segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Tipo Ruim / Bad Guy / Nabbeun Namja
Kim Ki-Duk consegue expôr de forma poética o lado não muito agradável do ser humano, e em "Bad Guy" (2001) ele faz exatamente isso, retrata a figura de um sujeito que nada tem de bom a dar, mas que de alguma maneira simpatizamos com ele, talvez seja pelo seu olhar e seu silêncio constante.
Sun-hwa (Seo Won) de repente é abordada por um estranho quando esperava seu namorado, e o cara a beija a força na frente de todos. Este impulso o fez ser humilhado e espancado, Sun-hwa cospe na cara dele e o xinga e o manda pedir desculpas, mas mal sabe ela que essa atitude lhe custará muito caro. Han-ki (Jo Jae-hyeon) é um tipo ruim, cafetão resolve fazer da virgem Sun-hwa uma garota de programa. Han-ki desenvolveu uma paixão obsessiva e violenta pela garota e fará qualquer coisa para tê-la. Um dia Sun-hwa rouba uma página de um livro de arte e encontra uma carteira perdida ao lado do livro. O roubo da página e posteriormente da carteira marca o início do abismo da jovem. Han-ki denuncia ao dono da carteira o assalto e este obriga-a recorrer a um agiota para pagar os estragos que causou. E a maneira que ela pagará o empréstimo será se prostituindo.
Somos arrastados a um mundo onde a violência e o sexo é o cotidiano. De início Sun-hwa somente chora por ter perdido sua vida, resiste em fazer sexo com os clientes, mas com o passar do tempo percebe que pode usar de seu charme e beleza, e então começa a viver aquele mundo. E o mais absurdo, nutrir algum tipo de sentimento por aquele que a desgraçou. De certa forma somos voyeurs, a relação que se torna essencialmente perturbadora aos nossos olhos, parece fazer cada vez mais sentido a eles.
"Bad Guy" é um drama que segue a linha de uma paixão nada convencional, e nos instiga a pensar o porque dos personagens agirem de tal forma. Sun-hwa em determinado momento parece se conformar com a situação que se encontra e a gostar do cara mau, querendo ou não, ali ele é o único a sentir algo por ela, mesmo não expondo, pois seus gestos na maioria das vezes são agressivos, mas interessante observar que demora para Han-ki consumar o ato sexual com Sun-hwa, talvez uma espécie de punição a ele mesmo, já que no fundo sabe que fez algo terrível.
Algumas cenas são carregadas de simbolismos, como a da praia onde ela vê uma garota indo para o mar cometer suicídio, e onde encontra uma foto rasgada faltando os rostos das pessoas, e mais tarde descobrimos que era a de Han-ki e Sun-hwa, não se sabe exatamente o que o diretor quis passar com essa cena, mas a mim parece que o destino daquela garota era estar com Han-ki, mesmo sendo uma paixão torta e perturbada; e a menina entrando no mar é o vislumbre dela mesma, pois se ela não aceitar toda a situação que se encontra, sua única alternativa é se matar. E é a partir desta cena que seus sentimentos começam a mudar em relação ao mundo que agora faz parte. A foto que ela encontra rasgada e tenta consertar, simboliza que está reorganizando e juntando os cacos interiores de si mesma.
"Bad Guy" é um filme seco, mas completamente poético, a trilha sonora é algo interessante e complementa com o ambiente vulgar.
Ficamos atordoados à medida que a garota aceita sua condição e se submete ao estranho amor de Han-ki. O final nos deixa literalmente de boca aberta, o silêncio do personagem é perturbador e ficamos confusos o filme todo ao tentar decidir o que sentir por aquele homem, que ora parece ser um alguém desprotegido que precisa desesperadamente de carinho, ora um sujeito totalmente sem escrúpulos que é capaz de tudo. Em um mundo onde não há regras, matar ou morrer é algo comum. A cena em que ele vai preso e Sun-hwa vai a prisão dizer que quer que ele saia logo é onde percebemos que de fato ela nunca mais voltará a sua vida normal, tanto que ele a liberta, mas acaba voltando e se submetendo o que a nós parece um absurdo sem tamanho. Ao final o único sentimento deixado é o de interrogação, ficamos nos perguntando o porquê ela voltou para um amor que machuca e destrói?
