quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Como Nossos Pais
"Como Nossos Pais" (2017) dirigido por Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças - 2001) é uma obra brasileira excelente que disserta com grande naturalidade questões cotidianas e familiares com viés feminista, os embates, as responsabilidades, as frustrações, uma série de coisas que tanto a criação como a sociedade vai impondo e que aos poucos a personagem vai se desvencilhando, ela se redescobre como mulher e permite a mudança.
Rosa (Maria Ribeiro), 38 anos, é uma mulher que se encontra em uma fase peculiar de sua vida, marcada por conflitos pessoais e geracionais: ao mesmo tempo em que precisa desenvolver sua habilidade como mãe de suas filhas, manter seus sonhos, seus objetivos profissionais e enfrentar as dificuldades do casamento, Rosa também continua sendo filha de sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), com quem possui uma relação cheia de conflitos.
A necessidade de se mostrar como capaz é enorme, a supermulher, que trabalha, cuida das filhas enquanto o marido corre atrás do sonho, repleta de afazeres e estressada com tudo, o convívio familiar é conflituoso e tudo desmorona de fato quando a mãe diz que ela não é filha de Homero (Jorge Mautner), mas sim de outro homem, essa informação dada de um jeito estranho foi um agente para a cabeça de Rosa começar a questionar diversas outras, não só em querer saber quem é o cara que é o seu verdadeiro pai, mas quem é a Rosa nisto tudo. Por mais difícil que seja a relação entre Rosa e Clarice existe um laço afetivo bem forte e é inegável a semelhança das atitudes entre uma e outra, Rosa não percebe que está traçando o mesmo caminho que sua mãe até um ponto específico da trama.
Clarice é uma mulher autêntica que viveu um grande e fugaz amor em Cuba, ela sempre foi forte, dona de tudo e que sustentou o ex, Homero, figura excêntrica da qual Rosa ama e nutre grande carinho, Clarice não se priva do prazer de fumar ao saber que tem câncer e Rosa de início fica brava, mas no decorrer há aproximação e diálogos ótimos que denotam suas personalidades e o rumo que Rosa irá tomar. A questão da liberdade da mulher, de se desfazer de obrigações e mesmo com responsabilidades, como as filhas, encontrar um caminho mais leve para seguir, Rosa em diversos momentos julga a mãe, mas não percebe que age igual, como quando inicia um caso com Pedro (Felipe Rocha), que se faz de descolado longe da esposa, Rosa é admirada por ele e como está em atrito com o marido a chama da paixão acende, só que há algo que ela repensa em determinado ponto que é crucial para sua decisão de liberdade. E a liberdade está apenas em si mesma, deixar tópicos de lado e apenas viver, recuperar o entusiamo pelos sonhos, como a escrita, da qual tem paixão.
Os momentos que compartilha com sua mãe são recheados de mágoa e amor, uma confusão atordoante que gera diálogos exasperantes e reflexivos, o desenvolvimento de Rosa é lento e ambíguo, e não é à toa que o filme tenha o mesmo título da canção de Belquior, o trecho: "Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo o que fizemos. Ainda somos os mesmos. E vivemos como os nossos pais", exemplifica perfeitamente. Rosa é cobrada pelas gerações, sente o peso da responsabilidade, amargura-se, mas depois surge uma nova consciência e começa a se libertar, mas sem precisar sair do lugar de onde está. O filme também faz uma analogia entre Rosa e Nora, personagem do livro "Casa de Bonecas", de Ibsen, ela monta um roteiro inspirado no fim da história, quando Nora cansada de se sentir inferior na sociedade, revolta-se e abandona deixando marido e filhos.
"Como Nossos Pais" possui camadas pertinentes e quanto mais se pensa nele mais coisas surgem, exibe discussões necessárias sobre transformações dentro das relações e no comportamento em sociedade, como romper obrigações destinadas às mulheres. Maria Ribeiro está natural na pele de Rosa, uma mulher repleta de nuances que aos poucos e duramente se redescobre, e enfim busca se desvencilhar de tudo aquilo que a prende e a sufoca.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Glory (Slava)
"Glory" (2016) dirigido pelos búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov (A Lição - 2014) é o segundo filme da dupla que tem como tema o realismo social, um pulsante retrato das articulações do sistema, os esquemas de corrupção, a manipulação midiática, as burocracias e o cidadão sendo explorado, sugado e descaracterizado como indivíduo. Em tom tragicômico acompanhamos uma série de situações que acaba tirando a dignidade do protagonista e que nos faz questionar até onde pode-se aguentar.
Tsanko Petrov (Stefan Denolyubov), um trabalhador ferroviário, encontra uma enorme quantia de dinheiro nos trilhos do trem. Ele entrega todo o montante para a polícia, que o recompensa com um novo relógio de pulso, que logo para de funcionar. Enquanto isso, Julia Staikova (Margita Gosheva), chefe do departamento de relações públicas do Ministério dos Transportes, perde o antigo relógio de Petrov. Ele começa então uma luta desesperada para obter seu velho relógio de volta, assim como sua dignidade.
