sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Melhores Álbuns de 2016
Segue a lista dos melhores discos lançados em 2016 segundo o meu gosto pessoal, não sigo efetivamente os lançamentos, mas sempre aguardo com ansiedade os álbuns dos artistas que admiro e, que infelizmente, em sua maioria não se configuram na grande cena musical. Outros, no entanto, estão há longos anos no estrelato e ainda assim permanecem criativos e únicos, nesse ano dois grandes nomes (Bowie e Cohen) se foram, mas se despediram com enorme elegância em registros finais maravilhosos, como demonstrado aqui nesta singela listagem há uma imensa variedade de sonoridades, portanto, também uma ótima oportunidade de conhecer novos artistas e também o de resgatar outros.
*Os números só são uma questão de ordem e não de preferência.
*No final de cada texto deixarei links.
*No final de cada texto deixarei links.
16- Agnes Obel - Citizen of Glass
"Citizen of Glass", terceiro álbum da dinamarquesa Agnes Obel é de um refinamento ímpar, um som minimalista repleto de texturas que trabalha com elementos do trip-folk e pop unidos a referências clássicas, o piano como base se mistura a instrumentos como harpa, violino, violoncelo, marimba e a voz suave de Agnes se eleva limpa e profunda junto a ecos de vozes secundárias. É um obra que tem a aura de um inverno aconchegante cheio de melancolia e doçura. Primoroso! Ouça.
15- Papooz - Green Juice
"Green Juice", álbum de estreia da dupla francesa Papooz, é um som leve, refrescante e ao mesmo tempo sexy, o gênero é intitulado como "tropical garage", uma mistura original entre pop dos anos 60/70 e bossa nova. As vozes andróginas têm uma harmonia incrível e as canções carregam uma junção exótica de ritmos que dão a sensação de um sossego delicioso. Ouça.
14- Imany - The Wrong Kind of War
"The Wrong Kind of War" é o terceiro álbum da francesa Imany, cujo talento é tão lindo quanto ela, sua bela voz rouca transmite força. Este como seus outros trabalhos exibem uma despretensiosidade pouco vista nos dias de hoje, seu som é dotado de simplicidade, letras claras e positivas. Sem dúvidas, um disco para se apreciar pela total naturalidade e espontaneidade. Ouça.
13- Glass Animals - How to be a Human Being
"How to be a Human Being", segundo álbum do Glass Animals, continua a desconstruir o estilo indie do qual faz parte, uma sonoridade peculiar que mescla elementos do hip-hop, R&B, pop e psicodelia com texturas eletrônicas deliciosas e cujas canções celebram experiências humanas das mais variadas. Sedutor e divertido! Ouça.
12- Blues Pills - Lady in Gold
"Lady in Gold" é o segundo disco de estúdio do grupo sueco formado por Elin Larsson (voz), Dorian Sorriaux (guitarra), Zach Anderson (baixo) e André Kvarnström (bateria). O clima psicodélico sessentista continua e de forma ainda mais forte, o som é mergulhado no blues e soul e com certeza para os apreciadores do estilo uma baita banda que resgata essa sonoridade maravilhosa dos anos 60. Ouça.
11- Eric Clapton - I Still Do
Com 50 anos de carreira o lendário Eric Clapton lançou um novo álbum intitulado "I Still Do", uma combinação de duas novas canções e versões clássicas do blues, um trabalho simples e honesto e admiravelmente lindo, Clapton resgata as suas raízes e nos entrega uma declaração de amor à música. Ouça.
10- David Bowie - Blackstar
"Blackstar", o vigésimo quinto álbum de estúdio de David Bowie, foi lançado em 08 de janeiro de 2016, no dia do seu 69º aniversário e dois antes de sua morte. Carregado de uma atmosfera jazzística, melancólica, dolorosa e enigmática, o registro é honesto, criativo, ousado e empático. Um presente de despedida de um artista verdadeiramente talentoso e pungente. Ouça.
09- Leonard Cohen - You Want it Darker
14º álbum de estúdio do cantor e compositor canadense Leonard Cohen, reconhecido pela poesia de suas ótimas letras, neste seu último e tocante trabalho contêm referências religiosas e, principalmente, disserta sobre a sua relação com a morte, um registro íntimo, denso, fúnebre, mas imensamente sereno, um grande presente de despedida de um grande ícone da música mundial. Ouça.