O amor pode nascer em qualquer lugar e de diversas formas, ele não segue regras ou padrões e se desenvolve à maneira de cada um.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood (Noruwei no Mori)
"Norwegian Wood" é baseado no aclamado livro homônimo japonês de Haruki Murakami, título que leva o nome de uma canção dos Beatles. O livro é denso e provoca uma grande pressão psicológica, e não é à toa que se tornou um best-seller grandioso e ícone cultural. O filme é do diretor vietnamita Tran Anh Hung, que foi super elogiado por ser bastante fiel ao livro, principalmente por manter o tom melancólico e triste. E também por retratar tão bem o Japão do final dos anos 60 e começo da década de 70.
Em 1968, Toru Watanabe acaba de chegar a Tóquio para estudar teatro na universidade. Solitário, dedica seu tempo a identificar e refletir sobre as peculiaridades de seus colegas. Um dia, Toru reencontra um rosto de seu passado: Naoko, antiga namorada de seu grande amigo da adolescência Kizuki, que cometeu suicídio. Marcados por essa tragédia em comum, os dois se aproximam e constroem uma relação delicada onde a fragilidade psicológica de Naoko se torna cada vez mais visível até culminar com sua internação em um sanatório. Depois do suicídio do amigo, Toru decide ir embora, mas Naoko reaparece, e a partir daí desencadeia-se uma paixão embalada por muita tristeza e nostalgia. Naoko se afunda numa depressão sem fim, porém Toru promete ficar ao seu lado. Internada no sanatório, ele a visita regularmente, mas sua condição só piora. Nisso ele conhece uma garota, também marcada por mortes, entretanto deseja a vida e um futuro. Toru se vê envolvido na luz que emana de Midori, a luz que faltava em sua vida.
Toru por diversas vezes silencioso somente pensa em sua vida, pensa no suicídio de seu amigo, na condição de Naoko e percebe que o que deseja para si está distante desta tristeza profunda que carrega no momento. Ele sente que mantém um forte laço com Naoko, que precisa estar com ela, protegendo-a, como se fosse uma missão deixada a ele, mas e a sua vida? Aonde é que começa?
É um filme delicado e triste, mas que evoca sentimentos bons e questionamentos que permeiam a nossa vida. A morte, o amor, a solidão e desejos. A fotografia é lindíssima e só contribui para o clima nostálgico que o longa traz. As expressões dos atores são carregadas e a câmera foca em cada detalhe.
Somos feitos de lembranças e memórias, elas acabam nos moldando. Toru cresceu influenciado pela perda do amigo, e quando reencontra Naoko parece que tudo volta, e sente necessidade de tê-la por perto e protegê-la, só que a menina fica cada vez mais envolta num véu de tristeza, não consegue encontrar forças para continuar a viver e poder conviver com os outros. Já Toru em seu íntimo mesmo tendo essa "responsabilidade" tenta enfrentar a tristeza que carrega. E ao conhecer Midori começa a refletir sobre o que realmente quer. A transição da adolescência para a vida adulta já é difícil, as responsabilidades aumentam, os desejos aparecem e certamente a confusão sobre o que quer vem à tona, e as decisões consequentemente vêm junto. Ainda mais quando acompanhadas de tragédias. Fica tudo muito difícil. A dor pode ser algo que nos eleva e nos faça progredir ao invés de nos conduzir a mais profunda escuridão. E é nessa transição que Toru se dá conta disso.
