sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Raiva (La Rabia)

Perturbador, apelativo, pretensioso, incômodo e completamente diferente. "La Rabia" não foi feito para que gostemos dele, adquiri-se um certo asco pelas imagens e atos das pessoas. As cenas são longas e nos causa desconforto. Em meio a tantas coisas exageradas expostas, o que vale mesmo é a história central. Em uma fazenda abandonada pelos donos, moram duas famílias que trabalham ali. Um casal que tem uma filha pequena que é muda, e na outra casa mora um homem que explora seu próprio filho. Logo no início somos avisados que os animais apresentados morreram em seu habitat. Naquele ambiente árido, as pessoas grosseiras e rudes, nos mostram que quanto mais próximos da natureza, mais nossos instintos se comparam com o dos animais, visando apenas sobrevivência. O tempo todo nos deparamos com cenas de sexo intermináveis, animais sendo mortos, como o abate de uma leitoa e todo o seu processo até virar a carne que irão comer, há galinhas sendo mortas pelos cachorros, os cachorros sendo mortos porque matam as ovelhas, e por aí vai.
Poldo, o pai de Nati, a menina muda, percebe que seu vizinho e amante de sua mulher insulta sua filha, ele acaba proibindo que Pichón apareça na sua casa. Nati sabe que sua mãe trai seu pai com Pichón, várias vezes ela os pegou nus na cama, inclusive em uma das últimas cenas, Pichón vê a menina, mas ele tapa os olhos da mãe para que não a veja e continua transando. O filho dele aparece e percebe o absurdo, tapa os olhos da menina e sai. De fato o ar agora começa ser o da tragédia anunciada. Nati desenha figuras feias e diversas vezes o filme insere essas imagens horríveis juntamente com uma trilha sonora que dá efeito de uma raiva contida. O único momento em que sua raiva é colocada pra fora é quando desenha. Poldo vê alguns desses desenhos de Nati e deduz alguma coisa, irritado vai a casa de Pichón e acaba sendo morto. Mas essa tragédia é apenas o início. O final nos dá uma sensação ruim, ficamos paralisados conforme os créditos sobem. O filho de Pichón coloca toda a sua raiva pra fora e o que vemos é aterrador.

Esse longa argentino é criativo, porém muito indigesto. Ele atinge diretamente pontos em que o ser humano geralmente se sente desconfortável. O melhor detalhe a se observar é a expressão dos olhos da garota muda. A raiva de Poldo em ir ao encontro de Pichón e tirar satisfações acarreta o início de uma tragédia. A raiva se alastra facilmente, basta um ato de violência para que tudo desmorone, tudo vem à tona, sentimentos ruins aparecem, desejo de vingança, ressentimento, tudo que se vincula a raiva predomina. O garoto ao final do filme mostra que quando o ser humano está sob o efeito deste sentimento é capaz de qualquer coisa. O instinto animal predomina!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Substituto (Detachment)

"E nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim e tão presente no mundo." (Camus)

