sexta-feira, 15 de março de 2013

A Viagem (Cloud Atlas)

"A Viagem" (2012) tem dividido opiniões, o que para alguns é algo fantástico, genial e que aborda diversos temas, para outros é um filme pretensioso, confuso e recheado de filosofia barata.
Baseado no livro homônimo de David Mitchell, o longa pode ser considerado a adaptação mais confusa e complexa já feita, mas a verdade seja dita, houve muita coragem e ousadia ao transpassá-lo para a telona. A história segue uma linha espiritual, onde nos diz que tudo está conectado, há muitas teorias abordadas, como a do Caos, Nova Era, Karma e Reencarnação.
Dirigido pelos irmãos Wachowski (Matrix) com parceria de Tom Tykwer (O Perfume) compõe uma rede de histórias que são assimiladas aos poucos e que de fato dão sentido ao final de tudo. Não é um filme imediato, ele demora a chegar até nós, mas nos prende, pois não se pode negar a interessante conexão entre os personagens. Mexe com nosso intelecto, nos questiona sobre crenças, outras vidas, existência de um Deus, e por isso é controverso.
O filme conta seis histórias em diferentes épocas. Em 1849, Adam Ewing é um advogado enviado pela família para negociar a compra de novos escravos. Ao retornar para casa, ele salva um escravo e é envenenado pelo próprio médico. Em 1930 acompanhamos a história sobre um amor homossexual proibido, o jovem e talentoso compositor Robert Frobisher ajuda o também compositor, e já idoso Vyvyan Ars a compôr uma obra-prima musical. Em 1970, a jornalista Luisa Rey conhece Rufus Sixmith, quando o elevador que ambos estão quebra. Tempos depois, ele a procura para revelar que estão encobrindo uma série de falhas no projeto de construção de um reator nuclear. Os dias atuais relata de forma engraçada a tentativa de fuga de um editor de livros que foi colocado em uma casa de repouso. Em 2144, chegamos a cidade de Nova Seul, em uma ficção científica que conta a história de uma empregada de uma cadeia de restaurantes que acaba se tornando a líder de uma revolução. E por fim, em um futuro pós-apocalíptico, a Nova Seul foi tragada pelas águas há 100 anos. Zachry, líder de uma tribo venera Sonmi como se fosse uma deusa. Sua vida muda quando Meronym, que integra um grupo evoluído chamado Prescients, lhe pede para viver com sua tribo.
Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James Darcy, Xun Zhou, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant, entre outros fazem vários personagens ao longo do filme, alguns ficam irreconhecíveis com a maquiagem, vemos ocidentais se tornando orientais, negros em brancos, o que indica que podemos voltar em qualquer lugar e de qualquer jeito.

Uma das metáforas mais interessantes do filme é a do restaurante, onde há os clones que lá trabalham, tudo em prol da ganância, o mundo capitalista impera, os fortes exploram os mais fracos, retrata uma espécie de sociedade em camadas, uma sociedade de palavras fáceis que mobilizam massas, a exploração do indivíduo, o futuro da humanidade, e então no que acreditar afinal? O filme permite uma viagem num sentido mais espiritual da palavra e aborda temas como o amor homossexual, lealdade, amizade, o ato de criar (música), ganância, etc. É uma enxurrada de definições e interpretações, é amplo como a nossa vida.
"A Viagem" é uma experiência que cabe a cada um decidir se vale a pena ou não, é um filme esquecível, tem seus méritos, mas não chega a ser profundo para o que propõe. A mim o simples sempre leva mais à reflexão do que artimanhas de efeitos visuais e histórias que pareçam complexas. Mesmo que a trama se complete, é um pouco maçante a quem o assiste, e essa impaciência acaba gerando o oposto da reflexão.
É interessante como algumas histórias não pareçam ter relações, ou não são tão óbvias, mas que de algum modo mais pra frente se encaixam. Devo admitir que para quem reclama que o cinema anda sempre igual, aqui há uma opção diferente, um filme ambicioso e que faz o que muitos não tem coragem de fazer, cutucar o espectador, invadir seu íntimo e mexer com conceitos predefinidos.

