terça-feira, 12 de junho de 2018

A Infância de Um Líder (The Childhood of a Leader)

"A Infância de Um Líder" (2015) dirigido pelo ator Brady Corbet (Mistérios da Carne - 2004) é um drama sombrio que como o próprio título revela retrata a infância de uma criança que se tornará um líder fascista, é uma história interessante e que traz o terror sob uma perspectiva realmente surpreendente, aparentemente não há nada que se encaixe no gênero, porém o horror é trabalhado em pequenas doses e com total originalidade, até porque acompanhar o pequeno protagonista e seu difícil desenvolvimento durante o período final da primeira guerra é perturbador, sua personalidade vai sendo moldada a partir de eventos complexos e uma estranha relação com os pais.
1918. Prescott (Tom Sweet), um garoto americano passa a morar na França, já que seu pai (Liam Cunningham) é convidado pelo governo americano para trabalhar na criação do Tratado de Versalhes. Juntamente com a mãe (Bérénice Bejo) se instalam num imenso casarão em um lugarejo onde o fanatismo religioso impera. A abertura estonteante e ao mesmo tempo aterradora faz questão de evidenciar e nos fazer imergir neste cenário. A imagem e o som se complementam de maneira assustadora durante toda a história chegando ao ápice de modo ameaçador e vertiginoso. Acompanhamos os personagens com ansiedade e observamos tudo pelo olhar da criança que se molda a partir do desafeto da mãe, da autoridade exacerbada do pai, do fanatismo religioso, da infelicidade, opressão e as incertezas que pairam no ar.
As sensações que a história provoca são incômodas e a cada cena nos deslumbramos com o requinte visual e narrativo, seu desenvolvimento faz questão de expor com cuidado cada detalhe, a movimentação de câmera suave e a lentidão inicial só faz ficar ainda mais interessante, pois a tensão vem de forma crescente a partir do momento em que a criança se torna incontrolável, a mãe coloca a educação nas mãos da jovem professora de francês e o pouco de singeleza advém da cozinheira, já o restante é pura opressão e desamor, o ambiente contribui para a melancolia e vazio, as obrigações religiosas e o pai que administra com mãos de ferro a família, assim como faz em seu trabalho complementa arruinando a personalidade de Prescott. Impressionante a composição de personagem de Tom Sweet, seus olhares e comportamentos vão nos levando ao que se tornaria no futuro, diante de tudo que estava vivendo e dentro do contexto histórico não poderia dar em outra coisa: a empatia com ideias fascistas.  

A atmosfera do filme atinge em cheio e exemplifica que o terror é um gênero que pode ser trabalhado sob variadas vertentes, os elementos transmitem uma espécie de mau agouro, tempos ruins que se aproximam, a sensação de sufoco vai ficando cada vez mais forte e o real terror acontece num final apoteótico. 
A narrativa é dividida em capítulos que demonstram Prescott cometendo travessuras e fazendo birras, no início ele joga pedras nos outros depois do ensaio de uma peça na igreja, a mãe o força a pedir desculpas para todos e isso o faz ficar mais revoltado, o menino tem personalidade forte e uma de suas características físicas, o cabelo comprido, é alvo de perguntas e chacotas e sempre é confundido por menina, o que o deixa realmente nervoso. O relacionamento com a mãe é difícil e distante, não há afeto e há algo não esclarecido ali no ambiente familiar, pois ela é uma mulher frustrada e fria, muito do menino é com certeza vindo dela e do tratamento que destina a ele, já o pai se torna violento por não saber mais lidar e tudo culmina num rompante de raiva num jantar na casa deles em que estão comemorando o encerramento da Primeira Guerra.

"A Infância de Um Líder" inspirado vagamente num conto homônimo de Sartre retrata com primor a ascensão de um líder fascista, mas contudo não explora as questões políticas, mas sim as psicológicas, do como os traços inatos da personalidade somado a acontecimentos conturbados são capazes de formarem monstros; o vazio e o mal se solidificando remete ao filme "A Fita de Branca" (2009) que também carrega um tom de pesadelo progressivo. É um filme sombrio, instigante e singular que tem na sua ambientação e na sua trilha sonora uma força descomunal. Poderoso!

