terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
A Bela e os Cães (Aala Kaf Ifrit)
"A Bela e os Cães" (2017) dirigido por Kaouther Ben Hania (O Navalha de Tunis - 2013) toca em um tema pertinente e necessário ainda que seja difícil assisti-lo, o sentimento de revolta cresce à medida que acompanhamos a saga da protagonista por justiça, em um meio totalmente machista, fechado e insensível ficamos paralisados diante o horror do sistema que possui prioridades voltadas a si próprios e atitudes que deslegitimam a vítima.
Durante uma festa, Mariam (Mariam Alferjani) conhece um estranho chamado Youssef (Ghanem Zrelli) e sai com ele dali. Ela é estuprada e tentará provar o crime. Mas o problema é que os criminosos trabalham na polícia.
Filmado em nove tomadas ininterruptas a ação predomina enervando e revoltando, pois as tentativas de conseguir ser consultada e provar o estupro retratam o quão boçal e despreparado é o sistema sempre colocando a vítima numa situação constrangedora, seja com olhares reprovadores, frases desnecessárias, medidas ineficazes e nesse caso dando privilégio à instituição policial. A jornada da protagonista durante a madrugada é incessante e a cada nova tentativa e desenrolar só fazem a destruir mais e mais. Cruel e real, um importante retrato do como a mulher é desrespeitada e humilhada, e é escabroso ainda perceber que por mais que se passe na Tunísia, um país muçulmano em que a honra é de importância extrema e o machismo é gritante, não difere de nenhum outro local, os procedimentos, as burocracias e o despreparo são semelhantes.
Os minutos iniciais do filme são os únicos leves e descontraídos, onde mostra Mariam, uma jovem estudante que se produz para curtir uma festa fechada da faculdade, a amiga lhe empresta um vestido que não faz seu estilo, mas entra na vibe e prontamente saem tirando fotos e dançando, logo seus olhos encontram Youssef, um desconhecido que é apresentado por uma amiga, não escutamos a conversa deles e somente os acompanhamos saindo da festa, no ato seguinte Mariam corre desesperadamente pela rua e Youssef vem atrás, ele tenta acalmá-la e diz que precisa ir ao médico, então entram numa clínica particular que se recusa, pois Mariam perdeu os documentos no carro dos policiais que a estupraram, aconselhados vão para um hospital público abarrotado de pessoas e que também se recusa a fazer qualquer exame nela, a médica quando a atende a trata rispidamente e só fala para tomar a pílula do dia seguinte, inconformado Youssef diz que precisa ter esse atestado para provar que Mariam foi estuprada e muito vagamente eles são auxiliados por uma enfermeira curiosa, que diz que somente um médico forense pode fornecer um atestado, este se recusa antes da polícia começar uma investigação, mas como o abuso foi cometido por policiais abrir um boletim de ocorrência sem uma prova é praticamente inútil. Mariam sob olhares de reprovação por causa de seu vestido é submetida a uma série de observações escrotas, ela vai de uma estação policial a outra sem nenhum tipo de auxílio digno, é alvo de piadas e intimidação ao dar seu depoimento que se torna uma acusação, e por isso tentam silenciá-la sob grave pressão psicológica. Articulam meios para que isso não se prolongue e não venha a se tornar público.
Em determinado ponto Youssef é afastado de Mariam, tido como suspeito e também por ser conhecido por participar das manifestações é preso, sozinha e assustada segue sendo coagida e humilhada, chega um ponto que os policiais começam a apelar para seu patriotismo e como o ocorrido poderia desonrar sua família, Mariam tenta apelar para a policial feminina, mas não escapa da dureza e da incapacidade dela ajudar além do que pode, seu desespero também não compadece e a deixa sozinha em meio a policiais que estão dispostos a tudo para limpar a reputação.