08- Liniker - Remonta
Depois do incrível EP "Cru", eis que o álbum "Remonta" de Liniker e os Caramelows nasce, um dos artistas mais surpreendentes a surgir no cenário musical brasileiro recentemente, o disco flerta com vários gêneros musicais e nos traz um aglomerado de sensações a cada faixa, tecnicamente impecável, autêntico e espontâneo, um frescor maravilhoso. Ouça.
07- L.A Salami - Dancing with Bad Grammar
"Dancing with Bad Grammar", álbum de estreia do músico britânico L.A Salami é permeado pelo folk e o rock, mas ele declara como sendo um blues pós-moderno, mescla elementos do hip hop à guitarra elétrica, suas influências vão de Bob Dylan, Neil Young, Elliott Smith, Joni Mitchell a Alex Turner. O disco exibe canções que dizem sobre as dificuldades do dia a dia e a política coroadas pela sensibilidade e poesia. Ouça.
06- Mohsen Namjoo - Personal Cipher
Considerado o Bob Dylan do Irã, Mohsen Namjoo apresenta seu oitavo disco de estúdio e sexto fora do Irã (Namjoo foi exilado), intitulado "Personal Cipher", é mais uma obra de arte deste artista inovador que une música contemporânea à tradições persas, ele traz a riqueza cultural do seu país juntamente a ritmos ocidentais, como o blues. Há uma gama de estilos e ainda poesias proferidas em meio as músicas, o que garante um tom emocional. Lindo álbum! Ouça.
05- Blubell - Confissões de Camarim
"Confissões de Camarim", quinto álbum da maravilhosa Blubell é simples e suave, traz o jazz, bolero, rock e o pop com um clima leve, facilmente nos transporta para cenários super agradáveis, voz e melodia em perfeita harmonia, a música de Blubell parece pertencer a outra época. Ouça.
04- Charles Bradley - Changes
A história de Charles Bradley é incrível, inspirado por James Brown decidiu viver o sonho da música, porém ocorreram empecilhos e passou por inúmeras dificuldades, só conseguiu se sobressair no meio musical aos 62 anos de idade, "Changes" é seu terceiro álbum, um puro soul com pitadas de funk, profundamente emocional. O álbum traz uma belíssima releitura da clássica canção de Black Sabbath, "Changes", que dá título ao disco. Uma obra de essência! Ouça.
03- Fantastic Negrito - The Last Days of Oakland
"The Last Days of Oakland", projeto de Xavier Dphrepaulezz, é um blues raivoso, uma poderosa mistura de black music, blues, jazz e uma atitude punk. A vida do músico marcada por difíceis e cortantes experiências só o conduziram para a sua fase de agora, como ele mesmo diz, precisou nascer três vezes, suas canções retratam essas vivências e por isso chegam tão intensas e viscerais. Ouça.
02- Rotting Christ - Rituals
"Rituals", 12ª disco da banda Rotting Christ, uma das bandas de black metal mais criativas, traz neste novo trabalho uma sequência impressionante de músicas, a cada faixa um ritual antigo ocultista de diversas civilizações. Incorpora várias vertentes do metal, como atmosférica, doom, folclórica, gótica e industrial ao peso extremo do black metal, o uso dos vocais em alternados timbres é outra característica interessante, a sonoridade é espetacular e faz com que a banda que está na ativa desde os anos 90 continue a soar como nova, algo bem difícil dentro do universo do metal extremo. Destaque para "Les Litanes de Satan" que tem a participação de Michael Locher, vocalista da banda suíça Samael, lendo trechos de "As Flores do Mal", de Charles Baudelaire. Ouça.
05- Blubell - Confissões de Camarim
"Confissões de Camarim", quinto álbum da maravilhosa Blubell é simples e suave, traz o jazz, bolero, rock e o pop com um clima leve, facilmente nos transporta para cenários super agradáveis, voz e melodia em perfeita harmonia, a música de Blubell parece pertencer a outra época. Ouça.
04- Charles Bradley - Changes
A história de Charles Bradley é incrível, inspirado por James Brown decidiu viver o sonho da música, porém ocorreram empecilhos e passou por inúmeras dificuldades, só conseguiu se sobressair no meio musical aos 62 anos de idade, "Changes" é seu terceiro álbum, um puro soul com pitadas de funk, profundamente emocional. O álbum traz uma belíssima releitura da clássica canção de Black Sabbath, "Changes", que dá título ao disco. Uma obra de essência! Ouça.