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Caminho a La Paz (Camino a La Paz)

"Caminho a La Paz" (2015) dirigido por Francisco Varone é um road movie simpático que retrata uma amizade inesperada, duas pessoas completamente diferentes, mas com o convívio do atordoante e longo trajeto até La Paz firmam um elo engrandecedor e belíssimo. 
Sebastián (Rodrigo De la Serna), 35 anos, é um homem que tem como grandes paixões a banda Vox Dei e seu antigo Peugeot 505. Recém-casado com Jazmín (Elisa Carricajo) e precisando de dinheiro, ele começa a trabalhar como motorista particular. Entre os passageiros está Jalil (Ernesto Suárez), um idoso muçulmano que o chama com frequência e que, certa manhã, lhe faz uma curiosa proposta: em troca de uma quantia muito alta de dinheiro, Sebastián precisa levar o passageiro de Buenos Aires, na Argentina, a La Paz, na Bolívia. Relutante e com dúvidas, ele aceita a viagem, que teve cada detalhe planejado pelo velho Jalil.
Sebas tenta ajeitar a vida com sua esposa, que com a crise também acaba sem emprego, por um acaso encontra a alternativa de trabalhar como motorista, ele é um homem um pouco acomodado e com uma visão de vida estreita, tem receio do futuro e é preso ao passado pela memória do pai, seu Peugeot 505 lhe conecta com a lembrança e o têm em grande estima, então dia após dia Sebas leva os passageiros ao destino ouvindo sua banda favorita, Vox Dei, até que Jalil, um senhor muito doente pede para que ele faça o favor de levá-lo até La Paz para que encontre seu irmão. Precisando de dinheiro aceita, mas jamais imaginaria que ele passaria por uma espécie de peregrinação e modificaria seu olhar para com a vida. Jalil articulou muito bem a viagem, todas as paradas e etc, sua intenção é encontrar seu irmão em La Paz e depois prosseguir em um navio até Mecca, um trajeto complicado e longo, mas visando o dinheiro Sebas aceita, ele sofrerá provações durante o caminho, no início soa até engraçado, mas a situação de Jalil é grave e requer cuidados, a todo momento precisa urinar e depende de uma máquina para fazer hemodiálise toda noite, vai surgindo em Sebas um sentimento de responsabilidade e de empatia, quanto mais o conhece e o percebe mais cresce a admiração e o desejo de chegar até o destino. 
Muitas coisas acontecem, como o atropelamento de um cachorro que Jalil obriga Sebas a levar em seu carro e que é o começo dessa sutil mudança do motorista, o seu semblante no decorrer vai se abrindo e seu desenvolvimento é brilhante. Uma atuação encantadora de Rodrigo De la Serna. 

Somos conquistados pela naturalidade, a simplicidade e o modo intimista com que tudo se desenrola, é abordado o fator do desemprego que assola não só a Argentina, mas os países vizinhos, além de retratar a paisagem sem qualquer artifício, todo o trajeto é penoso e contém perigos, a amizade vai sendo aos poucos firmada através de diálogos reflexivos e espontâneos, a questão da cultura e a religião também fazem parte da trama, Jalil é muçulmano e em um momento específico retrata um ritual auto-hipnótico que leva a Sebas admirar apesar de não ter conhecimento e intimidade com a religião, esse é um ponto importante da trama em que cresce ainda mais o respeito entre os personagens, e há também outra parte significativa em que Sebas renasce a partir de um acontecimento terrível que tem a ver com seu carro, é o ponto crucial de seu recomeço e de certa forma aliviante.  

