sexta-feira, 13 de julho de 2012
Ovo (Yumurta)
"Ovo" (2007) é o primeiro filme da trilogia turca do Semih Kaplanoglu, este longa mostra Yusuf em fase adulta, tendo que retornar à família por causa da morte de sua mãe. O poeta Yusuf volta para sua cidade natal, onde não aparecia havia anos e se depara com uma casa abandonada e quase totalmente destruída. As lembranças do passado, a culpa e o remorso também tomam conta deste homem. Mas ele encontra conforto e alívio com a presença de Ayla, uma jovem garota que o espera no local para dar assistência.
Em Istambul Yusuf trabalha em um sebo, a imagem ultrapassa a tela, uma mensagem desesperada e apenas ruídos. Essas características apresentam-se recorrentes. Os diálogos são poucos e porque não, inúteis, já que objetos e pequenos gestos são mais importantes e falam por si só. A narrativa é lenta, os cenários são resplandecentes e contemplativos. Não há música, e sim ruídos. A câmera anda, procura, observa e para por diversos minutos em algum objeto, cenário ou personagem, mostrando o rosto de Yusuf, onde há uma boa dose de solidão e sofrimento contidos. Quem o assiste vai aos poucos entendendo a proposta delicada e simples, um homem cuja vida está naquele lugar de onde saiu há tanto tempo, a vida lhe espera ali, como símbolo disso tudo está o ovo, ao quebrar a casca, desliga-se do laço materno e começa a viver sem a sombra, um descobrir-se, e por fim formar sua própria família.
A vida de Yusuf nos é mostrada através de belas imagens repletas de símbolos. A cena com o cachorro é uma das mais lindas e estranhas, há uma volta às tradições, como o pedido da mãe antes de partir, o sacrifício de um carneiro, do qual Yusuf não crê, mas rende-se, um pedido que não é explicado, mas nos faz sentir e de alguma forma entender tudo aquilo. É um filme enriquecedor que aguça nossa percepção, que nos faz ver além, o sentimento chega a ser palpável, são detalhes subjetivos. Yusuf é um poeta, ele ganhou um prêmio por ter escrito uma poesia chamada "O Poço", da qual é inserida em vários momentos de forma metafórica.
A linguagem é introspectiva e a fotografia é uma obra de arte que fascina, nos absorve para dentro da história, há ternura nas cenas, uma ingenuidade peculiar perpassa os instantes, e é de certa forma libertador.
Para quem optar assistir a trilogia de trás pra frente, começando por "Bal" (Mel), "Süt" (Leite) e Yumurta (Ovo) se faz mais esclarecedor do que pela sequência original.
Para os apaixonados pela sétima arte, este filme turco tende a agradar bastante, o final apesar de ser aberto, dá indícios de que o personagem encontra um caminho, uma evolução interior. A natureza caminha junto, e por diversas vezes se torna a protagonista e mostra-se em símbolos casando com o momento em que o protagonista está passando.
Assista, admire, contemple, este é um filme para encher os olhos e o coração, uma história para ser guardada, e com certeza compartilhada. Bela trilogia!
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Leite (Süt)
Yusuf é filho único e vive com sua mãe, Zehra, em uma pequena cidade do interior da Turquia. Juntos os dois trabalham vendendo leite, única fonte de renda da família desde que o pai de Yusuf desapareceu. Zehra mantém um relacionamento discreto com o chefe da estação de trem local, enquanto Yusuf, recém-formado da escola, se divide entre o trabalho no negócio familiar e a paixão pela poesia, conseguindo publicar seus poemas em revistas de literatura obscuras. Entretanto, a venda de leite não parece suficiente para garantir o futuro da família.
O longa é feito de maneira lenta, o pensamento toma conta da tela, Yusuf tem o sonho de ser poeta, mas na realidade em que vive, isso parece estar cada vez mais longe, oprimido pelas circunstâncias, suas decisões acabam como a de todos, trabalhando pesado.
Uma crítica ao trabalho social, que ameaça os nossos sonhos, que causa uma crise de identidade, sem nos dar opção de escolha. Yusuf tem um grande apego a sua mãe, mas isso é mostrado apenas através de olhares, quando ela começa a se envolver com o chefe da estação de trem, ele se sente perdido, a imagem da mãe parece se desfazer, e várias cenas demonstram um desolamento do personagem. O leite é o símbolo de tudo isso. O meio de sustento da família, representando o bem, e o laço materno. A impressão para quem assistir o filme solto, sem acompanhar a trilogia, é de espera constante, uma lentidão sem fim, porém se for assistido em sequência, nos é mostrado um modo de vida simples, repleto de questionamentos, laços, pensamentos, sentimentos e contemplação.