03- Fantastic Negrito - The Last Days of Oakland
"The Last Days of Oakland", projeto de Xavier Dphrepaulezz, é um blues raivoso, uma poderosa mistura de black music, blues, jazz e uma atitude punk. A vida do músico marcada por difíceis e cortantes experiências só o conduziram para a sua fase de agora, como ele mesmo diz, precisou nascer três vezes, suas canções retratam essas vivências e por isso chegam tão intensas e viscerais. Ouça.
02- Rotting Christ - Rituals
"Rituals", 12ª disco da banda Rotting Christ, uma das bandas de black metal mais criativas, traz neste novo trabalho uma sequência impressionante de músicas, a cada faixa um ritual antigo ocultista de diversas civilizações. Incorpora várias vertentes do metal, como atmosférica, doom, folclórica, gótica e industrial ao peso extremo do black metal, o uso dos vocais em alternados timbres é outra característica interessante, a sonoridade é espetacular e faz com que a banda que está na ativa desde os anos 90 continue a soar como nova, algo bem difícil dentro do universo do metal extremo. Destaque para "Les Litanes de Satan" que tem a participação de Michael Locher, vocalista da banda suíça Samael, lendo trechos de "As Flores do Mal", de Charles Baudelaire. Ouça.
1- Deluxe - Stachelight
"Stachelight", segundo álbum da banda francesa Deluxe é uma experiência satisfatória, uma mistura eletrizante de ritmos, é o pop moderno, um pouco de hip hop, funk, jazz, dance, e a espontaneidade, característica dos músicos de rua (eles originalmente tocavam em praças, estações de metrô na cidade de Aix-en-Provence), são músicos livres e trazem neste disco uma sonoridade inovadora. Ouça.
Outros destaques
"Day Breaks", sexto álbum de estúdio de Norah Jones, neste ela retorna ao jazz de forma magistral, um belo, suave e nostálgico registro. Ouça.
"White Bear", segundo álbum da banda britânica Temperance Movement, traz uma mistura de melodias que resgatam o rock antigo, blues e hard rock no melhor estilo. Ouça.
"Detour", 12º álbum de estúdio de Cyndi Lauper. Dessa vez a cantora optou por homenagear grandes nomes da música country. Ouça.
"Canções Eróticas de Ninar", do octogenário Tom Zé, um dos artistas mais subestimados do Brasil, apresenta seu 28º disco, curioso e instigante trata sobre o sexo. As canções têm um tom divertido ao contar as lembranças e experiências infantis de Tom Zé em Irará, na Bahia. Ouça.
"22, a Million", terceiro álbum de Bon Iver é complexo, profundo e inovador, é uma viagem sonora imersiva, melodias, estilos e instrumentação variados, é uma banda densa e com uma musicalidade ímpar. Ouça.
"Restart", terceiro álbum da portuguesa Aurea, traz uma atmosfera de soul e jazz com um 'bocadinho' de pop, uma ótima artista que se entrega, um disco delicioso e com uma energia mais séria. Ouça.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Eu Sou Sua (Jeg Er Din)
"Eu Sou Sua" (2013) dirigido por Iram Haq é um filme que coloca em foco uma personagem feminina que busca constantemente ser amada e que se permite viver de acordo com a sua vontade apesar de ter uma família religiosa e conservadora. A história é contada de maneira fria justamente para evidenciar essa falta de amor que conduz a vida da protagonista.
Mina (Amrita Acharia) é uma jovem mãe solteira que vive em Oslo e passa parte da semana com Felix, seu filho de seis anos. Ela tem dupla nacionalidade, norueguesa e paquistanesa, e uma relação conturbada com sua família. Mina está constantemente procurando por amor e tem relações com diversos homens, mas nenhum de seus relacionamentos traz qualquer esperança de durar por muito tempo.
O longa disserta sobre escolhas e as suas consequências. Mina escolheu ter uma vida mais liberal independente de sua família tradicional, que a repudia em todos os momentos em que os visita, ela tem um filho de seis anos do qual tem a guarda compartilhada com o ex-marido, mas não fica presa apenas ao papel de mãe, corre atrás de seu sonho que é ser atriz e se apaixona facilmente, porém não cria vínculos devido o tratamento dos homens com quem se relaciona, eles não a levam a sério por se tratar de uma mulher livre. Em dado momento larga sua vida na Noruega para viver uma forte paixão com um roteirista sueco, no início ele encara o fato dela ter um filho e o acolhe em sua casa, mas o relacionamento ganha aspecto de rotina e seu namorado Jesper (Ola Rapace) não quer ter esse tipo de relação. Só que mesmo depois de dizer isso e ela ter ido embora a manuseia como bem quer. Quanta decepção para Mina, ela escolheu trilhar caminhos diferentes, deixando de lado crenças, tradições para viver livremente e buscar a sua felicidade, mas suas tentativas caem sempre na solidão.
