quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ele Tirou Sua Pele Por Mim (He Took His Skin Off For Me)

"He Took His Skin Off For Me" (2014), curta-metragem dirigido por Ben Aston foi um trabalho de conclusão para a faculdade London Film School, demorou cerca de 2 anos para ficar pronto e recebeu apoio financeiro coletivo para a criação.
Baseado no conto de Mary Hummer, a história acompanha um homem que decide tirar toda a sua pele achando que é isso que sua esposa deseja que ele faça. E é isso mesmo que ela quer. Mas sua atitude logo prova que as consequências não serão boas para os dois. A relação do casal não será nunca mais a mesma.
O interessante é que todos os efeitos visuais foram feitos manualmente, não há nada digital. É um trabalho caprichado. Tem um vídeo que explica todo o processo, o ator Sebastian Armesto ficou cerca de oito horas sentado para ficar pronto.
A sensação que o curta promove é de agonia e perturba bastante, ele retira sua pele pela amada e no início ela adora, o acha mais bonito, mas essa transformação vai tornando-se complicada de lidar, ela precisa conviver com as consequências desse novo homem, a sujeira constante pela casa e nos lençóis brancos, os clientes que não aparecem e as contas aumentando, enfim...
O que acontece é que o relacionamento vai minguando, as situações constrangedoras só aumentam e a única maneira de salvá-lo é ela se transformar também, mas isso exige um bom tanto de coragem.

De forma bizarra e metafórica o curta permite que o espectador reflita sobre o doar-se ao outro completamente, e o poder que o companheiro exerce sobre você lhe pedindo coisas que acabam destruindo sua própria identidade, e que na verdade nada tem de amor.
A pergunta que o curta deixa é: Será que ela faria o mesmo por ele?

"He Took His Skin Off For Me" está disponível no Vimeo, ative as legendas e surpreenda-se com este incrível trabalho capaz de promover as mais diversas sensações.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Uma Notícia Inesperada (Obvious Child)

"Obvious Child" (2014) dirigido por Gillian Robespierre é uma comédia romântica como poucas, o drama e a comédia se dá muito bem trazendo o tema aborto de uma maneira diferente, madura e sem qualquer espécie de dogmas. 
Somos apresentados a jovem Donna Stern (Jenny Slate), uma irreverente comediante stand-up, ela costuma levar os problemas da vida pessoal aos palcos, o que causa desconforto em seu namorado, que não demora-se a descobrir que a trai com uma mulher mais dentro dos padrões. Desolada e sem rumo se afunda, mas numa noite acaba conhecendo Max (Jake Lacy), um rapaz gentil, com bons modos e tímido, o completo oposto de Donna, que fala o que dá na telha sem pudor algum, suas piadas geralmente são escatológicas e seu visual é sempre desleixado, o fato é que os dois se dão bem e bebem a noite toda, dançam e fazem sexo, o resultado de tudo isso é uma gravidez indesejada, o que a deixa mais ainda na fossa.
Todo o drama envolvendo a protagonista nos é mostrado em detalhes e a forma como reage a eles é especialmente cativante, criamos uma empatia justamente por ela ser tão autêntica. A ideia do aborto aparece naturalmente e consegue fazer com que analisemos a situação, em todos os quesitos Donna está despreparada e o aborto se torna a alternativa certa. Interessante o jeito simples, honesto e inteligente com que o tema foi inserido.
O aborto é logo a alternativa pensada, mas isso não quer dizer que Donna não se sinta confusa, mas como dito, todos os seus pensamentos nos são expostos e compreendemos que é melhor assim. Ela tem o apoio da mãe, da amiga e ao final até de Max, que descobre sobre a gravidez ao ver Donna falar em seu show. O ponto forte da trama é a maravilhosa interpretação de Jenny Slate, sempre com diálogos pontuais e divertidos, ela faz graça da sua desgraça. A personagem foi feita na medida exata para a atriz.
"Obvious Child" é um filme que dá a possibilidade do espectador olhar por outra perspectiva, sem dogmas, esteriótipos ou outros tantos empecilhos que envolvem esse assunto tão condenável. 