"A Bela e os Cães" tem um ritmo movimentado e sua estrutura em nove capítulos sequenciais capturam nossa atenção, descarrega muita adrenalina e possui uma mensagem política importante para as mulheres, nunca se deixe abater e defenda sempre seus direitos, e ao fim mesmo quebrada em mil pedaços ela se ergue e decide prosseguir com o processo. Realista e angustiante é um filme que sufoca, mas necessário em retratar o quão cruel é o tratamento que uma mulher vítima de violação sofre quando procura ajuda, e não é porque se passa na Tunísia que é diferente, o machismo e a indiferença seja no âmbito da saúde, da segurança e das leis ineficazes que priorizam somente suas instituições são vistos em casos diariamente ao redor de todo o mundo.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
Predadores do Amor (Hounds of Love)
"Predadores do Amor" (2016) dirigido por Ben Young (Extinção - 2018) é um drama perturbador ao retratar a maldade humana e por a violência ser sugestiva o incômodo aumenta, o que sobressai é sua atmosfera pesada marcada por personalidades doentias. Ambientado na Austrália dos anos 80 e inspirado no caso de assassinatos de Moorhouse cometidos pelo casal David e Catherine Birnie, o horror da história é concentrado na maneira como esse casal age, o ritmo lento amplifica a tensão e as interpretações são minuciosas, todo e qualquer detalhe impressiona, assim como o denso jogo psicológico.
No meio da década de 1980, Vicki Maloney (Ashleigh Cummings) está com 17 anos de idade e é aleatoriamente sequestrada em uma rua do subúrbio por um casal problemático. A medida que ela observa a dinâmica entre os seus sequestradores, ela logo percebe que precisa criar uma barreira entre os dois se quiser sobreviver.
Somos introduzidos de maneira crua em uma cena em slow motion, eles visualizam meninas praticando esporte e depois oferecem carona para uma delas que vai a pé embora, o calor é demais e o casal parece inofensivo, depois dessa introdução segue a vida de Vicki, uma adolescente que não se dá bem com a mãe e quando é impedida de ir a uma festa foge de casa e é abordada pelo casal na rodovia, do mesmo modo parecendo inofensivos e legais aceita e acaba dentro da casa deles. Vicki visualiza o casal se beijando, bebendo e estranha algumas coisas, só que é tarde demais e se sente mal, colocaram algo em sua bebida e, de repente, se vê acorrentada em uma cama.
As sequências de tortura e estupro não são explícitas e isso torna o filme sério e não descamba para o exploitation e serve como um alerta para o quão doentio o ser humano pode ser, que por trás de faces aparentemente amigáveis podem existir perversidades. Vicki sofre nas mãos tanto de um como de outro e conforme o tempo passa percebe a relação instável deles, John é cruel e extremamente abusivo em relação a Evelyn, temos a exata noção da crueldade desse homem, mas Evelyn não possui personalidade própria, é obcecada pelo companheiro e faz tudo o que ele pede, mas não tolera que aproveite das meninas sozinho, e com Vicki esse sentimento se agrava, se sente menos bonita e Vicki acompanhando esses episódios tenta de alguma forma incutir pensamentos negativos sobre John para que talvez ela comece a pensar no domínio que exerce em sua vida, as situações vão se intensificando, ciúmes, obsessão e muita violência, Vicki sofre inúmeros traumas e chega um determinado ponto que não vê saída, mas Evelyn é uma incógnita e suas atitudes imprevisíveis. Emma Booth é sublime e incorpora uma psicopata com maestria, sua performance assusta e sua instabilidade hipnotiza, são olhares e trejeitos assombrosos e marca como uma das melhores dentro desse gênero.
As sequências de tortura e estupro não são explícitas e isso torna o filme sério e não descamba para o exploitation e serve como um alerta para o quão doentio o ser humano pode ser, que por trás de faces aparentemente amigáveis podem existir perversidades. Vicki sofre nas mãos tanto de um como de outro e conforme o tempo passa percebe a relação instável deles, John é cruel e extremamente abusivo em relação a Evelyn, temos a exata noção da crueldade desse homem, mas Evelyn não possui personalidade própria, é obcecada pelo companheiro e faz tudo o que ele pede, mas não tolera que aproveite das meninas sozinho, e com Vicki esse sentimento se agrava, se sente menos bonita e Vicki acompanhando esses episódios tenta de alguma forma incutir pensamentos negativos sobre John para que talvez ela comece a pensar no domínio que exerce em sua vida, as situações vão se intensificando, ciúmes, obsessão e muita violência, Vicki sofre inúmeros traumas e chega um determinado ponto que não vê saída, mas Evelyn é uma incógnita e suas atitudes imprevisíveis. Emma Booth é sublime e incorpora uma psicopata com maestria, sua performance assusta e sua instabilidade hipnotiza, são olhares e trejeitos assombrosos e marca como uma das melhores dentro desse gênero.
