sexta-feira, 14 de novembro de 2014
O Jardim (Zahrada)
"Zahrada" (1995) produção eslovaca de Martin Sulík (Panorama - Krajinka - 2000) é um filme que passeia pela surrealidade e o transcendentalismo. Tudo começa quando Jakub (Roman Luknár) é expulso de casa pelo seu pai depois que ele é pego fazendo amor com uma mulher casada. Ele resolve sair da cidade e dar um tempo no campo. Na antiga casa de seu avô - mais exatamente no jardim. Lá, Jakub lentamente deixa a realidade para trás. Pessoas fora do comum o visitam e coisas estranhas começam a acontecer, algumas delas parecem milagres. Entretanto, Jakub descobre o verdadeiro amor com Helena (Zuzana Sulajová), que o ensina a apreciar os delicados mistérios da vida.
Muitos simbolismos são apresentados nesta obra naturalista que expõe as relações pessoais, os desejos, as escolhas, dentre tantas outras questões que afligem os seres humanos. Da forma mais leve possível acompanhamos o personagem Jakub em suas descobertas. A linguagem do filme é poética, se distancia das narrativas convencionais e é fácil ficar confuso, por vezes as situações são aleatórias, mas aos poucos entramos na aura do filme e percebemos que a delicada abordagem é para nos proporcionar sentimentos dos quais estão se extinguindo com o atual modo de vida.
Jakub é professor, mas há algum tempo deixou de lecionar, morando com o pai alfaiate se relaciona com uma mulher casada, após serem pegos resolve ir morar na antiga casa de seu avô, do qual possui um jardim com macieiras e ameixeiras, a casa está velha, mas é um lugar aconchegante que vai propiciando a Jakub experiências novas, lá ele conhece uma moça de atitudes estranhas, mas muito apaixonante por ser tão espontânea.
Está cada vez mais difícil viver em sociedade, há sempre muitos obstáculos, modos de se portar, regras a seguir, meios de se comunicar que a naturalidade de simplesmente ser o que se é fica impossível, além de que há muita competição e comparação, viver de acordo com o que brota dentro de seu ser é inviável, é preciso estar sempre a frente, saber e ter muito. Diante disso resta espaço para viver, essencialmente? Descobrir simplicidades, pequenas poesias, ouvir, aprender e ser gentil? Uma das coisas mais bonitas em Jakub é o seu olhar perante os outros, várias personagens aparecem em seu jardim em diversas situações e ele sempre escuta, pega para si e de certo modo vai se transformando. E assim, o amor por Helena vai crescendo e sua relação com o pai vai ganhando contornos interessantes, diferentes do início do filme.
"Zahrada" é filme para rever, é sensível e subjetivo. Filmes assim deviam ser mais conhecidos, mas infelizmente o que predomina é o mais do mesmo fazendo com que a grande maioria adquira um gosto padrão, e aí fica complicado aceitar algo com uma linguagem mais poética. Compartilho com carinho este filme e espero que muitas pessoas o consigam assistir para se inebriarem com tamanha beleza. O imenso jardim coberto de maçãs dificilmente será esquecido.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
A Pedra de Paciência (Syngué Sabour, Pierre de Patience)
"Sobre uma pedra mágica e legendária: "Se encontrar esta pedra, ponha diante de ti, fale dos seus segredos, dos seus sofrimentos. A pedra te escuta. Tudo o que jamais contaria a outra pessoa, você conta à pedra. Você fala com ela, ela te escuta. E um dia, a pedra arrebenta, desfaz-se em pedacinhos. E nesse dia será livre, libertada de todas as suas dores."
"A Pedra de Paciência" do afegão Atiq Rahimi (Terras e Cinzas - 2005) é a adaptação de seu próprio livro homônimo. É uma obra delicada e intensa.
Um herói de guerra (Hamidreza Javdan) é abandonado por seus companheiros do Jihad e pela mãe e irmãos após levar um tiro no pescoço. Em estado vegetativo, ele fica sob os cuidados de sua esposa (Golshifteh Farahani) que vai, aos poucos, confessando seus segredos e impressões ao marido em coma, fazendo dele sua pedra de paciência e seu caminho para uma nova vida.