"Caminho a La Paz" ainda conta com uma ótima trilha sonora que acompanha toda a peregrinação dos personagens, há momentos cômicos, mas sem deixar de ser terno, a transformação de Sebas atinge o espectador de forma gentil e espontânea. É um filme que provoca sentimentos agradáveis. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

A Rede/The Net (Geumul)

"A Rede" (2016) dirigido por Ki-duk Kim (Casa Vazia - 2004, Pietá - 2012) traz à tona uma história pertinente que nos permite analisar e discutir sobre as distinções entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul sem pesar para nenhum lado especificamente. Há um apelo humanista e um tom satírico em variadas partes, mas na essência é um drama político angustiante e potente.
Um pescador norte-coreano (Ryoo Seung-bum) tem um problema no barco e fica à deriva até entrar no território da Coreia do Sul. Pego por guardas da fronteira da Coreia do Sul como um espião, sofre terríveis questionamentos, mas é ajudado por Jin-Woo (Lee Won-geun), um agente secreto que ameniza as suas angústias. Toda essa experiência faz com que ele nunca mais volte a ser o mesmo.
Chul-woo é um simples pescador que tem como objetivo alimentar sua família, todos os dias sai para trabalhar com seu barco, seu único bem material, ao chegar escuta dos guardas o que faria se o barco quebrasse e parasse do outro lado, e é exatamente o que acontece, sua rede de pesca enrosca no motor e o queima, desse modo é levado pela correnteza à fronteira e em solo sul-coreano, logo é apanhado e levado para as autoridades e apesar do tratamento aparentemente amigável no início receberá uma enxurrada de perguntas para provar que não é espião, Chul-woo fica desesperado por perceber que dificilmente voltará para sua família, pois o comandante está afim de criar um espião para sanar dívidas passadas, nem todos ali concordam com o tratamento destinado ao pescador, mas não permitem a sua volta, querem que ele permaneça na Coreia do Sul, que deserte do Norte e construa a partir dali uma nova vida, só que Chul-woo tem outros valores e sua família é o que lhe basta, irredutível tentam soltá-lo no meio da cidade para que enxergue tudo que terá ao seu dispor, Jin-Woo o leva e o deixa sozinho, no começo não quer nem abrir os olhos, os agentes criam um plano e Chul-woo abre os olhos e encara todas as chamativas lojas e a multidão de pessoas. Chul-woo só quer voltar para seu país e sua família, mas a Coreia do Sul lhe oferece salário e moradia e um país "livre", porém observamos que toda essa liberdade também é um meio de prisão, o apelo do consumismo principalmente, a maneira boazinha com que a Coreia o trata serve como meio de atingir o inimigo, Chul-woo não quer desertar e tem medo tanto em ser considerado espião pelo Sul como traidor pelo Norte, ele está numa situação que aparenta não ter saída, enquanto todas as sessões de perguntas e torturas acontecem Jin-Woo, o agente secreto que representa ali o lado humanista da história demonstra sensibilidade ao desalentado Chul-woo, são momentos bastante singelos quando os dois estão lado a lado conversando esquecendo as brigas de ideologias. 

A história desarma o espectador e o coloca como observador, tanto um lado como o outro age com fanatismo pelo seus modos de vida, a Coreia do Sul praticamente o força a ficar lá atingindo-o com a suposta liberdade que possuem e ficam indignados por ele ter vivido tanto tempo em regime ditatorial, o interesse é que ele peça asilo para provarem estarem certos, mas Chul-woo não cede e durante esse processo vão acontecendo situações angustiantes, a visão do conflito por meio de um cidadão simples faz toda a diferença e retrata os absurdos dos dois lados e prova que interesses pessoais sempre estarão presentes, seja disfarçado em formas democráticas ou escancaradas como a ditadura, Chul-woo no final com o apoio da mídia volta a seu país, o recebem aparentemente bem, mas novamente vem a enxurrada de perguntas, seria ele agora espião da Coreia do Sul e estaria corrompido pela vida capitalista? 