Um dos defeitos do filme é o mal desenvolvimento de alguns personagens que no livro tem grande relevância, no filme presumimos o que tal personagem representa, como a companheira de Naoko no sanatório, ela é pouco usada, há uma cena em que ela transa com Toru por alguma questão interior que não é expressada a nós, suas marcas passadas são pouco explicitadas, e por isso fica vago. Até mesmo Midori deveria ter uma atenção maior, sua jovialidade e sua vontade de viver merecia uma visão mais detalhada, mas mesmo assim o filme não perde em transmitir emoções.
A conclusão é de que sempre é idiotice querer comparar livro com o filme, pois são linguagens diferentes, cada um é um. É preciso saber aproveitar e sentir a linguagem usada em cada.
"Norwegian Wood" é um belo filme que trata da existencialidade sobre vários aspectos. É calmo e visualmente incrível!
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Margaret
Uma garota de 17 anos, estudante e moradora de Nova York, se sente angustiada por achar que, sem querer, desempenhou um papel em um acidente de trânsito que tirou a vida de uma mulher. Em suas tentativas para acertar as coisas ela encontra oposição a cada passo. Dilacerada pela frustração, ela começa a brutalizar emocionalmente sua família, seus amigos, seus professores e, acima de tudo, a si mesma. Inesperadamente, ela está sendo confrontada com uma verdade fundamental: que os seus ideais de juventude estão em rota de colisão contra as realidades e compromissos do mundo adulto.
Lisa Cohen (Anna Paquin) é uma adolescente revoltada, que tem problemas com a mãe (J. Smith-Cameron), uma atriz veterana de teatro. Solteira, ela tenta entender sua filha, mas sem grande sucesso. Lisa nunca passou por nada doloroso que a fizesse pensar em si, nos outros e em seu futuro, apenas vivia em seu mundinho, até que ela presencia um acidente que envolve um ônibus e uma pedestre. Por uma atitude idiota vinda dela, o motorista acabou se distraindo e passando o sinal vermelho atropelando a mulher, que em minutos morre, deixando a menina extremamente chocada. Daí por diante sua consciência se torna seu pior inimigo, o que dizer a polícia? Desesperada, de início acaba relatando que o motorista não ultrapassou o sinal vermelho, e que foi um acidente como tantos outros, pois de alguma forma ela pensou que aquele cara tinha uma família para sustentar, e a mulher estava morta e nada podia fazer em relação a isso. Porém, quanto mais o tempo passa, seus pensamentos vão mudando e ela acaba se afundando de vez nesta história.
Lisa faz parte daquele grupo de jovens que opinam sobre tudo e debate sem o menor constrangimento, sem se importar se está ferindo o colega ao lado com suas palavras ásperas, vemos acalorados debates em salas de aula, sobre diversos temas, sociologia, política, literatura. E para quem estiver se perguntando o porquê do título "Margaret", já que a personagem se chama Lisa, é por conta de um poema do qual é citado apenas uma vez no filme e que reflete exatamente o que a protagonista está passando.
O filme é um drama exacerbado, cheio de dúvidas, explosões, confusão, e às vezes nada, cenas que não querem dizer absolutamente nada, e isso o torna muito cansativo. Lisa não vê obstáculos para fazer justiça ao acontecido, a melhor amiga da mulher que morreu acompanha a jovem neste processo doloroso em que lutam para colocar o motorista vivido por Mark Ruffalo na cadeia, mas não é tão simples quanto pensam, pois Lisa omitiu os fatos nos primeiros depoimentos, o que já dificulta, e mesmo assim não há "motivos" suficientes para isso, o máximo que irão conseguir é uma indenização. O que a enfurece mais ainda, pois uma vida tirada não pode ser compensada por dinheiro. Lisa não compreende os fatos e se aborrece com tudo, e fica cada vez mais insuportável, trancada em si mesma, a relação com a mãe só se distancia mais e mais.