Henry Barthes é um professor brilhante com um verdadeiro talento para se conectar com os seus alunos. Em outro mundo, ele seria um herói para sua comunidade. Mas assombrado por um passado conturbado, ele escolhe ser professor substituto, nunca na mesma escola por mais que algumas semanas, nunca permanecendo tempo suficiente para formar qualquer relação com os alunos ou colegas. Uma profissão perfeita para alguém que busca se esconder. Quando uma nova missão o coloca numa decadente escola pública, o isolado mundo de Henry é exposto por três mulheres que mudam a sua visão sobre a vida: uma estudante, uma professora e uma adolescente fugitiva. O professor chega a essa escola pública que está um verdadeiro caos, lá ele tenta criar uma conexão com os alunos que estão indiferentes a tudo. Logo vemos o protagonista ajudando uma prostituta, uma garota que está perdida no mundo, vemos o sofrimento de Henry em tentar colocar algo na cabeça daqueles alunos, e o relacionamento dele com a prostituta cresce rapidamente, apresentando uma figura quase paterna. Um ato de proteção. Mas Henry não serve para cuidar de ninguém, ele é solitário, repleto de angústias.
O desinteresse dos alunos é enorme, o sistema educacional é precário e a vontade é completamente nula, quando perguntado o que eles querem da vida, respondem: Nada! Que tipo de pessoas se tornarão se decidirem entrar para a faculdade, que tipo de profissionais serão? Ou se não, o que será desses adolescentes? A indiferença e o desapego das pessoas só cresce, a solidão aumenta e todos escondem suas tristezas causando em si medos e mágoas. No filme fica claro que os problemas são mais dos alunos do que do ensino, mas isso varia muito. Em tempos de bullying, onde qualquer ponto é exposto em forma de sarcasmo, colocando os pontos fracos em evidência, não há um breque, um modo de fazê-los parar, são adolescentes sem propósitos, mimados, revoltados, egoístas e prepotentes. Os professores, por sua vez se tornam indiferentes a tudo isso para poderem suportar esse caos, ou ficam doentes tentando.

"Todos nós temos problemas e os nossos assuntos para cuidar. Alguns dias são melhores que outros, outros já não são tão bons, e tem dias que temos nosso espaço limitado por outras pessoas”.

Adrien Brody está perfeito em seu personagem, seus olhos demonstram melancolia e desapego, mas há um certo ar de súplica, e a ajuda acaba vindo da prostituta que acolhe em sua casa, ajudando-a também se ajuda. Na escola, Henry lida com uma aluna que sofre bullying, ela padece com a indiferença e o desprezo, e termina com um trágico fim, Henry tenta fazer com que ela se sinta melhor, mas não é permitido ter intimidade com alunos, não se pode abraçar e demonstrar carinho.
A conformidade de estar vivendo o caos gera a desesperança e não há nada tão pessimista do que isso, o clima do filme produz um desconforto dentro da gente, é como se apertassem-nos e depois chacoalhassem-nos dizendo: "Esse é o mundo em que você vive". É a realidade cuspindo na nossa cara, assim como a atitude daqueles adolescentes que não respeitam nem a si próprios.

No meio disso tudo há um resquício de humanidade, principalmente em como Henry trata a prostituta, com respeito, cuidado, e piedade. Ali é a ponta que resta de sua esperança, mas sem grandes resultados. Adrien Brody atua de forma comovente, brilhante, é dono de cenas profundas e diálogos marcantes, inclusive um desabafo que faz em sala de aula.
"O Substituto" é um filme triste diante da impossibilidade e da impotência do ser humano em querer fazer algo, é de uma beleza dolorosa. Dói porque é real!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