O ambiente em que essa personagem vive é marcado por violência, repressão e sofrimento, à beira da miséria ela segue os dias cuidando de seu marido. O papel da mulher em sua cultura é algo realmente triste, não há direitos, oportunidades, e tudo é motivo para julgamentos. Os personagens não têm nomes e o filme é marcado pelos monólogos desta mulher. O ritmo da narrativa é envolvente, acompanhamos a trajetória rumo ao seu descobrimento e libertação.
Inabitável é o local que mora, há bombardeios, a água é insuficiente, o farmacêutico já não lhe vende mais remédios pela falta de dinheiro, além de que precisa alimentar suas filhas. Depois de ver seus vizinhos mortos desesperada sai em busca da única que pode lhe ajudar, ela encontra sua tia (Hassina Burgan) e acaba por permanecer no lugar, uma espécie de bordel, mas todos os dias retorna para cuidar de seu marido. Há momentos em que ela precisa escondê-lo, e numa invasão a casa diz ser prostituta para que não abusem dela, afinal esses homens que dizem lutar por uma causa em nome de Deus adoram jovens virgens e meninos órfãos, prostituas são consideradas impuras, e desse modo o homem cospe nela e vai embora, só que o moço que estava junto começa a ir frequentemente em sua casa e a pagar por seus serviços, ele tem problemas de fala e inesperadamente essa mulher se encanta.
Ao revelar sobre si ao marido começa a sentir algo como a liberdade, isso cresce quando a tia conta a história sobre a pedra de paciência. Ela faz de seu marido, a sua pedra. Um ser que nunca a conheceu e que nem no casamento esteve presente por causa da guerra. Aos poucos descobrimos verdades e situações de desespero que pediam uma saída.
No pequeno quarto, angústias, segredos e ressentimentos que foram guardados por tanto tempo são expostos àquele moribundo. Confissões surpreendentes e libertadoras. Bela interpretação de Golshifte Farahani, delicada, expressiva e que se liberta através da fala. O filme é uma crítica/denúncia à opressão que as mulheres muçulmanas são submetidas, mas não deixa de ter seu caráter universal.
Essa realidade é distante de nós e absurda aos nossos olhos, a mulher é vista como um ser inferior, são proibidas de trabalhar, estudar, andar sozinhas, cobrem o corpo e o rosto com a burca em razão da modéstia, a voz é silenciada. Existem muitos casos de viúvas que se tornam pedintes e outros que por suposições são presas, açoitadas ou mortas. Esse retrato terrível também pode ser visto no dilacerante filme "Osama".
Esteticamente perfeito "A Pedra de Paciência" é um filme bonito, elegante, porém carregado e triste. É importante para que cada vez mais se evidencie e discuta sobre o tema, e as mulheres que sofrem qualquer tipo de repressão possam ganhar voz e dar asas a sua natureza.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Dead Man's Bones (Banda)
"Dead Man's Bones" é o tipo de banda que não se enquadra em nenhum tipo de gênero, é surpreendentemente original, completamente macabra e ao mesmo tempo contagiante, a melhor definição que encontrei é a "Ghost Rock", aliás me indiquem se conhecerem mais alguma coisa que se enquadra nesta categoria. Elementos de terror são incluídos, as letras assustadoras, como "Eu vi algo sentado na sua cama, tocando na sua cabeça", "Você vai perder sua alma esta noite", "Bem-vindo a um lugar onde os pesadelos são a melhor parte de meu dia", ou "Eu me perdi no seu quintal de ossos, agora eu sonho numa cama de facas", são pequenos contos obscuros, mas que não perdem o encanto, as melodias por vezes lembram bandas antigas, a voz calma, e claro, a participação do coral infantil do Conservatório de Silverlake dá todo um ar de Halloween.
"Dead Man's Bones" é um projeto musical criado em 2005 pelos atores Ryan Gosling e Zach Shields, no início a ideia era para ser uma peça teatral, mas acabou não dando certo e então começaram a compor, nenhum dos dois tinha experiência musical, aprenderam a tocar e produziram algo com muito capricho e identidade. Em 2009 lançaram o álbum (até agora o único) que leva o nome da banda. Apesar das músicas terem um aspecto "dark", a beleza se faz presente. Infelizmente depois da divulgação e turnê realizada o projeto encerrou suas atividades, mas vale muito a pena conhecer, as músicas são viciantes.