O tom do filme é realista e cru, mostra todo o machismo entranhado na sociedade, as cenas em que a família a repudia por não seguir suas regras é de chorar ao ver tanta ignorância, seus encontros casuais com homens também conferem ao longa uma carga dramática, são situações que não agregam, apenas aumentam o vazio. Mina faz suas escolhas sem medo, mas o que volta para ela é incompreensão e desamor. Mina não deseja grandes coisas, ela quer ser respeitada e amada.
O longa disserta sobre escolhas e as suas consequências. Mina escolheu ter uma vida mais liberal independente de sua família tradicional, que a repudia em todos os momentos em que os visita, ela tem um filho de seis anos do qual tem a guarda compartilhada com o ex-marido, mas não fica presa apenas ao papel de mãe, corre atrás de seu sonho que é ser atriz e se apaixona facilmente, porém não cria vínculos devido o tratamento dos homens com quem se relaciona, eles não a levam a sério por se tratar de uma mulher livre. Em dado momento larga sua vida na Noruega para viver uma forte paixão com um roteirista sueco, no início ele encara o fato dela ter um filho e o acolhe em sua casa, mas o relacionamento ganha aspecto de rotina e seu namorado Jesper (Ola Rapace) não quer ter esse tipo de relação. Só que mesmo depois de dizer isso e ela ter ido embora a manuseia como bem quer. Quanta decepção para Mina, ela escolheu trilhar caminhos diferentes, deixando de lado crenças, tradições para viver livremente e buscar a sua felicidade, mas suas tentativas caem sempre na solidão.
O tom do filme é realista e cru, mostra todo o machismo entranhado na sociedade, as cenas em que a família a repudia por não seguir suas regras é de chorar ao ver tanta ignorância, seus encontros casuais com homens também conferem ao longa uma carga dramática, são situações que não agregam, apenas aumentam o vazio. Mina faz suas escolhas sem medo, mas o que volta para ela é incompreensão e desamor. Mina não deseja grandes coisas, ela quer ser respeitada e amada.
O preço que se paga para viver livremente e não de acordo como querem é alto, é saber que essa escolha é um caminhar solitário e geralmente repleto de tentativas falhas, pois existem uma porção de empecilhos, como o longa exemplifica, o machismo, o conservadorismo religioso, os papéis sociais destinados à mulher, é quase impossível ultrapassar essas barreiras. Mina é uma mulher carente que está em busca, qualquer demonstração de afeto a atinge fazendo-a acreditar e depois sofrer as consequências. É o retrato de uma vida excruciante.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Califórnia
"Califórnia" (2015) dirigido por Marina Person é um filme delicado que retrata a difícil, porém maravilhosa fase da adolescência. Sob a perspectiva feminina observamos todas as descobertas vivenciadas pela protagonista, seja o doce e o amargo da paixão, os frescos sonhos, as dúvidas, as amizades, e a formação de identidade.
O ano é 1984. Estela (Clara Gallo) vive a conturbada passagem pela adolescência. O sexo, os amores, as amizades; tudo parece muito complicado. Seu tio Carlos (Caio Blat) é seu maior herói, e a viagem à Califórnia para visitá-lo, seu grande sonho. Mas tudo desaba quando ele volta magro, fraco e doente. Entre crises e descobertas, Estela irá encarar uma realidade que mudará, definitivamente, sua forma de ver o mundo.
Estela ou Teca acaba de entrar para o universo das descobertas adolescentes, suas referências musicais vêm do rock, graças a seu tio Carlos que mora na ensolarada Califórnia e lhe apresenta sempre as novidades musicais, eles trocam cartas e gravam fitas cassetes trocando ideias, existe um carinho imenso entre Estela e o tio. Seu maior sonho é ir visitá-lo e para isso abriu mão de sua festa de 15 anos para ter essa viagem. Teca conta os dias para essa aventura, fala para suas amigas sobre e enquanto isso vive suas descobertas, se apaixona pelo menino popular da escola, se desilude e encontra em JM (Caio Horowicz), considerado estranho por todos uma relação repleta de afinidades. Um dia, Estela é pega de surpresa com a volta do tio que está debilitado, ela acaba frustrada, mas compreende e fica ao lado dele.
