quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Nossa Irmã Mais Nova (Umimachi Diary)

"Nossa Irmã Mais Nova" (2015) dirigido por Hirokazu Koreeda (Boneca Inflável - 2009, Pais e Filhos - 2013) é um filme delicado que coloca em ênfase o cotidiano e a valorização da vida através de acontecimentos tristes. A família é tema recorrente na filmografia do diretor, inspirado em um mangá de Akimi Yoshida, conta sobre três irmãs - Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kaho) - que vivem juntas em uma casa grande na cidade de Kamakura. Quando seu pai - ausente da casa da família nos últimos 15 anos - morre, elas viajam para o interior para seu funeral, e conhecem Suzu (Suzu Hirose), sua tímida meia-irmã adolescente. Após criar laços rapidamente com a órfã, elas convidam-na para viver em Kamakura. Suzu ansiosamente concorda e uma nova vida de alegres descobertas começa para as quatro irmãs.
É de um episódio melancólico que nasce uma bela amizade, Suzu é uma adolescente madura e que tem carinho pelo pai que acabara de falecer, já as outras o tem como uma figura distante, apenas a mais velha tem recordações do pai. A mãe das meninas há tempos foi embora e os dois lados guardam mágoas e também orgulho para se visitarem. Sachi, Yoshino e Chika são super diferentes entre si, mas se amam e se protegem, moram juntas e se viram como podem na grande velha casa que a família deixou. Com a morte do pai, surge uma aproximação significativa com Suzu, ao convidá-la para morar com elas em Kamakura, Suzu aceita. Daí pra frente os silêncios predominam grande parte da trama, principalmente a respeito dos sentimentos, os diálogos giram em torno do dia a dia, às vezes uma conversa sobre o passado vem à tona e observamos como cada uma lida com os acontecimentos.
Sachi é a mais velha e responsável, tem um comportamento sério, ela é enfermeira e mantém um caso com um médico casado, Yoshino é engraçada e despojada, mas a sua inconstância em empregos e com namorados revela uma faceta triste, ela está sempre tomando cerveja ou umeshu. Chika é excêntrica, risonha, mas silenciosa. A relação entre elas é agradável, apesar das brigas corriqueiras nunca deixam que nada as afete. Suzu chega na casa com curiosidade e esse ambiente novo lhe proporciona um outro olhar, já que suas irmãs têm uma visão diferente do pai. Ela vai à escola, participa dos treinos de futebol e experimenta novas sensações. As conversas são interessantes por mostrar vários ângulos da história, com Sachi é como se fosse uma mãe falando, com Yoshino são conselhos de amiga e com Chika é uma troca, Suzu conta as suas lembranças e a outra imagina que poderia ter sido com ela.

Um ponto da trama a se destacar é a visita da mãe, ela quer conhecer Suzu e ver como tudo está, dar seus palpites, entre tantas desavenças o que predomina no fim é a angústia da distância que há entre elas, Sachi tenta reverter um pouco, uma tentativa para que dali pra frente seja diferente. O diálogo que acontece no cemitério resume a relação entre elas, ao visitar o túmulo da avó de Sachi, a mãe diz: "Por todo esse tempo que não a visitei, minhas desculpas. E por não ser uma boa filha". Sachi a olha espantada, pois reflete perfeitamente na relação delas.
É com encanto que tudo se desenvolve e com espontaneidade e sinceridade que as coisas se transformam, não há grandes eventos ou reviravoltas, é o cotidiano simples que Hirokazu Koreeda tanto preza que se desnovela, é a delícia de viver os momentos mais comuns, e também passar pelas tristezas e sofrimentos com coragem e amabilidade.

"Nossa Irmã Mais Nova" mesmo tendo algo de melancólico, principalmente ao que concerne a dificuldade dos laços familiares, é quase sempre alegre. As emoções são muitas, são contidas, reprimidas, não existe muito contato físico e demonstrações de afeto, a cultura japonesa tem essa característica, mas os olhares e as palavras ditas são suficientes para entender. Para completar a trilha sonora composta por Yoko Kanno complementa com a aura serena e tocante. O longa é deveras uma poesia visual que inebria a cada cena.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lavoura Arcaica

"...e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é..."