É sabido que Ryan Gosling é um ator incrível e versátil, vide seus ótimos personagens em "The Notebook", "Half Nelson", "Lars and the Real Girl", "Blue Valentine", "Drive", "The Ides of March", "The Place Beyond the Pines", entre outros. O talento o acompanha e não teve medo de se arriscar na música, ele canta, toca guitarra e baixo, além do piano. Zack Shiels não é tão conhecido, mas o seu gosto pelo sobrenatural fez com que esta parceria desse muito certo. "Dead Man's Bones" é genial por não ser perfeita. É mórbida e divertida!
O álbum possui uma introdução fúnebre de 50 segundos e mais 11 faixas, "Dead Hearts" é triste e termina de forma assombrosa. "In The Room Where You Sleep" está na trilha sonora do filme "Invocação do Mal", essa é mais animada, porém como a música diz: "É melhor você correr", "Buried In Water" é uma das mais tenebrosas, "My Body's A Zombie For You" lembra música dos anos 50, super apaixonante. "Pa Pa Power" é a mais pop, "Young and Tragic" com apenas dois versos: "Eu queria que nós fossemos mágicos. Porque assim não seriamos tão jovens e trágicos" é cantada apenas pelo coral infantil, é emocionante. "Paper Ships", um rock suave, delicioso e sonhador, "Lose Your Soul" é a minha preferida, ritmo e voz em perfeita combinação, e apesar da sonoridade mais agitada, a letra não é muito animadora. "Werewolf Heart" tem uma citação belíssima na voz de uma mulher: "Somos carne e osso quando estamos todos sós, mas juntos eternamente, viveremos", em termos de musicalidade essa é demais, elementos fantásticos, terrificante. "Dead Man's Bones" tem um ritmo bem diferenciado, mescla momentos eufóricos com paradas estranhas. "Você deveria saber, que o mundo foi construído em cima de ossos", e por fim "Flowers Grow Out Of My Grave", bem interessante, ela parece um ensaio. "Quando eu penso em você, flores crescem fora da minha sepultura."
Há o single de divulgação "Name in Stone" que não está incluída no álbum, e a única talvez que tenha um clipe oficial, onde a banda está num cemitério.
Todas as músicas são ótimas e viciantes, a aura de terror predomina em todas, mas sem perder uma certa delicadeza. Vale a pena vasculhar no Youtube ou fazer o download do álbum.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
As Viagens do Vento (Los Viajes del Viento)
Ignacio Carrillo, um trovador que durante anos percorreu povos e regiões, levando a música com seu acordeão, toma a decisão de fazer uma última viagem, através de toda a região norte da Colômbia, para devolver o instrumento a seu mestre ancião, e assim nunca mais voltar a tocar. No caminho, encontra Fermín, um jovem cuja ilusão na vida é seguir seus passos e ser como ele. Cansado da solidão, Ignacio aceita ser acompanhado, e juntos empreendem o percurso desde Majagual, Sucre, até Taroa, além do deserto da Guajira, encontrando-se com a enorme diversidade da cultura do Caribe e vivendo todos os tipos de aventuras e encontros. Ignacio tratará de ensinar a Fermín um caminho diferente do seu, que tanta solidão e tristeza lhe trouxe, mas para isso terá que enfrentar o chamado de seu próprio destino que tem preparadas diferentes sortes para ele.
"As Viagens do Vento" transcende um mito, uma promessa a ser cumprida por um sujeito que tem um acordeão com chifres colados em cada uma das extremidades do fole, e que faz jus a seu apelido: acordeão do diabo. A jornada começa após a morte da mulher de Ignácio, a história é sobretudo, bela e muito pitoresca, e repleta de aventuras. Eles viajam juntos vastos territórios, inúmeros personagens se encontram, e cada situação enfrentada é apenas com o objetivo de regressarem ao proprietário do acordeão que foi amaldiçoado. As diversas áreas da Colômbia parecem esquecidas e perdidas. Andar para essas duas pessoas parece ser uma necessidade interna de encarar a si mesmos, um resgate de suas tradições.