"A Rede" retrata que conflitos entre países atingem sempre as pessoas mais pobres e simples independente do sistema, e isso o faz sem sutilezas e com doses de sarcasmo, os interesses pessoais na política sempre vão à frente e o cidadão que se vire para sobreviver, em uma parte Chul-woo vidrado com as luzes e lojas se depara com uma prostituta e não entende como em um país tão rico e livre uma moça tenha que se submeter a isso, são esses tipos de cenas que desconstroem a perfeição do capitalismo da Coreia do Sul e a imagem democrática que construíram para o país. Para Chul-woo existe outros valores, como a família, mas ele ao sair do casulo percebe seu país diferente e também com interesses próprios e não na população como o socialismo prega. O olhar de Chul-woo vai nos guiando pela história e descortinando os lados, uma sensação de desolação o atinge e consequentemente nos possibilita a pensar com mais clareza sobre o jogo de poder, as hipocrisias do sistema e o como tudo isso recai sobre o cidadão comum. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Trama Fantasma (Phantom Thread)

"Trama Fantasma" (2017) dirigido por Paul Thomas Anderson (Vício Inerente - 2014) é um filme grandioso que proporciona variados olhares e sentimentos sobre a trama, é elegante e charmoso, mas também desperta repulsa e antipatia, são opostos que se unem com total perfeccionismo, assim como os personagens e a obsessão que vai penetrando e se acomodando sorrateiramente.  
Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que constantemente entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante.
Reynolds Woodcock é um alfaiate de luxo, confecciona vestidos divinos para a altíssima sociedade britânica, está acostumado com todos a seus pés e tem como apoio a irmã Cyril, que administra tudo ao seu redor, Reynolds é metódico e machista, a figura da mãe é um fantasma que o rodeia, as mulheres entram e saem de sua vida como pedaços de panos, quando enjoa pede para sua irmã dar um jeito, sempre se mostra altivo e seguro de si e é fácil criar antipatia por ele, seu modo de olhar e suas manias avançam para o espectador de forma áspera, a cada gesto e olhar do personagem é muito importante para desvendá-lo. Quando conhece Alma, uma garçonete, se encanta e encontra nela o modelo perfeito para a sua arte, Alma não é boba e entende as aspirações dele, o admira por isso e logo está instalada na grande casa servindo como modelo para os vestidos e participando daquele mundo permeado de inspirações e muito trabalho. Reynolds não para um segundo, está sempre fazendo esboços e criando, no período da manhã não pode haver sequer um ruído, tudo é regrado e organizado, Alma se insere rápido nesse meio e não faz nenhum tipo de objeção, ela se entregou aos caprichos do artista e vai nutrindo sua paixão que nunca é suprida, ele é um homem impenetrável enquanto cria e não permite que sentimentos o atrapalhe, e então Alma percebe que precisa tê-lo indefeso, como quando uma criança adoece e necessita da mãe. Só assim ele a observará de outro ponto de vista e saciará as suas necessidades. É uma troca um tanto absurda, mas é dessa maneira que encontram equilíbrio, Alma cuida e derrama todo o seu amor para Reynolds ressurgir forte novamente. 

Alma dá indícios de sua personalidade logo no início, se entrega facilmente aos desejos de Woodcock, seu semblante aparentemente simples esconde inúmeros complexos, mas Woodcock lhe dá uma outra visão de si mesma e ela se apega a esse olhar, sabe que seu intuito é usá-la até quando enjoar, mas ela também está disposta a usá-lo e desvendar seus segredos, Reynolds em determinada parte diz que desde pequeno aprendeu a esconder segredos nas bainhas dos vestidos, mas Alma o descobre frágil e dependente e assim consegue tê-lo para si, Woodcock gosta dos cuidados dela nesse período, há algo de materno nessa relação, uma cumplicidade única.
É um filme de muitas camadas e de muitas belezas, aguça nosso olhar diante dos detalhes, a composição impecável dos personagens hipnotiza, Daniel Day Lewis - inspirado no estilista espanhol Cristóbal Balenciaga - incorpora um homem charmoso e de extremo talento, metódico se debruça ao trabalho e não dá espaço para relações justamente por receio de que suas inspirações parem, Alma o desestrutura, mas descobre uma maneira de aquietá-lo e de tê-lo precisando dos seus cuidados. Alma é uma personagem bastante interessante, é simples e ao mesmo tempo altiva, devotada de um jeito singular. 