"Lavoura Arcaica" (2001) dirigido por Luiz Fernando Carvalho (Capitu - 2008) é uma adaptação fiel do livro homônimo de Raduan Nassar, uma obra sensível e imensamente poética, uma joia da literatura nacional. Tudo foi transposto com beleza, cada dilema e cada complexidade, textos integrais são ditos pelos atores que se expressaram com total dedicação. É um exemplar maravilhoso e um dos grandes filmes do cinema nacional, foi concebido com delicadeza e nos delicia durante o tempo que nos toma, também é uma experiência transformadora que coloca em evidência as escolhas, a vida em família, a liberdade, a religiosidade, o amor, o tempo, entre tantos outros temas caros à nossa existência. 
"Lavoura Arcaica" narra em primeira pessoa a história de André (Selton Mello), que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro (Leonardo Medeiros), passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.
Sem ordem cronológica, André faz uma jornada sensível a sua infância, contrapondo os carinhos maternos e os ensinamentos quase punitivos do pai. Este valoriza acima de tudo o tempo, a paciência, a família e a terra, fiado na doutrina cristã. Mas André não aceita esses valores. Ele tem pressa, quer ser o profeta de sua própria história e viver com intensidade incompatível com a lentidão do crescimento das plantas. Nesse trajeto, a paixão incestuosa por sua irmã Ana (Simone Spoladore), e sua rejeição, exercem papel fundamental na decisão de fugir da casa da família. A mãe desesperada manda o primogênito Pedro buscá-lo para tentar reconstruir a paz familiar. Trazido de volta para a fazenda, André é recebido por seu pai em uma longa conversa e uma festa que, ao invés de resolverem o conflito, evidenciam a distância intransponível entre as gerações. Por essa razão, a história é muitas vezes descrita como uma versão invertida da parábola do filho pródigo. Ambientado na década de 40, numa comunidade rural formada por imigrantes libaneses, a família de André é comandada com rigidez pela figura do pai (Raul Cortez), que preza pelos valores cristãos, os filhos cumprem uma rotina dominada pelo tédio e pelo trabalho, André se rebela e decide ir embora de lá, principalmente, por estar apaixonado pela sua irmã, Ana. Esta foi a forma que encontrou para expor seu desejo de liberdade. Tomado de angústia ele vai viver sozinho longe de tudo numa pensão suja, sem a abundância que tinha em casa, a sua fuga afeta todos os membros da família, especialmente, Ana. A mãe inconsolável, pede para o filho mais velho, Pedro, que o traga de volta. O encontro dos dois é regado a diálogos intensos e junto a devaneios imergimos no passado de André.
Cheio de poesia visual, "Lavoura Arcaica" causa incômodo, o personagem André é dominado pela angústia e ele a todo instante parece querer expelir isso de si, são cenas que causam desconforto, mas não simplesmente pelas situações retratadas, como a primeira cena em que ele se masturba ferozmente caído no chão, mas pela significância que elas têm para o protagonista. A direção de fotografia, assinada por Walter Carvalho é um primor e ela é fundamental para passar os mais variados sentimentos, tem uma textura seca e suja. A trilha sonora com influências de música árabe é um complemento belíssimo, som e imagem se integram perfeitamente e intensifica as sensações.

"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto." 

O filme aborda temas complexos, como a difícil interação entre pais e filhos, a criação rígida em que a figura do pai é que exerce poder incontestável, minando desejos e anseios dos filhos, um pai que ao mesmo tempo é bom, mas ignora que os filhos tenham suas fraquezas. Nesta família patriarcal, a mãe é somente uma figura que carrega as dores dos males que penetram o seio familiar, ela é a que toma os filhos nos braços, algo que só fortalece esse ciclo sufocante de hipocrisia. 
A religião acentua as regras morais ditadas pelo pai, que cego pelas doutrinas não consegue enxergar o que se passa a seus filhos, isso afasta André que não consegue pedir ajuda ao pai, quando volta para casa ele tenta conversar, inclusive a melhor parte do filme e uma das cenas mais belas, André fala de suas dores, mas seu pai é incapaz de compreender.