A beleza paisagística é algo sublime, o céu, as árvores, os animais, a natureza acompanha de forma metafórica todos os sentimentos do nosso protagonista, dimensionar o quanto é poético e ao mesmo tempo simples é impossível. A inocência de Yusuf aos poucos vai embora, ele tem que tomar decisões, desenvolver-se interiormente. Seus olhar por vezes é vago, em outras é expressivo e aparenta dor e desespero. É preciso se agarrar aos detalhes e o que eles querem nos dizer, logo no início somos pegos de surpresa por uma cena totalmente simbólica, uma cobra é retirada do interior de uma mulher através do leite, ou seja, o bem retirando o mal. A cobra é inserida no contexto de um presságio ruim, por exemplo, quando Yusuf se depara com uma cobra em sua casa, e a partir daí as coisas começam a desandar, Yusuf é obrigado a tomar decisões importantes em relação a sua vida. E o final nos arrebata ao mostrar a decisão que fez. A câmera focaliza seus olhos resignados, porém assustados, como se estivesse consciente de que a vida não é feita de poesia e que a esperança já não existia mais para ele.
"Leite" é um filme realista e porque não dizer pessimista, o seu final nos mostra a desesperança estampada no rosto do personagem.
A idade do personagem Yusuf é a idade que para os turcos representa grande pressão. Além da crise de identidade, de não saber se pertencem ao oriente ou ao ocidente, eles são cobrados a tomar uma decisão e dar rumo a suas vidas. Nesse momento a mãe tem papel fundamental numa sociedade masculina como a turca, pois é um momento de rompimento duro para os jovens. O diretor Semih Kaplanoglu nasceu em 1963, na Turquia, e formou-se em cinema e televisão na Universidade de Dokuz Eylül em 1984. Este é o segundo filme de sua trilogia sobre Yusuf, sendo o primeiro "Yumurta" (Ovo) e o terceiro "Bal" (Mel). É uma trilogia sobre as transformações econômicas e sociais de regiões rurais da Turquia.
terça-feira, 10 de julho de 2012
A História Secreta, de Donna Tartt
Em "A História Secreta" os eventos se desdobram grandiosos e inexoráveis, como em uma tragédia grega, Donna Tartt surpreende pelo talento com que combina a densidade psicológica e o vigor poético de um texto clássico, com uma trama complexa em um ritmo alucinado dos melhores romances policiais contemporâneos. Quem conta a história é Richard Papen, garotão da ensolarada Califórnia que consegue ser admitido na seleta Hampden, uma universidade em Vermont frequentada pela elite norte-americana. Richard imagina ter atingido o Olimpo ao entrar para o currículo mais privilegiado daquela universidade. Cinco alunos, sofisticados e originais, selecionados por um mestre erudito e carismático, dedicam-se ao estudo da Grécia antiga. A eles junta-se o narrador, para participar da busca da verdade e da beleza, entre festas orgiásticas e finais de semana numa antiga casa de campo, regados a muito álcool e discussões filosóficas. A loucura desmedida certa vez termina numa orgia cujo ponto culminante é um ato de violência inominável e o suposto aparecimento do próprio Deus Dionísio (Deus do Vinho), numa de suas diversas manifestações.
Quando descobre a terrível verdade, Richard envolve-se numa cadeia de segredos e cumplicidades, e num encadeamento de medos e inseguranças que leva o grupo a cometer um ato ainda mais terrível, capaz de abrir as portas para o mundo das sombras, o Hades das narrativas de Homero cuja, Henry e seus amigos tanto admiram.
"A História Secreta" cativa desde a primeira linha e nos leva as profundezas da mente de jovens ingênuos, arrogantes e mimados. Melancólico e irônico, este é um romance feito de terror e prazer, remorso e decepção. Com ele, Donna Tartt revelou-se uma grande escritora já em seu livro de estreia. Com suas setecentas páginas é um livro que se lê de maneira agradável, cheio de suspense e mistério. No entanto, não pense que é uma leitura inócua, o tema abordado é inquietante e deixa-nos a refletir sobre a facilidade com que se comete um crime e sobre as consequências que um ato criminoso acaba por ter na vida de um ser humano. São personagens que surgem do escuro, aparecem repentinamente de lado nenhum, fazem perguntas embaraçosas, desaparecem em momentos críticos e respondem sempre de uma forma enganadora. Seja em gestos, palavras, olhares desviados ou insinuações sibilinas; tudo serve para enfatizar o mal-estar generalizado, a frieza e a desconfiança.