Não é um filme difícil, verdade que o início causa confusão, mas é porque as histórias estão sendo apresentadas, depois de 30 minutos as coisas engrenam. Mesmo que o filme não seja grandioso, há pontos positivos. Cinema é realizar o impossível e "A Viagem" é um livro considerado inadaptável, tamanha sua complexidade.
As pessoas tem um senso crítico negativo que se sobressai, vejo adjetivos como pretensioso, presunçoso, intelectualoide, pseudo-cult, na verdade essas pessoas que dizem isso não sabem apreciar um filme, se focam ao detonar ao invés de tentar entender.
Outras vidas, passado, presente e futuro, tudo está conectado. A verdade é que somos sozinhos neste mundo, viemos e voltamos sós, mas em vida convivemos com pessoas das quais gostamos por algum motivo e outras que não há explicações, simplesmente amamos. Ta aí mais uma coisa que o filme aborda, o amor eterno.

Sempre tive o pensamento de que não podemos jamais desfazer, humilhar, desprezar alguém, pois algum dia talvez precisaremos desta pessoa. A vida é um ciclo, um dia ela vai voltar para onde tudo começou. O que nasce, morre, tudo volta ao seu ponto de origem.
Interpretações a parte, vale a pena conferir o tão discutido "A Viagem", filosofia de boteco ou não, rende muitas conversas sobre.

"Nossas vidas e escolhas, cada encontro, sugere uma nova direção possível."

"Do útero ao túmulo, estamos ligados uns aos outros. Passado e presente. E para cada crime e cada bondade, renasce nosso futuro."

"Medo, fé, amor. Fenômenos que determinam nossas vidas. Essas forças começam bem antes de nascermos, e continuam após nossa partida."

"Ser, é ser percebido. E assim conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos do outro. A natureza de nossas vidas imortais, está nas consequências de nossas palavras e ações, que vão, e estão se esforçando a todo instante."

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Porco Espinho (Le Hérisson)

"O Porco Espinho" (2009) baseado no romance "L'élégance du Hérisson", de Muriel Barbery é um filme delicado, com um roteiro primoroso que se apega a detalhes, a pequenas grandes paixões dos personagens, o que faz deles interessantes aos nossos olhos. 
Paloma (Garance le Guillermic) tem 11 anos e mora em um apartamento de luxo com seus pais e sua irmã. Considerada excêntrica, ela tem o hábito de ficar filmando o dia a dia de sua família e seus vizinhos. Também estuda japonês, gosta de gatos e de desenhar, mas mesmo assim é entediada. Decide, então, se matar no dia de seu aniversário de 12 anos. Ela resolve fazer diversas filmagens enquanto não chega o dia. O que Paloma deseja com essas filmagens? Documentar seus últimos dias ou de certa forma, se aproximar das pessoas? Paloma diariamente planeja sua morte, pensa em pular da janela, perfuração com faca no abdômen, mas acaba por decidir tomar uma quantidade abusiva de remédios, todos os dias retira da caixa vários antidepressivos de sua mãe. A menina se sente triste e não consegue enxergar naqueles de seu convívio algo que poderia fazê-la mudar de ideia. Sua mãe faz análise a dez anos, mesmo período que passou a consumir medicamentos e bebidas descontroladamente, além de conversar com as plantas; o pai é um burocrata, funcionário público do alto escalão sempre a mercê dos joguetes políticos; a irmã mais velha é apenas uma adolescente fútil e insensível. Paloma vê neles somente personagens para seu filme. Mas a vida costuma nos presentear com pessoas adoráveis e de alguma forma a zeladora do prédio foi esse presente pra ela.
Renée Michel (Josiane Balasko) é uma mulher de cinquenta e quatro anos, sua única companhia é seu gato Leo. Quase sempre invisível aos olhos dos moradores, mesmo que às vezes este fosse seu real desejo. Certo dia, ao levar o gato de Renée para dentro da casa, Paloma percebeu um livro aberto em cima da mesa ao lado de um tablete de chocolate e uma xícara de chá. Aquela menina admirou-se então pela possibilidade daquela zeladora ser uma leitora de livros densos e interessantes. Paloma só teve tempo de filmar o livro e sair rapidamente da casa. Nos próximos dias Paloma resolve se aproximar de Renée, que em sua opinião parecia ter encontrado o esconderijo ideal: ser uma zeladora. A chegada do Sr. Kakuro (Togo Igawa) acende mais a curiosidade dela, pois em uma conversa no elevador, os dois comentam que Renée talvez tivesse um segredo. No dia em que Renée e Kakuro se conhecem, uma conversa amigável se dá entre eles, à medida que ela citou que "todas as famílias felizes são iguais", Sr. Kakuro rapidamente completa sua citação, "as infelizes o são cada uma à sua maneira". A mulher simples conhecia Tolstói e era apaixonada por gatos, uma bela afinidade começou a partir desse encontro.