"– Por que empurrar o mundo pra frente? Se já tenho minhas mãos atadas, não vou, por iniciativa, atar meus pés também. Por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem. Eu já não vejo diferença. Tanto faz que as coisas andem pra frente ou que elas andem pra trás.
– Não quero acreditar no pouco que te entendo, meu filho.
– Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro. Da mesma forma, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto. Maior despropósito que isso, só mesmo a vileza do aleijão, que na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz. Fica mais feio o feio que consente o belo… 
– Mais pobre o pobre que aplaude o rico; menor o pequeno que aplaude o grande; mais baixo o baixo que aplaude o alto. E assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam. Acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros. A vítima ruidosa que aprova o seu opressor se faz duas vezes prisioneira.
– É muito estranho o que eu estou ouvindo.
– Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo. Erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente."

As interpretações são sublimes, Selton Mello se entrega vorazmente a seu personagem, se revolta contra à ditadura do pai e se enovela cada vez mais em seus desejos, ele grita, se contorce, se infiltra na natureza, seus pés se esfregando junto à terra é uma constante. Raul Cortez, o pai, dá valor ao tempo e tem a paciência como a maior qualidade, seus sermões antes do jantar exprimem a lei do cabresto, ele é soberano em cena, quando André o contesta não sabe como proceder, a não ser com mais repressão. Simone Spoladore como Ana não diz uma palavra durante todo o filme, mas expressa pelo seu corpo a paixão pela vida, esta que acende em André o desejo pela liberdade. Essa rebeldia de André toma conta de seu irmão caçula, Lula (Caio Blat), que também deseja sair daquela célula familiar e descobrir o mundo. Leonardo Medeiros como Pedro, o irmão mais velho e que vai em busca de André, passa para frente os mesmos valores que o pai ensinou, mas vendo e ouvindo o irmão que está perdido e acometido por delírios e pela epilepsia, se amargura diante a situação. 

É um retrato pertinente da dura relação entre pai e filho, da distância das gerações que causa a falta de diálogos, e o como o conservadorismo religioso danifica ainda mais, pois o amor é distorcido, cria-se regras e castra-se a liberdade do querer e do pensar. O argumento da tradição serve para oprimir e cometer injustiças, as mulheres da casa que o digam, quando o pai é contestado, simplesmente diz-se que é tradição.
"Lavoura Arcaica" é um filme denso, indigesto, lírico, também longo e enfadonho, mas de um valor imensurável para quem aprecia obras poéticas, mergulhar em sua narrativa é uma experiência única de reflexão. A sensação causada não passa após seu término, ao contrário, ela cresce dentro de nós à medida que pensamos nas questões abordadas.

"O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória."