Não há como não se deslumbrar diante as inúmeras apresentações de acordeão, disputas, brigas, experiências únicas, tal como a cena do garoto provando seu dom ao tocar o tambor, para poder ser batizado com sangue de lagarto. Outra sensacional é do duelo em que Ignácio toca, enquanto dois homens brigam com um facão. As travessias de paisagem, os tipos de pessoas diferentes que encontram conforme andam, o popular, a tradição, tudo é exposto em uma fórmula de libertação e de recomeço. São imagens majestosas que dizem por si só.
É minucioso, detalhista, e é muito gratificante poder contemplar cinema de qualidade. A magnitude das imagens, a procura de si mesmo sem saber o que vai encontrar. Como aconteceu com Fermín, ele seguia Ignacio porque queria ser como ele, mas nem tudo é tão simples assim. Um garoto perdido, andando à procura de seu ser. Esse é um caminho solitário, e é preciso que assim seja. Como no fim de sua jornada, que na verdade, estava apenas começando. Ignacio chegou a seu destino, não exatamente como previa, mas o destino tinha preparado algo para quando chegasse. Já Fermín estava apenas iniciando sua jornada.
A fotografia é impecável, a natureza resplandecendo sobre o homem, o ruído do vento demonstrando solidão, recolhimento, recomeço, enquanto Ignácio estava desencantado, Fermín tinha a vicissitude e o idealismo. É lindo ver a cultura, os ritos e tradições por cada lugar que passam, as músicas, as festas, tudo muito cativante. Um filme com identidade. E cada espectador o absorve de um jeito.
"As Viagens do Vento" é um longa maravilhoso que instiga nossa curiosidade ao mostrar uma Colômbia belíssima.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Achados Musicais: Agnes Obel + Bon Iver
Conhecer bandas novas, encontrar aquele som que se encaixa perfeitamente ao teu gosto é sem dúvidas algo muito prazeroso. A música é poderosa e é capaz de causar sensações das mais variadas. Por isso nunca é demais compartilhar, para quem curte conhecer e experimentar novos sons, segue dois achados imperdíveis:
"Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música." (Aldous Huxley)
Agnes Obel
Agnes Obel é uma cantora e compositora dinamarquesa, oriunda de uma família de músicos aprendeu a tocar piano muito cedo encontrando inspiração em Jan Johansson, cujas melodias folk são misturadas ao jazz. Com a ajuda do produtor Elton Theander fundou sua banda intitulada Sohio, e depois de anos finalmente se lançou em carreira solo produzindo seu primeiro álbum chamado "Philharmonics".
O estilo folk clássico agrada a quem curte um som mais intimista, as canções são sempre acompanhadas pelo piano ou violão, é para apreciar e sentir cada detalhe. Bonito e agradável, é impossível não se encantar com a voz doce e as melodias suaves.
Suas inspirações musicais: Roy Orbison, Joni Mitchell, PJ Harvey, John Cale, Sonic Youth, Patti Smith, Joanna Newsom, Kate Bush e também os compositores franceses Claude Debussy, Maurice Ravel e Eric Satie.
Álbum "Philharmonics" (2010)
Dentre as músicas destaco "Riverside", que evoca sentimentos intensos, mesmo tendo uma aura sombria traz um encantamento único, "Just So" remete à infância, sonhos, é suave e simples, "Over the Hill" tem um peso a mais, é um choro, um chamado, mas completamente doce, e "Philharmonics" que intitula o álbum carrega um misto de inocência e mistério. Há também "Brother Sparrow", "Beast", "Avenue", "On Powdered Ground", "Close Watch", e as instrumentais, "Louretta", "Falling, Catching" e "Wallflower". Todas elas são muito curiosas, agradáveis e contemplativas. "Philharmonics" ganhou 5 prêmios em seus país de origem, no que fez Agnes Obel se tornar uma deusa na Dinamarca, Noruega e Alemanha.
