quarta-feira, 11 de abril de 2018
Pyewacket
"Pyewacket" (2017) dirigido por Adam MacDonald (Sobreviventes - 2014) é um filme de terror que prima por uma atmosfera sombria e tensa, o ritmo é vagaroso e o medo é incutido através de elementos sugestivos, o som também garante bons sustos e toda a narrativa é marcada por uma apreensão crescente e sutil.
Leah (Nicole Muñoz), uma adolescente frustrada e angustiada desperta algo no bosque quando ela ingenuamente executa um ritual oculto para evocar uma bruxa para matar a mãe (Laurie Holden).
Leah aderiu interesse pelo ocultismo depois da morte do pai e diante do comportamento abusivo de sua mãe que decide sair da casa para escapar das memórias do marido, a garota realiza um ritual para dar um fim na situação, planeja cuidadosamente cada detalhe, adentra a floresta e segue o passo a passo, a raiva lhe dá ainda mais motivação e invoca um ser sobrenatural, ela consegue despertar a criatura maligna que parece observá-la muito antes de agir. O filme tem um ritmo vagaroso e não se preocupa em assustar o espectador, mas sim promover o tempo todo a sensação de pesadelo, a tensão começa de fato quando Leah escuta ruídos dentro da casa e a paranoia se instala depois que se arrepende do ritual. Ela pede ajuda aos amigos, mas as coisas só pioram, ela tem alguma chance quando contata o escritor do livro de ocultismo que estava lendo e ele lhe diz para tomar cuidado com o que se mostra a sua frente, pois a criatura toma várias formas, mas Leah se perde nessa espiral e as consequências de seu desejo inicial se tornam trágicas.
Uma característica tenebrosa é a utilização de sombras, como no momento do canto da parede, são imagens que induzem ao medo e garantem arrepios, mas não são a todo momento que aparecem, uma vez ou outra e só, o suficiente para marcar e dar pesadelos após a sessão. O black metal rege a trilha sonora e é outra maravilha, Carach Angren, Ministry, I Killed The Prom Queen, Interpol, entre outros. Os ruídos merecem destaque também, por exemplo, na cena em que Leah caminha e parece haver outra pessoa caminhando atrás de si. Aliás, a sensação de estar sendo observada é a grande sacada, a câmera em pontos estratégicos dá essa vibração. E o desespero cresce na garota, sua tentativa de reverter o ritual com outro só a deixa mais pirada, pois a criatura confunde sua realidade.
Uma característica tenebrosa é a utilização de sombras, como no momento do canto da parede, são imagens que induzem ao medo e garantem arrepios, mas não são a todo momento que aparecem, uma vez ou outra e só, o suficiente para marcar e dar pesadelos após a sessão. O black metal rege a trilha sonora e é outra maravilha, Carach Angren, Ministry, I Killed The Prom Queen, Interpol, entre outros. Os ruídos merecem destaque também, por exemplo, na cena em que Leah caminha e parece haver outra pessoa caminhando atrás de si. Aliás, a sensação de estar sendo observada é a grande sacada, a câmera em pontos estratégicos dá essa vibração. E o desespero cresce na garota, sua tentativa de reverter o ritual com outro só a deixa mais pirada, pois a criatura confunde sua realidade.
Apesar de toda a atmosfera sobrenatural o filme também carrega a sua parte de realidade ao demonstrar a dificuldade do relacionamento entre mãe e filha, a fase complicada que é a adolescência e lidar com mudanças e perdas, toca no ponto do perigo que é acreditar demais em crenças e não conseguir definir o que é imaginação ou não, até porque desejar algo com muito afinco é sempre sinal de obsessão.
"Cuidado com o que você deseja, alguém pode estar ouvindo."
"Pyewacket" é um diferencial dentro do gênero, pois sua abordagem lenta e sutil provoca grandes momentos de horror e desespero. Sua crescente de tensão é intensa e é eficaz em produzir medo. Vale a conferida!
terça-feira, 10 de abril de 2018
Terra Selvagem (Wind River)
"Aqui, ou você sobrevive… ou você se rende".
"Terra Selvagem" (2017) dirigido pelo excelente roteirista Taylor Sheridan é um filme tenso e pesado, somos inseridos no oeste norte-americano, especificamente no estado de Wyoming, um local que possui suas próprias regras e características extremas.