O filme caminha lentamente e vai mudando conforme o desenrolar. Os sentimentos são muitos, euforia, tristeza, desespero, egoísmo, angústia. Lisa está longe de ser uma menina boa, mas não podemos acusá-la, pois ela como qualquer adolescente em fase de afirmação age por impulso, e de certa forma ela amadureceu com o ocorrido, agindo certo ou errado, dando ênfase demais ou andando em círculos em outros momentos, a dor serviu-lhe para libertar e entender muitas coisas, principalmente repensar a relação com sua mãe, e a cena da ópera ao final nos mostra exatamente este recomeço.
Somos imperfeitos, na maioria das vezes egoístas, que quando queremos parar e ajudar, fazer justiça, parece tudo tão longe e fora do alcance. A vida é tão frágil e somos tão impotentes diante dela. "Margaret" é um filme inteligente e áspero, que mostra sentimentos intensos, tristes, mas realistas.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August)
Inspirado no romance de Pierre Drieu la Rochelle, "Le Feu Follet", o filme narra a história de Anders, que está prestes a sair de um centro de reabilitação de drogas no interior da Noruega. Como parte do programa, ele tem o direito de ir a Oslo para uma entrevista de emprego. Mas ele aproveita o dia fora e resolve ficar, andar pelas ruas da cidade e se encontrar com pessoas que não vê há tempos. Com 34 anos, ele é um homem inteligente, bonito e de boa família, mas profundamente atormentado pelas oportunidades que desperdiçou e pelas pessoas a quem decepcionou. Apesar de jovem, ele sente que sua vida já acabou. Durante o dia e no decorrer daquela noite, fantasmas de erros do passado entram em conflito com a possibilidade de um amor, de uma vida nova e da esperança de ver algum futuro até o amanhecer. Oslo, capital da Noruega surge através de imagens com testemunhos de várias pessoas que por lá passaram ou que lá regressaram. Recordações mais ou menos felizes, mas saudosas de uma cidade que lhes diz muito, assim como o protagonista.
Joachim Trier diretor deste filme é primo distante do depressivo e genial Lars Von Trier. Joachim retrata o dilema de um jovem que aparentemente não teria motivos para se envolver com drogas; pais liberais, uma boa casa, uma vida confortável, isso tudo não é mostrado, mas deduz-se facilmente. Anders se perdeu na heroína, antes o que era divertimento, acabou o destruindo. O olhar é sobre o depois, saindo de um período grande de internação, uns seis anos mais ou menos, ele vai para cidade grande, onde fará uma entrevista de emprego para que possa reintegrar-se na sociedade.
A história toda é fria, não tem sequer uma ponta de sentimentalismo, acompanhamos Anders caminhando para o fim, sem ao menos torcermos para sua recuperação, ou que surja um pouco de esperança. Ele tenta o suicídio numa primeira noite de liberdade, mas não consegue. Logo vai visitar um amigo do qual vive uma rotina comum, trabalho, filhos, esposa, compromissos, nada excepcional. Anders está com 34 anos e definitivamente não consegue ver algo que o possa motivar a viver normalmente. Sua entrevista de emprego falha, mas por culpa sua, por jogar no ventilador sua história como dependente, mas sem nem deixar o entrevistador falar algo, simplesmente sai e joga o currículo no lixo. Ele abandonou tudo que tinha, família, amigos, namorada, emprego, e agora não tem como resgatar nada disso, o tempo é cruel da mesma forma que foi cruel consigo mesmo.
A medida que Anders perambula por Oslo vai recordando do passado e das oportunidades perdidas, encontra amigos, colegas, se depara com situações já vividas, e percebe que não há mais o que fazer. Não se sente parte do todo, não é forte o bastante. Em uma cena em um bar de repente encontra com o cara que sua antiga namorada o traiu, pedindo satisfações enfrenta-o, é de dar pena, pois ele não se livrou do passado, é um derrotado no sentido mais literal da palavra. O filme mostra que até pessoas que julgamos serem melhores, que tem tudo para crescer erram o caminho, e principalmente, questiona sobre a esperança de um futuro, a existência, as dúvidas, e as decisões.