O filme é uma comédia romântica subversiva, a fórmula tão comumente utilizada é quebrada e vemos um início de romance mais real, e o que efetivamente ajuda é que tudo é exposto sob o ponto de vista feminino, mostrando que a escolha é da mulher. Não existe julgamento por parte de nenhum personagem, mas isso não quer dizer também que é um filme pró-aborto, ele é corajoso e simplesmente levanta a questão permitindo que o espectador pare para pensar. É um ótimo exemplar do cinema independente norte-americano!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Hamaca Paraguaya

"Hamaca Paraguaya" (2006) dirigido por Paz Encina é um marco do cinema paraguaio, já que desde 1978 não se produziu nada no país, sendo o último filme feito "Cerro Cora", de Guillermo Vera. É um filme que exige o máximo de atenção do espectador, pois a narrativa e a estética foge completamente dos padrões. Cinema autoral da melhor qualidade e rica experiência para quem aprecia cinema.
Em 1935, num lugar remoto do Paraguai, o casal de idosos Cândida e Ramón espera pelo filho que foi lutar na Guerra do Chaco. Faz muito calor, e eles também anseiam por chuva, que foi anunciada, mas nunca chega, assim como também o vento, que nunca sopra. Ele corta cana, ela cuida da casa, e o cachorro nunca para de latir. Eles continuam esperando por tempos melhores. Ramón é otimista, Cândida acredita que o filho já esteja morto. As cenas repetem-se monotonamente a cada dia.
Falado em guarani "Hamaca Paraguaya" retrata a inércia e a monotonia, são longos planos em câmera fixa e quase sempre distantes e diálogos que nada tem a ver com o que se passa em cena, como quando Ramón corta cana sozinho e o diálogo que acontece é do filho se despedindo para ir à guerra do Chaco (Guerra entre Paraguai e Bolívia). 
O som ambiente ajuda na extrema naturalidade, o ruído dos pássaros que nunca são enxergados por Ramón devido as nuvens carregadas, os trovões que anunciam a chuva que nunca vem e os latidos incessantes do cachorro. A hamaca (rede) foi o símbolo que a diretora usou para metaforizar a paralisia do país e do povo paraguaio, a constante espera de algo e a acomodação por causa medo.
O filme disserta sobre o tempo, a velhice, o amor. Uma obra impressionante e poética. Amargo e doce ao mesmo tempo, assim como a vida. O casal de idosos sofrem pela partida do filho, pela espera, pela quase certeza de não vê-lo mais, mas apesar do tom pessimista do longa, há uma ponta de esperança, como a chuva ao final representando dias melhores. Pouco acontece, quase sempre estão reclamando, seja da rede estar velha, do vento que não sopra, do cachorro que ora late demais, ora está quieto demais, e especialmente do calor.

A repetição das cenas e das conversas dão uma certa angústia, assim como a lentidão com que os personagens exercem suas poucas atividades e no como conduzem as conversas, o cansaço, o tédio, a espera.
É um filme em que o som é tão importante quanto a imagem, e é ele que conta a história, evocando memórias, nos colocando de frente ao presente e deduzindo um futuro. Não é um filme fácil, mas sem dúvidas é daquelas obras que precisamos conhecer, pela sua importância em evidenciar o cinema paraguaio e para saber mais da cultura e História do país. 

Palavras da diretora Paz Encina: "Quando concebi a estética temporal para "Hamaca Paraguaya", decidi que cada imagem duraria todo o tempo que fosse necessário para expressar-se e não o tempo para que os outros o vissem. Em cada plano, os pequenos atos são mostrados de principio a fim: um suspiro que termina, um leque que se abana e acaba por refrescar o ambiente, o canto de uma cigarra, alguém que descasca e come uma laranja em tempo real. O que me interessa é que cada imagem capture não somente a beleza exata das coisas, senão também os momentos precisos que evocam um detalhe perfeito de cada um destes atos, que se observam na totalidade de seu desenvolvimento."
Que o futuro seja generoso e nos traga mais filmes vindos do Paraguai, registrando a realidade do país e do seu povo. Um bom exemplo recente é o "7 Caixas" (2014), criativo e genuíno. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O Estranho em Mim (Das Fremde in Mir)

