociedade estudantil secreta no coração de Amsterdã, onde os melhores amigos Rosa e Jacob se rendem a um mundo de riqueza e poder. Contudo, lentamente eles começam a perceber que entraram em um lugar demoníaco, construído sobre segredos do passado da Holanda. Um lugar onde o verdadeiro poder chega a um preço terrível.
Acompanhamos a protagonista Rosa (Jade Olieberg), uma estudante de medicina de origem humilde, mas que possui bastante ambição, ela encontra meios para subir quando se depara com Ares, uma sociedade secreta, através de seu melhor amigo Jacob (Tobias Kersloot), mesmo ele querendo afastá-la desse meio Rosa se interessa e adentra esse universo. Em sua casa possui a responsabilidade de cuidar da mãe mentalmente instável e seu pai se desdobra trabalhando como enfermeiro, na universidade se destaca e nas aulas sabe até mais que os professores, cansada da sua vida não pensa duas vezes quando é convidada a ir para Ares. Os membros são bizarros e sempre estão escondendo algo, todos são descendentes de famílias influentes da Holanda e lá dão seguimento à linhagem com seus ritos e regras, observamos a iniciação de Rosa envolvendo marcação na pele, submissão aos líderes e diversas privações, incluindo o mundo externo. A narrativa pode parecer confusa e extremamente lenta, mas compensa acompanhar todos os mistérios e cada camada proposta pela série, a partir de um ponto Rosa começa a vomitar um líquido preto, algo parecido com petróleo, os membros ficam chocados com a rapidez da ascensão de Rosa na sociedade, o vômito é um signo importante, descobrimos então que ele significa a culpa, enquanto isso Jacob adentra os meandros do local e cada vez mais descobre a origem dessa sociedade e a sua própria, sua confusão mental aumenta quando ao tocar uma parede é consumido e seus dedos ganham o mesmo aspecto do líquido e do qual lhe dá um poder, além de que neste espaço há um poço que vive uma criatura denominada Beal que se alimenta dessa substância. As perguntas não cessam em nossa mente e é só no final que entendemos que a série toca num assunto muito sério, o imperialismo holandês, as grandes conquistas através da exploração e escravidão dos negros, Rosa percebe que precisa se entregar e se tornar o próprio Beal, para assim acabar com Ares e fazer justiça. Realmente ela propõe reflexões contundentes do como a Holanda, um país tão pequeno se tornou tão rico rápido, do como o poder se perpetuou por causa da escravidão e do sangue negro derramado, Rosa é o símbolo da mudança e da verdade.

"Nada Ortodoxa" (2020) é uma minissérie alemã de quatro episódios dirigida por Maria Schrader e traz uma impressionante e libertadora história, reflete sobre o ultraconservadorismo da religião judaica, mas demonstra respeito às heranças culturais permeando com boas doses de conhecimento. 
Na intenção de escapar do casamento arranjado por seus pais em Nova York, Esther Shapiro (Shira Haas), uma jovem judia de 19 anos, resolve fugir para Berlim e começar uma nova vida. No novo país, ela passa a explorar a própria identidade e sexualidade para além dos valores religiosos com os quais cresceu. A história é inspirada no best-seller "Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots", de Deborah Feldman, sobre a fuga de uma jovem judia de uma seita religiosa.
A protagonista é um alento para nosso coração, inserida em um meio completamente fechado cada vez mais sente necessidade de explorar o mundo e a si mesma, esse desejo aumenta quando depois do casamento arranjado a pressão constante para que engravide a torture dia após dia. Diante de um cenário castrador, como deixar suas aulas de piano, decide pegar os documentos que sua mãe lhe deu para a cidadania alemã e com a ajuda da professora de piano consegue fugir sozinha e sem nada em mãos - só para elucidar que sua mãe foi rejeitada pela comunidade e mora em Berlim com a esposa. Longe do meio em que vive Esther se deslumbra ao mesmo tempo que sente receio por seu futuro, logo de cara consegue fazer amizades e se encaixar num grupo de músicos de orquestra, ela ama música e mais adiante até consegue fazer uma audição no conservatório, sua vida começa a tomar seu próprio destino mesmo entre tantas dificuldades, sente que a liberdade de ser é prazerosa e que não precisa sentir culpa por isso. Os amigos lhe ajudam nesse processo, alguns mais do que outros, e daí surge a mudança que começa externamente na retirada da peruca para então se tornar mais confiante e decidida. O que torna seu rito de transformação ainda mais desafiador é por estar num local cheio de histórias traumáticas para sua comunidade de descendentes de judeus sobreviventes ao Holocausto, aliás a série aborda seriamente a respeito da religião e suas regras, principalmente sobre o pensamento de que eles precisam se manter unidos e passarem de geração em geração a dor de sua história para que isso nunca se perca. É um choque para Esther, mas ela é uma alma livre e que necessita conhecer-se, viver para entender-se. É realmente muito sensível sua trajetória e traz à tona costumes e tradições culturais que são representados com cuidado e também revela o outro lado, o do poder de escolha, da ponderação, da empatia e da liberdade. Apaixonante!