Kakuro dá de presente a Renée um exemplar de Anna Karenina, ela fica encantada, mas sem graça por um homem tão rico e elegante ter notado ela, uma simples zeladora. Os dois começam a se encontrar para jantar, assistir filmes, conversar, e a mudança em Renée se faz lindamente, ela se arruma, corta o cabelo, mas mesmo assim se acha uma mulher feia, mas como Paloma a definiu, ela era como um porco espinho, ninguém chegava perto, era dura, mas por dentro era sábia e tinha uma elegância particular. Esse momento que a menina descreve e compara Renée a um porco espinho é uma das cenas mais belas do filme, junto com a que ela filma a zeladora e pede que esta conte sobre si mesma.
Para Paloma, Renée tinha encontrado a maneira ideal de se esconder do mundo, não ser enxergada por ninguém, mas mesmo assim conseguir se alimentar mentalmente dos livros. Sr. Kakuro, Renée e Paloma tinham em comum a solidão, a paixão pelos livros, a sede de conhecimento e a afeição pelos gatos, grandes companheiros dos solitários. Eles viam o mundo de uma ótica diferente, conseguiam ver além do pano que encobre o cotidiano, a rotina. Paloma enxergava seus familiares numa espécie de aquário, presos num tipo de vida da qual ela não queria fazer parte. Muitos dos espectadores podem questionar sobre essa menina tão nova já ter essas ideias existenciais, pensar em suicídio e ver seus pais do lado de fora do aquário em que vivem. Ela tem o mesmo que habita em Renée e Kakuro, a ânsia do saber.

A morte em si não é importante, mas sim o que se está fazendo quando ela acontece, essa é a grande tragédia, e o final triste retrata bem isso. Renée, anos sem ser vista por alguém encontrou em Kakuro, um ser semelhante a ela, e decididamente estava pronta para amar.
Acontece uma grande mudança em Paloma dada as circunstâncias, o peixinho que certa vez ela jogou pela descarga por pensar estar morto, depois de ter dado um comprimido ansiolítico, ressurge na privada de Renée, e nada mais simbólico que isso, um renascimento da própria menina, e o entendimento de várias nuances da vida.
Muitas pessoas que se sentem inadequadas ao mundo se fecham em seus próprios, porém os de fora passam a não enxergá-las mais. Aqueles que se julgam elegantes não o são na verdade, a elegância está muito além, está dentro daquele que cultiva em si conhecimentos e paixões.

terça-feira, 12 de março de 2013

Lena

"Lena" (2011) é uma história crua e fria, podemos perceber isto pela protagonista, seus olhares sempre vagos mesmo diante a uma aparente felicidade. O filme se faz pela atuação e não pela trama em si. 
Lena (Emma Levie) é uma adolescente gordinha e solitária que vive de maneira simples com a mãe divorciada e motorista de ônibus. A mãe se acha uma derrotada e se afunda na bebida, quando a frustração é mais forte ela transfere para Lena, lhe agredindo  de uma forma verbalmente violenta. Quando não está em casa cuidando da bagunça da mãe, Lena divide seu tempo entre a escola, um grupo de dança country e o estágio em uma creche. Ela também se entrega ao sexo casual como fuga de si mesma.
O filme se inicia exatamente com uma cena que Lena faz sexo em um canto qualquer, vemos a ausência em seu olhar desde o primeiro minuto do longa. Sua vida muda quando conhece Daan (Niels Gomperts) um rapaz bonito, despreocupado, que vive com o pai viúvo, um homem que parece nem existir na casa. A maneira como eles se conhecem é estranha, Daan está correndo desesperado, fugindo de algo e Lena lhe dá carona de moto. O moço diferente das outras pessoas do convívio de Lena a trata de forma natural e carinhosa, logo eles se envolvem e começam a namorar. Do dia pra noite ela já vai morar na casa do rapaz, com o propósito de fugir de sua mãe. De início o relacionamento é maravilhoso, mas com o tempo Lena descobre que Daan mentiu sobre as coisas que andava dando de presente para ela. O ponto crucial é quando a polícia bate na porta da casa, assim ela decide terminar e voltar para sua mãe, mas esta a recusa e Lena fica sem ter para onde ir.
O pai de Daan a encontra e a leva para casa e diz que pode ficar lá, mesmo não estando mais com seu filho. Este homem antes um zumbi, começa a viver, mas o que parecia ser apenas uma coisa paternal, se torna uma paixão quase obsessiva. Nesse período Lena decide dar mais uma chance a Daan, se ele prometer voltar a estudar e se comportar, ela não vê outra saída para si mesma a não ser aceitar os fatos, pois na casa de sua mãe não voltaria mais. As coisas se complicam quando começa a manter uma relação mais profunda com o pai de Daan, mas por pura opção dela. A situação vai ficando insustentável e sai de seu controle, desse modo acaba contando tudo a Daan, que revoltado tira satisfações com o pai, e este pede para que Lena conte como tudo aconteceu na realidade, mas ela a fim de que tudo isto termine age de forma impulsiva dando um fim trágico a situação. A atuação de Emma Levie é absolutamente fantástica, ela realiza cenas complicadíssimas e seu olhar continua impenetrável.