Ashleigh Cummings como Vicki angustia por seu sofrimento, pelas crueldades cometidas contra ela e a câmera jamais evidencia esses momentos, fica por conta da nossa imaginação construir essas cenas violentas, e é justamente por isso que o repúdio contra John é enorme, retrata uma mente perversa que provoca dor, seja física ou psicológica, que reduz, humilha e faz um jogo psicológico nojento que deixa Evelyn à mercê acreditando que tudo gira em torno dele e que sempre estará em dívida, ele representa um tipo de salvador e entendemos sua submissão nos instantes em que conta algumas coisas de sua história e, Vicki, por sua vez, tenta fazer ela perceber que sofre de abuso psicológico. Stephen Curry encarna com soberba esse ser desprezível, um trabalho excepcional que mistura sentimentos distorcidos e doentios.
"Predadores do Amor" é uma história pesada e que foge do fetichismo em torno das cenas de violência, coloca a frieza e a psicopatia em primeiro plano, é um estudo de personagens que desestabiliza o espectador tamanha confusão de sentimentos.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
A Fera (Beast)
"A Fera" (2017) dirigido pelo estreante Michael Pearce é um excelente filme que abraça sem medo o mistério, a dúvida e as consequências da repressão. Acima de tudo, um romance sombrio contornado por uma aura de fábula adulta.
Algo mal está corroendo o coração de Jersey. Um assassino em série tem aterrorizado a pitoresca ilha há sete anos. Com a polícia local aparentemente incapaz de detê-lo, a comunidade é dominada pelo medo. Moll Huntford (Jessie Buckley), uma guia que ainda vive na casa de seus pais, tem um fascínio com os assassinatos e sofre de pesadelos perturbadores em que ela representa a vítima. Uma história de amor presa dentro de um filme de terror - um conto de fadas sombrio sobre uma mulher que chega ao poder abraçando a besta dentro dela.
O título dá a impressão de um filme menor, mas ao assisti-lo surpreende-se pela progressão tensa e imersiva da história e também pelas atuações impressionantes, a composição de Jessie Buckley é repleta de camadas e demora-se a revelar ao espectador, seus olhares e expressão corporal preenchem a tela, Johnny Flynn, que até então o conhecia apenas pela sua música, teve seu destaque e todo o tempo nos incute dúvida e receio, um trabalho minucioso que juntamente com a atmosfera da pequena ilha isolada garante um fascínio.
Moll é tratada estranhamente pela família, especialmente, pela autoritária mãe, sempre a repreendendo por suas atitudes e por seu jeito de se portar, ela segue a vida guiando turistas pela ilha e no dia de seu aniversário por não suportar os convidados e a irmã que anuncia a gravidez tirando totalmente seu foco, decide fugir e acaba numa boate dançando com um desconhecido, ao amanhecer este tenta agarrá-la, mas surge um outro rapaz que com uma espingarda assusta-o, Moll agradece e ele a leva para casa, de pronta sente-se atraída e o pouco que ele esboça é recíproco. A ilha sofre com os assassinatos de várias garotas e o sentimento de apreensão é enorme, será que Moll será uma vítima? Todo o tempo o filme brinca com essa questão e nossas teorias se modificam diversas vezes. Depois que Moll conhece Pascal começa a sonhar que é pega pelo assassino e isso de certa forma aumenta sua curiosidade em relação a ele, a atração é intensamente sexual. Aos poucos se aproximam e Moll vai saindo do casulo e, claro, a mãe não gosta nada disso, aliás, descobrimos o porquê dela ser praticamente encarcerada em casa desde a adolescência numa conversa que tem com Pascal quando ele pergunta o motivo da irmã dizer que ela é um animal selvagem na mesa do jantar, inclusive uma cena excepcional. A família dela é completamente esnobe e hipócrita. A opressão da qual foi submetida certamente amplificou o que continha no seu ser e quando finalmente conseguiu se libertar a sua natureza se manifestou de forma inflamada.