"Trama Fantasma" é requintado e original, retrata o sofisticado mundo da moda da alta classe britânica dos anos 50, os vestidos também são personagens e garantem o espetáculo, todo o processo de confecção esbanja delicadeza e devoção, o aspecto psicológico intriga e há pitadas de humor negro, tudo se desenvolve sutilmente e abarca um apanhado de reflexões, são personagens repletos de nuances e que aos poucos vão sendo desvendados. A trilha sonora composta por Jonny Greenwood é outro ponto que engrandece a obra e nos arrebata. 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Vingança (Revenge)

"Vingança" (2017) dirigido e roteirizado pela estreante Coralie Fargeat é um thriller sangrento que evoca o clássico "A Vingança de Jennifer" (1978), o renascimento e o acerto de contas da protagonista é estonteante e imensamente satisfatório, traz com muito pulso firme a discussão da cultura do estupro, só que abordado pelo viés exploitation, o que é algo arriscado e subversivo, mas acaba acertando em cheio e é impossível não se conectar com o rumo que a história toma, a tensão e a vibração seguem por todo o desenvolvimento e o espectador se deleita com a enxurrada de sangue exibida. 
Jen (Matilda Lutz) chega de helicóptero com seu amante bem-sucedido Richard (Kevin Janssens) em uma região desértica para um final de semana, a sensual Jen é o desejo de qualquer hétero, corpo escultural e imensamente provocante, ela está ali para curtir e se esbaldar, no dia seguinte chega dois amigos de caça de Richard, Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchede), logo de cara começam a comer a garota com os olhos, o pensamento que ela seja uma puta pela situação em que se encontra é nítido, a noite todos bebem e se divertem, Jen dança com Stan e isso dá impulso para ele chegar nela sem nenhum escrúpulo, na manhã enquanto Richard vai resolver problemas dos passaportes, Stan chega nela e investe, quando a moça o repele fica nervoso e termina a estuprando, Dimitri chega no quarto e consente e simplesmente aumenta o volume da TV para abafar os gritos e vai nadar. Quando Richard volta eles contam o acontecido e Jen está devastada, só que aí Richard preocupado que Jen conte algo e desmanche sua imagem e casamento decide se livrar dela, Jen desesperada começa a correr pelo deserto e para diante de um penhasco, Richard tenta convencê-la de que tudo se ajeitará e quando chega próximo a empurra e ela cai espetada em um galho, antes deles chegarem no local para se desfazer do corpo, Jen consegue escapar, se rasteja deixando um grande rastro de sangue, é aflitivo acompanhar o seu renascimento, mas vai ficando maravilhoso à medida que ela ganha forças para se vingar de seus agressores. 

Jen é vista apenas como um objeto sexual, é caracterizada como uma puta que com certeza está a mercê de qualquer um, para Stan é incompreensível ela não querê-lo, é inadmissível uma mulher linda e exuberante recusar um homem, uma mulher não pode querer se divertir com seu amante do mesmo modo que ele se diverte com ela, pois é considerada vadia ao modo que o homem é considerado pegador. Ela é tão descartável que depois que a violentam a jogam penhasco abaixo, mas eles não contavam que ela sobreviveria e que muito menos ainda provocasse a morte deles de maneira tão brutal. Jen renasce e adquire instinto de sobrevivência, por conta do estilo do filme joga-se qualquer tipo de explicação ou se seria possível isso ou aquilo, o interessante aqui é a inversão que ocorre quando Jen começa a persegui-los, de predadores se tornam presas, os machões se desfazem e expelem medo por todos os poros, e como é gratificante vê-los nesta situação. O sangue é jorrado em demasia e a dor no rosto é sempre evidenciada, a cena em que Jen se recupera numa caverna é altamente alucinante e tantas outras causam desassossego, como a do vidro sendo retirado do pé de um deles.