Lena conhecia apenas um tipo de mundo, com a influência de uma mãe louca, que transitava entre superproteção e ofensas, relacionamentos errados, uma visão de sexo casual, não tinha outra opção a não ser seguir o mesmo caminho, ela não tinha ideia do que era se envolver de verdade, o que sentia por Daan não era amor, mas sim, um meio de viver. Com o pai dele ela sentiu algo diferente e saiu fora de seu mundo, o que gerou o descontrole e a fez reagir de forma instintiva.
Como Lena estava habituada a seu modo de viver não conseguiria comandar um relacionamento sério, e mesmo que pareça o inferno na terra ela preferia voltar a sua vida da qual já estava familiarizada, uma espécie de porto seguro, por esse motivo a vemos como uma moça doce, embora com um imenso vazio dentro de si.

domingo, 10 de março de 2013

Negro Queimado (Svidd Neger)

"Negro Queimado" (2003) é um filme estranho, nonsense, com muitas situações bizarras e de um humor nada convencional. Ante é um garoto negro, isolado no norte da Noruega, que foi colhido no mar, ele pensa ser "finlandês" e passa a maior parte do tempo com um penico na cabeça, colhendo cogumelos na floresta. Tem como irmão adotivo um gordo "masturbador compulsivo". Vivem com a mãe viciada em palavras cruzadas, próximos de outra granja onde moram Karl, um bêbado assassino que usa vestido, e sua filha Anna, uma loira que gosta de cantar expondo seus adoráveis dentinhos tortos. Sua vida é bisbilhotada diariamente por um norueguês disfarçado de lapão chamado Normann Haetta Bongo Utsi Saus, que sonha ir para um certo país onde todos vão ao psiquiatra. Enquanto isso, ele passeia pelas montanhas na companhia de sua rena e de um telefone, no qual recebe ligações da mãe. Violinistas fazem aparições esporádicas. A certa altura, um padre mais louco que todo mundo junto surge de pedalinho por entre os fiordes para dar a benção ao casal Anna e Peder.
Em um momento o pai bêbado de Anna acha que vê o fantasma de sua esposa morta e tenta afogá-la no mar, mas quando ele se dá conta está segurando a cabeça de uma vaca em suas mãos, da qual ele dá para a mãe de Ante. Depois que a casa de Peder, Ante e sua mãe pega fogo, eles vão morar na fazenda de Karl, este quer um herdeiro, e tenta juntar sua filha com Peder, Karl vive dizendo o quanto ele é forte só para fazer todo o trabalho da fazenda. Ante apenas observa, fuma e come cogumelos, mas também gosta de Anna, o menino não sabe que é negro até que o escandinavo aparece e lhe diz.
Um dos fatores interessantes são os diálogos, as palavras utilizadas do vocabulário da região do norte da Noruega. O título do filme foi colocado em questão antes do lançamento por parecer racista, mas é mais uma ironia absurda e sem sentido do que qualquer outra coisa.
Anna encontra furtivamente o escandinavo, a cena que a mãe de Peder detecta que Anna está grávida é surreal, ainda mais porque sua barriga cresce do nada, acreditando ser de Peder os dois se casam, mas acabam descobrindo que é do escandinavo, depois disso são cenas doentias, até que surge o pai de Ante e resgata ele e Anna de pedalinho e vão rumo à América.