Cory (Jeremy Renner), caçador de coiotes e predadores traumatizado pela morte da filha adolescente, encontra o corpo congelado de uma menina em meio ao nada e decide iniciar uma investigação sobre o crime. Ao lado dele está uma agente novata do FBI (Elizabeth Olsen) que desconhece a região.
Cory é marcado por uma tragédia familiar, quieto e solitário passa os dias tentando lidar com a dor, caçador habilidoso é contratado pelo ex-sogro para matar leões, ao chegar no local se depara com um corpo no meio da neve, ele reconhece a menina, Natalie, filha de um amigo que habita a remota área de preservação indígena americana Wind River, o FBI é contatado e Jane (Elizabeth Olsen) é enviada para investigar o assassinato. Jane é inexperiente, mas precisa se manter forte diante a um ambiente machista e hostil, porém logo entende que Cory pode ser um aliado para desvendar o mistério. São inúmeros empecilhos, desde conversar com as pessoas certas e driblar burocracias, ela tem senso de justiça acima de tudo e Cory é fundamental para que tudo caminhe para isso.
Em nenhum momento o longa cai em soluções fáceis, o roteiro é bem-estruturado e apesar de ser uma trama simples em sua essência mantém tensão o tempo todo, os personagens são interessantes, Cory é um homem silencioso e gentil, ele vê a possibilidade de vingança neste assassinato, uma maneira de amainar tanto os seus sentimentos como de seu amigo. Jane vai aos poucos se enredando na vida dele e dos demais habitantes, de início deslocada é alvo de olhares e comentários atravessados, mas se mantém firme e como única autoridade no local, e assim se desenrola até que tudo se resolva. O ambiente é de fato um personagem e uma enorme barreira para as investigações, as montanhas cobertas de neve, o clima instável, os predadores, tudo contribui para despertar a sensação de entrave.
Baseado em fatos reais o filme toca no assunto para elucidar sobre a falta de reconhecimento ao desaparecimento de mulheres indígenas em suas reservas. "Enquanto estatísticas para desaparecidos são compilados para as outras minorias, elas não existem para as mulheres índias. Ninguém sabe quantas estão desaparecidas". Não existe segurança e nem cuidado a essas reservas, nem estadual ou federal, ou seja, nada tem punição, nada se resolve e a terra se torna um local com suas próprias leis e que acoberta tragédias. Além de toda a gravidade em torno do tema, temos o embate entre homem e natureza, a sobrevivência, o senso de justiça, o desejo de vingança e o como tragédias não solucionadas afetam o ser humano, por isso quando o flashback nos revela o que aconteceu a Natalie desejamos intensamente que tudo se solucione, a dor não será eliminada, mas ameniza o sentimento de impunidade.
"Terra Selvagem" é uma obra que mexe com os sentimentos, é incisivo na mensagem e cru na abordagem, o misto entre investigação policial, denúncia e algo de western dá o diferencial. É cruel e devastador, mas ainda possui sua camada de sensibilidade. Filmaço!
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Gigante (Handia)
"Gigante" (2017) dirigido pela dupla Aitor Arregi e Jon Garaño (Loreak - 2014) é de um apuro e requinte inenarrável, uma bela e triste história em tom mágico permeada por uma delicadeza ímpar.
A verdadeira história de Mikel Jokin Eleizegi Arteaga, mais conhecido como "O Gigante de Altzo". Este homem, que viveu no século XVII, media mais de dois metros, sofria de gigantismo e não parou de crescer até a sua morte. Mikel alcançou grande popularidade e chegou a viajar pela Europa, sendo exibido para pessoas famosas como a rainha Elizabeth II da Espanha, Luis Felipe da França e a rainha Victoria do Reino Unido.