Álbum "Aventine" (2013)
"The Curse" é a minha preferida deste álbum, a voz suave e o violoncelo dá um tom característico fazendo com que a música seja austera e leve ao mesmo tempo. "Fuel to Fire" dá a sensação de solidão, de perda, a melodia é uma das mais lindas numa combinação instrumental e vocal perfeita. "Dorian" é envolvente e nostálgica, "Aventine" que intitula o álbum é etérea, desperta sentimentos aconchegantes. Há também "Words are Dead", "Pass Them By", "Run Cried the Crawling", "Smoke and Mirrors", e as instrumentais "Chord Left", "Fivefold" e "Tokka". É um álbum refinado, traz a beleza dos instrumentos utilizados, como harpa, violino, violoncelo e o piano. É o clássico e o moderno juntos, o que o define é intensidade, simplicidade, minimalismo e magia. Deveras uma melancolia sonhadora.
Bon Iver
"Bon Iver" é uma banda de folk norte americana fundada no ano de 2007, liderada por Justin Vernon e pelos integrantes Michael Noyce, Sean Carey e Matthew McCaughan. O nome advém do portmanteau (combinação, sons e significados em uma única palavra) "Bon" e "Hiver", que significa bom inverno em francês.
Em meio a tantas coisas pretensiosas no estilo determinado folk-indie encontrei algo que vai além de rótulos, é um som admirável, um canto penetrante, é pra fechar os olhos e se deixar levar. Bon Iver tem características únicas, como a harmonização vocal, além do maravilhoso instrumental, violão, sax, banjo, bateria, piano, que marcam de maneira sublime o artista. Os dois álbuns lançados "For Emma, Forever Ago" (2008) e "Bon Iver, Bon Iver" (2011) merecem ser explorados, é um som que por vezes beira o surreal.
Álbum "For Emma, Forever Ago" (2008)
Incrivelmente sentimental este álbum é daquelas raras surpresas, com um clima sofrido e arranjos simples de violão juntamente com os falsetes de Justin Vernon, certamente acerta em cheio na veia emocional. Todas as canções revelam fragilidade, ressentimento e introspecção, são elas: "Flume", "Lump Sum", "Skinny Love", "The Wolves", "Blindsided", "Creature Fear", "For Emma", "Re: Stacks", e a curiosa instrumental "Team". O álbum nasceu de um curto período de isolamento de Justin Vernon, que se fechou durante meses num local remoto do estado americano de Wisconsin. Algumas músicas chegaram a ser executadas em cenas de séries como "Dr. House", "Grey's Anatomy" e "Chuck". Bon Iver é uma ótima companhia para contemplar silêncios num inverno suave e íntimo.
Álbum "Bon Iver, Bon Iver" (2011)
É um álbum mais elaborado e de grande sensibilidade harmônica, mistura-se elementos eletrônicos, filtros e outras técnicas de estúdio, com violões, vozes e outros sons. As músicas se desenrolam suaves, não há pretensões comerciais ou estética pré-moldada, as canções não têm refrões, poucas são as repetições, os graves e os agudos se misturam em meio a batidas, metais, cordas e teclados. A abertura do álbum se divide em duas faixas "Perth" que traz uma combinação de tambores e guitarra, e Minesotta, WI" trazendo uma atmosfera mais eletrônica. "Towers" incorpora bem a alma folk, "Michicant" demonstra a mistura sons e "Lisbon, OH" serve de prelúdio para a intensa "Beth/Rest". Ainda conta com a vibrante "Hinnom, TX", a cativante "Calgary", a sutil "Wash", e a solitária "Holocene". Acompanha também como bônus a bela e triste "Wisconsin", a inebriante e inspiradora "Come Talk to Me", e por fim a dolorosa "Can't Make You Love/Nick of Time". Um ponto a se destacar é a belíssima capa que representa toda a aura da banda, a melancolia e distanciamento do resto do mundo.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
BoJack Horseman
"Bojack Horseman" é uma série em animação original da Netflix, criada por Raphael Bob-Waksberg traz um humor negro e piadas sarcásticas. Ela não se assemelha a nenhuma outra série de animação, tem seu estilo próprio, sendo crítica e profunda.
A trama gira em torno de Bojack (Will Arnett), um famoso decadente, que outrora fez muito sucesso em uma sitcon chamada Horsin' Around, vinte anos depois ele se encontra desempregado e com crise existencial, vivendo com seu amigo Todd (Aaron Paul), um ex-viciado em videogames.