"O Estranho em Mim" (2008) dirigido por Emily Atef é um filme muito angustiante, o drama da personagem vivida pela Susanne Wolff é dificilmente explorado no cinema. Chega a doer de tão real. A depressão pós-parto é um assunto que muitas mulheres evitam, já que amar o ser que sai de suas entranhas é algo intrínseco e natural, e por não conseguir entender a melancolia e a incapacidade que as toma acabam se culpando.
Acompanhamos um jovem casal apaixonado, Rebecca, 32 anos, e seu namorado Julian, 34, estão ansiosamente esperando seu primeiro filho. O mundo deles parece perfeito quando Rebecca dá à luz a um menino saudável. Mas ao invés do amor incondicional que esperava sentir, ela se vê imersa num redemoinho de sensações de impotência e desespero. Seu próprio filho lhe parece um estranho. Com o passar dos dias, fica cada vez mais aparente sua inabilidade para cumprir com as obrigações maternas. Incapaz de admitir seus sentimentos para alguém, nem mesmo para Julian, ela desce ao fundo do poço, a ponto de perceber que está se tornando uma ameaça à criança. Depois de um ataque de nervos, Rebecca é mandada para uma clínica. Lentamente, ela começa a desejar o toque, o cheiro e a risada de seu filho. Talvez um despertar da mãe que há dentro dela.
É um filme particularmente feminino, mas isso não quer dizer que os homens não consigam criar empatia, a direção, a abordagem e a protagonista é de extrema sensibilidade. Rebecca tem um relacionamento e uma vida boa, está feliz pela chegada do bebê, mas após o parto não consegue criar o vínculo esperado, a hora da mamada é o forte indício de que algo está errado, mas como acontece na maioria dos casos a culpa a corroí e não conta para ninguém o que está sentindo, distancia-se do marido, seu semblante se modifica, e de repente sem querer percebe que a criança pode estar em risco na sua presença. Numa caminhada acaba esquecendo o carrinho na rua e pega um ônibus, o estopim para que a internem e daí comecem um tratamento para que se aproxime do filho.

Tenso, "O Estranho em Mim" consegue nos elucidar sobre o problema sem ser didático, há muitas cenas fortes, desconfortáveis e silenciosas que parecem não terminar, uma bela tour de force da atriz que se entregou à personagem com maestria. Além da depressão pós-parto o filme também disserta sobre a falta de comunicação.
A imagem da mãe segurando feliz seu bebê recém-nascido, o amor incondicional, a dedicação integral é demasiadamente exposta, é algo divino e ponto. Excluem-se todas as problemáticas que envolve a experiência de dar à luz. A diretora coloca em pauta o assunto que é considerado tabu e que não se conversa sobre, um momento delicado e de redescobertas para a mulher. 
"O Estranho em Mim" não é um filme de fácil absorção, é duro e chega a ser cruel o desespero que a personagem sofre. Um ótimo exemplar do cinema alemão, maduro, sensível e real.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Primeiro que Disse (Mine Vaganti)

"Amores impossíveis não acabam nunca, são os que duram para sempre"

"O Primeiro que Disse" (2010) dirigido por Ferzan Ozpetek é um filme italiano que reflete sobre preconceitos, é uma história linda, engraçada e real sobre o como é difícil se libertar e ser quem se é realmente.
Tommaso é o membro mais jovem de uma extensa família, donos de uma indústria de massas. A família Cantone é formada pela mãe Stefania, uma doce mulher que é sugada pelos hábitos da classe média, o pai Vincenzo, irritado e sempre preocupado com seus descendentes, a excêntrica tia Luciana, a avó rebelde, que ainda chora pelo amor que há muito se foi, a irmã Elena, dona de casa frustrada e o irmão Antônio, que trabalha na fábrica da família. No dia em que a família se reúne para celebrar a promoção que Antônio recebeu na fábrica, Tommaso decide aproveitar a situação para anunciar que é gay.
Vincenzo (Ennio Fantastichini) é o patriarca da família Cantone e está prestes a passar a fábrica para seus dois filhos, Tommaso (Riccardo Scamarcio) que saíra a algum tempo para estudar administração em Roma e Antonio (Alessandro Preziosi) que já toma conta dos negócios. Tommaso ao voltar para o seio de sua família decide contar que é gay e que na verdade estudou literatura e pretende se tornar escritor. Ele acaba contando o segredo antes para seu irmão que o questiona se isso é realmente necessário, mas Tommaso diz que não aguenta mais e precisa falar. No jantar enquanto todos tagarelam ele vai criando coragem, mas no exato momento que ia desabafar é interrompido por seu irmão que rouba totalmente a cena pra si. Eis que o título "O Primeiro que Disse" faz todo sentido, Antonio revela que é gay e que não deseja seguir o negócio da família. É um grande baque, o pai não acredita, diz para parar com a brincadeira, mas quando percebe que é sério o expulsa de casa, infarta e cai duro no chão. A oportunidade de Tommaso contar seu segredo vai por água abaixo e ele se vê precisando tomar conta da fábrica para não ver o pai piorar. Ele não entende nada de nada, pede conselhos a sua irmã que no fundo sabe que ele é gay e sua amiga e sócia da empresa Alba (Nicole Grimaudo), que mexe com seus sentimentos, ela se torna sua amiga, confidente e uma grande relação se forma. Ela é sozinha e é claramente frágil e ainda tem umas manias estranhas. E no meio desta história tem a avó de Tommaso, uma mulher que no passado sofrera por um amor impossível e que tenta salvar o caminho daqueles que ama.
Interessante a maneira que inseriram o tema homossexualidade na trama, leve e inteligente e por vezes até caricata, como quando os amigos de Tommaso junto a seu namorado vão à casa da família inesperadamente visitá-lo. Engraçado o como reagem, pois não sabem e não percebem os trejeitos, ou então preferem não ver.
O filme traz uma bela mensagem de amor e de respeito. A sensibilidade do protagonista e a sua preocupação são exprimidas com muito cuidado, há diálogos muito bons e cenas silenciosas maravilhosas.