Para quem gosta de filmes de situações nonsense, esse é o que há. O velho Karl bêbado de vestido é impagável, é uma das cenas mais loucas. Sem dúvidas uma comédia incomum.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Eu Existo (Jestem)

"Eu Existo" (2005) entrou para minha lista dos filmes mais belos que vi. É daqueles que chegam devagarinho, e ao final ficamos completamente absorvidos pela história. É de uma delicadeza poucas vezes vista no cinema, é triste, mas ao mesmo tempo singelo e inocente. É existencialismo puro.
Um menino na faixa dos dez anos se vê perdido diante ao fato de não ter ninguém no mundo, ele tenta encontrar seu lugar, mas sem muito sucesso. De início o vemos no orfanato sendo ridicularizado pelos amigos, ele não entende o porque de estar lá, já que tem uma casa e uma mãe. Ao fugir e retornar ao seu lar encontra sua mãe, uma prostituta alcoólatra repleta de problemas, eles acabam brigando e o menino sai correndo. Sem ter para onde ir e o que comer, ele vaga até encontrar um velho barco abandonado em frente a casa de uma família rica, e se estabelece lá. Ele passa os dias pensando na vida e vendendo toda a sucata que consegue para obter seu alimento. O filme começa a ficar realmente bonito quando o menino é descoberto pela garotinha da casa, ela se sente exatamente igual a ele, mesmo tendo todo o conforto. Sua irmã mais velha e muito linda, de certa forma sente ciúmes da amizade e amor que cresce entre os dois, e é ela que definirá o rumo da história. Kuleczka, a jovenzinha sente-se feia e bebe escondida, Kundel, o garotinho abandonado não se mistura com os outros meninos de rua, pois estes usam drogas e vivem se metendo em encrencas. É difícil encontrar um lugar no mundo quando não há ninguém que o direcione e o ame, se sentir excluído de tudo como se fosse um animal, um inútil. Há cenas grandiosas, das quais mexem com nosso coração.
Kundel sobrevive de vender sucatas e numa de suas idas ao lugar o velho quer pagá-lo dando vários gatinhos, mas o menino se recusa, pois não há comida nem para ele, quando ele retorna e pergunta dos bichinhos o velho lhe diz que os afogou no rio, o menino pergunta o porquê e o homem responde que ninguém precisava deles, não tinha serventia alguma. Então, Kundel pensativo diz: "Por que não me afoga, você também não precisa de mim". É tão espontâneo que esse momento nos arranca tanto o choro como o sorriso.
Com o tempo as duas crianças se aproximam mais, fazem confidências e conversam sobre um possível futuro, o que esperam para si em um mundo do qual não pertencem. Kundel tenta mais uma vez ir ao encontro de sua mãe, mas ela o rejeita da pior forma. Arrasado volta para o único mundo que tem, junto de sua amiga especial. Ele chora ao lado dela e pergunta o que fez para que sua mãe não gostasse dele, a menina simplesmente diz: "Você existe!".

Kuleczka leva todos os dias um sanduíche a Kundel, este espera ansioso pela sua chegada, a sua única companhia, a pessoa que gosta dele e o entende, numa dessas ao morder o lanche encontra um bilhetinho escrito: "Eu Te Amo". O sorriso dele diante a frase é inexplicável, é o amor no seu estágio mais puro e inocente. Amar pelo simples fato da pessoa existir.
Outro ponto positivo vai para a fotografia que dá o toque de solidão que o filme possui, os atores mirins são incrivelmente naturais, é bonito ver crianças atuando desta forma, pois o brilho do olhar diante a câmera ainda possui aquela inocência, as sutilezas, como o sorriso de canto de boca de Kundel quando se sente feliz, pois alegria é uma estranha pra ele. O fim é triste, mas dotado de uma beleza muito peculiar, percebemos que o menino encontra seu lugar ao afirmar que ele existe, mesmo que o mundo não o perceba, há quem o ame e isso é o que dá a certeza de sua existência.