Um estudo do remorso e seus efeitos na mente do homem "bom" que mata, "A História Secreta" é um livro comovente e profundo. Como Thriller é um dos melhores que li, e como romance é realmente espantoso. Donna Tartt vai muito além da conhecida combinação de sexo, drogas e rock'n roll: ela mergulha tão fundo quanto qualquer tragédia grega no desespero e na decepção humana.
A leitura de "A História Secreta" me fez recordar de um dos personagens mais incríveis do mundo literário: Raskólnikov, de "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski. De fato encontrei muito de Raskólnikov em Henry, mas também em Camilla, Charles, Francis e Richard. Li por duas vezes este livro e de certo modo me fascina aquele mundo tão absurdo e tão real, pois observa-se o que há de mais negro na alma humana. O que somos capazes de fazer com o outro para nos livrar de algo sórdido?
Quando descobre a terrível verdade, Richard envolve-se numa cadeia de segredos e cumplicidades, e num encadeamento de medos e inseguranças que leva o grupo a cometer um ato ainda mais terrível, capaz de abrir as portas para o mundo das sombras, o Hades das narrativas de Homero cuja, Henry e seus amigos tanto admiram.
"A História Secreta" cativa desde a primeira linha e nos leva as profundezas da mente de jovens ingênuos, arrogantes e mimados. Melancólico e irônico, este é um romance feito de terror e prazer, remorso e decepção. Com ele, Donna Tartt revelou-se uma grande escritora já em seu livro de estreia. Com suas setecentas páginas é um livro que se lê de maneira agradável, cheio de suspense e mistério. No entanto, não pense que é uma leitura inócua, o tema abordado é inquietante e deixa-nos a refletir sobre a facilidade com que se comete um crime e sobre as consequências que um ato criminoso acaba por ter na vida de um ser humano. São personagens que surgem do escuro, aparecem repentinamente de lado nenhum, fazem perguntas embaraçosas, desaparecem em momentos críticos e respondem sempre de uma forma enganadora. Seja em gestos, palavras, olhares desviados ou insinuações sibilinas; tudo serve para enfatizar o mal-estar generalizado, a frieza e a desconfiança.
Um estudo do remorso e seus efeitos na mente do homem "bom" que mata, "A História Secreta" é um livro comovente e profundo. Como Thriller é um dos melhores que li, e como romance é realmente espantoso. Donna Tartt vai muito além da conhecida combinação de sexo, drogas e rock'n roll: ela mergulha tão fundo quanto qualquer tragédia grega no desespero e na decepção humana.
A leitura de "A História Secreta" me fez recordar de um dos personagens mais incríveis do mundo literário: Raskólnikov, de "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski. De fato encontrei muito de Raskólnikov em Henry, mas também em Camilla, Charles, Francis e Richard. Li por duas vezes este livro e de certo modo me fascina aquele mundo tão absurdo e tão real, pois observa-se o que há de mais negro na alma humana. O que somos capazes de fazer com o outro para nos livrar de algo sórdido?
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (Medianeras)
"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita. É uma cidade superpovoada em um país deserto. Uma cidade onde se erguem milhares e milhares de prédios sem nenhum critério. Ao lado de um em estilo francês, tem um sem estilo. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas. Esses prédios que se sucedem sem lógica, demonstram total falta de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida, que construímos sem saber como queremos que fique... É certeza que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais à cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse, o sedentarismo, são culpa dos arquitetos e incorporadores. Estes males, exceto o suicídio, todos me acometem..."
É com esta narração que "Medianeras" se inicia, feita por um dos personagens centrais, nela já percebemos a forma com que a cidade e sua arquitetura serão usadas no desenvolvimento do filme como metáfora para as questões existenciais. A desorganização da cidade é apresentada não como sintoma, mas como provável causa do caos da vida moderna, a cidade de Buenos Aires se torna quase um personagem, dada sua importância na trama e nos rumos que ela toma. Explora-se a solidão e a melancolia da vida em uma metrópole, onde ao que parece o acaso é a única força determinante.