Moll é tratada estranhamente pela família, especialmente, pela autoritária mãe, sempre a repreendendo por suas atitudes e por seu jeito de se portar, ela segue a vida guiando turistas pela ilha e no dia de seu aniversário por não suportar os convidados e a irmã que anuncia a gravidez tirando totalmente seu foco, decide fugir e acaba numa boate dançando com um desconhecido, ao amanhecer este tenta agarrá-la, mas surge um outro rapaz que com uma espingarda assusta-o, Moll agradece e ele a leva para casa, de pronta sente-se atraída e o pouco que ele esboça é recíproco. A ilha sofre com os assassinatos de várias garotas e o sentimento de apreensão é enorme, será que Moll será uma vítima? Todo o tempo o filme brinca com essa questão e nossas teorias se modificam diversas vezes. Depois que Moll conhece Pascal começa a sonhar que é pega pelo assassino e isso de certa forma aumenta sua curiosidade em relação a ele, a atração é intensamente sexual. Aos poucos se aproximam e Moll vai saindo do casulo e, claro, a mãe não gosta nada disso, aliás, descobrimos o porquê dela ser praticamente encarcerada em casa desde a adolescência numa conversa que tem com Pascal quando ele pergunta o motivo da irmã dizer que ela é um animal selvagem na mesa do jantar, inclusive uma cena excepcional. A família dela é completamente esnobe e hipócrita. A opressão da qual foi submetida certamente amplificou o que continha no seu ser e quando finalmente conseguiu se libertar a sua natureza se manifestou de forma inflamada.
O suspense se sustenta e o romance tem um formato diferente, a descoberta sexual de Moll se dá junto de Pascal e dessa forma o entendimento de sua personalidade, quando ele é acusado pelos habitantes de ser o assassino continua do seu lado e assume as consequências disso, mas existe uma confusão dentro de si e quando o policial apaixonado por ela diz que encontraram o assassino e que Pascal está liberto, começa a pensar que ele de fato é o serial killer, desse modo o filme trabalha com nossa imaginação e a ambiguidade. As contradições e conflitos internos de Moll são amplamente explorados, sua libertação tanto do meio familiar castrador e preconceituoso, do julgo dos habitantes e da descoberta de si mesma acontecem num ritmo progressivo e interessante, sem dúvidas, um primoroso estudo de personagem, suas camadas multifacetadas encantam e no final ela assume sua personalidade e cabe a cada um interpretar a atitude derradeira.
"A Fera" é um notável filme de suspense que mescla perfeitamente o drama com um romance que foge dos padrões, além de ter a característica de conto de fadas com abordagem adulta e sombria, insere brilhantemente várias questões, como opressão familiar, preconceitos sociais, hipocrisia e as consequências que tudo isso provoca em personalidades distintas, quem se liberta acaba sendo visto como selvagem e é rejeitado, os contrastes de Moll geram agonia e permanecem até o término causando desconforto deixando inúmeras dúvidas e sentimentos ambíguos.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
7 Descobertas Musicais no Youtube
Segue alguns achados musicais que encontrei por sugestão do Youtube e outros navegando por sites de música, um apanhado bem diverso e cheio de estilo!
É um trio de música indie eletrônica australiano formado em 2014, um som leve cheio de movimentos e uma voz maravilhosa que te transporta a outros universos e gera uma sensação de liberdade, um pop eletrônico marcado por batidas sensuais. Em 2015 lançaram o EP "Pick Me Up" e em breve será lançado o álbum "Shadowboxer". Confira a canção "Easier" e "Technicolor".