O roteiro tem leveza e a aura magnética dos anos 80 é perfeita, realmente ativa a nostalgia e imergimos nesta história tão doce e ao mesmo tempo densa, depois que o tio de Teca retorna doente, as nuances da personagem se tornam mais pesadas, ela vai crescendo interiormente, esse período foi marcado pela chegada da Aids e pelo preconceito, já que não se sabia muito sobre a doença e também ao relacioná-la com a homossexualidade. Dentro desta questão o personagem JM nunca deixa claro a sua sexualidade, tem um diálogo muito bom entre os dois que ele diz que isso não importa, rotular para quê afinal.
"Califórnia" é uma jornada de autoconhecimento muito bonita e que causa empatia, a paixão pela música, o rock especificamente, não é somente um hobby, mas uma grande aliada à sua formação, e Marina Person nos presenteia com uma trilha sonora espetacular, David Bowie, New Order, Joy Division, The Smiths e com imensa importância na trama The Cure, a canção "Killing an Arab", especialmente, que marca a amizade/romance de Estela e JM - que se caracteriza como seu ídolo Robert Smith, aliás, o livro de Camus, "O Estrangeiro", da qual a música foi inspirada é dado por JM a Estela. As bandas nacionais também compõem esse belo cenário, Blitz, Kid Abelha, Titãs, Os Paralamas do Sucesso, e Metrô com a inesquecível música "Beat Acelerado".
Além da trilha sonora que é um deleite, a ambientação de época é um lindo trabalho, simples e eficaz nos transporta aos anos 80. É um drama sensível que faz um retrato das vivências de uma adolescente com todos seus percalços e descobertas. Cativa pela sinceridade e sutilezas, as atuações são ótimas, Clara Gallo e Caio Horowicz em sintonia total. É um filme que surpreende pela leveza, a aura nostálgica e a importância aos conflitos adolescentes, como o personagem de Caio Blat diz à sobrinha em determinado momento: "Nossos problemas parecem maiores, pois são nossos".
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Elle
"Elle" (2016) dirigido por Paul Verhoeven (Showgirls - 1995) traz uma trama instigante e recheada de camadas, a protagonista vivida por Isabelle Huppert - sempre sublime em cena - nos confunde tamanha a sua complexidade, muitas questões passam por nossa mente enquanto acompanhamos as suas atitudes, esse filme é uma experiência inquietante por ser provocador e por colocar a natureza humana de forma tão crua. Ao retratar uma personagem feminina controversa os sentimentos causados são dos mais variados, desde empatia a irritação e repulsa, é difícil compreender o jogo que ela inicia, Michèle é ousada, sarcástica, domina todos ao seu redor e muitas vezes até sem perceber, algo quase doentio.
Baseado no livro "Oh..." de Philippe Djian, Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela.
A temática é delicada e a visão que Verhoeven entrega é inusitada e perturbadora, a frieza domina o filme e se inicia com Michèle sendo estuprada enquanto seu gato olha a situação indiferente, ao invés de se abalar Michèle limpa o ambiente, toma um banho, segue sua rotina e analisa o crime de diferentes formas, como um acontecimento trágico ou mesmo banal. O estuprador continua a rondar sua casa e quando o episódio volta a acontecer e consegue desmascarar o agressor, Michèle transforma o ato em algo prazeroso, o que revela a faceta obsessiva e psicopata dela, o estupro desencadeou o compartilhamento de dois seres doentios que se satisfazem com um jogo imoral.
Michèle é estranha, o modo como se relaciona com as pessoas próximas, como lida com o trabalho, um local essencialmente masculino, suas reações são anormais, o estupro só evidenciou a personalidade dominadora dela, os traumas do passado que envolveram seu pai, um serial killer famoso, por exemplo, é intrigante e chocante, aliás, parece ser a única coisa que desestrutura seu ser. Interessante que ela se separou do marido porque foi agredida, mas aceita ser violentada por um desconhecido, sem contar que ela não se importa, a frieza é sua característica, ela trai sua melhor amiga e companheira de trabalho com o marido dela. É preciso entender que o roteiro não quer discutir o estupro em si, mas o como essa mulher reagiu e o como se intensificou as loucuras e perversões que havia dentro dela. É um estudo de personagem complexo.
"Elle" contém cenas que nos pega de surpresa por conta da personalidade de Michèle, o que inicialmente parece ser somente uma vingança, onde Michèle tenta descobrir seu agressor, acaba tomando rumos inesperados. Essa mulher coloca todos a sua disposição, os domina num jogo de gato e rato tenso e sarcástico.