3 Macacos (Üç Maymun)

Dirigido por Nuri Bilge Ceylan, "3 Macacos" (2008) nos introduz na história de uma família aparentemente comum em Istambul. Eyup (Yavuz Bingol) é motorista do político Servet (Ercan Kesal) que em uma madrugada acaba atropelando um homem após dormir ao volante, desesperado telefona para Eyup a fim deste confessar o crime em seu lugar, pois ele não poderia se envolver em confusões naquele momento em que estava concorrendo as eleições; em troca Servet lhe propõe uma grana preta ao sair da cadeia, que no máximo durará um ano. Eyup aceita e vai no lugar de seu patrão. Sua mulher Hacer (Hatice Aslan) é cozinheira e seu filho Ismail (Ahmet Rifat), um jovem sem rumo vão levando a vida, até que Hacer decide pedir um empréstimo a Servet para comprar um carro para Ismail, que sugere que quando o pai sair da cadeia desconte da bolada que irá ganhar, mesmo que isso pareça errado, é a única coisa que atrai seu filho e ela resolve encontrar Servet e pedir o empréstimo.
A partir daí Hacer começa a ser seduzida pelo patrão de seu marido, ela é uma mulher linda e sentindo-se desejada se deixa levar pela ardente aventura. Ismail desconfia do envolvimento de sua mãe com Servet e ao constatar age de forma violenta, mas esconde o fato de seu pai quando o visita na prisão. O tempo passa e Eyup sai da cadeia e ao chegar em casa percebe a indiferença de sua mulher, vê que algo está errado ali. Aos poucos vai descobrindo o envolvimento e a paixão que sua mulher nutre pelo seu chefe. O desfecho do filme é surpreendente. Ismail acaba por matar Servet, Eyup abalado pensa em sua família e decide encobrir os fatos da mesma forma que seu patrão no início fez, foi até um rapaz que não tinha nada a perder e lhe disse que ao final receberia uma bolada se fosse preso no lugar de seu filho.
"3 Macacos" parte daquela fábula japonesa: Mizaru, o que cobre os olhos, Kikazaru, o que tapa os ouvidos, e Iwazaru, o que tapa a boca. Seus nomes seriam traduzidos por "não veja o mal, não ouça o mal e não fale o mal". Segundo o provérbio, a expressão "Mizaru Kikazaru Iwazaru" é uma forma de lembrar que se os homens não olhassem, não ouvissem e não falassem o mal alheio, viveríamos em paz e em harmonia. É assim que essa família reage, após cometerem atos ditos imorais resolvem esconder seus erros, fingir que nada aconteceu para evitar a verdade e torturarem-se na esperança que tudo desapareça e volte ao normal.

Eyup é um homem que tem olhos cansados, ele aceita ir à prisão porque pensa que fará bem a sua família, pois sabe da necessidade do dinheiro. Hacer descobre que ainda pode ser mulher, de certa forma a prisão de seu marido a liberta, ela passa a enxergar algo que não tinha com Eyup. Ismail sente-se culpado (não há detalhes) pela morte de seu irmão mais jovem, a imagem do garoto aparece várias vezes em seus sonhos, ou nos quadros, talvez um período em que essa família tinha diálogos e era feliz.
Exige-se do espectador entender os fatos e o porquê dos atos de cada um, são longos silêncios, pausas reflexivas que nos fazem perceber o que a falta de comunicação pode acarretar. A fotografia é exuberante, são verdadeiros quadros, o céu sempre carregado, criando um clima de angústia e tristeza, no terraço do apartamento se vislumbra o mar, e ao lado uma linha de trem, uma certa liberdade que não é enxergada pela família.
Muitas pessoas decidem viver fingindo, escondendo o mal que há dentro de sua casa pensando que viverá em paz, mas sabe-se que isso é um erro, viver em uma mentira não é felicidade, isso sim é estar numa prisão. Nos rostos de Eyup, Hacer e Ismail sempre haverá sinais de mágoas e angústias.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tulpan

"Tulpan" (2008) é um longa cazaque simplório, com pessoas puras e lugares inóspitos. A história retrata costumes dos quais não estamos habituados, uma civilização a parte, no deserto do Cazaquistão. Depois de completar serviço militar, Asa volta para sua região e quer ser pastor de ovelhas. Para isso, precisa arranjar uma esposa. Escolhe a bonita Tulpan, que dá título ao filme, mas esta acha o moço feio, por ter orelhas grandes demais, mas Asa tenta conquistá-la de todos os jeitos.
A linguagem e a estética é completamente diferente do convencional, tudo é espontâneo, cenas com crianças e animais chega a irritar, elas gritam e cantam a vontade, mas sem dúvidas isso o torna ainda mais especial. As pessoas são comuns e passam uma emoção real para quem o assiste. É um longa realmente muito bonito.
Tulpan é uma espécie de esperança para Asa, um sonho do qual persiste, a moça não o deseja, mas ele precisa de uma esposa para ter seu rebanho, desapontado tenta de todas as formas convencê-la, mas é tudo em vão. Há um momento em que pensa ir embora, pois acredita que não conseguirá nada ali.
Em uma passagem vemos o parto de uma ovelha, Asa o faz de maneira desastrada, com medo porque muitos filhotinhos morreram após o nascimento por falta de alimentação. Ele consegue fazê-lo com esforço, colocando a própria boca na da ovelhinha a fim de colocar ar em seus pulmões e fazê-la viver. Essa é a cena primordial, em que Asa se liberta e consegue se impor, acreditando que é capaz, ele encontrou sua "Tulipa" no vasto deserto. De forma simbólica o nascimento da ovelhinha faz com que Asa tenha esperança e perceba que ali é o seu lugar.

