sexta-feira, 30 de setembro de 2016

D'Ardennen

"D'Ardennen" (2015) dirigido por Robin Pront é um filme tenso cheio de situações conflituosas, é um drama intenso com muita violência e silêncio. Uma obra impactante!
Em um assalto planejado por dois irmãos, Dave (Jeroen Perceval) e Kenneth (Kevin Janssens), as coisas não saem como esperadas e um deles fica para trás. Quatro anos depois, Kenneth é solto da prisão e muita coisa mudou. Seu irmão, Dave, tenta fugir do seu passado criminoso ao mesmo tempo em que pretende ajudá-lo. Mas com o tempo, os dois se veem presos em um explosivo triângulo amoroso, onde Kenneth quer ter sua ex-namorada de volta.
Kenneth vai para a prisão e mantém seu silêncio em relação a Dave, passa os quatro anos e ele é solto, só que agora Dave não quer mais saber de uma vida criminosa, e além disso está com Sylvie (Veerle Baetens), ex-mulher de Kenneth, este acredita que ela o esperou, mas ao chegar em sua casa percebe as mudanças e logo começa a ficar irritadiço.
Sylvie e Dave escondem a relação, mas aos poucos Kenneth estranha o comportamento do irmão, que não é mais o mesmo e Sylvie se nega a voltar para ele. Ela aceita o convite de passar o natal na casa deles, conversas do passado surgem, uma intranquilidade torna o ambiente tenso, não demora para que Kenneth se sinta enciumado e faça uma besteira. Dave se vê novamente enredado em confusões, ele não pode recusar ajuda a seu irmão, a lealdade é cobrada, portanto vai com ele à região de Ardennes, local que remete a infância deles, mas dessa vez o desfecho será diferente das férias da infância, será um fim marcado por violência. Nesta história não há possibilidades de redenção.
É um forte drama familiar que explode em violência e circunstâncias desastrosas, são personagens marcantes, acompanhamos o desenrolar lento e preciso, o interessante é que não dá pra saber as reações deles, quais as atitudes que irão tomar, o quanto de coragem têm.

É um drama/thriller certeiro, o desencadear de situações na região de Ardennes é surpreendente, brutal. Vale destacar a atuação do excepcional Jan Bijvoet (Borgman - 2013), que faz o maluco ex-colega de cela de Kenny, outro ponto é a trilha sonora eletrizante, com as músicas: "Rigor Mortis" (I Love You), de  Flesh & Bones, "The First Rebirth", de Jones & Stephenson, "Stereo Murders", de Marshall Masters, "The House of House", de Cherrymoon Trax, "Frequency Test", de Strong Heads, entre outras, é um grande estímulo para o espectador, que observa o desenrolar e o desfecho atônito.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro)

"As Neves do Kilimanjaro" (2011) dirigido por Robert Guédiguian (O Fio de Ariane - 2015) inspirado no poema "Os Pobres", de Victor Hugo, é um filme que exala humanidade e amor ao próximo, nos faz enxergar além de nós mesmos e perceber a dor alheia. Retrata sem clichês a crise econômica que assola e a complexidade na relação de classes.
Apesar de ter perdido o emprego, Michel leva uma vida feliz com Marie-Claire. Eles estão apaixonados há mais de 30 anos, seus filhos e netos lhes dão alegria e vivem cercados de amigos próximos. Ambos se orgulham de sua luta política e seus valores morais. Mas a felicidade do casal é interrompida quando dois homens armados e mascarados os amarram e atacam violentamente, roubando o dinheiro que tinham guardado para fazer uma viagem ao monte Kilimanjaro. Michel e Marie-Claire ficam ainda mais chocados quando descobrem o autor do ataque.
O filme propõe que pensemos no outro, os personagens vivem uma vida boa, se viram como podem, não são ricos, mas também não são pobres, são trabalhadores. Michel (Jean-Pierre Darroussin) líder sindical fica com a missão de sortear as pessoas que serão demitidas, entre tantos ele acaba perdendo seu emprego também, o amigo fica indignado por isso, mas Michel jamais seria capaz de não colocar seu nome na caixinha. A sua esposa Marie-Clarie (Ariane Ascaride) trabalha como acompanhante de uma senhora de idade, o casal está junto há muito tempo e mesmo estando desempregado agora, dão um jeito, logo ele se aposentará e receberá alguns benefícios dos anos de trabalho. Os filhos já crescidos, casados e com filhos resolvem presentear os pais com uma caixinha de madeira que contém algum dinheiro e duas passagens para o monte Kilimanjaro, no norte da Tanzânia, isso acontece na festa de aniversário de casamento deles, onde estão reunidos vários amigos, inclusive as pessoas recém-demitidas. Emocionados ao receber tal presente, inclusive ao som de "Les Neiges du Kilimandjaro", de Pascal Danel, comemoram e logo começam a se preparar para a viagem. Mas, durante uma noite aparentemente sossegada junto de seus melhores amigos, são roubados e atacados violentamente, traumatizando-os. Os ladrões levam a caixinha, os cartões do banco e um gibi antigo, artigo único que terá uma função importante na história.
Sem dúvida um acontecimento triste, uma experiência da qual ninguém deveria passar, após relatarem a polícia o ocorrido e com o passar dos dias, ao acaso, Michel acaba descobrindo um dos autores do crime, o que o deixa inconformado, foi um dos rapazes demitidos que estava na festa e os viu ganharem o presente. O moço é preso e a vida do casal muda, pois ele tem dois irmãos menores que ficaram órfãos. Essa situação faz com que Marie-Claire e Michel repensem a sua decisão e o papel deles nessa sociedade, que infelizmente, não viabiliza a humanidade.