"Medianeras" mostra a vida de duas pessoas, um homem e uma mulher que vivem nos dias de hoje, quando a internet e a globalização, ao mesmo tempo em que rompem fronteiras e possibilitam um maior acesso a informação, podem aprisionar as pessoas com suas atrações imediatas, como jogos, vídeos e redes sociais. Cenas de Buenos Aires são intercaladas com reflexões sobre a evolução da cidade. A forma não planejada como a cidade cresce é comparada a vida de cada personagem, repleta de muitos acontecimentos fortuitos. Os apartamentos e prédios da cidade são mostrados em uma espécie de análise sociológica.
Martin (Javier Drolas) é um web designer que mora sozinho em uma quitinete intitulada como "caixa de sapatos", no centro de Buenos Aires. Ele passa a maior parte de seu tempo trabalhando ou navegando por sites e chats sobre os mais variados temas, sua fobia social, que está sendo amenizada pelo tratamento psiquiátrico, o impediu durante muito tempo de sair e de se relacionar com pessoas fora do mundo virtual. Ao que tudo indica, sua situação teria se agravado depois que sua noiva viajou para os Estados Unidos, a viagem dela que deveria durar um curto período acabou se tornando definitiva, o relacionamento terminou quando ela entrou em contato e avisou que não voltaria mais. Do envolvimento entre eles só sobrou um cachorro. A vida nas redes sociais se torna uma espécie de fuga para Martin, uma vez que suas manias e preocupações excessivas o tornaram ainda mais antissocial, e portanto incapaz de estabelecer laços duradouros.
Na mesma rua que Martin, em um outro prédio, mora Mariana (Pilar López de Ayala), que tem muito mais em comum com ele do que ambos poderiam imaginar, eles não se conhecem, apesar de frequentemente se esbarrarem na calçada em outros pontos da vizinhança. Mariana se formou em arquitetura, mas nunca exerceu a profissão, ela ganha a vida como decoradora de vitrines. Ela terminou um relacionamento que durou quatro anos depois de descobrir que não conseguia se encontrar nele, e que a pessoa com quem estava lhe era um completo estranho. As expectativas frustradas e a solidão a tornaram arredia e propiciaram o surgimento de fobias, como o medo de elevadores e de estabelecer contato com as pessoas. Os dois solitários, não por uma opção consciente, mas sim, vítimas de um fenômeno social que tem se tornado cada vez mais forte, principalmente nas grandes cidades, envolve a superficialidade e fragilidade dos relacionamentos e o distanciamento afetivo das pessoas. Ironicamente o surgimento e o agravamento deste fenômeno coincide com a chegada da era digital, na qual estamos vivendo.
Com um roteiro inteligente, ágil e moderno, cria-se monólogos bem reflexivos, por vezes dá-se um tom de ironia, e por fim, se torna num longa de altíssima qualidade. O título "Medianeras" se refere àquela parte traseira dos edifícios, onde não há janela e onde às vezes colocam-se anúncios comerciais. Seria quase o lado avesso dos prédios.
O filme é o desdobramento do curta homônimo realizado em 2005 pelo diretor Gustavo Taretto, estreando na direção de longas, com o mesmo ator principal.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Apocalypto
"Apocalypto" (2006) dirigido por Mel Gibson proporciona uma viagem a um local nunca visto antes, oferecendo sinais jamais vistos até hoje, de excepcional vivacidade e poder. O longa, que mostra o declínio do império Maia, foi rodado no México e é falado no idioma Maia, tem em seu elenco muitos atores índios e latinos e em sua maioria desconhecidos.
Em "Apocalypto" acompanhamos a vida idílica de uma pequena tribo, cujo cotidiano se resume a caçar e procriar. Também centra o foco naquele que será o protagonista: o jovem Pata de Jaguar (Rudy Youngblood), veloz e impetuoso caçador. O ataque de uma tribo rival, mais poderosa e violenta, dá partida ao segundo ato, e é também quando se inicia o festival de atrocidades e imagens violentas. Os vilões torturam, matam e estupram, sem poupar mulheres nem crianças. Antes de ser preso, Pata de Jaguar consegue esconder a mulher grávida (Dalia Hernandez) e o filho pequeno em uma gruta. Todo o trecho intermediário mostra a jornada dos prisioneiros restantes à vila da tribo vencedora da batalha, com cultos pagãos, pirâmides e feiras livres. E então, a longa parte final é composta por 45 minutos de correria e violência na selva, depois que Pata de Jaguar escapa seguindo os preceitos de uma profecia que ele desconhece, é perseguido por um bando de guerreiros sedentos de sangue.