Andando por Oslo, Anders percebe que todos têm seus dramas pessoais e dessa forma aprofunda-se em si mesmo. Somos apenas observadores, é desolador assistir a decadência perante o mundo que o cerca. Anders é um homem complexo, ele acima de tudo busca um significado para sua existência, ele nem deseja ter a vida igual ao do amigo, com filhos, esposa e emprego. Ele busca algo maior, que está além do entendimento, e não é à toa citarem Proust (Em Busca do Tempo Perdido) algumas vezes. Parece que Anders não está apenas inconformado com si mesmo e com as suas perdas, na verdade, a sua angústia é com o meio em que vive, o todo.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Cello (Chello Hongmijoo Ilga Salinsagan)
Gostar de alguma coisa sempre é muito particular, em relação aos filmes então... Muitas pessoas não se livram do vício hollywoodiano, sempre esperando por novos blockbusters, trilogias, romances água com açúcar, e por aí vai, mas a partir do momento que você se encanta por algo diferente, isso muda, e descobrir o cinema Sul-Coreano foi uma grata surpresa. Para um cinéfilo descobrir filmes mundo afora sempre é uma alegria, e não há empecilhos para que arranje um jeito de obter tal filme. Muitos perguntam onde encontrá-los, já que filmes de diversos países não chegam aos nossos cinemas e alguns vão direto para as locadoras ou nem chegam mesmo. A maioria vem em festivais, mas não é todos que têm a possibilidade de ir. Graças a internet, temos a oportunidade de encontrá-los, existem blogs e sites especializados em filmes "desconhecidos" que disponibilizam o download. E há os torrents que nos ajudam achar praticamente quase tudo. Sendo assim, não tem desculpa para o mais do mesmo, inclusive este do qual vou falar assisti pelo Netflix, que tem um catálogo maravilhoso.
"Cello" é um filme intrigante que te puxa para a história e nos faz pensar o que realmente está acontecendo. Mi-ju (Hyeon-Seong) é professora de violoncelo na universidade onde se formou. Apesar dos incentivos para voltar a tocar, por colegas e pela própria família, Mi-ju recusa-se e sente especial aversão por uma música em particular. A sua atitude fria em frente ao ensino e ao próprio instrumento faz com que uma aluna sinta ódio dela, e assim a menina promete vingança e pergunta-lhe se "está feliz". A luz dos olhos de Mi-ju e sua maior preocupação é a filha Yoon-jin, que sofre um tipo de autismo que condiciona de modo severo a interação com os outros. Mi-ju sente um forte sentimento de culpa pela condição de Yoon-jin. A sua vida se divide entre a indiferença pela profissão e a cobrir de atenções Yoon-jin, até que um dia esta demonstra interesse por um violoncelo. Mi-ju não hesita em comprar o instrumento. A partir daí do momento em que o adquire começam uma série de acontecimentos estranhos no lar. Estes incluem uma obsessão pouco saudável de Yoon-jin pelo violoncelo e a sua insistência em tocar a música que Mi-ju não suporta ouvir.
Para quem está familiarizado com o estilo, não vai achar estranho, a fórmula é a mesma de tantos outros, drama familiar que no fundo há algo de sobrenatural. Mas como sempre a trama é bem amarrada e nos surpreende. Além da fotografia e da trilha sonora exuberante.
O passado vem à tona, quem realmente está errado? Mi-ju é culpada por algo que fez? O violoncelo amaldiçoado vibra em tons de morte. A obsessão só tende a crescer, será que é culpa que a corrói e a faz imaginar coisas? São essas perguntas que movem o filme, apesar de demorar a pegar no tranco.
Vejo muitas reclamações sobre filmes de terror e seus habituais clichês, e o como está difícil encontrar algo que preste dentro do gênero. Realmente não me recordo de ter assistido ultimamente algum filme bom de terror e ter me surpreendido. Sendo assim "Cello" se faz uma boa opção para sair da mesmice e dos clichês americanos.