A beleza do lugar é incrível, habitado por poucas famílias geralmente bem distantes umas das outras, a única companhia constante é o vento. A câmera fitando o horizonte, a relação homem/natureza se torna algo bem poderoso. Tulpan o rejeitou por causa de suas orelhas de abano, mas talvez tenha tido outros motivos, aquele lugar apesar de belo, bucólico e contemplativo não oferece grandes oportunidades. Se vive de acordo com os costumes locais e nada mais.
"Tulpan" é singelo e de uma beleza exótica. O filme foi dirigido pelo documentarista cazaque Sergey Dvortsevoy, e foi vencedor do prêmio "Un Certain Regard" no Festival de Cannes de 2008.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Cavalo de Turin (A Torinói Ló)

Béla Tarr é um cineasta húngaro cultuado por realizar verdadeiras obras-primas. Em "O Cavalo de Turin" não é diferente. Prepare-se, pois o filme é longo e todo em preto e branco, nos dando a sensação de agonia. No início o narrador nos apresenta a seguinte história: Em Turin, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Vila Carlo Alberto para caminhar ou para buscar suas correspondências nos Correios. "Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cocheiro estava tendo problemas com o seu teimoso cavalo". Apesar de todos os esforços do cocheiro, o animal se recusava a mover-se. O dono do cavalo perdeu a paciência e começou a chicoteá-lo. Nietzsche teria surgido no meio da "multidão" e interrompe a sessão de tortura ao colocar os braços ao redor do pescoço do cavalo, para a ira do cocheiro. Levado por um vizinho para casa, ele teria ficado dois dias silencioso no sofá, até que teria dito: "Mãe, eu sou um idiota". Segundo o narrador, Nietzsche teria vivido mais 10 anos, calmo e louco, aos cuidados da mãe e das irmãs. Mas sobre o cavalo, não se soube mais nada.
A partir daí entra a ficção, vemos uma sequência angustiante do cavalo ultrapassando paredes de vento e ar sujo e seis dias torturantes e escassos da vida de pai e filha num lugar inóspito, onde o vento uiva de forma grosseira, como o prenúncio de algo ruim.
São cenas infindáveis, todas as manhãs a filha se levanta, se veste, vai ao poço buscar água, ajuda seu pai a se vestir, cozinha duas batatas e comem um sentado de frente pro outro. Depois eles alimentam o cavalo, limpam o estábulo e voltam para casa. Isso é repetido durante os dias que se seguem, porém a cada dia a câmera focaliza de maneira diferente, nos mostrando ângulos novos e cada vez mais interessantes. A escassez seja material ou vital como vemos no cavalo durante o filme é uma metáfora do fim da existência, da consciência ou da humanidade. Há um monólogo entre o pai e um homem que vai buscar bebida, ele menciona a condição humana e a destruição a partir do momento em que não se crê em nada. E o pai apenas diz: "Bobagem", a todo o discurso feito pelo homem.
A repetição se faz necessária neste filme para que entendamos o abismo que logo chegará. O fim está próximo, pai e filha tem batatas, água, roupas, mas até quando? O fim é inevitável e a escuridão logo virá.