O filme de Robert Guédiguian não é utópico, há delicadeza na forma que expõe seus personagens, eles não são perfeitos, pelo contrário, são repletos de erros, mas refletem no que poderiam fazer para mudar a situação, a viagem que não se concretizará não os fará menos felizes, tudo o que aconteceu certamente transformou a maneira deles viverem.
Não é fácil suscitar mensagens de solidariedade, vivemos numa sociedade violenta por conta da pobreza, e por isso não há espaço para a generosidade, pensamos na nossa segurança, bem-estar e só. O filme retrata que em qualquer parte do mundo existe o não encaixe nas determinadas classes sociais, por exemplo, Michel e Marie-Claire não são burgueses, sempre trabalharam, criaram seus filhos e abdicaram de muito nas suas vidas para terem um pouco de conforto, mas para aqueles que não têm o que comer, são caracterizados burgueses.

"A coragem é compreender sua própria vida, harmonizá-la, aprofundá-la, estabelecê-la e coordená-la, apesar do senso comum."

"As Neves do Kilimanjaro" é um belo conto de generosidade que traz profundas questões sociais. Será que algumas ações, como roubar em determinadas circunstâncias, são justificáveis? O fato é que as condições de vida são diferentes para cada um, colocar todos na mesma balança é um erro, ainda mais perante a alarmante crise de desemprego. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Última Vida no Universo (Ruang Rak Noi Nid Mahasan)

"A Última Vida no Universo" (2003) dirigido por Pen-Ek Ratanaruang (Ninfa - 2009) causa estranhamento, mas tem imensa sutileza ao tratar da solidão, os simbolismos e metáforas também fazem parte da trama, o que dá um tom por vezes de fantasia.
Kenji (Tadanobu Asano) é um jovem bibliotecário japonês que mora em Bangkok, na Tailândia. Extremamente tímido, é obcecado por organização e pela morte (especialmente a dele mesmo e não necessariamente nessa ordem). De repente, uma tragédia coloca à sua frente Noi (Sinitta Boonyasak), uma garota que é o seu oposto: desencanada, expansiva e que vive em uma casa que parece ter brigado definitivamente com a vassoura e com o detergente há décadas. Depois de um início cheio de estranhezas, os dois vão se entendendo. Ok, pode parecer mais uma dessas histórias em que os opostos se atraem, onde a maluquinha conquista e é conquistada pelo cara tímido e estranho, mas não é bem assim…
Kenji é meticuloso e pensa na morte como uma espécie de purificação, seu apartamento reflete seu estado de espírito, a cor branca, a decoração e suas roupas denotam uma grande melancolia. Passa seus dias trabalhando na biblioteca, mas quando seu irmão, o Yakuza Yukio (Yutaka Matsushige) chega fugido do Japão, tudo se complica e uma série de encontros e desencontros acontecem entre ele e Nid (Laila Boonyasak), irmã de Noi, que trabalha como hostess vestida de colegial japonesa numa casa noturna que Yukio frequenta. Num momento em que Kenji simula seu suicídio em cima de uma ponte, as irmãs brigam dentro do carro, Nid sai e o vê, ao ir até ele um carro a atropela e a mata. A partir daí Kenji e Noi passam a viver juntos, e ao contrário de Kenji, a moça é completamente desorganizada, sua casa está virada do avesso, louças sujas por toda a parte, tudo jogado pelo chão. Interessante que Kenji sinta aconchego no caos. A relação deles segue de forma nada convencional, a língua é uma barreira. Há muita angústia, tristeza e solidão.  
Difícil descrever "A Última Vida no Universo", é preciso assisti-lo sabendo que não é um filme comum e que ele vai exercer fascínio mesmo não o entendendo por completo, cada um o absorverá de uma maneira. Há pitadas de humor, romance, fantasia, mas a melancolia se sobressaí, ele não segue uma linha, alterna entre passado, presente e até futuro, passagens em que o sonho se mistura à realidade, está tudo ali, vida/morte, ordem/caos. 
Tadanobu Asano tem delicadeza ao atuar, um personagem cativante e soturno, outro destaque é a participação do diretor Takashi Miike como o mafioso da Yakuza. Numa das cenas acontece uma referência a "Ichi, o Assassino" (2001), um filme dirigido por Miike e estrelado por Asano.