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vivarium / Devorar (Swallow)

Segue a resenha de dois filmes bizarros e muito interessantes que não poderiam estar de fora do catálogo aqui do blog, continuarei fazendo postagens conjuntas, pois assim se torna mais fácil administrar meus pensamentos e continuar na ativa. Confira:

"Vivarium" (2019) dirigido por Lorcan Finnegan (Sem Nome - 2016) é um filme que aborda de maneira peculiar a vida doméstica, os papéis e estereótipos que cada um carrega dentro desse modelo, as responsabilidades da maternidade, os compromissos da paternidade e o truque do tempo que absorve o cotidiano e faz envelhecer. É uma proposta criativa que prende o espectador junto da armadilha montada. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Quando o casal de noivos Tom (Jesse Eisenberg) e Gemma (Imogen Poots), à procura da casa perfeita para começar a vida juntos, conhecem um estranho corretor imobiliário, eles não pensam duas vezes quando são apresentados à Yonder, uma misteriosa vizinhança suburbana de casas idênticas. No entanto, logo eles vão perceber que estão presos em um pesadelo - tendo que criar uma criança de outro mundo.
Acompanhamos o jovem casal Tom e Gemma que pretendem iniciar uma vida juntos, numa visita a um empreendimento chamado Yonder são surpreendidos por Martin, um vendedor robótico e de sorriso contínuo, animados com a proposta vão até esse conjunto habitacional e se deparam com uma imensidão de casas iguais, inicialmente parece um sonho, mas aos poucos percebem não ser bem o que querem, mas Martin sumiu e ao tentarem sair não conseguem, sempre voltam para o mesmo lugar, cansados decidem ficar, mas por fim terminam num loop infinito, ainda mais quando do nada aparece uma caixa com um bebê dentro indicando que precisam criá-lo, daí a repetição se dá e rapidamente o vemos crescido com comportamentos bizarros, como imitar os trejeitos de Gemma e Tom, ele grita ininterruptamente quando quer ser alimentado, um show de horrores que perturbam o casal e os desestruturam psicologicamente. Tom entra numa espiral de que precisa cavar um buraco no quintal para que quem sabe ache uma saída, e Gemma aterrorizada com a criança sempre diz que não é a mãe dele, mas acaba o protegendo em muitos momentos, esse local perfeito é irritantemente falso, desde a grama ao céu com suas nuvens redondinhas, claro que percebemos que estão presos sendo cobaias, talvez de alienígenas que estão estudando e reproduzindo comportamentos, interessante que na superfície tudo parece ser idêntico, mas as emoções são mimetizadas, a história abarca questões sobre o conceito familiar, a estrutura frágil e rotineira, os papéis desempenhados para dar algum sentido, os filhos preenchendo o espaço e tomando toda a energia para no fim envelhecidos e sozinhos morrerem. É um filme estranho que gera agonia pela sua repetição, mas que faz pensar nos padrões estabelecidos, e que por mais que se quebre muitos deles ainda assim sem perceber copia-se e repete-se a grande maioria.