O silêncio é cada vez mais incômodo, a solidão, o vazio é o que vai predominando. Nietzsche sempre expôs o cru da alma humana, verdades que são incontestáveis, uma de suas revoltas era o ato do humano dominar aquele que julga inferior. Mas ali homem e animal em estados parecidos é algo muito além de palavras. É o silêncio da verdade, do fim. De algo muito maior, por exemplo, a força que a natureza exerce sobre nós, somos seres fracos, medíocres e vivemos de uma maneira errônea, nos julgando superiores e capazes de tudo. Mas quando descobrimos que nada é de verdade, e que a vida não é feita de ilusões que criamos conforme passam os dias, paramos e vislumbramos apenas o abismo fundo e escuro, porém nítido, assim como no episódio em que Nietzsche abraçou o cavalo.
Essa obra de Béla Tarr é uma experiência sensorial enriquecedora, é um exercício de paciência para quem não está acostumado a esse tipo de cinema, mas ao terminá-lo é extremamente recompensador. Este é o mais alto degrau do dito cinema arte. Filme para poucos, para entendedores da essência humana juntamente com o amor à sétima arte.

O fim está lá, dito pelo homem que foi buscar a bebida, o vento incessante, o cavalo que se nega a andar e a comer, a passagem dos ciganos, mas só se dão conta mesmo quando a água falta e já não tem como comer suas batatas, quando resolvem fazer algo é tarde demais, o que resta é apenas o silêncio mortal. São planos impressionantes, os detalhes, as imagens dizem muito, o vento é uma personagem nessa história, tudo muito minucioso e bem feito.
"O Cavalo de Turin" é denso, intenso, emblemático e repleto de analogias, das quais nos fazem pensar tanto que muitas análises fogem da história.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Costa Perdida (Humboldt County)

Muito se discute sobre a legalização da maconha, há muito o que se desmistificar, é um assunto que gera polêmicas e quase sempre nunca se chega a um lugar comum. Não há dúvidas de seu benefício para a saúde, principalmente no tratamento do câncer, e que também a sua proibição só estimula o uso. "Humboldt County" é o nome do filme, mas também dá nome a um lugar que fica no norte da Califórnia, mais conhecido como a "Costa Perdida", e é lá que acontece a história que vai muito além de usar ou não usar a bendita Cannabis.
Peter Hadley (Jeremy Strong), um promissor mas desiludido estudante de medicina desacreditado pelo seu professor e pelo seu pai, acaba certa noite conhecendo uma garota que o faz viajar com ela até o distrito chamado Humboldt County, uma comunidade de fazendeiros plantadores de maconha e uma hospitaleira, porém excêntrica família. Peter é um jovem que foi criado todo certinho por um pai que só pensa em trabalho, dessa maneira apenas seguiu o caminho que seu pai escolheu pra ele, mas algo mudará em sua vida a partir do momento que ele começa a conviver com essa família, e então percebe que lá se sente em casa, estranhamente em casa. Não se engane, não é uma comédia como tantas outras que tratam o assunto sempre de forma escrachada, mas sim traz o tema com seriedade, nos faz refletir sobre escolhas e vontades, e como deixamos as oportunidades verdadeiras passarem na nossa frente sem nem ao menos perceber, mas felizmente, podemos mudar os rumos de nossas vidas.
Max (Chris Messina) é um dos personagens que nos pegam de jeito, seu modo de ver a vida já diz muito, ele planta para poder garantir o sustento de sua filha postiça, uma menina que cria com carinho. A comunidade tem o direito de cultivar, mas se plantar em demasia e a polícia federal descobrir, eles acabam com tudo. Max é um homem bom, ele diz para Peter não levar a vida tão a sério, ele simplesmente mostra que a vida pode ser muito mais do que a enxergamos, e Peter diante daquele lugar majestoso entende que o que tinha antes não era uma vida, era uma rotina mecanizada, e nunca tinha se perguntado o que queria para si realmente. Lá perto da natureza e daquelas pessoas que também tem seus problemas, mas que mesmo assim nutrem carinho uns pelos outros, se importam pelo bem-estar, coisa que ele nunca teve com seu pai, Peter sem querer encontrou-se e conseguiu achar seu lugar.