A morte, as relações que se constroem a partir do acaso, a incomunicabilidade, a necessidade do afeto, a vida. Esse são alguns temas refletidos na trama, mas há tanto para se explorar, emoções provocadas que não entendemos. 
O poster do filme, por exemplo, diz muito: dois corpos desarticulados, unidos e desunidos, uma possibilidade de afeto, mesmo que não haja uma comunicação. Eles vão se descobrindo no decorrer e enxergam similaridades.

"A Última Vida no Universo" é um exemplar fascinante do cinema asiático, uma poesia a se decifrar, uma relação que nasce por algo em comum, a dor e a ausência os fazem construir um novo universo, estranho e silencioso, ela encontra a ordem para refazer seu caos, e ele o caos, a centelha de vida para sua ordem.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Perfeitos Desconhecidos (Perfetti Sconosciuti)

"Perfeitos Desconhecidos" (2016) dirigido pelo italiano Paolo Genovese (Tutta Colpa di Freud - 2014) tem um enredo atualíssimo que brinca com a forma que lidamos com as redes sociais, a relação de dependência com o celular, e especificamente segredos que algumas pessoas guardam em seus celulares, são tantos meios de comunicação que fica impossível desgrudar os olhos da tela, desligar o aparelho então nem pensar, a ansiedade por uma mensagem, um convite, uma curtida deixa sempre todos alerta, dividindo a atenção entre o real e o virtual. Mas acontece que as pessoas tem várias vidas, uma pública, uma privada e uma em segredo, partindo dessa frase dita por Gabriel García Marquez, acompanhamos um jantar, onde encontram-se sete amigos, quatro homens e três mulheres, na mesa surge a ideia de um jogo, onde todos colocam seus smartphones a fim de compartilharem suas mensagens e ligações durante o jantar, mostrando assim que não têm nada a esconder de seus parceiros. A ideia não é bem vista por alguns, porém já compromete-se quem falar não, os rostos ficam tensos e o jantar se desenrola até que algumas revelações e mal-entendidos surgem.
Eva (Kasia Smutniak) é terapeuta e é casada com o cirurgião plástico Rocco (Marco Giallini), eles tem uma filha adolescente que não se entende com a mãe, mas tem um forte laço com o pai, o casal passa por problemas por conta disso, porém resolvem juntar os amigos em um jantar, Cosimo (Edoardo Leo) e Bianca (Alba Rohrwacher) recém-casados e apaixonados, Lele (Valerio Mastandrea) e Carlotta (Anna Foglietta) que se distanciaram, mas fingem estar bem. E o sétimo convidado é Peppe (Giuseppe Battiston), que é aguardado com impaciência, pois apresentará sua namorada, só que ao chegar dá a desculpa de que ela está doente. Todos subestimam Peppe e por isso ele não conta muito sobre sua vida. 
O filme é uma comédia de humor negro com roteiro super elaborado, tem grandes sacadas e momentos constrangedores, a ideia de colocar os celulares em cima da mesa para que todos saibam quem liga ou manda mensagens faz com que as máscaras caiam e segredos apareçam, o clima fica pesado e o desconforto entre eles torna tudo intragável.
Quem nunca se perguntou o que tanto o seu amor olha no celular, a curiosidade de vasculhar, de dar aquela olhadinha, "o será que..." atormenta muitos relacionamentos, o filme coloca o dedo exatamente nesta ferida e faz crítica de modo inteligente. Todos ali na mesa têm rabo preso, uns mais que outros, eles fingem serem melhores amigos, compreensivos, fiéis, leais e que se amam independente de qualquer coisa.