06- Tender (UK) Synth-Pop
É uma duo de música eletrônica londrino formado em 2015. Lançaram seu álbum de estreia, "Modern Addiction", em setembro de 2017 e recentemente lançaram "Fear Of Falling Asleep", um pop eletrônico moderno e sexy com vocais e batidas suaves. Confira a canção "Erode", "Violence" e "Vow".
Grupo musical de punk rock originário de Portland criado em 2007, uma mistura enérgica entre folk, blues e jazz sustentados por uma base punk. Um som diversificado e artístico, instrumentação e vocais únicos e letras que apesar de terem toques depreciativos são divertidas. Confira o álbum de 2012 intitulado "God Forgive These Bastards".
04- Zeal and Ardor (Suiça/EUA) Avant-Garde Metal/Post-Black Metal/Soul/ Melodic Death Metal
Uma banda de metal avant-garde fundada em 2013 e liderada por Manuel Gagneux, um músico suíço-americano, mistura canções espirituais negras com black metal. Criativa e provocativa a combinação de elementos conflitantes impressiona e nos tira do lugar comum quanto ao gênero metal, além de possuir batidas eletrônicas e tantos outros estilos dentro das músicas, são universos diferentes que conversam entre si e produzem um efeito fascinante. Confira os álbuns "Devil is Fine" (2016) e "Stranger Fruit" (2018).
Formada em 2012 em Nashville, a banda possui uma atmosfera setentista psicodélica regada a muito blues, pegadas de country, um hard rock clássico e stoner rock. O álbum "Lightning at the Door" (2013) é viciante e hipnotizante. A banda é bastante produtiva e conta com cinco álbuns em sua discografia.
Banda belga de indie pop formada em 2004 e que soma três álbuns em sua carreira, "Applause", de 2010, "Rats", de 2012 e "Thin Walls", de 2015, recentemente voltou a ativa após um hiato de quatro anos surgindo com novos singles, como "Fever" e "Entertainment". Com uma aura descontraída e dançante é impossível não se encantar!
01- Dennis Lloyd (Israel) R&B/Jazz/Reggae Fusion
Nir Tibor, conhecido profissionalmente por seu nome artístico Dennis Lloyd é um produtor, cantor, compositor e multi-instrumentista israelense. Com vários singles em destaque sua música exibe um apaixonante R&B alternativo, sua voz produz tranquilidade e sensualidade e ele ainda coloca todo o seu talento como instrumentista. Um som agradável e notavelmente bem feito! Confira as canções: "Leftovers", "Snow White", "Playa" e "Nevermind".
Bônus
Jason Kane and The Jive (EUA) Hard Rock/Blues Rock
Formada em 2014 no Texas, a banda apresenta um hard rock clássico de alta voltagem, com dois álbuns lançados, "Jason Kane and The Jive" e "Hellacious Boogie" (2018), se destacam pela vibração e potência sonora, um ótimo achado para os amantes do Rock'n Roll.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
Ponto Cego (Blindspotting)
"Ponto Cego" (2018) dirigido pelo estreante Carlos López Estrada é um filme de emoções pulsantes, interpretações fortíssimas e que retrata o racismo e situações incômodas que o negro passa em seu cotidiano, principalmente com relação aos policiais, a construção da narrativa é primorosa e mistura humor sarcástico juntamente a questões pesadas, a tensão acompanha por todo o desenrolar com o propósito de nos sentirmos na pele de Collin. Destaque para o rapper Rafael Casal, que estreia como ator e que possui um magnetismo maravilhoso, aliás, a dupla que forma com Daveed Diggs é perfeita.
Em Oakland, Califórnia, o ex-presidiário Collin (Daveed Diggs) enfrenta os últimos dias de liberdade condicional antes de acertar as suas contas com a justiça. Quando presencia uma troca de tiros envolvendo policiais, ele hesita sobre a melhor coisa a fazer e conta com a ajuda de seu amigo de infância, Miles (Rafael Casal). Contudo, o caso expõe as diferenças de pensamentos entre ambos e revela os traumas sociais de cada um.