Essa é daquelas histórias pequenas e simples que nos edifica e nos faz querer ser melhores uns com os outros, vivemos num mundo onde ninguém se importa com ninguém, onde crianças são rejeitadas por suas mães e nem todas conseguem achar seus caminhos, a inocência se perde e a vida se torna insuportável cedo demais, pois o valor de alguém é medido pelo status, beleza, sociabilidade, sobrenome, essa é a única realidade aceitável, as outras são invisíveis e esquecidas.
É por isso que vale a pena assistir filmes bons que nos acrescentam algo, que ficará guardado com muito carinho na memória. "Eu Existo" é filme para rever durante o decorrer da vida, é sutil e leve ao tratar de um tema tão triste, a dificuldade de se descobrir perante ao mundo e se afirmar mesmo que este o rejeite.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee Raleuk Chat)

É extremamente difícil falar sobre "Tio Boonmee", mas não posso deixar de fazer algumas observações e compartilhar minhas percepções. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano de 2010, o filme pode ser considerado um gênero de fantasia alternativa, ou espiritual. A nós ocidentais a primeira impressão que passa é logo comparar os acontecimentos com a religião espírita, mas a verdade é que é algo muito além de qualquer rótulo. Falar em espiritualidade e a evolução desta enquanto ser humano pode soar mera bobagem a algumas pessoas, mas o que realmente "Tio Boonmee" quer passar em forma de simbolismos é a nossa relação com a morte e dizer que natureza e homem são uma só coisa, nos unimos a ela quando morremos, um ciclo que termina onde tudo começou. Muitas pessoas acham que a natureza está distante de nossa condição como ser humano, mas acontece que estamos ligados a ela desde o princípio.
Apichatpong Weerasethakul ou Joe como o próprio diretor tailandês se apelidou, dada a dificuldade de pronunciar seu nome, mostra o quanto estamos longe de compreender tudo, até porque nós lidamos com a vida, a morte é algo que está fora de nosso entendimento. Acredito que uma pessoa mais espiritualizada consiga captar vários dos simbolismos expostos, aquele ser humano que busca se conhecer, que consegue pensar de forma ampla, que identifica sua essência, tem consciência de que tudo termina e de que estamos conectados com a natureza sendo uma só coisa. Mas por um outro lado a pessoa que está distante destes conceitos não consegue absorver e tão pouco entender o termo espiritualidade.
Tio Boonmee é interpretado por um ator não-profissional e é isso que funciona ao dar naturalidade à história. O personagem é viúvo e está com um problema nos rins, ele volta para uma região de florestas no nordeste da Tailândia. Lá conta com a companhia da cunhada Jen, o primo Tong e Jaai. Num jantar, uma espécie de despedida, a barreira entre os vivos e os mortos se rompe. A falecida mulher de Boonmee, Huai vem fazer uma visita. A chegada dela, um espírito, não poderia acontecer de forma mais natural, sem qualquer alerta de que um fantasma entrou em cena. Ela se senta à mesa e começa a compartilhar da conversa. Nesse momento, recordações e pontas soltas do passado e presente se tornam o assunto. São conversas melancólicas, mas que se desenrolam sem qualquer estranhamento.

Outra figura peculiar torna a ceia ainda mais especial, trata-se de Boonsong, o filho perdido de Tio Boonmee, que retorna como um espírito em forma de macaco e cujos olhos são vermelhos. 
Apichatpong destrói a linha que divide o real e o imaginário, a vida e a morte, a existência e a ausência. A morte é tratada de forma muito natural, um acontecimento tranquilo, uma fase da qual Tio Boonmee está passando.
É um filme completamente sensorial e feito de imagens, o ritmo é lento, como se tudo tivesse o tempo certo para acontecer, a natureza é muito presente, ela é uma personagem e não há coisa mais bela que a trilha sonora da floresta que acompanha a despedida de Tio Boonmee do mundo físico. É complicado compreender outras tradições, outras formas de enxergar a morte, os tailandeses tem uma calma natural ao lidar com este assunto.