A série explora muito bem a diversidade de personagens, onde se inclui humanos e seres antropomórficos, Bojack é um cavalo e sua personalidade é extremamente egocêntrica, apenas enxerga o que está a sua frente, tudo circula no "eu", ele deseja escrever uma biografia sobre sua vida, mas devido a sua incompetência decide contratar a humana ghost-writer, Diane (Alison Brie). Bojack passa a contar suas memórias, e ela vai percebendo o quão irresponsável e egoísta ele é, porém a imagem que o livro precisa passar para fazer com que volte aos holofotes da fama, é a oposta.
A série é cheia de referências, várias celebridades são citadas, como Beyoncé, Naomi Watts, Quentin Tarantino, entre outras tantas.
É um mergulho profundo no vazio, por trás das piadas há uma reflexão contundente sobre a famosa Hollywood, ou melhor Hollywoo (o D foi roubado), no quão superficial e efêmero é o tal status de celebridade. O tempo todo nos deparamos com cenas em que Bojack é reconhecido por algum fã da sitcon, e o como ele se enche de orgulho e logo depois desaba. Pura decadência, é notável a sua mudança, antes um cavalo cheio de charme, agora esbanja uma saliente barriguinha e vive bebendo para não dar tempo de ficar sóbrio.
Outro personagem da série que merece toda a atenção é a Princesa Carolyn (Amy Sedaris), uma gata cor de rosa que administra a carreira de Bojack, inclusive até teve um relacionamento com ele. Sem jamais perder o foco é uma workaholic, o mais legal disso tudo é que por mais que os personagens sejam humanizados não perdem certas características, como enquanto a Princesa Carolyn discute assuntos de trabalho ao telefone, brinca com um rato ou arruma seus bigodes, e em outras ocasiões salta dos muros. Outro bem interessante é o ator e namorado de Diane, Mr Peanutbutter (Paul F. Tompkins), um cão sempre amigável e feliz. Em várias cenas demonstra perder o foco da conversa e não se importar com a irritação alheia, e até persegue o carteiro. Ainda há os passarinhos paparazzi, o pinguim dono de uma editora a beira da falência, claramente uma sátira com a editora "Penguin", entre outros que vão aparecendo esporadicamente.
"Bojack Horseman" tem diálogos sensacionais e um timing de primeira, além de todas as personalidades serem trabalhadas perfeitamente. Ela impressiona por ser ao mesmo tempo engraçada e dramática. Com 12 episódios, vale dar uma chance a esta série de animação adulta, não desanime e assista até o fim, pois os últimos episódios são os melhores, fecha com chave de ouro esta que é uma série original e muito bem elaborada. Vale ressaltar a excelente dublagem brasileira, sem dúvidas merece o reconhecimento do ótimo trabalho.
Em "Bojack Horseman" há uma liberdade criativa impressionante, ela detona em certos aspectos, são expostos comportamentos lamentáveis em seus personagens, rimos dos acontecimentos, mas na verdade, é triste.
A história do livro perturba Bojack que acaba não gostando do resultado, e portanto, decide escrever por si mesmo, Diane o retratou como um alguém cheio de complexos, ele não é a perfeição, imagem que Hollywood adora vender, pessoas com vidas maravilhosas e etc... No fim ele deixa ser publicado e até ganha um globo de ouro, do qual não desgruda por um segundo.
Os episódios finais carregam uma força maior, por exemplo, na cena em que Bojack tem uma viagem alucinante sob o efeito de drogas, e em diálogos com Diane, num deles ele pergunta se no fundo ela o acha uma boa pessoa, e ela diz que não acredita nessa coisa de "no fundo", pois as pessoas são aquilo que dizem, e principalmente, aquilo que fazem.
E o que não pode deixar de ser dito é a abertura hipnotizante e, claro, seus créditos finais, cuja música é uma contribuição da banda Grouplove. A letra e melodia grudam na cabeça: ♫ In the 90's I was in a famous TV show ♪...
É impressionante a evolução da série e o como nos pega de surpresa, é tensa, pesada e com dilemas existenciais, inclusive com o maior de todos, a solidão.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
A Árvore do Amor (Shan Zha Shu Zhi Lian)
"A Árvore do Amor" (2010) é um romance inspirado no livro homônimo de Mi Ai, que teve sua primeira publicação pela internet em 2007, e conta uma história de amor que acontece em plena revolução cultural chinesa.