Tsanko é um trabalhador que se desgasta em um trabalho pesado, num dia como todos os outros o executando encontra algumas notas espalhadas pelo trilho, guarda-as no bolso e mais adiante se dá conta de um montante de dinheiro, ele simplesmente para toma água e a seguir descobrimos que ele é um homem de caráter irretocável, devolve o dinheiro às autoridades e por causa de sua atitude é transformado em um herói, Tsanko passa por momentos constrangedores, é ridicularizado por conta de sua gagueira e daí por diante tudo que o envolve é podridão, sua honestidade parece intacta, na sessão de fotos com o chefe acaba dizendo sobre o roubo de combustíveis e que é por isso que o salário está atrasado há dois meses, mas o chefe desconversa, um jogo muito sujo está sendo feito a partir da atitude de Tsanko, a atenção dada a ele é falsa e com intenções de tirar o foco de outras, Julia é uma workaholic que dá a alma para o que faz, não mede consequências para atingir seus objetivos, só que ela não passa também de um marionete do sistema, mas, claro, com inúmeros privilégios. Julia é egocêntrica e não demonstra nenhum tipo de sentimento, observamos o marido sempre atrás dela lembrando das injeções que precisa tomar para poder engravidar, é arrogante, fria, robotizada e imersa no sistema que também a devora, ela tira o relógio do pulso de Tsanko antes da homenagem, pois ele ganhará um novo, ele fica preocupado e pede para que depois o devolva, acontece a tediosa celebração, a festa, e nada do relógio. Passa-se os dias e Tsanko percebe que o relógio que ganhou parou e tenta encontrar Julia de qualquer jeito, ela faz pouco caso e nem sabe onde está o tal relógio, até tenta enganá-lo devolvendo uma cópia, mas o de Tsanko tem uma inscrição, pois foi um presente de seu pai. As coisas começam a ficar desesperadoras, dá agonia acompanhar tantos momentos de descaso e ver Tsanko sendo tratado como lixo.
Margita Gosheva domina as cenas e encarna perfeitamente o tipo de pessoa que se devota ao trabalho, que tem sede de poder e atropela as pessoas com sua falta de empatia, Stefan Denolyubov como Tsanko é sublime e sentimos junto dele todas as agruras, seu sembante cabisbaixo diante dos acontecimentos e a sua gagueira representando o desespero e a falta de voz que as pessoas comuns têm perante quem comanda, a intensidade desse desespero aumenta com o desenrolar e cada vez mais sua dignidade vai sendo escoada, até que chega um ponto que ela é eliminada e o personagem reage, daí as consequências se tornam trágicas.
Um exemplar sensacional do como o indivíduo é engolido, descaracterizado e injustiçado transformando-se irremediavelmente. Difícil, pesado, mas essencial para refletir no como funcionamos na sociedade e que tipo de peça somos.
"Glory" é uma obra que retrata dilemas morais e questões sociopolíticas com destreza, realidade e um humor trágico. Como permanecer honesto diante de um sistema corrupto que se beneficia justamente em cima do mais pobre? Ridicularizam e massacram até não sobrar mais nada, o indivíduo é reduzido, além de todas as burocracias e acrobacias midiáticas que ludibriam e invertem a atenção. Tsanko aguentou até não poder mais e o final exemplifica toda a sua revolta, a injustiça da qual foi alvo. Filmaço!
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
A Região Selvagem (La Región Salvaje)
"A Região Selvagem" (2016) dirigido por Amat Escalante (Heli - 2013) é um filme polêmico e poderoso que traz uma história envolvendo uma mulher traída e um alienígena que desperta prazeres sexuais, uma crítica ao conservadorismo, a repressão, o machismo e preconceitos, tudo exposto de forma bizarra, mas que com certeza captura nossa atenção.
Um meteorito cai em uma montanha. Em uma cidade próxima, um jovem casal se esforça para se reconectar, e o homem trai a mulher. O processo é autodestrutivo para ambos. De repente, algo de fora deste mundo surge, mudando suas vidas para sempre.