Collin é um preso em liberdade condicional e acompanhamos seus últimos três dias antes da liberdade definitiva, há uma série de regras que precisa seguir, ele se mantém firme e correto, mas tudo ao seu redor é uma possível ameaça, seu amigo Miles é um tanto desequilibrado e o leva junto nas suas doideiras, tudo muda quando Collin presencia um negro sendo morto por um policial, perplexo com essa visão começa a pensar na sua própria situação e o quanto é difícil simplesmente andar na rua sossegado sem ser parado por um policial e sempre ser o culpado somente por causa da cor da pele. Seu pensamento sobre essas questões se expandem e vamos juntos nessa jornada com medo de a qualquer momento ser pego e não conseguir sua liberdade, e acontecem inúmeras situações complicadas durante esses dias, principalmente por causa do descabeçado Miles que sabe articular e colocar suas ideias em prática ao mesmo tempo que possui raiva em si como forma de sentir pertencente ao lugar.
É um filme crescente e potente, são cenas arrebatadoras, diálogos em forma de rimas e claro, lá pelo final o desabafo em forma de rap de Collin, o entendimento de sua identidade, a sua transformação e a sua fúria em um misto de emoções, a importância do rap é enorme, voraz e necessário na vida deles.
Uma obra indispensável e deveras expressiva, retrata a realidade de ser periférico e periférico negro e ter que se provar o tempo todo, do medo de andar nas ruas e ser parado por policiais ou até ser morto por causa disso, ambientado na cidade de Oakland coloca em cena toda a gentrificação que o local sofreu esmagando os mais pobres.
Collin começa a perceber seu contexto social ao presenciar um policial branco matar um negro, seu processo de entendimento de sua identidade, do local onde vive, da apreensão cotidiana e dos estereótipos são profundos, a amizade também é um fator bastante importante e através dela que entendemos os dois lados e alcançamos as visões de cada um.
"Ponto Cego" é um exemplar necessário cheio de estilo e autenticidade, enérgico trata de questões pontuais e atuais sobre polícia, violência e racismo, tudo permeado por rimas pujantes, uma trilha sonora incrível e uma atmosfera angustiante; o roteiro co-escrito por Daveed Diggs e Rafael Casal é genuíno e impactante mesclando sarcasmo ao drama. Um dos melhores filmes do ano passado e que certamente não merece passar despercebido.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Os Irmãos Sister (The Sisters Brothers)
"Os Irmãos Sister" (2018) é o primeiro filme em língua inglesa de Jacques Audiard (Ferrugem e Osso - 2012), adaptado da obra homônima do escritor canadense Patrick DeWitt é um faroeste repleto de nuances e que consegue transpor todas as camadas reflexivas que o livro propõe. É melancólico, sombrio e também permeado por um humor negro.
Eli (John C. Reilly) e Charlie (Joaquin Phoenix) Sisters são dois pistoleiros que recebem uma missão complicada: capturar e eliminar Hermann Kermit Warm (Riz Ahmed), um explorador de minas de ouro. Os assassinos perseguem o explorador através do deserto do Oregon, no entanto, Eli começa a ter uma crise de consciência sobre a carreira que leva. Para se salvar, Hermann pode se aproveitar dessa fraqueza momentânea e oferecer um acordo melhor para os irmãos.