sábado, 5 de novembro de 2016

Trabalhar Cansa

"Trabalhar Cansa" (2011) dirigido pela dupla Juliana Rojas (Sinfonia da Necrópole - 2014) e Marco Dutra (Quando Eu Era Vivo - 2014) é um filme que explora no sobrenatural o horror que o cotidiano estressante causa, a trama segue com metáforas explícitas o quanto o trabalho e a rotina incessante acaba influenciando o psicológico das pessoas. Afinal, o trabalho dignifica o homem?
Helena (Helena Albergaria), jovem doméstica, decide montar o seu primeiro negócio: uma mercearia de bairro. Ela contrata Paula (Naloana Lima) para tratar da filha e da casa. Mas quando Otávio (Marat Descartes), o marido de Helena, fica desempregado, as relações entre as três personagens mudam de repente. Acontecimentos inquietantes começam então a ameaçar o comércio de Helena.
Inicialmente a história mostra o sonho de Helena prestes a se concretizar, o minimercado situado num ótimo bairro, ela dá prosseguimento na papelada, visita o local que antigamente já tinha sido um mercado e que ainda guarda as prateleiras e freezers do antigo dono que sumiu misteriosamente. Mesmo que o marido tenha perdido o emprego ela persiste na ideia e finaliza o acordo. Observamos todo o processo antes e depois da inauguração, exige-se muita determinação e vontade, Helena contrata um ajudante, um açougueiro e uma moça que fica no caixa, já logo de cara dá problemas no estoque, faltam produtos, além de que volta e meia surge um cheiro podre que invade os corredores e afugentam os clientes. Esses imprevistos começam a preocupar Helena, todos os dias conta a quantidade de produtos e sempre dá por falta, até que desconfia do ajudante e o despede, a moça do caixa também é fiscalizada corriqueiramente, uma certa obsessão toma conta de Helena, ela não é mais capaz de descansar, em sua casa a filha está mais apegada a empregada e se irrita por tudo estar fora do lugar, pois não é mais ela que limpa e arruma, também sente ciúmes da relação da filha com Paula, esta que trabalha de forma irregular e recebe um salário incompleto, fora que dorme no próprio serviço num quartinho apertado e sem ventilação. 
Nesse meio tempo Otávio procura emprego, em uma das entrevistas marcada com um amigo, é pego de surpresa ao integrar uma entrevista coletiva e desiste por não querer se submeter a uma dinâmica ridícula. Ele leva o currículo em variadas empresas, mas nada acontece. O que resta é trabalhar por comissão em casa como vendedor de seguro de vida. Ele não é muito presente na rotina de Helena, mas o vemos esporadicamente ajudá-la. A tensão aumenta quando a parede que foi recentemente pintada mofa depois do episódio do cheiro ter sido resolvido, Helena tenta disfarçar por algum tempo, mas a curiosidade do porquê a parede estar daquele jeito é maior, daí ela pega uma marreta e a destrói, o que sai de dentro é algo inimaginável. 

É uma enorme metáfora sobre o como o trabalho em excesso transforma o ser humano em animal selvagem, o deixando insatisfeito, frustrado, pois como se vê Helena nunca está feliz, apesar de ter realizado o sonho de trabalhar para ela mesma, os problemas só aumentam, quando não é a contabilidade, é a estrutura, e por aí vai. Helena se sacrificou pelo trabalho e só perdeu, o cansaço físico e psicológico a detonou.
O suspense dá o tom à história, estranhos acontecimentos permeiam o cotidiano, é criada uma atmosfera obsessiva onde eventos sobrenaturais se materializam, o filme mescla essas passagens com uma densa crítica social sobre a competitividade do mercado de trabalho, o desfecho ao contrário da aura sinistra, dá um choque de realidade.

"Trabalhar Cansa" é um exemplar interessante do cinema nacional, começando pelo gênero, o terror é inserido com destreza e assemelha-se com um pesadelo, o drama vivido pelos personagens é angustiante, as incertezas e as frustrações em torno dessa busca por encontrar soluções para ter uma vida melhor.
Tudo o que rodeia a esfera do mercado de trabalho está representado no filme, assusta de verdade analisar a transformação do ser humano por conta de conseguir e manter um emprego. Perde-se boa parte de si nessa caminhada. Triste e cruel!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O Retorno do Idiota (Návrat Idiota)