"Devorar" (2019) dirigido por Carlo Mirabella-Davis é uma obra repleta de camadas, um filme aparentemente bizarro, mas que disserta sobre questões femininas, do como a mulher é ainda vista, sobre seu suposto papel dentro da família e suas supostas obrigações, surpreendente o como a história te leva para meandros psicológicos angustiantes e reflexivos. 
Hunter (Haley Bennett) é uma dona de casa que engravidou recentemente e se vê cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos. Enquanto o marido e a família reforçam o controle sobre sua vida, Hunter deve enfrentar o segredo sombrio por trás de sua nova obsessão.
Acompanhamos Hunter e sua vida aparentemente perfeita, casada com o rico Richie (Austin Stowell), também convive com os sogros (David Rasche), (Elizabeth Marvel), a imensa casa é cuidada por ela e segue seus dias solitária e invisível, Hunter não possui voz própria nesse meio que está inserida, seus desejos são tolhidos, a expectativa da família é que ela engravide. Hunter é uma mulher infeliz e que por traumas passados conduz sua existência de maneira submissa, aos olhos do marido quer ser prefeita, foi ensinada a agradar, mas chega em um determinado momento que ela adquire uma compulsão em engolir objetos, como agulhas, bolinhas de gude, tachinhas e pilhas, ela gosta de sentir as texturas em sua boca e não o ato em si, como diz para a psicóloga contratada pela família após descobrirem no ultrassom que tinha outras coisas além do bebê em sua barriga. A gravidez indesejada só amplia suas angústias, aumenta a vontade de engolir os objetos e quando expelidos os guarda como um troféu, além disso traumas passados vêm à tona, despertam nela sentimentos perturbadores, ela pensa no como veio ao mundo, na complexidade de sua existência e sua inadequação naquela família que a tem apenas como uma boneca pronta para agradar-lhes.
Melancólico e sensível retrata a opressão que a mulher sofre para realizar as expectativas dos outros, a falta de controle sobre si mesma desencadeou sua compulsão, que não só faz paralelo com a gravidez, mas o ato de engolir e expelir e de guardar o objeto como um troféu seria um tipo de controle secreto, um desejo seu satisfeito, algo só dela. O filme amplia essas questões quando o trauma é inserido no contexto e percebemos que para ela sair dessa prisão é preciso muito mais do que foi retratado, mas com certeza um começo, resolver as pendências e se olhar com mais carinho, deixar o meio que a oprime e seguir livre. Além da originalidade da obra, sua estética e trilha sonora são incríveis e só agregam para gerar o terror vivido pela protagonista. Um ótimo filme que abrange questões femininas com autenticidade e une a tristeza e a beleza em pequenas e intensas dosagens.

sábado, 18 de abril de 2020

O Poço (El Hoyo) / A Casa (Hogar)

Segue a resenha de dois filmes espanhóis disponibilizados pela Netflix, inclusive os mais vistos do streaming, e não é à toa, já que tocam em temas essenciais, especialmente porque dialogam com a atualidade sombria e incerta em que estamos vivendo, desigualdade social, desemprego, isolamento, ambição desenfreada, conflitos sociais, etc, temas que valem a pena refletir e que fazem um paralelo profundo com a realidade.

"Existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem."

"O Poço" (2020) dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia é um filme essencial, principalmente por causa da situação atual em que vivemos, ele retrata de forma cru e provocativa o quanto o ser humano se torna uma besta quando enclausurado necessitando sobreviver, repleto de metáforas e simbolismos, mas também direto em diversos momentos, não é fácil acompanhar o lado perverso e faminto da sociedade, a ambição desvairada e a falta de empatia e humanidade, o caos obviamente se instala usando artifícios que fazem o espectador refletir na sua própria condição, no meio em que está inserido e na sociedade em geral.  
Dentro de um sistema prisional vertical, os presos são designados para um determinado nível e forçados a racionar alimentos a partir de uma plataforma que se move entre os andares. Uma alegoria social sobre a humanidade em sua forma mais sombria e faminta.
Goreng (Ivan Massagué) acorda e depara-se com uma situação desconfortável, ele está preso numa espécie de prisão que possui um poço infindável, do qual uma plataforma se desloca levando comida entre os andares, sua companhia é o estranho e escroto Trimagasi (Zorion Eguileor), na parede o número é o 48 e segundo calcula vai até o 132, a dupla no início trava uma troca de diálogo interessante e aos poucos descobrimos mais sobre o lugar, o funcionamento acontece a partir do nível zero com a plataforma abarrotada de alimentos, ela vai descendo e os confinados comem o quanto querem até que ela vá para o próximo, sendo proibido guardar qualquer comida consigo, se isso ocorrer imediatamente o local esquenta ou esfria, Goreng escolheu entrar nesse experimento por vontade própria com a intenção de parar de fumar e levou consigo o livro "Dom Quixote", já seu companheiro escolheu levar uma faca auto-afiante, o que indica que se precisar sobreviver tem uma aliada. O banquete servido daria para todos se alimentarem, mas o que acontece é que dominados pela fúria, ambição e medo se empaturram fazendo com que não sobre absolutamente nada para os andares inferiores, o que gera violência, caos e morte. Goreng de tempos em tempos se muda de andar e experimenta tanto a tranquilidade de ter o que comer quanto a dor da fome, quando ele encontra Iomoguiri (Antonia San Juan), uma das administradoras do local ela lhe diz que a ideia do experimento era perfeita, mas que as pessoas estragaram tudo e tenta convencer os que estão no andar de baixo a racionar para que chegue alimento até o final do poço, mas obviamente cada um pensa somente em si e devora todas as comidas. Esse pensamento de dividir entra na mente de Goreng e obcecado com Miharu (Alexandra Masangkay), a estranha personagem que desce na plataforma em meio a comida para tentar encontrar sua filha e também por causa do próximo companheiro em outro andar, Baharat (Emilio Buale), que está a apenas seis andares do topo, se afia ao ideal de ir descendo nível por nível convencendo que comam somente o necessário, obviamente a violência entra em cena e traz à tona o animalesco no seu ponto mais alto. O filme é excelente em manter o espectador curioso e aflito, mas especialmente acerta ao incutir reflexões particulares a cada um, seja elas de cunho religioso, político-social, ou com mensagens de esperança e transformação em seu final, são simbolismos que afetam de maneiras diferentes e ganham camadas profundas. 
"O Poço" revela um sistema de isolamento em que é inviável a ação coletiva e quando essa regra é quebrada para acontecer uma possível transformação se dá através da violência e muito sangue, dai a frase: "a solidariedade nunca é espontânea". Uma potente crítica a diferença de classes, onde a ganância e a indiferença do topo prejudica quem está muito mais abaixo, por exemplo, ficamos sabendo do número real de andares lá pelo fim, ou seja, a invisibilidade da extrema miséria que acaba indo pelo único caminho, o da violência e morte. Sem dúvidas, uma obra para ser assistida outras vezes para captar ainda mais nuances que conversam com a realidade. Filmaço!