Somos introduzidos em Altzo, uma província do País Basco no séc. XVII, uma época difícil e cheia de conflitos políticos, o pai, um simples camponês precisa escolher um dos filhos para servir e é Martin (Joseba Usabiaga), o filho mais velho que vai enfrentar a guerra civil, magoado com seu destino tempos depois em combate sofre com a perda dos movimentos de seu braço direito, ao voltar para casa se depara com seu irmão Joaquin (Eneko Sagardoy), que para sua surpresa está imenso, ele sofre de gigantismo e não há nada que o pare de fazer crescer. Martin fica remoendo a escolha do pai, o que lhe tirou grande parte de seus sonhos, como ir embora para a América, a situação precária da família os deixa atados no lugar, a agricultura não está numa fase boa e a única alternativa para ganhar dinheiro termina sendo Joaquin, que aceita ser exposto para a população. A narrativa se desenrola em capítulos nos aprofundando em seus personagens e alternativas que encontram para superar a crise, não demora para que Joaquin ganhe fama e comece a viajar pela Europa, inicialmente não se sente bem, mas não há outro modo para ganhar a vida, já que todos estão impossibilitados com suas deficiências, Martin não diz muito, está sempre contemplando a realidade e sonhando com um possível futuro. Depois de muito viajarem o gigante suspeita do empresário e pede para que o dinheiro seja dividido, Martin sempre manda sua parte para o pai, o que mais adiante acaba salvando a fazenda, já que Joaquin guardava o seu na mala e um dia na estrada foram roubados, era bastante dinheiro e esse foi o início da decaída, pois os tempos também estavam se modificando e pedindo novidades, o gigante não impactava como antes e nenhum número satisfazia o público. A modernidade batia à porta e Martin cada vez mais queria estar longe daquelas terras, mas com a compra da fazenda e o irmão adoecendo se sentia melancólico por ter que ficar. Os personagens possuem variadas camadas e surpreende-nos com o desenrolar, Martin é um homem calado que nos diz tudo com seu olhar, já Joaquin realmente expõe todas as suas agruras, sendo até violento em determinadas partes.
A estética e a narrativa carregam um tom de fábula, uma poesia terna e triste que denota as mudanças que ocorrem nos personagens devido as transformações ao redor, seja política ou social; a solidão impera, por mais que os irmãos estejam juntos há uma névoa que os impede de alcançar qualquer êxito e se sentirem satisfeitos, Martin possui máculas, desde o dia em que seu pai o escolheu, depois a deficiência em seu braço o impedindo de trabalhar, preso a uma vida no campo, os sonhos quebrados, e é assim com Joaquin também, que está preso a sua doença, e que por ironia deu alguma chance de sobrevivência para sua família. Por mais vagaroso que o ritmo possa ser a história traz sentimentos valorosos ao espectador. Outro ponto a se destacar é o respeito às culturas, tanto a basca, como quando eles vão para vários países durante as apresentações e sempre é mantido o idioma local, é um elemento que faz toda a diferença e caracteriza zelo pela produção.
" - A capacidade de se adaptar é o patrimônio mais importante do ser humano.
- Bem, eu acho que é o contrário. Que é a nossa qualidade mais deplorável."
"Gigante" mistura o real e o onírico, o belo e o triste, o rude e o afetuoso, traz personagens complexos que se modificam ao longo, e por isso nos instiga a pensar em diferentes questões. Uma obra que carrega uma narrativa emocional e um visual sombrio arrebatador.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Vaqueiro (Vaquero)
"Vaqueiro" (2011) dirigido, roteirizado e protagonizado por Juan Minujín é um filme que capta os anseios de um aspirante a ator e todos os pensamentos que o afastam das possibilidades de conseguir papéis, é deveras interessante acompanhar a jornada do protagonista que ao invés de abocanhar oportunidades, mesmo que mínimas, prefere cultivar inveja e a autodepreciação. Ele passeia entre camarins e coxias de teatro sempre com uma cara amarrada reparando no sucesso dos colegas, e desse jeito amargando não só sua vida profissional, mas também a pessoal.
Julián Lamar (Juan Minujín) é um ator desiludido e amargurado por só conseguir papéis secundários na indústria de cinema e televisão da Argentina. Sente-se desajustado com sua carreira, seu ambiente de trabalho e com seus companheiros de profissão. Quando um consagrado diretor norte-americano decide filmar um faroeste no país, Juan fica obcecado com a ideia de que esse papel pode salvar sua carreira. Aos poucos ele vai perceber que a distância entre seus desejos e a realidade são bem maiores do que ele gostaria.