Provocativo, inquietante e perverso, a atuação de Huppert é magnânima, sempre às voltas da violência ela é um enigma a se decifrar, manipula-nos até o último segundo. Repleto de camadas é um filme para se analisar em detalhes. O diretor holandês Paul Verhoeven retorna após um recesso de 10 anos ainda mais potente e inovador. Brilhante execução!
Provocativo, inquietante e perverso, a atuação de Huppert é magnânima, sempre às voltas da violência ela é um enigma a se decifrar, manipula-nos até o último segundo. Repleto de camadas é um filme para se analisar em detalhes. O diretor holandês Paul Verhoeven retorna após um recesso de 10 anos ainda mais potente e inovador. Brilhante execução!
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
A Incrível Aventura de Rick Baker (Hunt for the Wilderpeople)
"A Incrível Aventura de Rick Baker" (2016) dirigido pelo neozelandês Taika Waititi (O Que Fazemos nas Sombras - 2014) é um filme singelo e encantador, tem leveza ao abordar conceitos de família, vida, morte, natureza e liberdade, a jornada realmente é incrível, pois proporciona descobertas valiosas. O humor peculiar é um dos pontos fortes, é inteligente e sincero.
Baseado no livro "Wild Pork and Watercress" de Barry Crump, um casal de caçadores que vive numa remota fazenda na Nova Zelândia resolve depois de muitos anos de casados adotar um problemático garoto chamado Rick (Julian Dennison). Depois de um incidente na casa do casal, Rick decide se aventurar pela região, e para tal precisará da ajuda de seu tio / pai adotivo Hector (Sam Neill) para que sobreviva na mata.
Para Rick esta adoção é a última opção, se ele não se comportar o Estado toma a custódia e estará à deriva. Ele chega quieto e com a cara amarrada, mas Bella (Rima Te Wiata) é uma pessoa tão aconchegante que conquista o menino, aos poucos se sente em casa e vai expondo seu lado carente e pueril. Após a morte de Bella e ser supostamente rejeitado por Hector decide fugir para a floresta, o tio Hec apesar de ser ranzinza e não querer inicialmente criar vínculos com Rick vai atrás dele e os dois iniciam uma caminhada edificante cheia de obstáculos e descobertas. Enquanto eles fogem do serviço social encontram-se diante a liberdade. Esses dois personagens tão distintos desenvolvem uma forte relação, aos poucos e sem perceberem totalmente.
Alguns temas são expostos ao longo da trama, como aceitação e elos afetivos, simplesmente lindo o motivo de Bella querer adotar Rick. A liberdade que Rick encontrou junto a seu tio lhe abriu diversos horizontes, certamente uma evolução, pois quando chegou não havia perspectivas, mas nada como o amor, a compaixão e uma experiência em meio à natureza.
A aventura vivida por Rick Baker e seu tio é genuína e mesmo que seja surreal em algumas partes encanta e esbanja ternura, são personagens que despertam sentimentos bons e proporciona uma reavaliação de nossas próprias vidas, ao longo esquecemos de olhar com mais carinho para os outros e para nós mesmos, endurecemos perante acontecimentos ruins, por isso se permitir a uma jornada é sempre válido, ajuda a ressignificar a vida e valorizar o que importa de verdade. Nossa vida é tão curta e incerta. O filme delicadamente coloca em questão esses aspectos, as relações, as dificuldades, a superação, a vida, a morte, a aceitação de si mesmo, a reconexão com a natureza, e o amor e a compaixão.
A fotografia é esplendorosa, a beleza da Nova Zelândia é explorada nos detalhes e, portanto, garante uma fotografia de encher os olhos, os diálogos é outro ponto a se destacar, espertos e dotados de inteligência e sensibilidade.
Além dos protagonistas tem algumas aparições de personagens memoráveis, como a do próprio diretor interpretando um padre que faz um discurso excêntrico e outro é um maluco que eles encontram no caminho interpretado por Rhys Darby.
"A Incrível Aventura de Rick Baker" é um filme simples com uma aura leve, despretensiosa e um tom de comédia próprio de Taika Waititi, também carrega reflexões importantes sobre a vida e ainda nos presenteia com personagens encantadores e cenas inspiradíssimas.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Paradise Trips
"Paradise Trips" (2015) dirigido por Raf Reyntjens, conhecido pelos vídeos musicais, como "Papaoutai", de Stromae, coloca em evidência conflitos geracionais, apesar do tema não ser novidade a maneira com que é apresentado faz toda a diferença. É forte, direto e calibra bem o drama com o humor.