"A Casa" (2020) dirigido por Àlex Pastor e David Pastor (Vírus - 2009) é um suspense magnético que aborda de forma primorosa a obsessão e a paranoia pelo poder e sucesso. 
Javier Muñoz (Javier Gutiérrez) é um executivo desempregado que é forçado a vender seu apartamento. Quando ele descobrir que ainda tem as chaves, ficará obcecado pela família que agora mora lá e decidirá recuperar a vida que perdeu, a qualquer preço.
O protagonista é um homem que não se conforma com sua atual condição, antes um publicitário de respeito, agora um reles homem sujeito a qualquer tipo de trabalho, vide o momento em que ele não percebe estar sendo designado para um estágio não remunerado por um antigo colega, essas situações humilhantes vão se aglomerando e Javier vai as guardando de modo frio, principalmente quando é obrigado a se mudar por não poder bancar mais seu luxuoso apartamento, a sua esposa não vê problema em se mudar para um lugar mais humilde e seu filho é retratado como um menino retraído e isolado do resto. Acompanhamos então a recusa de Javier a seguir um outro tipo de vida, primeiro que ele mente em relação a vender seu precioso carro e começa a stalkear os novos moradores de seu adorado apartamento. Acontece que Javier ainda possui as chaves desse local, pois quando despediu em seu carro a empregada ela as jogou em cima dele, diante desse cenário não pensa duas vezes e espera toda a família sair e se infiltra na casa alheia. Começa a surgir sentimentos de inveja e obsessão, Javier se adapta a rotina da família e capta as fragilidades e começa a seguir Tomás (Mario Casas), se aproxima dele no grupo do AA e mente, se torna amigável e confiável, nesse meio tempo cada vez mais se familiariza e continua a adentrar o apartamento, arquiteta intrigas e deixa a sua própria família à mercê, sendo indiferente a sua esposa e filho. Ele cria seu roteiro e é fiel a suas paranoias, brinca com a vida do outro, seu desejo é a posição de poder e se aproxima do lado que está no topo. O desenrolar é permeado por cenas tensas e que incutem pensamentos acerca da moral, a não aceitação de um homem antes bem remunerado - talvez nem tenha sido grande em sua profissão, o que tudo indica é que teve sorte e boas relações - tendo que lidar com a realidade palpável de trabalhar para sobreviver. Ele não aceita esse cenário e diante das circunstâncias seu desejo é ascender e para isso pouco importa os entraves. É frio, hediondo e execrável, a pessoa que experimenta estar lá em cima e cultiva em si a ambição e cobiça ávida jamais aceitaria estar abaixo. Sua mente não trabalha nesse universo. O filme causa polêmica porque não tem um desfecho julgador e que dê lições, simplesmente esse tipo de pessoa existe aos montes e raramente se dá mal, acumula-se relações, troca de favores e permanece nesse lugar mesmo que dê sinais de sempre haver transtornos, como a ótima cena final da torneira pingando.
"A Casa" é uma obra que retrata o cerne da inescrupulosidade, e por isso que é tão incômodo e provocativo, nosso desejo de juiz vem à tona, mas claramente sabemos que a justiça não existe para essas pessoas. Sem dúvidas, um ótimo exemplar para evidenciar o quão doentio é a ânsia que domina a ganância e a sede do poder de estar acima sem se importar com quem está ao seu lado, mesmo que essa pessoa seja o seu próximo mais próximo. Para pensar e muito!