Um dos grandes mistérios que cercam a derrocada da civilização Maia é o motivo de seu fim. Em "Apocalypto" Gibson trabalha com algumas causas possíveis, como fome, doença, seca e guerra. Um dos motivos de o longa ter agradado tanto foi o respeito pelo desconhecido, assim como pelos fatos históricos. É preciso boa vontade para perceber o aspecto político do filme, enfatizado pela epígrafe da abertura (do historiador Will Durant), o texto diz que uma civilização só é conquistada por outra depois de devidamente apodrecida por dentro. Essa citação só faz sentido ao final, e mesmo assim não se revela completamente, pois nem com esforço dá para traçar um paralelo consistente entre as ações que se vê na tela e a chegada dos conquistadores espanhóis à região. Mel Gibson foi elogiado pelo rico e fiel nível de detalhes com que retratou as tribos maias, na arquitetura, roupas, armas e apresentação física, incluindo pinturas, cicatrizes e piercings.
Uma época histórica pouco explorada pelo cinema, pois trata-se de um assunto perigoso. O que se sabe da cultura existente na América Central antes da chegada dos europeus é baseado em livros. O filme é fiel as teorias atuais de arqueólogos e historiadores que acreditam que, por volta do século XV de nosso calendário, os Maias sofriam com uma grande seca causada pelo desmatamento em torno de suas cidades, trazendo com isso fome e epidemias. A degradação social também se refletia em um governo corrupto, crenças religiosas fanáticas envolvendo uma grande quantidade de sacrifícios humanos e guerras civis. Assim, no filme temos a distinta ideia que aquele era um povo de grande avanço cultural, mas que atingia seu fim.
A maior ousadia de fato foi a de ser usada uma língua quase morta em toda a projeção, tornou-o um filme peculiar e surpreendente.
"Eu vi uma fossa no Homem, profunda como uma fome que nunca saciará. É ela que o torna triste e que o faz querer mais. Ele vai continuar a tomar mais e mais até o dia em que o mundo dirá: Já deixei de existir e nada mais tenho para dar."
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Abutres (Carancho)
"Abutres" (2010) de Pablo Trapero é um drama urbano, uma denúncia social, a inteligência do longa surpreende e demonstra mais uma vez que o cinema argentino esbanja vitalidade.
Acompanhamos Sosa (Ricardo Darín), um advogado, cuja licença fora caçada, que vive de explorar a miséria dos outros. Sosa faz plantão em hospitais à espreita de potenciais processos e indenizações de seguradoras. É em uma dessas tocaias que conhece a médica Lújan (Martina Gúsman). Sosa se apaixona e, então, sua rotina passa a ser um obstáculo monstruoso. Trapero concilia com vigor os gêneros a que se propõe trabalhar, produzindo um filme de extrema eficiência dramática, com profundo respaldo social (a legislação argentina sobre indenizações por acidentes foi modificada após o lançamento do longa), e invejável fôlego romântico. No limiar, a história de amor que Trapero queria contar é que dá sustentação à trama. E é pelo desfecho desta história que o espectador irá suspirar.
A violência do trânsito é vista de uma maneira diferenciada. Não apenas as colisões são violentas, mas todo o cenário que envolve as cenas de batidas e atropelamentos. Uma das cenas mais fortes é quando mostra a preparação da simulação de um atropelamento, quando Sosa quebra a perna de um amigo com uma marreta. Pessoas morrem, outras ficam incapacitadas. E ao redor delas, gira muito dinheiro. Seja através da estrutura de socorro, de ambulâncias até hospitais, seja por fundações e profissionais que correm atrás de indenizações para as vítimas e seus familiares. É uma história intricada, violenta, cheia de nuances, sordidez e algo de romance e esperança.
Sosa não só segue ambulâncias que vão socorrer vítimas de acidentes de trânsito, como simula atropelamentos para embolsar indenizações. O título do filme não poderia ser mais correto. A metáfora aos necrófagos que aguardam a carniça de animais mortos para deles se alimentarem.
Insatisfeitos com suas vidas e carreiras, Sosa e Lújan buscam se fortalecer juntos, para poder enfrentar o sistema de corrupção dos abutres (amparado pela própria polícia) e tentar uma nova vida. A última sequência é corajosa ao mostrar a busca pela sobrevivência. E ainda que o horizonte pareça cada vez mais complicado, o espectador segue com eles na busca por uma alternativa. Com um ritmo ágil, um roteiro bem amarrado e uma direção atenta aos melhores ângulos, "Abutres" revela mais um grande trabalho do ator Ricardo Darín.