Julián está atuando numa peça de teatro e é coadjuvante em uma novela, mas sua ambição é demasiada e negativa, ele desejaria estar estrelando algum filme americano e estar sendo vangloriado por todos, está tão obcecado que quando recebe incentivo e elogios não ouve, em vários momentos a figurinista demonstra adorar seu trabalho e ele nem liga, continua a invejar os outros e contaminar sua mente com pensamentos depreciativos. Enquanto Julián deseja mal aos colegas ou os inveja seu semblante demonstra o oposto, dissimula perfeitamente, aliás, Julián é um ótimo ator, quando se empenha e esquece suas pretensões desmedidas, mas são poucos estes momentos. Quando por intermédio de amigos consegue uma vaga para o teste de um filme de faroeste dirigido por um americano, Julián na entrevista fica nervoso e tropeça no inglês, porém recebe a ligação tão almejada, estará na audição, daí ele começa a entrar no personagem, se imagina já como um cowboy e tem o texto na ponta da língua, nestes instantes até simpatizamos e torcemos para que consiga.
Julián se fechou numa bolha e não consegue enxergar a realidade, fica imaginando, sonhando e nisso acabou se perdendo, anulando as chances que poderia ter em sua carreira, o que acontece na audição gera um misto de sentimentos, vergonha alheia é a palavra.
"Vaqueiro" é um filme interessante por expor o âmago de um ator frustrado, no como é enlouquecedor estar no meio que ama e não conseguir se sobressair e com isso a facilidade em fazer nascer pensamentos ruins e depreciativos, um ótimo trabalho de Juan Minujín!
sexta-feira, 30 de março de 2018
Fantasma de Buenos Aires
"Fantasma de Buenos Aires" (2008) dirigido por Guillermo Grillo é um filme pitoresco e por vezes exagerado, a sua mescla de gêneros garante originalidade e no todo satisfaz o espectador. O sobrenatural está de mãos dadas com um humor irônico e nostálgico, o sombrio e afetuoso, as duas dimensões conversam inteligentemente e por fim além de garantir um gostoso sorriso no rosto aproveita para nos deixar grandes reflexões sobre vida e morte.
Uma história sobre a relação entre um jovem de hoje e um fantasma mal-intencionado assassinado em 1920. Numa noite qualquer, três amigos fazem o "jogo do copo". Para surpresa deles, a sessão de espiritismo funciona e um fantasma passa a habitar a casa, manifestando-se como uma sombra que canta tango. Apenas um dos rapazes, marcado pela morte de sua mãe quando criança, se interessa por este fenômeno. Ele faz tudo que precisa para se reconectar com o espírito e consegue fazer um pacto com ele: o fantasma irá contar tudo o que há depois da morte e o garoto vai viver um dia em seu corpo. Assim, esse fantasma encontra a Buenos Aires dos dias atuais, enfrentando coisas que não entende. Desta forma, existem situações loucas, emotivas, de risco e, lentamente, uma amizade entre eles. Uma história de suspense, ironia, emoção e reflexão sobre as mudanças trazidas pelos anos. É como um tango vagabundo, que de alguma forma combina o humor, tristeza, amor e violência.
De início a história segue uma linha narrativa comum entre os filmes de terror, onde três jovens entediados decidem se aventurar no jogo do copo, mas as circunstâncias do ato são totalmente diferentes, quando um deles quebra o copo diz que o espírito ficará na casa e com medo saem do local, o único a se interessar pelo assunto é Tomás (Estanislao Silveyra) que perdeu a mãe muito pequeno e não se lembra de nada, ele necessita saber se é verdade que o espírito está lá para entender então o que há depois da morte, sozinho pega as chaves do amigo e de repente se depara com uma sombra cantando tango, ao se comunicar com ele desmaia e o fantasma lhe diz o que deseja. A história intercala momentos do passado vivido por Canaveri (interpretado pelo charmoso Ivan Espeche), um boêmio morto nos anos 20, este que propõe um pacto a Tomás, ele contará tudo o que quiser saber sobre o além se o garoto emprestar o corpo para poder resolver assuntos pendentes. Simples assim!
Tomás mesmo com receio acredita que o espírito deixará seu corpo quando tudo estiver esclarecido e a sua curiosidade em saber as coisas que acontecem depois da morte dão coragem para aceitar o pacto. A partir daí somos conduzidos por ótimos momentos de humor, o fantasma se assusta com a Buenos Aires atual e Tomás precisa saber lidar com a divisão de si mesmo, mas Canaveri acaba sendo digno e até respeita as vontades de seu anfitrião. Os passeios pela cidade, o espanto em ver como tudo mudou denotam muita nostalgia ao longa, sentimentos que vão surgindo para alguém que há muito estava afastado da realidade palpável.