"O Retorno do Idiota" (1999) dirigido por Sasa Gedeon é um filme tcheco inspirado livremente na personagem da obra "O Idiota" de Fiódor Dostoiévski.
Olga (Tatiana Vilhelmová) ama Emil (Jirí Langmajer), que ama Anna (Anna Geislerová), que ama Robert (Jirí Machácek). O Idiota ama todo mundo. E esse é o seu problema. Ele ama a todos, na mesma proporção. Frantisek (Pavel Liska), o Idiota, não conhece quase nada e nunca experimentou muita coisa. Ele passou grande parte de sua vida em um hospital psiquiátrico, assim tem uma visão muito simples do mundo. Agora está de volta para seus parentes, embora eles não saibam de sua existência. São pessoas que só conhecem sua própria vida e suas relações, que são tão complicadas e enredadas que acabam por afetar Frantisek. Conflitos entre irmãos, amantes e casais são presenciados por ele, em situações estranhas mas às vezes cômicas. Com seu olhar ingênuo, ele é o único a entender essas pessoas, que aparentemente se importam apenas com sua própria felicidade. Apesar de ver de perto as manobras, traições e revelações dolorosas que envolvem a família, ele não julga as atitudes e sentimentos de cada um deles. Porém, somente aquele que for capaz de compreendê-lo, poderá ser capaz de ajudá-lo a... retornar.
O filme é uma comédia reflexiva sobre os problemas humanos, as relações, as hipocrisias, as infelicidades, a perda de sentido na existência. Frantisek por sempre ter vivido afastado da sociedade se deslumbra com pouco, e por inspirar inocência e bondade gera esperança, mas provoca também irritação e piedade. Mas ao observar as situações que se desenrolam, pensamos seriamente quem é realmente o louco.
A fragilidade das relações humanas e os vínculos familiares são vistos sob um ponto de vista ameno e generoso. Sua família praticamente desconhece a sua pessoa, aliás nem nos damos conta de que ele faz parte dela, a história vai nos tragando pelo enredo que entrelaça amorosamente os personagens e ao fim todos são enredados pela confusão, sobrando, claro, para o idiota. A surrealidade faz parte de muitos momentos e os elementos cômicos só enfatizam sentimentos pequenos e mesquinhos que o ser humano se acostumou a sentir. 
O filme demonstra o desespero sob uma ótica mais leve, o personagem dotado de bondade e pureza vai experimentando a vida em sociedade, trata todos com compreensão e jamais julga-os, e é exatamente por esse seu comportamento que é chamado de idiota.

Raro é encontrar pessoas como Frantisek, que não se deixam corromper, geralmente não as encontramos, pois estão muito bem escondidas em seus hospícios.
Loucura é viver em meio a hipocrisias, círculos viciosos, aparências, ganâncias, a existência se torna pesada e esquece-se das coisas simples, de se satisfazer com o que somos, de ser gentis e ampliar o olhar perante a vida. 
"O Retorno do Idiota" exibe uma linguagem interessante, traz sentimentos densos mas alivia com a comicidade, assim refletindo sobre os males da existência.

"No amor abstrato para com a humanidade, não se ama a ninguém, e sim a si próprio."
                                                                                           - O Idiota, Dostoiévski

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Achados Musicais

Segue mais uma lista de indicações musicais (outras listas aquiaqui e aqui) que vão na contramão de tudo, músicos originais, inusitados e que fazem uma mistura vibrante de gêneros e vozes capazes de penetrarem a nossa alma. 
Música boa para revitalizar!

Caravan Palace - França
Caravan Palace é um grupo francês que mistura jazz com música eletrônica, a raiz do swing jazz, trompete, clarinete e contrabaixo com a atual música eletrônica e seus sintetizadores, além da uma pegada cigana. Tem ar de belle époque e rave ao mesmo tempo. Um som surpreendente, delicioso e super animado. Confira aqui.

Papooz - França
Papooz é um duo francês bem peculiar e ao mesmo tempo fácil de assimilar, tem um estilo definido como tropical garage, são canções pop com uma pegada de bossa nova e ares de anos 70, tem leveza e as vozes criam uma harmonia incrível. Recentemente lançaram o álbum intitulado "Green Juice". Confira aqui.

Milky Chance - Alemanha
Milky Chance é um duo alemão que mescla pop alternativo, folk, reggae e música eletrônica, tendo a voz de Clemens Rehbein como a principal característica. O álbum "Sadnecessary", lançado em 2013, é aparentemente simples, mas surpreende e cativa a cada música. Confira aqui.

Deluxe - França
Deluxe é um sexteto francês que esbanja espontaneidade, essa característica é algo marcante nos chamados músicos de rua devido o improviso, eles originalmente tocavam em praças, estações de metrô na cidade de Aix-en-Provence. Com influências de jazz, funk e hip hop a uma mistura de pop eletrônico, surge um clima contagiante que é impossível ficar parado. Tem uma mescla do folclórico com o moderno, são músicos abertos a possibilidades. Lançaram nesse ano o segundo álbum intitulado "Stachelight". Confira aqui.