A crítica ao sistema securitário é aguda, e "Abutres" mostra-se um filme sério, forte, tenso e intrigante.
Advogados inescrupulosos se aproveitam de um sistema corrupto para prosperar literalmente com mortes e mutilações, ficando com a maior parcela e deixando as vítimas com muito pouco. Um grande filme para se respeitar, seus personagens se desenvolvem em uma situação crítica e desesperadora, e causa um certo espanto observar que pessoas lucram diante da desgraça alheia. De forma nua e crua retrata esse problema atroz. É um longa de extrema valia.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes)
A pequena aldeia na comunidade muçulmana no Magreb, no norte da África, é assombrada pela seca, o desemprego e a corrupção das autoridades locais, que atrasam a instalação da água encanada e da eletricidade, isso sobrecarrega o trabalho pesado das mulheres. Sempre levando baldes nas costas, várias delas grávidas, nesse caminho tortuoso acabam perdendo seus filhos. Depois de um novo aborto de uma delas, a jovem Leila (Leila Bekhti), uma das raras mulheres que sabem ler, lidera uma greve de sexo, procurando forçar os homens locais a se mexerem para resolver os problemas do povoado. Como era de se esperar, as autoridades religiosas intervém, o que dá margem a uma animada discussão sobre aquilo que está ou não previsto no Alcorão. Como em qualquer religião, tudo depende das interpretações, que viajam ao sabor da conveniência de quem se habituou a ser sempre amo e senhor, e não quer ver o fim desse estado das coisas. Mesmo entre as mulheres, as opiniões se dividem. A sogra de Leila (Hiam Abbass), está a frente do bloco ultra-minoritário que hostiliza as neofeministas, especialmente por ser encabeçado por sua nora, que veio de outra região e nunca foi bem vista por ela.
A condução da narrativa é sempre feita de uma forma leve, com bastante humor. Os momentos em que a velha Fuzil intervém são quase sempre deliciosos, os diálogos da personagem são hilários. A atriz Biyouna contribui muito para este sentimento, representando a velha de forma magnífica. Outro destaque são os grupos de mulheres, a falar desanuviadamente enquanto fazem as suas várias tarefas diárias, sem os homens por perto. As conversas que surgem destas interações são maravilhosas e é raro o momento em que não começam todas a cantar. Ainda que tratando de temas sérios, o tom grave é quebrado pelo formato musical. Usando canções, injeta-se um bem-vindo humor em inúmeras situações. Se há um mérito no filme de Mihaileanu é lançar uma luz diferente sobre a cultura muçulmana, quebrando o molde monolítico que o fundamentalismo procura fazer crer que seja a sua única voz e expressão. Diante das sucessivas rebeliões recentes no mundo árabe (Egito, Tunísia, Síria), o filme ganha ainda mais interesse e atualidade.
Em uma cultura dominada pelo machismo, determinada pela religião rígida, baseada no Alcorão, as mulheres são vistas apenas como donas de casa, amantes de seus maridos, parideiras, e ainda por cima, fazem serviço pesado, como carregar água sob os ombros num caminho penoso mesmo estando grávidas, enquanto os homens fumam, bebem chá e falam mal de suas mulheres. Isso é uma imagem que não cabe ao pensamento ocidental, e atualmente não muito nas cabeças das mulheres árabes, elas querem seu lugar como mulher, a sua devida valorização e reavaliar seus costumes. Um exemplo do filme é sobre o véu. O uso do véu era para identificar as mulheres das escravas, estas não o usavam; em uma cena a velha Fuzil contesta seu filho, dizendo que não existem mais escravas, então porque usar o véu?
Abordando de forma interessante os costumes enraizados numa comunidade islâmica radical, como o machismo exacerbado, e o quanto as tradições podem ser reavaliadas e alteradas, o longa nos aproxima de uma das culturas mais distantes e diferentes da nossa, contada feito uma fábula contemporânea nos desperta curiosidade, e nos faz refletir por uma ótica diferente o islã. É sempre prazeroso observar novas culturas e tradições sob um novo aspecto.
"A Fonte das Mulheres" é do diretor Radu Mihaileanu e foi coproduzido pela França, Bélgica e Itália.
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