"Vingança" é um filme estilizado e promove um acerto de contas catártico, Matilda Lutz está impecável em sua transformação, o foco do filme está em colocar os homens numa posição de fragilidade e objetificação, inverte-se os papéis quando Jen os persegue e os expõe de maneira constrangedora, a violência e o sangue é o que impera. Um ótimo exemplar de cinema exploitation moderno!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Tempo e o Vento (Bes Vakit)

"O Tempo e o Vento" (2006) dirigido por Reha Erdem (Kosmos - 2010, Jîn - 2013) é um retrato duro e poético sobre o rito de passagem de três crianças numa pequena aldeia do noroeste da Turquia, escondidas entre montanhas e colinas elas vão se confrontando cada vez mais com uma realidade preestabelecida, assim como o ciclo da passagem das estações e a alternância entre noite e dia, o amadurecimento e a transformação vêm com peso e responsabilidade de repetir o mesmo trajeto das gerações anteriores.
Em um pequeno vilarejo do interior da Turquia, um grupo de crianças tenta sobreviver às dificuldades do cotidiano por meio da imaginação e da integração com a natureza e suas estações do ano. A história é bastante fluída, não há exatamente algo específico, simplesmente o cotidiano tedioso do local sendo exposto com lirismo e a natureza se mesclando à mudança das crianças, talvez o personagem que mais se destaque seja Ömer (Özkan Özen), que a maior parte do tempo dá asas a sua imaginação e cria planos para matar seu pai, o imã da aldeia, o motivo seria por causa que o pai destine todo seu carinho e admiração ao irmão mais novo, que sempre está com um sorriso no rosto respondendo as perguntas do pai, ele passa os dias andando e subindo as montanhas com seu amigo Yakup (Ali Bey Kayali), este que nutre uma paixão secreta por sua professora, ele é aplicado e sempre está às voltas dela, Yakup com o decorrer vai percebendo seu pai e o tratamento humilhante que recebe do avô, isso reflete no respeito que sentia por ele. Yildiz (Elit Iscan) é apegada mais ao pai e não entende o porquê a mãe nunca fica do seu lado, ela fica confusa e brava quando escuta os pais fazendo sexo, pois isso pode gerar mais responsabilidade, um novo bebê para ela cuidar, a obrigação surge ao mesmo tempo que eles amadurecem, não há espaço para desejos pessoais, o ciclo geracional está entranhado. Exemplificando de maneira poética surgem as paisagens naturais que se fundem perfeitamente ao rito de passagem, há cenas em que as crianças são mostradas deitadas imóveis junto a folhas e galhos ou cobertas de terra, pode-se pensar que elas estão apenas dormindo ou que o tédio as domine, mas pode-se deduzir que seja um tipo de metamorfose para a chegada da vida adulta, conforme vão percebendo que estão andando nos mesmos caminhos tortuosos dos pais que também foram percorridos por gerações anteriores, vão aderindo as mesmas dores e frustrações, percebem que por mais que estudem e que a modernidade seja chamativa, nada realmente muda ali, uma certa melancolia invade as crianças por terem noção que seus pais estão reproduzindo o que seus pais lhe fizeram e que foi sempre assim.

O ambiente árido também conversa com o tipo de tratamento que os pais oferecem aos filhos, poucas são as demonstrações de afeto, a autoridade para impôr respeito é o que determina tudo, Yakup em dado momento observa seu pai sendo humilhado pelo avô, que diz que é um inútil e que não serve nem para levantar um muro, Yakup o vê chorando e toda a imagem que tinha dele se desfaz, é a tristeza de perceber que o pai reproduziu exatamente o mesmo com ele. O amadurecimento vem repleto de fardos e um amontoado de gerações sobre as costas. Tudo se repete. 