Apesar de "Cello" caminhar nos mesmos trilhos de tantos outros filmes sul-coreanos, não fica devendo em nada, a história é muito bem arquitetada e o clímax vale todo o tempo que julgamos ter perdido.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Um Violinista no Telhado (Fiddler on the Roof)
"Um Violinista no Telhado" é um maravilhoso musical de 1971 que explora tradições judaicas e questões que começam a surgir, pois o mundo evolui e esses costumes vão sendo colocados à prova. Já logo no começo a palavra "Tradição" é enfatizada, nos mostrando que o povo judaico se estabiliza diante as suas tradições. É o que dá equilíbrio a eles.
"Um Violinista no Telhado" é um musical da Broadway de grande sucesso. Inspirado nos contos "Tevie the Milkman" de Sholem Aleichem, o espetáculo nos conta a história do pobre leiteiro judeu Reb Tevye (Topol), pai de cinco filhas e morador da pacata vila russa Anatevka, que sofre opressão e antissemitismo crescentes dos russos ortodoxos. A história retrata a perseverança de um povo perseguido que luta para se manter íntegro e seguindo suas tradições. Um musical feito até para quem não curte musicais, impossível não se encantar com as letras que geralmente contam as histórias, os lamentos e indecisões desse povo. As danças tradicionais são um show a parte. É um espetáculo.
Topol dá vida a Tevye um carisma universal que, de tão apaixonado pela beleza de suas tradições e por seu modo de vida, nos desperta uma simpatia crescente por Anatevka e seus moradores. Seus diálogos com Deus são na maioria das vezes engraçados, principalmente quando cita o que o grande livro diz. O primeiro teste às convicções do protagonista surge com o noivado da sua filha mais velha. Seguindo a tradição, o pai escolheu o noivo e decidiu-se pelo velho açougueiro da aldeia. Para uma família pobre é difícil casar uma filha, então não se pode escolher muito, porém a jovem está apaixonada por outro homem, seu amigo de infância, um costureiro. Os dois jovens já tinham se comprometido em segredo, e isso se torna um grande problema para Tevye. Pois o que está jurado não pode ser desfeito e o acordo com o velho açougueiro também não. Mesmo que sejam pobres e vivam de migalhas, eles são felizes se amando. A felicidade de um filho para um judeu é algo muito precioso.
O longa também se detém sobre os rituais e pequenos gestos, que são plenos de significado espiritual: a cerimônia decorre ao ar livre, como um prenúncio de que o casamento será abençoado com tantas crianças quantas sejam as estrelas do céu; os noivos estão sob uma tenda, que simboliza o novo lar que está sendo criado; e o rabino administra as bençãos sobre a taça de vinho, símbolo da alegria e contentamento. A cerimônia termina com um costume estranho, quando o noivo quebra um copo de vidro com o pé, isto recorda que a alegria deve ser moderada pela memória das catástrofes do povo e que a felicidade dos judeus nunca estará completa enquanto o Templo de Jerusalém permanecer destruído. A tradição se torna ainda mais forte quando a filha do meio de Tevye é proibida de se casar com um não-judeu. Isto é impossível, jamais acontecerá, e se persistirem nisso a filha não será mais considerada membro da família. Os judeus tem no sangue o questionamento e nem Deus escapa, ele dialoga e o questiona. Mas como o grande livro diz: "Se eu pudesse compreender Deus, eu seria Deus."
Outro ponto interessante é a saída as pressas de sua terra Anatevka, por decreto do czar. Mostra declaradamente na procissão que se procede, um sofrimento carregado de um povo perseguido, que ama sua terra, suas tradições, mas que acima de tudo tem a capacidade de se restabelecer. A metáfora do violinista cabe perfeitamente a perseverança do povo judeu: "Um Violinista no Telhado. Parece loucura não? Mas todos nós somos como um violinista em um telhado, tentando arranhar uma simples e bela melodia, sem quebrar o pescoço."