Esperei muito por essa adaptação, pois o livro me surpreendeu de uma forma que jamais imaginei, personagens diferentes dos apresentados na maioria dos westerns, foge dos clichês convencionais e se aprofunda nos sentimentos que cada um experimenta vivendo nesse ambiente, uma obra que passeia pelo drama e humor negro com grande habilidade. A adaptação conseguiu conservar essa essência e o elenco virtuoso ressalta ainda mais essas características, todos têm seu espaço e brilham cada um à sua maneira, deslumbrante a composição de John C. Reilly como Eli, geralmente o vemos em papéis coadjuvantes e sempre impecável, mas aqui temos a exata noção de sua potência como ator, a incorporação de um homem que não se encaixa, que está à frente de sua época, que questiona os meios violentos dos quais utiliza e consegue estabelecer elos afetivos facilmente, sua postura, seu gestual e todos os detalhes o tornam um personagem interessante, por exemplo, quando decide usar a escova de dentes, algo que destoa de todo o cenário retratado, Joaquin Phoenix como Charlie é também um absurdo de excelência, ele é o irmão violento, prepotente e conhecido por sua destreza com as armas, o que sobra a Eli de perspicácia falta a Charlie, ele é o retrato do homem ambicioso e indômito, do outro lado temos Jake Gyllenhaal como Morris, uma espécie de detetive do Comodoro, ele é o meio pelo qual os irmãos conseguirão chegar até o alvo, falso e descrente seu personagem aparenta não possuir moral nenhuma até conhecer Hermann, vivido por Riz Ahmed, um químico que possui um sonho utópico, seu personagem é extremamente sensível e toda sua inteligência impressiona Morris, através dele consegue vislumbrar uma vida diferente e se encanta com a ideia e seus meios de obter o ouro do rio, claro que a ambição é a força que o move, mas durante o processo a afetividade ganha forma, algo super incomum em filmes deste gênero. Os quatro possuem sua carga dramática e toda a trajetória os levam a pensar e, a partir daí, modificarem seus modos de agir.
Charlie e Eli saem com uma missão, capturar Hermann com o apoio de Morris, este disfarçado se finge de amigo e desse modo o levará até os irmãos, Eli não está satisfeito com o cavalo que recebeu e tão pouco em ficar de fora da reunião com o Comodoro, ele questiona o tempo todo qual o propósito de matar Hermann e durante a viagem sofre de pesadelos e com os incidentes que se revelam, se imagina abrindo uma loja e se libertando dessa vida de violência, os motivos para seguir e matar Hermann não o deixam sossegado e enquanto isso Charlie bebe e se irrita com tudo e todos, mais para frente entendemos o porquê está nessa com o irmão e o quanto Charlie o subestima não enxergando o quanto o protege e controla a sua impulsividade.
Charlie e Eli saem com uma missão, capturar Hermann com o apoio de Morris, este disfarçado se finge de amigo e desse modo o levará até os irmãos, Eli não está satisfeito com o cavalo que recebeu e tão pouco em ficar de fora da reunião com o Comodoro, ele questiona o tempo todo qual o propósito de matar Hermann e durante a viagem sofre de pesadelos e com os incidentes que se revelam, se imagina abrindo uma loja e se libertando dessa vida de violência, os motivos para seguir e matar Hermann não o deixam sossegado e enquanto isso Charlie bebe e se irrita com tudo e todos, mais para frente entendemos o porquê está nessa com o irmão e o quanto Charlie o subestima não enxergando o quanto o protege e controla a sua impulsividade.
Dentre tantas situações que ultrapassam durante a viagem, como infortúnios, ameaças conhecidas e desconhecidas e pitadas de sorte, observamos Morris se interessando pelas ideias de Hermann, são diálogos primorosos em que tanto um como o outro pensam em um futuro melhor, a fórmula que Hermann criou para enxergar o ouro no rio salta aos olhos de Morris e a ambição fala mais alto, logo muda de lado e o acompanha até São Francisco para o garimpo. Quando finalmente os quatro se juntam depois de acertarem as contas e pensarem no quanto de ouro acharão com a fórmula, empreendem um duro trabalho com graves lesões físicas, a violência é deixada de lado e a melancolia toma conta, há medo misturado a sonhos, afeto e muita ambição, e é justamente esse anseio desmedido que detona todo o plano e a narrativa ganha ainda mais contornos tristes e escuros.
"A maioria das pessoas vai continuar insatisfeita, sem nunca tentar entender por que ou como elas poderiam mudar as coisas para melhor, elas morrem sem nada no coração a não ser sangue sujo..." (trecho do livro)
"Os Irmãos Sister" é uma bela e sensível obra que aborda crise existencial, ganância e relações afetivas em meio a um cenário hostil com um humor particular e um ar sombrio. Um atípico faroeste, pois deixa a violência e questões de vingança para segundo ou terceiro plano, o foco está na evolução da personalidade dos personagens, na mudança de suas prioridades, no entendimento do trabalho bárbaro que cometem, são homens diferentes entre si, complexos e fascinantes.