Encantador como a natureza nos filmes de Reha Erdem é filmada se tornando personagem, um misto de fascinação e angústia, neste a natureza é majestosa e apesar da amplitude e infinitude a sensação é de aprisionamento e opressão. A trilha sonora imponente de Arvo Pärt eleva e hipnotiza, reflete-se variadas coisas, principalmente se é possível quebrar ciclos geracionais permeados de fortes tradições e cultura religiosa.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Caminho do Bosque/This Very Moment (Milchwald)

"Caminho do Bosque" (2003) dirigido por Christoph Hochhäusler (A Cidade Abaixo - 2010) é um filme desconfortante e que devagar vai inserindo uma sensação de que algo ruim acontecerá, as situações vão numa crescente angustiante e os personagens amadurecendo, tanto em suas paranoias e obsessões, como por conta do sofrimento e experiências traumatizantes.
Sylvia (Judith Engel), madrasta de Lea (Sophie Charlotte Conrad) e Konstantin (Leo Bruckman), vai buscá-los na escola e decide fazer compras com eles do outro lado da fronteira com a Polônia. Até que uma discussão feroz irrompe e ela, num impulso, para o carro no meio do nada, joga as crianças para fora e vai embora furiosa. Quando ela volta, poucos minutos depois, não há mais sinal dos dois. Depois de uma rápida busca, Sylvia decide voltar para casa, culpada. Enquanto isso, Lea e Konstantin são encontrados por Kuba (Miroslaw Baka), um entregador, que promete ajudá-los. Mas a essa altura as crianças têm dificuldade em acreditar na palavra de um adulto.
A relação entre as crianças e a madrasta é conflituosa, Sylvia os atura por ser absolutamente louca por Josef (Horst-Günter Marx), ela é relapsa e principalmente Lea a confronta, um dia indo a um shopping do outro lado da fronteira com a Polônia perde a paciência quando pedem para fazer xixi, manda-os para fora do carro e assim os deixa sozinhos no meio do nada, quando decide voltar eles não estão mais lá, Sylvia os chama, mas não se empenha em procurá-los, ao invés de ficar preocupada volta para casa e acha que pode esconder do marido a ausência dos filhos, por medo de Josef deixar de amá-la guarda para si o acontecido e ele desesperado começa uma busca, a polícia falha na detecção do paradeiro e quando uma pista surge segue por si mesmo a jornada de encontrar Lea e Konstantin. A personalidade de Lea é forte e ela é a guardiã de seu irmão, ela sempre caminha a frente e toma as decisões, tudo parece confuso no início, mas conforme as horas passam os sentimentos vão se modificando, surge a fome, o frio e o sono, tudo parece melhorar quando encontram Kuba, que oferece comida e abrigo, mas como percebe que a responsabilidade foi jogada nas suas mãos decide sair de cena, ele é uma figura que pouco se interessa em avisar a polícia ou levá-los de volta ao lar, simplesmente vai seguindo, há tentativas de contatar o pai, mas em vão. Só depois de ver na TV um anúncio de recompensa pelo paradeiro das crianças volta atrás para tentar recuperá-las. 

Kuba reencontra Lea sozinha, pois ela se perdeu do irmão, as coisas se modificaram muito, Lea está ainda mais arisca e não acredita mais em nada e Konstantin é encontrado na beira da estrada sujo e faminto, quieto não quer nem mais conversar com a irmã, toda essa andança alterou sua personalidade inocente e pura.
O filme vai entremeando as histórias, as crianças caminhando sem rumo e depois na companhia de Kuba, o pai na procura inconformado com o sumiço e Sylvia que exibe um semblante apático que só se esvai quando se dá conta que ele realmente pode encontrá-las. Quando Josef recebe a ligação de Kuba informando que está com elas e indica o local ela vai junto e por coincidência no banheiro de um restaurante se depara com Konstantin e Kuba, se desespera, mas se mantém calada e logo depois passa mal.

Tudo segue para o encontro, mas as circunstâncias modificaram os sentimentos e o que de início exibia neutralidade se transformou em desconfianças e inseguranças. 
"Caminho do Bosque" tem um quê do conto "João e Maria" e incute ansiedade de forma progressiva, sua atmosfera vai se tornando ameaçadora e a única coisa que se deseja é que Lea e Konstantin encontrem o caminho de casa.