"O Primeiro que Disse" utiliza várias características e costumes italianos, como a grande família sentada à mesa com o humor típico exagerado. A cena em que Antonio revela ser gay é memorável.
O mais legal do filme é que ele foge dos clichês que envolvem o tema e apesar da comédia sustenta bem o drama, além de retratar uma história paralela envolvendo a avó que com o seu bom senso sempre diz sábias palavras. Representando belamente o cinema italiano, o longa acrescenta muito sobre o como é importante respeitar as decisões das pessoas e seguir mais o coração ao invés da razão. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Bekas - Para o Alto e Avante (Bekas)

"Bekas" (2012) de Karzan Kader é um filme iraquiano extremamente belo, simples e puro. 
Dois irmãos desabrigados, Zana de 7 anos e Dana de 10 anos, vivem no limite da sobrevivência. Eles tem um deslumbre do Superman através de um buraco na parede no cinema local, daí decidem sair de sua aldeia curda e ir para a América acreditando que, uma vez lá, o super-herói poderá resolver todos os seus problemas. Zana começa a fazer uma lista de pessoas que ele vai pedir para o Superman punir (uma delas é Saddam Hussein). Dana, por outro lado, pensa no que eles precisam para chegar lá: dinheiro, passaportes, transporte e uma maneira de atravessar a fronteira. Infelizmente, eles não têm nada disso. Graças ao seu trabalho árduo como engraxates conseguem juntar dinheiro suficiente para comprar um burro (que eles chamam de Michael Jackson) e com o qual eles decidem partir para realizar seu sonho. Por trás desta cativante odisseia encontra-se um retrato íntimo do conflito curdo no Iraque.
O diretor Karzan Kader explica a intenção de seu filme: "O Curdistão está em guerra há tanto tempo que se tornou o estado normal lá. Eu quero que esta história seja uma voz do povo curdo para o resto do mundo."
A trama se passa na década de 1990, o auge da perseguição de Saddam Hussein aos curdos. Os irmãos órfãos Zana e Dana passam por muitas dificuldades e tentam sobreviver em meio ao caos. A imaginação é uma grande aliada, Zana se encanta com o Superman quando o vê através de um buraco no cinema, e depois daí deseja ir atrás dele na América (EUA) e fazer alguns pedidos, como ressuscitar seus pais e se livrar de Saddam Hussein. Zana convence o irmão de que tudo pode melhorar ao chegarem lá. Conseguem algum dinheiro engraxando sapatos e compram um burro que os levará para o tão sonhado lugar, porém precisarão de muita sorte e o caminho fará com que percebam que o amor entre eles é o maior poder que existe, além da determinação e sensibilidade.
As cenas são dotadas de simplicidade e ingenuidade, Zana fala gritando o filme todo, o que acaba irritando, mas é completamente autêntico e natural, o menino segura o filme todo, sua imaginação e inocência misturada a miséria e ignorância gera sentimentos diversos, já Dana tem um jeito mais sereno, por ser maior é difícil crer que também embarcaria nessa viagem, mas os dois não tem nada a perder, e por mais que tudo seja impossível e irreal buscam e vão sem medo, nunca são retratados como coitadinhos, há firmeza, decisões e uma cumplicidade que emociona.