É fato que o celular é praticamente um membro a mais do corpo de muito ser humano por aí, difícil é encontrar uma pessoa que não se sinta com a sensação de algo faltando quando não está com o seu aparelho, é uma compulsão por saber das informações, que na maioria das vezes são inúteis e supérfluas, óbvio que é uma ótima forma de comunicação, mas saber quando parar devia ser predominante, especialmente quando se compartilha da companhia real de alguém, em muitos casos enquanto você está lá, o outro está mais interessado numa conversa virtual, ou tirando fotos da ocasião sem a vivenciar de fato. 

Com roteiro e interpretações impecáveis, diverte e reflete sobre nosso comportamento com o celular, a sensação de constrangimento permeia uma boa parcela da história, explora questões que fazem parte da vida de todos nós, mais atual impossível, discute acerca do como a tecnologia interfere nas relações amorosas, a divisão de atenção entre a relação real e as interações virtuais, além de mostrar o quão vulneráveis somos, confiando na "caixa preta", como um dos personagens define o celular, para esconder deslizes, segredos íntimos e outras bobagens constrangedoras.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Nise: O Coração da Loucura

"Há dez mil modos de pertencer à vida, e de lutar por sua época."

"Nise: O Coração da Loucura" (2015) dirigido por Roberto Berliner (A Pessoa é para o que Nasce - 2005) é um grande filme nacional que retrata a luta da Dra. Nise da Silveira, a psiquiatra que ousou tratar de pacientes de um hospício da década de 1940 usando a criatividade, o carinho e a arte como instrumentos de trabalho.
A história do longa inicia-se em 1944, quando Nise (Glória Pires) retorna ao trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II, em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Ela tinha sido presa durante o Estado Novo – a ditadura de Getúlio Vargas – ao ser denunciada por uma enfermeira por ter livros marxistas. Ao chegar Nise se espanta com o ambiente em que vive os pacientes, um local abarrotado de sujeira, sem dignidade alguma, e, principalmente, pelos maus-tratos e tratamentos utilizados, como a lobotomia e terapia de choque elétrico, horrorizada com a maneira com que tudo é conduzido diz ao diretor do Centro, Dr. João (Zécarlos Machado), o que pensa sobre isso e que jamais conseguiria fazer tal coisa, no que acabou sendo designada para o Setor de Terapia Ocupacional, um espaço abandonado. Nise tem garra e arregaça as mangas, limpa todo o ambiente com a ajuda apenas da enfermeira Ivone (Roberta Rodrigues), já que o outro enfermeiro, Lima (Augusto Madeira), pouco se importa com o que vai ser feito, aliás ele é um personagem interessante que ao desenrolar muda completamente sua atitude, de um sujeito bruto e sem amor ao que faz, graças a Nise, ele entendeu que com carinho dá-se um jeito, os avanços dos pacientes com a pintura foram enormes, a sociabilidade foi uma das grandes mudanças. 
O filme tem um valor imensurável por retratar Nise da Silveira, essa figura feminina tão forte e que poucos conhecem. Glória Pires encorpora Nise de forma primorosa, sua expressão sempre dura, mas com gestos ternos, uma atuação louvável e engrandecedora. Os atores que interpretam os clientes, assim como a Dra. prefere chamá-los, sem exceção são espetaculares, Claudio Jaborandy na pele de Emygdio de Barros, que aos poucos toma consciência de si através da pintura, Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), que tem uma carência afetiva enorme também dá vazão a suas angústias pela pintura, Raphael (Bernardo Marinho), um garoto encolhido que se apega na estagiária Marta (Georgiana Góes) e traduz seus desejos fazendo desenhos. Lucio (Roney Villela), um cara violento e que sofre nas mãos dos médicos, libera toda a sua raiva modelando esculturas, Carlos Pertius (Julio Adrião), um falador, cuja sensibilidade é enorme, faz pinturas belíssimas. Otávio Ignácio (Flavio Bauraqui), se mostra sociável e livre depois de começar a frequentar a terapia, e Adelina Gomes (Simone Mazzer), solitária e violenta, se mostra uma mulher adorável e cheia de amor pra dar.