King Krule - Reino Unido


Archy Marshall é King Krule, com apenas 21 anos e dois álbuns lançados "6 Feet Beneath the Moon" (2013) e "A New Place 2 Drown" (2015) se sobressai com a sua melancolia e sua potente voz, é um cantor com uma forte carga emocional, letras depressivas e muitas influências, desde o jazz, trip hop até o pós-punk depressivo dos anos 80, seu estilo beira o darkwave, mas defini-lo é impossível. Com certeza uma figura que chama a atenção e que surpreende com sua vigorosa voz. Confira aqui.

Lou Doillon - França
Filha da atriz e cantora Jane Birkin com o cineasta Jacques Doillon, portanto meia-irmã da também atriz e cantora Charlotte Gainsbourg, Lou Doillon é atriz e modelo, estreou no cenário musical com o álbum "Places" em 2012, suas canções são profundas e atraentes, sua voz singular e sensual passa por várias nuances de grave e confere um ar de elegância. Há uma sensação de solidão, mas é agradável. Seu segundo álbum lançado em 2015 chama-se "Lay Low". Confira aqui.

Devil Doll - EUA
Devil Doll é uma banda de rockabilly americana comandada por Colleen Duffy, com dois álbuns lançados "Queen of Pain" (2002) e "The Return of Eve" (2007), além do rockabilly, o som também passeia pelo psychobilly. Infelizmente, Colleen Duffy recentemente foi diagnosticada com a Síndrome de Ehlers-Danlos e está com a carreira paralisada.

Fantastic Negrito - EUA
Xavier Dphrepaulezz é Fantastic Negrito, cantor e multi-instrumentista americano que tem em seu som uma poderosa mistura de black music, blues, jazz e uma atitude punk à la Oakland. Sua vida marcada por intensas e difíceis experiências só o conduziram para a sua fase de agora, como ele mesmo diz, precisou nascer três vezes, suas canções retratam essas vivências e por isso chegam tão intensas e viscerais. Seu último álbum lançado é "The Last Days of Oakland" (2016). Confira aqui.

Filipe Catto - Brasil
O brasileiro Filipe Catto é cantor, compositor e violonista, sua singular voz aguda e afinadíssima chega suave aos ouvidos, a comparação ao timbre de Ney Matogrosso é inevitável, mas suas referências vão de Elis Regina, Cassia Eller a Jeff Buckley, certamente um novo respiro para a MPB, ele tem uma dramaticidade e um apuro ímpar. Tem dois álbuns lançados, "Fôlego" (2011) e "Tomada" (2015). Confira aqui.

Monika - Grécia
Monika Christodoulou ou apenas Monika, é uma cantora e compositora grega, também toca vários instrumentos, incluindo piano, guitarra, saxofone, acordeão e tambores. Tem três álbuns lançados, sendo que só o terceiro "Secret in the Dark" (2015) alcançou sucesso fora de seu país, também marca seu novo estilo, com uma mistura de funk e disco music, sua voz desprendida e andrógina ajuda bastante no clima dançante. Confira aqui.

Menção Honrosa

Buena Vista Social Club - Cuba
Buena Vista Social Club era um clube de dança e atividades musicais de Havana, Cuba, onde os músicos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel "Puntillita" Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz e Omara Portuondo. Ao longo dos anos novos membros entraram no grupo. Foi fechado na década de 1950.
Na década de 1990, aproximadamente 40 anos após o fechamento do clube, inspirou uma gravação do músico cubano Juan de Marcos González e o guitarrista americano Ry Cooder com os músicos tradicionais, o disco, chamado Buena Vista Social Club tornou-se um sucesso internacional. Foi quando então o diretor alemão Wim Wenders filmou a apresentação do grupo na Holanda, e uma segunda apresentação no famoso Carnegie Hall em Nova York, transformando num documentário, acompanhado de entrevistas feitas em Havana com os músicos. Em 2006 foi lançado "Rhythms del Mundo", um álbum com as estrelas do Buena Vista e da música cubana Ibrahim Ferrer (sua última gravação antes de morrer em 2005) e Omara Portuondo com artistas como U2, Coldplay, Sting, Jack Johnson, Maroon 5, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, entre outros. As apresentações do grupo terminaram em 2015.
É um mergulho delicioso na cultura cubana, uma sonoridade vigorosa e elegante que prima pela identidade e, claro, jamais pode ser esquecida. Viva Buena Vista! Ouça aqui.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Mãe Só Há Uma