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Perdrix / Aurora / Microhabitat

Segue a resenha de três filmes numa única postagem por eles terem características bem parecidas e também porque particularmente foram muito especiais e merecem um lugar no blog. Ultimamente por tantas coisas acontecendo me falta ânimo para atualizar esse espaço, mas espero que aquela vontade e empenho que tinha volte. Confira:

"Perdrix" (2019) dirigido por Erwan Le Duc é uma comédia dramática francesa peculiar que flerta com absurdos, mas que também consegue despertar emoções vívidas e graciosas, tem aquele elemento especial que nos faz ficar de coração preenchido e sorrir. 
Desde que a enigmática Juliette Webb (Maud Wyler) entrou em sua vida, Pierre Perdrix (Swann Arlaud) não tem sido mais o mesmo. Atingindo a sua rotina e modificando os seus dias como um meteorito emocional, a presença da moça fez com que, indiretamente, toda a família Perdrix repensasse suas vidas.
Acompanhamos a pacata e disciplinada rotina do policial Pierre na cidadezinha na belíssima região montanhosa dos Vosges, ele mora com sua mãe (Fanny Ardant), que possui um programa de rádio que fala sobre amor, seu irmão (Nicolas Maury), que ensina a importância das minhocas a um grupo de crianças, e sua sobrinha (Patience Munchenbach), isolada e sempre desejando ir embora do local, essa família um tanto estranha é repleta de coisas não resolvidas e preferem não expô-las e continuar vivendo sob um véu de ilusão confortável, Pierre literalmente cuida de todos e segue a risca sua rotina, até que Juliette aparece quando seu carro é roubado por nudistas anarquistas que vivem em meio a floresta, impaciente com os protocolos decide agir e gruda em Pierre desnorteando toda a sua maneira de pensar. Essa mulher peculiar não pensa para falar e ao se inserir na vida da família de Pierre balança a frágil estrutura, mas ela também tem seus medos e vemos isso através da angústia em perder suas lembranças, que estão todas anotadas em cadernos, dos quais se encontram no carro roubado, são dois opostos, enquanto um não quer experimentar e viver, como diz: "O cotidiano é a única coisa que não decepciona", já ela por sua vez, prova a si mesma que viveu anotando tudo como se assim tivesse a certeza de que não perderia nada da vida. O relacionamento cresce de uma forma orgânica e muito poética, lentamente os dois terminam se complementando. 
"Perdrix" é um longa aconchegante e interessante, além de seus cenários naturais serem um encanto, e também os atores que elevam o nível de peculiaridade, Swann Arlaud e Maud Wyler garantem momentos curiosos e bonitos. 