Nessa empreitada Almir (Felipe Rocha) tem significativa função, ele auxilia nas aulas de arte e compõe o cenário que Nise tanto preza, que é dotado de respeito pelos clientes. Escutá-los, entender o que aconteceu para que eles viessem parar ali, cada um tinha uma história e era preciso administrá-las de modos diferentes. A atenção era a chave para a melhoria, Nise se tornou uma mulher admirável, trocou cartas até com Carl Jung, levou as artes criadas em suas sessões de terapia ocupacional para museus e revolucionou o tratamento dos esquizofrênicos, num tempo em que os avanços nessa área era o choque elétrico e a lobotomia.
Nise batalhou e se impôs em um meio machista, se dispôs a dar dignidade, e com toda dedicação e atenção aos doentes mentais, considerados a escumalha da sociedade, sendo desprezados, jogados à mercê de experiências médicas, os inspirou trabalhando com as artes e a sociabilização, incluindo os animais, que dava a sensação de responsabilidade e um elo afetivo estável.

O roteiro muito bem estruturado nos transporta para o ambiente e a cada cena mergulhamos na luta de Nise, o sorriso dela ao ver o caos se amainando, a apreciação ao ver seus clientes se expressando lhe dá ainda mais impulso. O filme tem o poder de nos fazer refletir sobre a loucura e o quão necessário é pensar no como lidamos com pessoas que sofrem de algum tipo de doença mental, e claro, conhecer um importante recorte da vida dessa mulher extraordinária.
"Nise: O Coração da Loucura" é um filme intenso e emocionante que não cai em esteriótipos, todos os atores fizeram um trabalho crível. É uma produção de qualidade e extremamente fundamental.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nenette, a Meia-Irmã (Demi-Soeur)

"Nenette, a Meia-Irmã" (2013) dirigido e protagonizado pela excepcional Josiane Balasko (O Porco Espinho - 2009) é um filme divertido, leve, delicado e encantador. Nenette (Josiane Balasko) é uma senhora que tem a idade mental de uma criança de oito anos. Após a morte de sua mãe, ela parte em uma busca do seu pai, mas acaba conhecendo seu meio-irmão Paul (Michel Blanc), um farmacêutico ranzinza. O roteiro é simples e brinca com situações surreais, mas o desenvolvimento é tão gracioso que fica impossível não se deixar levar pela pureza de Nenette.
Após perder a mãe, Nenette é levada para uma casa de repouso, mas como não aceitam a sua tartaruga de estimação, Totoche, sai em busca de seu pai, porém termina encontrando seu meio-irmão Paul, um homem ríspido que encontrou conforto em sua própria solidão, dono de uma farmácia, leva seus dias numa rotina que consiste sempre em fazer as mesmas coisas, Nenette chega para colocar tudo de pernas pro ar, inclusive sua personalidade, a senhorinha é cheia de amores pra dar, vive dando beijinhos e abraços, tem uma aura de inocência e mais parece uma criança. Paul não a quer em sua casa, ela o incomoda profundamente, ele é um chato que se esqueceu do amor, a atuação de Michel Blanc junto de Josiane Balasko é de uma perfeita sintonia, dois exímios atores, quando a personalidade de Paul é alterada por conta das drogas que por acaso Nenette coloca em seu café pensando ser açúcar, acompanhamos inúmeros momentos engraçados, ele começa a tratar bem as pessoas, inclusive seu filho e sua neta que não via muito, mostra a casa do pai para Nenette, onde encontra sua ex-mulher que toma um susto e logo pensa em perder a mordomia, faz as pazes com o piano, sua antiga paixão, se desfaz de sua coleção de crustáceos, enfim, é um aglomerado de situações que Paul vivencia, uma alegria o toma e o faz adorar Nenette, que quando volta a seu normal percebe o como afastou as pessoas de si pelo seu jeito rabugento.
O filme traz um amontoado de acontecimentos inverossímeis, mas os desenvolve com delicadeza e simplicidade, demonstra que nada como um pouco de amor para a vida se tornar mais gostosa.