"Tio Boonmee", Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" é cinema experimental e de certa maneira hipnótico, há cenas incompreensíveis e talvez nem tenham explicações. Em meio a nossa vida cotidiana tão automática e rasa, "Tio Boonmee" aparece para abrir nossos olhos, e mesmo sem compreendê-lo já vale a pena para pensamentos novos virem à tona, e saber que existem diversos jeitos de encarar a morte.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Em Nome de Deus (The Magdalene Sisters)

"Em Nome de Deus" (2002) dirigido por Peter Mullan é baseado em fatos reais, a história se passa em um asilo, onde meninas eram enviadas para "lavar" seus pecados. Todo mundo conhece a história de Maria Madalena, aquela prostituta que se redimiu e foi pro céu, o nome do lugar era por conta disso. Os motivos de as meninas serem enviadas para lá variavam entre terem perdido a virgindade, terem filhos antes do casamento, ou mesmo aquela que chamava mais atenção dos garotos por ser bonita também era jogada no antro católico.
O filme é contado sob o ponto de vista dessas jovens, que de repente encontram-se num pesadelo interminável. São apresentadas três jovens mulheres que foram internadas numa destas casas no ano de 1964: Margaret (Anne-Marie Duff), Bernadette (Nora-Jane Noone) e Rose (Dorothy Duffy). Na introdução do filme descobrimos os crimes cometidos por elas: Margaret foi condenada por ter sido estuprada pelo primo e não guardar o fato dos pais e da sociedade, Bernadette, uma moça muito bonita que atrai os olhares masculinos, não se preocupou em esconder sua beleza e sensualidade; Rose contrariou os costumes conservadores e engravidou antes do casamento, sendo obrigada a entregar seu filho para adoção. A irmã Bridget punia as meninas por tudo, se falassem com alguém de fora, se tentassem fugir, se desobedecessem as irmãs e se conversassem entre si. Trabalhavam o dia inteiro e comiam uma comida bem inferior a das irmãs. Em uma tentativa de fuga, uma garota é submetida a maus tratos e raspam completamente a cabeça dela a fim de que sua vaidade suma e não tenha mais vontade de ir embora.

Observe, a igreja não tinha poder legal para trancafiar as meninas, mas os próprios pais as levavam lá, a sociedade fingia não ver e tão pouco desafiava a igreja. Outro ponto é o tanto de dinheiro que entrava, pois elas trabalhavam escravizadas, em uma cena vemos a freira guardando o dinheiro que arrecadava. O filme traz a visão de que a igreja católica sempre foi cruel e fundamentalista, escondendo fatos, mas a sociedade se acostumou a isso e nunca protestava. Muitas coisas se fazem em nome de Deus sem ao menos serem questionadas. O longa abre os olhos para aqueles que confiam cegamente em uma religião, seja ela o catolicismo ou não. 
Bernadette era a mais desafiadora, a cena em que decide fugir demonstra isso, ela leva Rose junto de si, as duas escapam daquele lugar e conseguem refazer suas vidas anos mais tarde, mas sempre com o fantasma desse passado cruel em suas mentes. Margaret, a que sofreu abuso do primo foi resgatada pelo irmão, que sempre acreditou nela, mas não podia fazer nada, pois era uma criança quando aconteceu, anos depois já adulto buscou-a. Uma outra personagem de grande valia é Crispina, aparentemente retardada, com o passar do tempo seu comportamento foi piorando, e acabou sendo enviada para um sanatório.

Os lares Madalena, na Irlanda, eram de responsabilidade das Irmãs da Misericórdia, em nome da Igreja Católica. Jovens mulheres eram mandadas por suas famílias ou pelos orfanatos e, uma vez lá, ficavam confinadas e obrigadas a trabalhar na lavagem de roupas, onde poderiam expiar seus pecados. Os pecados variavam entre ser mãe solteira, ser bonita ou feia demais, ter problemas psicológicos, ser ignorantes ou inteligentes, ou vítimas de estupro. E por seus pecados, elas trabalhavam 365 dias por ano, sem remuneração. Eram mal alimentadas, surradas, humilhadas, estupradas, e seus filhos levados à força. A sentença dessas moças era indefinida. Milhares de mulheres viveram e morreram nesses lares. O último Asilo Madalena na Irlanda foi fechado em 1996.
O longa foi criticado pelo Vaticano como "provocação cheia de ressentimento", o filme feito com orçamento pequeno foi premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2002.
A igreja católica tem diversos fatos escondidos e quando alguém decide retratá-los, ela vem alegando calúnia e provocação. Somos livres, escolhemos no que acreditar e como devemos viver a nossa vida, ninguém tem o direito de nos prostrar, religião nenhuma pode enclausurar-nos numa única forma de pensar.