O filme está muito além do assunto fumar ou não fumar maconha, é mostrado como um hábito e uma cultura definida pelo local, que causa estranheza para as pessoas que veem isso como algo ruim. Por isso, vale ressaltar o pensamento de que o homem não pode proibir o que a natureza fornece.
Mostra-se perspectivas diferentes, nos tiram do mundinho perfeito, regrado e hipócrita, sabe aquele tipo de pessoa que precisamos medir palavras, agir de um modo oposto para ser aceito? Pois é, nesse filme Peter descobre que existe um outro tipo de ser humano, o verdadeiro, que vive de acordo com o que sua mente e espírito pede. Pessoas de essência.
Às vezes os lugares em que menos esperamos é aquele que nos acolhe e nos dá vida novamente.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Revanche

Alex (Johannes Krisch) trabalha para um chefão chamado Konecny (Hanno Pöschl) e mantêm um namoro secreto e proibido com uma de suas prostitutas, Tamara (Irina Potapenko). Ex-presidiário, ele sonha com o roubo de um banco e a consequente fuga dele com Tamara para a Espanha, onde abriria um negócio com um amigo. Sentindo-se cada vez mais pressionada por Konecny para virar uma prostituta de luxo, Tamara decide acompanhar Alex em seu plano de roubo a banco. Quando as coisas saem mal, ele pensa em se vingar do policial Robert (Andreas Lust), mas acaba sendo surpreendido por acontecimentos que ocorrem no local onde passa a viver com o avô (Johannes Thanheiser).
O filme é claramente dividido em dois atos. O primeiro a vida suburbana de Viena, prostituição e criminalidade, um mundo sujo onde não há oportunidades. E é nesse meio que conhecemos nossos personagens, Alex e Tamara, que nutrem o desejo de fugir e recomeçar suas vidas distantes de tudo, mas para isso ele dá sequência a um plano do qual não dará certo. Ele decide roubar um banco, mas ao voltar para o carro se depara com um policial, ao sair desesperado, o tal policial acaba acertando Tamara. E a partir daí vem o segundo ato, onde Alex deseja se vingar. Ao aproximar-se de Robert para saciar seu desejo de vingança, descobre que ele enfrenta problemas com a mulher por não conseguir ter um filho, e o constante fantasma daquele incidente que matou a namorada de Alex permanece latente em sua cabeça não deixando-o em paz.
Nesse meio tempo Alex se envolve com a mulher de Robert e percebe os dramas que todos enfrentam. Em um diálogo com o policial, Alex descobre que ele é o causador, percebe que ele foi o único responsável pelo acontecido. Tamara foi junto ao assalto para simplesmente fazer companhia, não iria ajudá-lo, mas somente quis estar lá. E assim aconteceu a tragédia, foram escolhas erradas. Punir o policial não faria ele se sentir bem, pois se deu conta de sua vida miserável e sem sentido.
Ao ir para a fazenda de seu avô antes tão desprezada, Alex se afunda no trabalho dando tempo para que colocasse as ideias no lugar e percebesse que ali poderia ser um recomeço.

A fotografia é lindíssima, vemos tudo acontecer em meio aos troncos de árvores, desde a chegada de Alex ao lugarejo em que seu avô mora, quando ele resolve se vingar de Robert, e logo após suas descobertas externas e internas. 
O diretor austríaco Götz Spielmann nos mostra que de alguma forma tudo faz sentido na vida, a partir de um erro somos levados a alguns estágios que nos fazem pensar, redimir ou recomeçar. A cena inicial do filme é magnífica, um lago límpido e pacato que subitamente é agitado pelo cair de uma pedra. Assim é a nossa vida, quando fica silenciosa demais pode ter a certeza que algo irá acontecer, basta ter a clareza para enxergar o caminho mais adequado para poder seguir em frente.