"Fantasma de Buenos Aires" traz uma narrativa criativa e charmosa, que ora é sombria, ora iluminada, instiga e emociona e possui belos momentos afetuosos. Passional assim como a alma de um tango!
quinta-feira, 29 de março de 2018
Eu Não Sou uma Bruxa (I Am Not a Witch)
"Eu Não Sou Uma Bruxa" (2017) dirigido por Rungano Nyoni retrata com propriedade à caça as bruxas na África e o como o governo se beneficia disso, além da humilhante posição delas na sociedade. Uma história pungente e trágica.
Depois de um incidente banal em sua aldeia local, Shula (Maggie Mulubwa), de 8 anos, é acusada de feitiçaria. Um breve julgamento a considera culpada e ela é levada à guarda do estado e exilada para um campo de bruxas no meio de um deserto. Lá, ela participa de uma cerimônia de iniciação onde aprende as regras em torno de sua nova vida como bruxa. Como os outros residentes, Shula é amarrada a um carretel com uma fita. Dizem-lhe que se cortar a fita, será amaldiçoada e transformada em uma cabra.
Apesar do filme conter um certo humor não anula o choque e desconforto, são cenas longas que exploram a situação da menina, que do nada é exposta e denunciada como sendo uma bruxa, a acusam de envenenar a água do poço e outro alega que ela lhe cortou o braço em um sonho, o funcionário Sr. Banda (Henry BJ Phiri) é chamado e então a colocam numa comunidade destinada às bruxas, todas mulheres mais velhas que servem ao governo como escravas, todas presas a carretéis gigantes, é dada a escolha para Shula, ou você se considera uma bruxa ou ao cortar a fita se transformará em uma cabra. A criança faz sua escolha e é acolhida pelas mulheres que não a deixam trabalhar, logo começa a ser utilizada para apontar entre vários suspeitos quem teria cometido roubos, assim ela ganha certa fama e começa a ganhar oferendas, das quais Banda se aproveita. Ela se aproxima da mulher de Banda, também bruxa, mas que como ela mesma diz conseguiu ser respeitada por fazer tudo que lhe disseram para fazer.
Acompanhamos cada momento com grande apreensão, a inocência e o receio são capturados com maestria, algo muito pontual na história são os olhos de Shula. Várias partes incomodam, como ver turistas tirando fotos enquanto a menina sofre, as mulheres todas juntas presas a um carretel, condenadas a uma condição ilusória e ainda sendo usadas para benefício do governo, são desprezadas na sociedade, castra-se todo tipo de direito e perpetua pensamentos limitados.
Acompanhamos cada momento com grande apreensão, a inocência e o receio são capturados com maestria, algo muito pontual na história são os olhos de Shula. Várias partes incomodam, como ver turistas tirando fotos enquanto a menina sofre, as mulheres todas juntas presas a um carretel, condenadas a uma condição ilusória e ainda sendo usadas para benefício do governo, são desprezadas na sociedade, castra-se todo tipo de direito e perpetua pensamentos limitados.
O desejo de liberdade cresce em Shula, ela questiona em determinada parte quando bem triste com tudo que vem lhe acontecendo que deveria ter escolhido se transformar em uma cabra, pois uma cabra é livre e come quando quer, mas a mulher ao lado responde que seria morta em breve para alimentar os homens. Ter apenas um momento de liberdade mesmo com a morte lhe esperando ao invés de passar acorrentada e humilhada a vida toda é uma reflexão potente e que fica cravada na mente.
"Eu Não Sou uma Bruxa" é uma sátira moderna sobre a superstição e a bruxaria em países africanos, o absurdo desta situação nada mais é que a misoginia entranhada, o filme propõe um olhar cruel, incômodo e objetivo. É poderoso e necessário!
quarta-feira, 28 de março de 2018
Aglaja
"Aglaja" (2012) dirigido por Krisztina Deák é um filme sinestésico que aborda a relação de mãe e filha e a arte circense. Baseado em fatos reais, esta é a história da infância e adolescência de Aglaja (Babett Jávor), filha de uma família de artistas circenses do Leste Europeu. A família foge para a Europa Ocidental após cometer um assalto que os permite começar uma nova vida. Para alcançar o sucesso, sua mãe gasta todo o dinheiro da família para realizar um ato perigosíssimo: ficar pendurada pelos cabelos no domo do circo. Toda noite, Aglaja é aterrorizada pelo medo de perder a sua mãe, mas em algum dia, ela tem que seguir a tradição da família e tornar-se "a mulher dos cabelos de aço".