Mario (Gene Bervoets) é um motorista de ônibus de férias, que tem sua própria empresa de viagens 'Paradise trips'. A beira de sua própria aposentadoria, Mario tem que levar um grupo de alternativos para um festival psicodélico na Croácia. A viagem logo se transforma em uma viagem fascinante que confronta Mario com seus próprios preconceitos e seu filho (Jeroen Perceval) há muito tempo perdido.
Gravado num festival de música eletrônica na Croácia, eles não deixaram que os visitantes soubessem que ali estava sendo rodado um filme, contrataram figurantes que dançassem em torno e a festa em si ficou ao fundo dando a atmosfera esperada. Uma forma ousada de se gravar um filme, os visitantes reais da festa sempre estão distantes e desfocados, o acampamento foi construído antes do festival começar e com o início da festa as outras tendas foram armadas ao redor.
Mario topa levar o grupo a um festival, mas quando vê que são hippies se fecha, pois isso lhe traz à memória seu filho, que anos antes denunciou para a polícia por tráfico de drogas, a relação foi cortada e a sua mulher se comunica com o filho escondida, ele não sabe que tem um neto, ao chegar no local conhece algumas pessoas e como sempre os julga vagabundos, por coincidência seu filho está lá também, nesse ponto já está envolvido com um menino que não curte muito aquela vibe e que vem a saber depois que é seu neto. O filho não gosta da ideia de ter seu pai lá e não quer encontrá-lo, mas chega um momento que precisam conversar.
Mario topa levar o grupo a um festival, mas quando vê que são hippies se fecha, pois isso lhe traz à memória seu filho, que anos antes denunciou para a polícia por tráfico de drogas, a relação foi cortada e a sua mulher se comunica com o filho escondida, ele não sabe que tem um neto, ao chegar no local conhece algumas pessoas e como sempre os julga vagabundos, por coincidência seu filho está lá também, nesse ponto já está envolvido com um menino que não curte muito aquela vibe e que vem a saber depois que é seu neto. O filho não gosta da ideia de ter seu pai lá e não quer encontrá-lo, mas chega um momento que precisam conversar.
Há cenas inspiradíssimas regadas a uma viagem psicodélica produzida por cogumelos, Mario encarna o Super Mario Bros, personagem querido por seu neto, recém-descoberto. Muito hilário, e é a partir daí que a mudança começa a surtir efeito, ele se descaracteriza, alivia o semblante e fica disposto a dialogar com o filho.
É uma história dolorosa, mas que traz uma bela transformação de um personagem preconceituoso e turrão, a forma que isso acontece é bonita e gradativa e a relação entre pai e filho não é reconstituída forçosamente.
Gene Bervoets faz um homem cheio de julgamentos e preconceitos, impenetrável. Não expressa amor e tudo lhe parece errado, a vida que o filho leva, por exemplo, fora do padrão capitalista o deixa irritado, e por isso o nega, até que essa festa os aproxima inusitadamente, a convivência com variadas pessoas durante uma semana neste local vai o tornando menos austero, percebe que há inúmeras maneiras de ser feliz, que tudo não precisa ser do jeito que pensa que é. As pessoas escolhem seus caminhos e é assim que deve ser. Ao fim, num diálogo com o filho, ainda muito resistente ao contato do pai, expressa o como a mente desse homem se tornou mais aberta e, consequentemente, o deixando mais leve e pronto para começar a demonstrar amor. O filho apesar das diferenças parece-se com o pai na teimosia e com uma simples frase também expressa que, talvez, esteja aberto para um recomeço. Tão sutil e tão significativo, sem clichês, é direto e real.
"Paradise Trips" tem nuances encantadoras, emociona ao mesmo tempo em que nos tira sorrisos, é inteligente no desenrolar e competente ao passar a mensagem. Coroado por interpretações enternecedoras, e claro, sem deixar de evidenciar a trilha sonora potente que contrapõe com o universo interior de Mario, que aos poucos adentra nessa atmosfera quebrando diversos paradigmas. Um ótimo filme sobre conflitos de geração.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Swiss Army Man
"Swiss Army Man" (2016) dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, conhecidos como The Daniels, é cinema autoral, singular, bizarro e surpreendente, Daniel Radcliffe e Paul Dano estão fabulosos em cena, a sinergia entre eles é impressionante. O filme remete um pouco a "Um Morto Muito Louco" - 1989 e "Náufrago" - 2000, mas a verdade é que não existem comparações, realmente é um filme muito original e estranho. Segundo os diretores, esse é um filme onde o primeiro peido faz você rir, e o último, faz chorar.