A maior mensagem do filme é o amor, nos sorrisos que Tevye esbanja, nas histórias que conta a sua mulher, nos questionamentos e diálogos com Deus, em suas canções e danças. Tevye pode parecer um homem rude, mas facilmente esse perfil se desmonta e nos afeiçoamos a um personagem humano e cheio de amor.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Dublê de Anjo (The Fall)
Imagine um mundo onde tudo toma a forma que desejamos, onde a realidade se confunde com os sonhos. Assim é o mundo criado por Alexandria (Catinca Untaru), uma pequena garota que ouve as mais diferentes histórias de seu companheiro de leito hospitalar, o dublê Roy Wolker (Lee Pace). Cada história é mais colorida e divertida que a outra, o que torna a garota cada vez mais encantada por seu novo amigo. Roy daria tudo para não estar nessa situação de dor e precisará da ajuda de sua nova amiga. Catinca Untaru é um nome que não vou esquecer tão fácil, a atriz mirim surpreende na interpretação de uma criança inocente e também carente de afeto.
Roy é um dublê que sofreu um acidente, por isso está internado no hospital. Na ala infantil está Alexandria, uma garotinha que quebrou o braço enquanto trabalhava com sua família em um laranjal. Eles se conhecem quando Alexandria vai até a ala que Roy está, e este começa a lhe contar uma história, mas seu único intuito é conseguir a ajuda de Alexandria para que pegue morfina para ele, sua intenção é se matar, pois não vê mais esperança na vida que vive. Roy constrói a história e usa as pessoas das quais conhece e o visitam no hospital para fazer seus personagens, o mundo mágico criado por Roy praticamente entorpece a garota e produz um efeito quase surreal.
A fotografia é intensa, assim como o figurino, que também é exuberante e com cores bem chamativas. A fábula criada por Roy em que cinco heróis tentam capturar o governador Odious, traz o indiano, o ex-escravo, o especialista em explosivos, Charles Darwin e o bandido mascarado. De uma forma ou de outra, todos foram prejudicados pelo mesmo homem e juraram se vingar dele de uma vez por todas. A história muda de acordo com as condições de Roy que cada vez mais sente a necessidade de se matar, a depressão cresce em seu coração e ele sofre demais, a menina é a sua salvação, com olhares carinhosos, ela acaba despertando em Roy algo que tinha se perdido dentro dele. Ao contar um final trágico para a história, Alexandria se desmancha em lágrimas, pois as crianças sempre esperam finais felizes, e nós espectadores consequentemente esperamos pelo mesmo.
"Dublê de Anjo" não é unanimidade, as opiniões de quem o assiste são diversas, enquanto uns acham a história sem sentido, um fracasso, elenco diminuto e apelativo em plasticidade, outros a acham magnífica e ao mesmo tempo simples, os atores se complementam nas extremidades, a menina com sua ingenuidade e Roy cansado de viver. É aí que entra o maior espetáculo, o poder de sentir de novo algo bom dentro de si, Alexandria nos faz lembrar do quão é importante deixar-se iludir por uma história fabulosa, pois dessa forma vive-se, acredita-se nas possibilidades, a história de Roy pode ser mudada, assim como ele mesmo. O roteiro tem certa profundidade que combina perfeitamente com o clima imaginário criado. De fato é um filme injustiçado, já começando pelo título nacional, a má divulgação e o elenco pouco conhecido, o que não torna o filme atrativo para olhos de quem busca estrelas hollywoodianas.
Com visual arrebatador e um teor inocente, o filme se faz uma ótima opção, o simples e o ingênuo nunca pode parar de encantar, se isso se for,o que restará a nós? Afinal o cinema na sua essência nos propõe exatamente o fator deslumbramento, o arregalar dos olhos diante a uma imagem e a possibilidade de poder pensar, refletir e aguçar nossas percepções. E acima de tudo, nos permite a imaginar e a pensar sobre amizade, amor, vida e morte.
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