Com atores amadores, o filme é inspirado nas experiências vividas pelo próprio cineasta quando fugiu com sua família nos anos 90 para a Suécia.
Cativante, triste e inspirador, "Bekas" nos faz relembrar de valores essenciais e do que realmente importa na vida. Sozinhos somos frágeis e é fácil nos quebrar, mas quando estamos juntos de alguém que nos ama somos mais fortes, e o caminho para os sonhos se tornam mais especiais.
É um retrato emocionante e por vezes bem-humorado da inocência, da amizade, e do elo formado por essas duas crianças que vivem em um local marcado pela guerra e pela pobreza.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru)

"Pais e Filhos" (2013) de Hirokazu Koreeda (Boneca Inflável - 2009) questiona os laços de sangue, algo que damos tanto valor e que na verdade diz tão pouco, até porque o amor e o carinho nasce por diversos aspectos. No filme acompanhamos Ryota (Masaharu Fukuyama), um arquiteto de uma grande empresa, workaholic acaba deixando sua família em segundo plano, sua esposa Midori (Machiko Ono) e seu filho Keita (Keita Ninomiya). Eles têm tudo, uma vida boa, um grande apartamento, mas falta o essencial, o calor, o afeto. Ryota é narcisista, obcecado com o dinheiro e pelo futuro do seu filho, cujo já traçou e leva isso rigidamente, mas o menino é ingênuo e tem uma personalidade serena, o que acaba afastando-os mais ainda. Um dia Midori e Ryota ficam sabendo que houve uma troca de bebês no hospital após o nascimento de Keita, e que este não é filho deles, então começa uma busca e encontram a família da qual o filho biológico está. Segue-se uma confusão psicológica, Midori não se conforma em não ter desconfiado e Ryota diz que agora percebe o porquê do filho ser tão diferente dele. O outro casal Yudai (Lily Franky) e Yukari (Yoko Maki) pertencem a outra camada social, aparentemente não ficam tão aterrorizados com a notícia, pretendem tirar o máximo de dinheiro do hospital e conforme o desenrolar aceitam as propostas de Ryota. É uma família feliz, grande e calorosa.
A maneira com que o longa compara as duas famílias é interessante, pois demonstra o quão importante na vida é manter-se consciente do que está passando para o filho, por exemplo, Ryota vinha de uma criação complicada, sua mãe abandonou o lar por motivos dos quais não são explorados pela história, e seu pai acabou se casando novamente, tempos depois ele foge e quebra o vínculo com a família, isso reflete no como cria Keita, sob punhos de aço, querendo que ele seja um campeão aos cinco anos de idade, não deixando ele ser uma criança. Já Yudai permite que seus filhos brinquem, baguncem, sejam eles mesmos, não pressiona, pois o tempo de fazer escolhas chegará, além de conseguir expressar amor, coisa que Ryota não faz. Os meninos são diferentes entre si, Keita é tímido e ainda vive na inocência, Ryusei (Shogen Hwang) é mais ativo, esperto e questionador.
As famílias vão se organizando e convivendo com seus respectivos filhos, mas o fato é que o laço de sangue não importa, todo mundo sofre. O que foi feito está feito, nada será como antes e o melhor a fazer é lidar com a situação de forma menos egoísta possível, pensando nas crianças.

As sutilezas expostas nos emocionam, é completamente real a situação retratada. Uma das cenas mais lindas é a que transforma Ryota, quando ele olha as fotos tiradas por Keita sem ele saber, daí parece que o coração dele sente realmente o amor.
O longa reflete sobre o quão importante é saber que coisas materiais não significa amar, o maior presente é o tempo, pois mais a frente quando eles se tornarem adultos lembrarão somente dos momentos, como um belo fim de semana acampando, pescando, um sorriso, uma brincadeira, um abraço extremamente afetuoso, uma conversa, enfim, detalhes, miudezas que fazem toda a diferença na formação de um ser humano.
Cada vez menos se convive com os filhos, são inúmeros meios de entretê-los e quando se reúnem a frieza toma conta, é cada um no seu canto, o afeto, o 'eu te amo' é raro. Justamente por isso que é tão gostoso ver a família de Yudai, eles cultivam a simplicidade e a relação se torna descomplicada e natural.

"Pais e Filhos" é belíssimo e serve como reflexão para nos fazer enxergar o que realmente importa para uma criança, questionar laços de sangue e também para valorizar as pequenas coisas cotidianas.
As pessoas vivem estressadas e acabam por descontar em alguém, quase sempre nos filhos e não pensam no que isso pode acarretar, talvez esse filho no futuro faça isso com seu próprio filho e assim por diante. É piegas dizer que o amor continua sendo o caminho mais fácil, mas é a pura verdade, só assim os caminhos se tornam um só e a dificuldade desparece.