O filme conta com uma série de acertos, desde o diretor Jacques Audiard que colocou suas características, como realismo e sensibilidade, o elenco formidável, destacando-se principalmente John C. Reilly, a trilha sonora composta por Alexandre Desplat e a recriação do cenário, que mesmo a história se passando no oeste americano as gravações foram realizadas no sul da Espanha e na Romênia.
A onda de faroestes retornou e está surpreendendo com tamanha criatividade e originalidade em seus enredos, deixando de lado cenas batidas de duelos em que a ação é o mais importante, recentemente fiz uma lista com alguns exemplares, confira.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
Quando os Anjos Dormem (Cuando los Ángeles Duermen)
"Quando os Anjos Dormem" (2018) dirigido por Gonzalo Bendala (Assassinos Inocentes - 2015) é um filme de suspense que flerta com o terror, mas um terror bem próximo da realidade, é incrível o poder das consequências de decisões erradas, retrata um homem comum que trabalha em excesso e que prima pela família, porém nunca consegue estar junto, ele quer ter seu nome e sua honra intactas, mas comete uma imprudência que o levará a uma derrocada moral abissal, o novelo de situações que se envolve e a forma com que decide agir perante elas só agravam as coisas. O desenrolar da trama é bastante interessante e seu final deixa um gosto amargo por conta da injustiça e pode desagradar uma boa parcela dos espectadores.
Germán (Julián Villagrán) é um executivo de uma importante empresa de seguro de vida ocupado demais com o trabalho para dar atenção a sua família. Quando, na noite do aniversário de sua filha pequena, ele tenta dirigir para casa exausto de tanto trabalhar, um acidente transforma aquela noite em um terrível pesadelo.
Com pressa para poder chegar ao aniversário da filha depois da esposa quase implorar ao telefone, Germán pega o carro que já sai com uma batida na lanterna frontal e segue viagem, ele está a mais de 500 km de distância e a canseira bate, a polícia o para e o aconselha a dormir num hotel, claro que ele dá um jeito e sai mesmo com sono, no caminho são várias cochiladas e numa delas termina colidindo com alguma coisa, ele vai seguindo até que decide voltar e ver o que aconteceu, no chão está uma moça agonizando, sem saber muito como proceder a coloca no carro e aí surge uma outra moça, que vendo a cena entra em pânico achando que ele a matou e por conseguinte iria matá-la também. A história das amigas é retratada no início em que uma delas sai escondida de casa para beber com a amiga e sair com rapazes, nada sai como previsto e as duas acabam no meio da estrada totalmente drogadas. Gérman se esforça para convencer Silvia (Ester Exposito) de que não atropelou Gloria (Asia Ortega), mas a moça além de estar alucinada se apavora com o que vê, ela tenta de todas as formas ligar para a polícia e depois foge, Gérman a segue obsessivamente e o filme vai ganhando contornos cada vez mais tensos, a personalidade irritada de Gérman vai se expandindo e com medo de que tudo ganhe grandes proporções age por conta própria e anula qualquer pedido de ajuda. As decisões que toma e a caçada por Silvia o torna psicótico e é óbvio que a garota iria fugir dele, seu caráter egoísta e indiferente amplia-se com o ocorrido e seus desdobramentos.
O protagonista consegue gerar um misto de emoções, no início desejamos que ele consiga conversar com a garota, mas seu jeito de consertar as coisas acaba com esse desejo, e o ódio que temos de Silvia em sair desesperada correndo se converte em empatia, pois depois de todas as consequências dos atos de Gérman só queremos que ele seja pego, suas desculpas de que tem família e reputação gera nojo, ele é um covarde e ainda para completar a polícia vai por outros caminhos e acredita na desculpa dele e de sua esposa que compactua mesmo sem dizer uma palavra.
"Quando os Anjos Dormem" tem uma atmosfera tensa em que a violência vai ganhando corpo, retrata que tomada de decisões erradas juntamente com coincidências são capazes de revelar alguns seres humanos em verdadeiros monstros, a realidade desse pensamento é apavorante e dentro desse contexto o filme cumpre bem com o seu papel.
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