Hank (Paul Dano), um homem perdido no deserto, e sem esperanças, encontra um corpo no meio do caminho. Decidido em ficar amigo do morto, eles vão partir, juntos, em uma jornada surrealista para voltar para casa. Ao mesmo tempo em que Hank descobre que o corpo é a chave para sua sobrevivência, ele é forçado a convencer o morto o quanto vale a pena viver.
É fato que é preciso embarcar na viagem que os diretores propõem e saber olhar além do superficial e da escatologia, há um existencialismo patente na trama. Por detrás do trivial há reflexões importantes, principalmente o de ser você mesmo, se libertar, os gases nada mais são do que uma analogia a isso. O filme disserta sobre solidão, angústia, aceitação, amor, entre outras coisas, pode-se ter variadas interpretações, é alegórico. Ele brinca com o fato do protagonista não se encaixar e estar perdido no mundo, ele quer se matar mas encontra um cadáver que o salva com o peido, a partir de então o torna seu amigo, esse morto começa a falar, a questionar e se deslumbrar com o mundo, pois não lembra de absolutamente nada, ele vê a vida com olhos pueris e sem travas morais, ele também é uma espécie de canivete suíço, serve como fonte de água, seu pênis de bússola, sua boca como machado, seus peidos o impulsionam como um jet ski e uma infinidade de outras serventias. Radcliffe com toda a limitação de seu personagem exibe um timing cômico sensacional, suas poucas expressões são significativas e sua fala arrastada garantem o tom esquisito do longa, Paul Dano está perfeito expondo sua vulnerabilidade e compaixão, causa empatia e certamente merece inúmeros elogios por sua atuação. Esse moço sabe fazer tipos estranhos.
No meio da floresta Hank constrói um universo onírico que representa toda a dor humana, a cena do ônibus em que ele explica a Manny o sentimento quando encontrar a garota por quem é apaixonado, é emocionante. As figuras, as cores, os efeitos, a trilha sonora original é de uma delicadeza absurda. Hank e Manny criam uma forte conexão chegando em alguns momentos, como na cena em que estão submersos num rio, surgir um envolvimento romântico. Os sentimentos envolvidos são muitos e ambíguos.
No meio da floresta Hank constrói um universo onírico que representa toda a dor humana, a cena do ônibus em que ele explica a Manny o sentimento quando encontrar a garota por quem é apaixonado, é emocionante. As figuras, as cores, os efeitos, a trilha sonora original é de uma delicadeza absurda. Hank e Manny criam uma forte conexão chegando em alguns momentos, como na cena em que estão submersos num rio, surgir um envolvimento romântico. Os sentimentos envolvidos são muitos e ambíguos.
A imaginação corre solta, uma onda de pensamentos invade, curioso analisar a vida e o como vivemos através de um filme onde se utiliza elementos desagradáveis e inusuais. Quando Manny começa a falar com Hank e pergunta sobre tudo a sua volta, o que é isso, o que é aquilo, se fascina com o mistério da vida e fala tudo o que vem a sua cabeça, Hank diz que ele não pode falar tudo o que pensa, pois a sociedade se escandaliza com certos assuntos, existem códigos morais.
Ao longo do filme observamos que Hank ao segurar seus peidos por medo do que os outros iriam pensar foi tão ruim quanto ter segurado seus sentimentos em relação a garota que via no ônibus, a falta de coragem e passividade o atormenta. Sempre receoso deixou de arriscar não abrindo espaço para possíveis possibilidades, sejam elas positivas ou negativas.
Ao longo do filme observamos que Hank ao segurar seus peidos por medo do que os outros iriam pensar foi tão ruim quanto ter segurado seus sentimentos em relação a garota que via no ônibus, a falta de coragem e passividade o atormenta. Sempre receoso deixou de arriscar não abrindo espaço para possíveis possibilidades, sejam elas positivas ou negativas.
"Swiss Army Man" é extremamente criativo, peculiar, belo e gracioso, a trilha sonora é um deleite e traz composições originais incríveis interpretadas por Dano e Radcliffe, como "Cotton Eye Joe", "When I Think About Mom", "History Of The Universe", "Montage", "Goodbye/Hello", entre outras. Tudo nesse filme é único e inusitado, explora com encanto e poesia o como é difícil se expressar, falar sobre o que sentimos, se libertar e ser quem realmente somos.
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