Uma bela homenagem ao mundo do circo, mostrando os bastidores, a apreensão dos artistas misturado com fascinação e amor à arte, uma maneira livre de viver e com tão pouco reconhecimento, os treinos exaustivos, o sacrifício, as dores e também a satisfação de levar ao público a alegria e em troca receber aplausos. Todo o mecanismo envolvendo os números são retratados com precisão e isso garante tensão toda vez que se apresentam, os ruídos de cordas, estalos são extremamente desconfortáveis e dão a sensação exata do perigo e da destreza dos artistas. A história segue a pequena Aglaja vivida inicialmente por Babett Jávor, que apenas observa os pais e todo o universo circense que a rodeia, ela nos insere em sua vida a princípio na Romênia dos anos 70, uma vida difícil, pois a ditadura imperava e então decidiram roubar o dono do circo e fugir, assim a saga por várias capitais europeias acontece, Sabine (Eszter Ónodi), a mãe, que era considerada uma exímia trapezista não consegue mais trabalhar e somente Tandarica (Zsolt Bogdán), o pai, que representa um palhaço é contratado, a menina vê tudo e transpassa pelo olhar toda a sua curiosidade, receio e a falta de carinho. É preciso conviver com variadas pessoas de todos os lugares do mundo, torcer para não ser substituído e sempre estar aprimorando os truques. A relação dos pais de Aglaja não vai muito bem e Sabine acaba pegando todo o dinheiro e comprando o equipamento para o número do cabelo de aço, a asiática que sofreu um acidente concorda e ensina o que Sabine precisa saber. Aglaja sente toda noite um misto de sentimentos, é lindo vê-la subindo e rodopiar pelo ar apenas presa pelo cabelo, porém a sensação que sente ouvindo os pequenos ruídos a atormenta, a única coisa que a faz sentir-se melhor é colocar uma pedra entre os dentes. Além da história focar na tradição circense, demonstra a relação conflituosa de mãe e filha, quando pequena Aglaja via tudo acontecer, participava de alguns números, mas não tinha afeto. Até que um dia Aglaja foi separada dos pais, pois menores não podiam trabalhar e desse modo parou num internato, dez anos se passaram e a mãe aproveitou esse tempo para fazer fama e a obteve pelo seu número acrobático. Aglaja aos 15 anos, interpretada por Piroska Móga, se torna uma adolescente linda e retraída que preferia que a mãe estivesse morta do que suportar vê-la novamente no picadeiro.
Com o reconhecimento que adquiriu Sabine cada vez mais se superava na criatividade ao ser içada, mas numa de suas apresentações sofreu um acidente terrível, Aglaja sempre esteve à sombra de sua mãe e a sua personalidade reflete toda a ausência e desejo de ser vista por aquela mulher, é uma história impressionante sobre o florescer juvenil, sobre o como é importante não deixar que a figura materna tenha peso nas escolhas próprias e que a aceitação vem apenas de si mesmo. Sabine era espetacular e Aglaja se encolhia diante à mãe, os sentimentos eram conflitantes e era praticamente invisível. Há um ponto do filme que Aglaja se mostra e começa a viver, a mãe fica impotente para números pesados e então gerencia a filha que dança nua no palco, mas Sabine quer que ela siga seus passos, a tradição dos cabelos de aço, e novamente Aglaja sente-se diminuída e sem saber quem de fato é.
"Aglaja" é um exemplar único que retrata com minúcia e verdade o mundo do circo, as cenas de bastidores são incríveis, o receio e a fascinação em torno dos artistas provocam grandes momentos, e a pequena Aglaja passeando entre os trailers fica marcado na memória. Nos instantes finais visualizamos uma cena completamente libertadora e aliviante, Aglaja enxerga por si mesma, entende suas vontades e segue sua vida.
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