Nenette é daquelas personagens para guardar com carinho na memória, ela nos tira sorrisos e passa uma sensação de bem-estar, nos faz lembrar de que quando se há afeto tudo toma outra forma, eliminando-se sentimentos pequenos a vida fica mais bela, e consequentemente, os outros mais alegres também.
É um filme que disserta sobre o amor, a solidariedade e a humanidade, que infelizmente está em falta no cotidiano, seja entre familiares, amigos e desconhecidos, na maior parte as brigas são em função de dinheiro e o cansaço também é outro fator, a paciência é artigo de luxo e a intolerância é expressada sem piedade, julgamentos, preconceitos, deixam nossa vida com gosto amargo, e no fim acabamos sozinhos e insatisfeitos. 

Tudo é exposto com delicadeza, e por mais que pareça clichê, o cinema francês tem um charme todo especial em retratar o tema com inteligência e humor.
"Nenette, a Meia-Irmã" é uma joia rara que merece ser descoberta, é um filme satisfatório que só não agradará pessoas pequenas de alma.
Está disponível na Netflix!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Sanctuary (Faro)

"Faro" (2013) dirigido por Fredrik Edfeldt (Flickan - 2009) é um filme sueco que retrata a monotonia junto de sentimentos de culpa, a angústia de um pai por tentar salvar a si e a filha e ter momentos de paz, a floresta é a morada escolhida, mas as circunstâncias, os tormentos rondam o protagonista, por causa do ato cometido no passado sua vida seguirá outros rumos. O filme tem um ritmo calmo e um ar contemplativo, tendo alguns episódios de desespero, a história segue o relacionamento de pai e filha, a fuga dos dois e a vivência deles no meio da floresta, enquanto isso os policiais o procuram, acusado de assassinato, ele jura para a filha que foi em legítima defesa, a menina com medo de ficar só ou ser levada pelo serviço social acaba incentivando o pai a fugir com ela.
O pai (Jakob Cedergren) e a filha Hella (Clara Christiansson) vivem numa casinha longe de tudo e aparentemente levam uma vida idílica. O início do filme dá essa sensação, porém essa ideia é quebrada quando Hella avista um carro vindo em direção a casa e ao avisar o pai, ele se esconde e ela atende a porta dizendo que ele voltará em breve. Logo surge a decisão de fugirem e então se embrenham no meio da floresta e montam uma barraca, com o passar dos dias a relação deles vai se estreitando e a convivência marca muito bem a personalidade de cada um, Hella é inteligente, questionadora, mas aceita tudo com passividade, o pai é quieto e distante ao mesmo tempo amoroso e preocupado com a filha.
Em alguns pontos do filme dá a entender que a mãe de Hella se suicidou, há uma carência e inocência em Hella, e nesses dias de verão ao lado do pai, o amadurecimento vai surgindo, selvagemente. Nada especial acontece, mas o desenvolvimento é tão lindamente retratado que cativa, a força que a menina precisa para enfrentar seu futuro vem aos poucos, dia após dia, é imensamente importante as experiências que ela experimenta na floresta. Quando fica sozinha por uma noite porque o pai vai em busca de comida, ela encontra uma casa e deixa-se levar por uma mulher louca que por pouco não a aprisiona, vemos o quão frágil é Hella, mas por outro lado não titubeia em tomar decisões.

A natureza é o terceiro personagem desta história que apesar de conter alguns instantes tensos, prima pela suavidade e contemplação. É um filme que exige paciência do espectador, pois as respostas vem com o tempo e ao acaso. O título do longa é por conta da reminiscência afetiva da viagem feita pelo pai de Hella na cidade portuguesa de Faro. Seu sonho era construir uma casa à beira-mar e viver com a família no mais completo sossego. A narrativa segue sem pressa, envolve e é muito eficaz ao passar a mensagem, a estética do filme é muito bonita, são tomadas belíssimas retratando a natureza e o passar dos dias de pai e filha, os closes são outro ponto forte e garantem a dramaticidade.

"Faro" é um filme convincente e melancólico ao retratar o amadurecimento de Hella, o vínculo entre os personagens e o otimismo do pai ao tentar escapar e dar a filha momentos de paz. É emocionante sem usar grandes artifícios, é na sua tranquilidade e naturalidade que o filme nos fisga.