"Aurora" (2019) dirigido por Miia Tervo é um drama finlandês sensível, bonito e que possui passagens memoráveis e uma protagonista que brilha aos nossos olhos, nos encantamos por Aurora e torcemos para que ela supere os problemas, a empatia e identificação é inevitável. 
Sempre com medo de se comprometer seriamente a qualquer pessoa, Aurora (Mimosa Willamo) é fanática por festas, mas percebe que essa prática está desgastando-a com o tempo. Depois de esbarrar com um rapaz que tem fobia da morte, ela percebe que eles dois podem aprender a superar seus traumas juntos de maneiras diferentes.
Aurora segue sua vida de maneira incerta, trabalha como manicure e vive em festas, tem sérios problemas com álcool e tudo se agrava quando é despejada e seu pai alcoólatra é internado, ela sonha em se mudar da Finlândia, mas a falta de dinheiro e oportunidade a afasta desse sonho, tentando se virar arranja um emprego cuidando de uma senhora bem engraçada e de mente aberta, desse modo vamos juntos de Aurora que se afunda cada vez mais e não enxergando de fato seu problema com a bebida, seu escape é um grande monstro a engoli-la. Nesse entremeio há o personagem Darian (Amir Escandari) e sua filha de nove anos que sonham em poder morar legalmente no país, eles moram numa casa que acolhe temporariamente imigrantes, numa noite Darian conhece Aurora numa lanchonete, ela lhe paga o restante que faltava para o lanche e numa conversa aleatória a pede em casamento para obter o visto, mas obviamente recusa, só que mais tarde ela oferece uma outra ideia, que por três mil euros arranjaria uma esposa finlandesa. A vemos muito perambular pelas ruas, no frio congelante, bebendo e cambaleando de salto alto na neve, dando festa na casa da senhora que cuida, se expondo a situações perigosas e travando meios que talvez a tirem desse buraco, Darian surge como um alívio em sua vida, mas é lentamente que essa relação toma forma e Aurora se dá conta da paixão, é realmente muito orgânico e sensível. O filme mesmo carregando momentos pesados tem uma leveza especial, terna e empática, não é difícil se identificar em muitas partes e torcer pela personagem, aliás uma composição linda e potente de Mimosa Willamo, uma tour de force que destrói o psicológico, mas também possui tons de humor que são um tanto curiosos, talvez pela expressão cultural do país.
"Aurora" é um filme apaixonante, carregado de questões interessantes, como os estereótipos que se cria em cima de imigrantes, o alcoolismo e o processo do entendimento desse problema, a sensação de inquietação pela falta de oportunidades, perdas e a solidão.

"Microhabitat" (2017) dirigido por Jeon Go-Woon é um filme sul-coreano simples, mas imenso, retrata pequenas grandes paixões que nos movem, no cotidiano chato e cada vez mais competitivo encontrar alívio nessas coisas que amamos, sem dúvidas, é o que dá sentido à vida. São coisas particulares a cada um e que podem parecer errado e desprezível a muitos. A protagonista é gigante em cena, aliás o filme propõe o exercício da quebra de julgamentos, até porque todos temos nossos pequenos vícios, esses que somente a nós cabe decidir se nos faz bem. Mais uma vez uma personagem de fácil identificação e que amplia nossos horizontes de pensamentos. Melancólico e extremamente sensível acompanhamos a rotina de Mi-So (Esom), que trabalhou como doméstica nos últimos 3 anos e ganhou 45 mil won (US$ 40) por dia. Mi-So adora beber Whisky e fumar cigarros. Seu namorado é Han-Sol (Ahn Jae-Hong) e ele quer se tornar um escritor de webtoons. Mesmo que Mi-So seja pobre, ela está feliz enquanto tem Whisky, cigarros e seu namorado. Infelizmente, os preços dos cigarros aumentam no primeiro dia do novo ano. Mi-So tem que dar algo e ela decide desistir de seu apartamento. Então, inicia-se uma peregrinação, ela contata antigos amigos, dos quais formavam uma banda, ela dorme um tempo na casa de cada um, mas aos poucos percebe que é um incômodo e que todos mudaram sua personalidade, aderiram ao sistema e estão infelizes, a cada porta que bate tem uma surpresa e é tratada de variadas formas, desde desprezo, julgamentos e falsa simpatia. Mi-So dispõe ainda de uns trocados e tenta arranjar uma casa bem longe da cidade, mas o preço exorbitante a desanima e mesmo os piores lugares, como cubículos sujos são caros, desse modo decide gastar com o que faz sentido para si, mas com o aumento do cigarro e Whisky e a partida do seu namorado em busca de uma melhoria financeira se entristece e se torna ainda mais marginalizada, vemos que ela seguiu pelo caminho que lhe falava o coração e foi fiel a sua personalidade, não se vendeu e modificou para agradar e se inserir num processo que capitaliza absolutamente tudo. É muito fácil julgar o caminho dos outros, especialmente àquele que se torna à margem de tudo, mas se faz sentido para si é o que importa, afinal o que resta a cada um é esses pequenos prazeres, como no caso de Mi-So, cigarro e Whisky.
"Microhabitat" é uma obra singela que mostra uma personagem que não tem vergonha de seus vícios e de suas escolhas, que segue ignorando o julgamento alheio até porque entende que a pessoa que julga decepou inúmeras particularidades para se tornar algo que quase sempre não escolheu. É o retrato da desigualdade e o impacto da cultura do consumo, da naturalização do ter e não do ser. Filme simples, mas que carrega em si um gigantesco significado. Lindo!