Dirigido por Zhang Yimou, conhecido por seus épicos de grande beleza, como "Herói" - 2002, "O Clã das Adagas Voadoras" - 2004, "A Maldição da Flor Dourada" - 2006, "Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão" - 2009, "Flores do Oriente" - 2011, confirma ainda mais sua maestria em compor um filme que apesar de retratar um período crítico de seu país, mostra de maneira refinada o amor em seu estágio mais puro. Zhang Yimou tem em sua filmografia obras de artes fascinantes tanto no apuro estético quanto a seu conteúdo crítico em relação a política chinesa.
Em "A Árvore do Amor" o período é o da revolução cultural chinesa, na década de 60, implantada pelo ditador Mao Tsé Tung, a qual impunha a perseguição a ideias capitalistas e "burguesas", muitos professores e intelectuais foram assassinados, e o ensino superior foi praticamente desativado do país. Uma jovem estudante é enviada para o campo para reeducação. Chegando lá, ela conhece um rapaz que trabalha na área de geologia na região. Aos poucos, eles se apaixonam. Ela é de família pobre (o pai foi preso acusado de ser burguês), e ele de família proeminente (a mãe se suicidou, era a favor do capitalismo). Eles passam anos se vendo as escondidas, até que a mãe dela descobre, e diz que eles só podem se ver quando ela completar 25 anos, porém o destino traz surpresas para os dois.
A lenda do espinheiro dá o tom do filme, afirmava-se que as flores não eram brancas e sim vermelhas, devido aos heróis mortos que ali foram enterrados. Logo no início somos apresentados a esta história que contavam aos jovens que iam a zonas rurais com a finalidade de serem reeducados. Jing tem 14 anos, é muito humilde e se esforça o máximo para conseguir ser professora, na aldeia Xiping conhece Lao Sun, filho de um militar, os dois se apaixonam perdidamente e o espinheiro se torna uma espécie de símbolo para ambos. A diferença social é grande, por causa do passado de Jing exige-se muito cuidado, pois o partido pode tomar como traição qualquer deslize. Lao Sun é respeitoso e a ajuda em tudo. Interessante observar que o foco é o romance, por mais que fique claro a rigidez do regime, as regras impostas e o medo na face da menina diante a seu futuro, o lado político nunca se sobressai, é algo orgânico.
Jing e Sun sempre dão um jeito de se encontrar, a delicadeza permeia todo o filme, o constrangimento da menina em certas cenas, como a dificuldade do toque, Sun muito gentil encontra meios de livrá-la dessa vergonha, aliás a gentileza e a decência é tão genuína no personagem que de modo algum soa clichê, emociona porque é de verdade e espontâneo, ele não faz isso como meio de conseguir algo em troca de Jing, mas sim por amá-la e querer vê-la feliz. Em um dos diálogos mais belos ele diz: "Você pode nunca ter se apaixonado antes e não acreditar no amor eterno, mas quando você se apaixona sabe que tem sempre alguém que prefere morrer do que trair você."
Após serem descobertos pela mãe de Jing, ficam proibidos de se ver, Jing corre o risco de colocar tudo a perder, e só aos 25 anos é que poderão então consumar o amor. Mas, a vida revela surpresas, nem sempre tão agradáveis. Nesse ponto as lágrimas são inevitáveis, cenas de partir o coração. Sem dúvidas, um romance maravilhoso, indispensável para quem gosta do gênero.
É um retrato de amor puro, coisa que não vemos mais e nem acreditamos, a alguns pode soar melodramático, pois Sun faz de tudo por sua amada, lava seus pés machucados, se corta para obrigá-la a se cuidar, e seus presentes, como a caneta, a bota, o pano para a confecção de um casaco e outras miudezas bem significativas.
Por mais ingênuas que algumas situações possam parecer, todo o devotamento de Sun a Jing demonstra a dignidade que envolve a relação e o sentimento que existe. A poesia que emana de seus atos, o deslumbramento, a gentileza e seus valores dão o sentido da palavra amor e o sentido de viver.
Os atores esbanjam graciosidade e a história se desenrola de modo natural, emociona o espectador ao ver tantas sutilezas. É uma ótima amostra da imensa capacidade deste grande diretor chamado Zhang Yimou.
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