"Mãe Só Há Uma" (2016) dirigido por Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta? - 2015), retrata conflitos e complexidades numa narrativa desprendida e suscita reflexões acerca de vários assuntos relevantes.
Inspirado no famoso caso Pedrinho, do qual descobriu apenas na adolescência ter sido roubado na maternidade, Pierre (Naomi Nero), um jovem em fase de descobertas vê sua vida se transformar após sua mãe ir presa e ser jogado em um lar completamente oposto o da sua criação, o conceito que ele tinha de família se desorganiza, sua irmã mais nova também tinha sido roubada, mas por mais criminosa e monstro, como Aracy (Daniela Nefussi) é chamada, ela foi uma mãe. O mundo dele vem abaixo com a descoberta, como deixar de ver a pessoa com quem conviveu até ali como não sendo a sua mãe? A confusão de sentimentos toma conta do garoto quando vai morar com a família verdadeira e ainda mais por estar vivendo um momento de transformações no âmbito da sexualidade.
Pierre parece estar desconectado da situação, as reações não são demonstradas inicialmente, ele é passivo, talvez por não ter outra alternativa e pelo choque da mudança, um reconhecimento de si e do entorno. A nova família é de classe média alta e tem toda uma postura correta, rígida, percebe-se por Joca (Daniel Botelho), irmão de Pierre - que agora é chamado de Felipe, o menino tem referências controladoras, as suas atitudes são em decorrência desta educação. Os conflitos com o passar do tempo vão se inflando, existe uma forçação de barra, tentativas de agradar que mais atrapalham, querem moldar Pierre e escolher o seu futuro, o garoto nem chegou e já planejam tudo. Compreensível que desejam resgatar o tempo de sofrimento, mas fazem de maneira torta, não se cria laços do dia para noite, o amor se constrói, e a compaixão por aquelas pessoas se desfaz quando a hipocrisia dá as caras e o amor se revela puro egoísmo.

O pai (Matheus Nachtergaele) aparece algumas vezes chorando e tem receio de o perder novamente, porém no decorrer identifica-se um sujeito egoísta e preconceituoso, no episódio em que vai à loja comprar roupas com o filho é perfeito, enquanto Pierre/Felipe escolhe roupas despojadas, ele pega as camisas sociais, de saco cheio o garoto decide experimentar um vestido, o que desconstrói completamente o personagem de pai amoroso. A mãe, Glória, também interpretada por Daniela Nefussi, não quer enxergar a realidade, tenta abafar não conversando sobre as atitudes dele e sempre com expressões que beiram a repulsa, seu desgosto perante o filho é nítido. 

O tão desejado reencontro não foi como eles sonharam, Pierre se cansa do conservadorismo daquela família e cada vez mais necessita mostrar quem é, começa a confrontá-los e é aí que o filme fica ótimo, o garoto finalmente se impõe, ganha uma boa carga dramática, são tantos conflitos envolvendo o personagem, além de ter que lidar com a nova família, precisa entender a sua sexualidade, que está em fase de experimentação, nesse ponto o longa não usa de esteriótipos e não diz a orientação sexual ou identidade de gênero, os pais que diziam amá-lo o encaram como uma anomalia por ele sair fora das normas e despejam preconceito atrás de preconceito. 

Destaque para as cenas de explosões emocionais e para as interpretações, Daniela Nefussi encara de forma magistral as duas mães, passa imperceptível de tão bem delineada as personagens, Matheus Nachtergaele também incrível expondo todo o lado de um pai que teve a chance de recuperar o seu filho, mas não o aceita como é, em um diálogo ele diz: "De quantas formas você quer que a gente te perca?", e Naomi Nero entrega um personagem repleto de dilemas, ele o construiu de maneira sensível e espontânea.
"Mãe Só Há Uma" tem uma narrativa livre, autêntica e subjetiva, promove inúmeras reflexões, importantes questões perpassam a trama, principalmente em relação a vínculo familiar e sexualidade, apesar de se sutil e ter delicadeza não deixa de ser pertinente e incômodo em muitos momentos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Born To Be Blue

"Born To Be Blue" (2015) dirigido por Robert Budreau retrata um dos mais marcantes trompetistas e vocalistas de jazz, Chet Baker. 
O filme narra a vida de Chet Baker no final dos anos 1960, depois de muitos anos abusando das drogas e de passar por severos problemas financeiros. Na tentativa do músico retornar à sua carreira gravando sua vida no cinema, acontecimentos imprevistos continuam a representar uma ameaça para o sucesso de sua recuperação.
A aura do filme é nostálgica, segue em tom elegante e é coroada por uma impressionante atuação de Ethan Hawke na pele de Chet Baker, além da estonteante trilha sonora exalando emoção. 
Na trama acompanhamos um período da vida de Chet, um gênio e uma espécie de James Dean do trompete, amado pelas mulheres e respeitado pelos músicos de jazz, ele conseguiu seu espaço em um cenário dominado por negros. No auge de sua carreira se envolveu em inúmeras confusões e desenvolveu um forte vício em heroína, Chet mergulha fundo nas dores de sua existência e sua estrela vai se apagando, o filme foca exatamente na fase em que ele tenta se reerguer, um diretor de cinema aposta nele e em sua história, no set de filmagem conhece a atriz Jane (Carmen Ejogo) que fará com que Chet se mantenha longe das drogas e empenhado a reestruturar sua carreira.
Chet é uma figura excêntrica, ele já tinha perdido um dente quando mais novo e era tipo o seu charme, mas após ser espancado por traficantes a quem devia perde todos os dentes, o que o deixa incapacitado de tocar, Jane dá muita força a Chet, ele volta para o local da infância, mas seus pais parecem distantes, trabalha um pouco num posto de gasolina, se trata usando metadona e nesse meio tempo tenta encontrar uma nova embocadura a fim de voltar a ser quem era. São momentos tristes, pois Chet se machuca, sua boca sangra e parece que não conseguirá. Tocar é toda a vida dele, a única coisa que faz sentido para si. Histórias que demonstram o amor que artistas tem pela sua arte é sempre prazeroso assistir, mesmo que isso os aproximem da loucura. 
Jane é centrada e apaixonada por ele, a todo instante o incentiva, principalmente a ficar longe das drogas. Em dado momento, Chet volta para os estúdios e mostra que sua genialidade musical não se perdeu, então começa a traçar um novo capítulo de sua história, em uma sessão para convidados no estúdio de um antigo amigo emociona a todos com seu romantismo e sua destreza com o trompete.
Interessante as passagens em que mostra o passado, sua rivalidade com Miles Davis e a admiração pelo seu mestre Charlie Parker. Notória a interpretação de Ethan Hawke, carregada de angústia, diálogos certeiros, olhares intensos. Hawke dá vida a canções tristes, românticas e profundamente lindas, fez jus a voz de anjo de Chet. Impossível não se encantar com "My Funny Valentine", "I've Never Been In Love Before" e a canção que dá título ao filme.

A vida de Chet Baker foi marcada por muitas confusões, deixou-se vencer pela serenidade que a heroína o proporcionava. Chet teve duas fases como músico, antes do episódio de perder os dentes, que era conhecido como um jazzista cool, cheio de swing e quando reaprendeu a tocar, cuja sensibilidade tornou-se sua principal característica. Toda a sua dor e seus tormentos são expostos com suavidade, tanto na voz quase sussurrando quanto no seu jeito único de tocar.
"Born To Be Blue" é um filme honesto que retrata um músico genial que se destruiu por não conseguir suportar ficar longe da heroína, a cena final é intensa, dolorida e demonstra um ser humano controverso, magnífico e autodestrutivo, e assim foi até o último dia de sua vida.