Após a queda do meteorito somos inseridos na cena em que Veronica (Simone Bucio) se satisfaz sexualmente com os tentáculos do alienígena, o casal que detém o extraterrestre teme por ela, pois nessa "sessão" saiu machucada, Veronica carrega um semblante pesaroso, pois sabe que não poderá mais vê-lo e o prazer jamais vai ser sentido novamente, no hospital quem cuida da ferida dela é o enfermeiro Fabian (Eden Villavicencio), muito simpático o moço chama ela pra sair junto de sua irmã Alejandra (Ruth Ramos) e o cunhado Ángel (Jesús Meza), do qual mantém uma relação escondida, um hipócrita que cospe preconceitos e evita falar com Fabian perto da esposa pelo fato de ser gay, mas escondido manda mensagens e sai com ele. Há uma tensão sexual entre Veronica e Fabian, partindo mais do lado dela, e Ángel fica enciumado e desconta sua raiva das formas mais machistas e preconceituosas possíveis, começa a ameaçar Fabian e então este decide romper com a relação abusiva. Nisso, Veronica o insere no mistério envolvendo o alienígena que desperta grandes prazeres nas pessoas, só que no dia seguinte ele é encontrado pelado inconsciente num lago, a irmã desesperada tenta entender o porquê e ao entrar na casa do irmão encontra o celular e visualiza as mensagens entre ele e seu marido, algumas de cunho ameaçador, logo a suspeita cai toda em cima de Ángel, atormentada pela traição de ambos denuncia o marido e Veronica a acolhe e lhe mostra o caminho para o alienígena, e é nesta relação que encontra alívio e satisfação. A cena que se sucede é estranha, o casal de idosos lhe dá um chá que a droga e depois a coloca no celeiro, de início se assusta com o que vê e aos poucos a câmera revela o ser que habita ali e emana tanta excitação. As cenas são altamente eróticas, tentáculos que passam e adentram o corpo, uma carga sexual libertadora.
Mas o que será que o alienígena realmente quer das pessoas, ele simplesmente precisa se saciar sexualmente e quando cansa torna-se perigoso, ou poderia ter algo haver com a tendência, que ao entrar no local com o caráter totalmente exposto transfigurava-se em prazer sexual ou violência? Várias questões surgem e a subjetividade é imensa, e é por isso que a obra se torna grande, por exemplo, sobre o desejo feminino, a cena em que Ángel faz sexo com Alejandra demonstra essencialmente o egoísmo machista, ela ali é apenas um objeto, logo a vemos no banho se masturbando, mas os filhos a interrompem, parece não haver espaço para o prazer feminino, como se não existisse, e ao final Veronica até tenta transar com um homem, mas não consegue sentir nada, uma pequena amostra do quanto o ato sexual é ainda repleto de tabus e permeado de preconceitos.
"A Região Selvagem" acerta em cheio na atmosfera criada, provoca o espectador com a quebra dos estereótipos e ideias arcaicas, tabus religiosos que reprimem e tantos preconceitos que envolvem as relações, a cabana com o extraterrestre representa a libertação de todos os paradigmas e desnuda quem está ali, mostrando o seu lado primitivo onde convenções sociais não interferem no desejo. Um filme libidinoso, pulsante e que abre um leque de ideias interessantes e primordiais.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
A Atração (Córki Dancingu)
"A Atração" (2015) dirigido pela polonesa Agnieszka Smoczyńska é um musical excêntrico que tem como tema sereias, mesclando drama, comédia, musical e horror o resultado final é original e surpreendente. Baseado no conto de fadas de Hans Christian Andersen "The Little Mermaid", publicado em 1837, a obra segue duas irmãs, Prateada (Marta Mazurek) e Dourada (Michalina Olszanska), que são sereias. Com fome de amor e de carne, as duas chegam a Varsóvia, assumem uma forma humana e vão trabalhar num clube noturno. Contudo, quando uma delas se apaixona, surge a inveja, a obsessão e com isso o perigo.
Numa bela noite, Prateada e Dourada surgem e encantam um grupo de amigos músicos, que as levam e as acolhem no clube onde trabalham, lá começam a fazer alguns números que chamam bastante atenção do público, com o passar do tempo se apegam à forma humana, principalmente, Prateada que se apaixona pelo guitarrista vivido por Jakub Gierszal - Sala do Suicídio (2011), os dois tentam ficar juntos de qualquer maneira, mas pelo fato de serem de espécies diferentes atrapalha, porém ela o seduz e mostra que pode ser possível, como a cena da banheira, onde ela mostra o corte em sua grande cauda, a bizarrice toma conta da história e é preciso embarcar na proposta, é realmente diferente, a lenda da sereia não ganha tons suaves apesar de todo o romance envolvendo os personagens, as sereias são maliciosas e a paixão logo se torna uma obsessão difícil de controlar, a vontade de ser inteira e vivenciar o amor domina Prateada e as consequências de seu ato são trágicos, enquanto isso sua irmã experimenta inveja, raiva e começa a agir conforme seu instinto.
As atrizes encarnam com destreza as sereias e nos passam exatamente toda a aura misteriosa, sensual e sangrenta, Michalina Olszanska (Eu, Olga Hepnarová - 2016) está hipnotizante e demonstra tudo pelo olhar, a raiva por sua irmã ter se apaixonado, pois a ideia era só de passarem pelo local e seguirem viagem, tudo isso sem comer ninguém, mas nada dá certo e as duas entram em atritos, também o dono do clube as usam, cantam e dançam sem receberem nada, os clientes do bar ficam loucos a cada apresentação, o clima de lascívia impera, os números musicais tem um quê de comédia ao mesmo tempo que fascina, além de a história caminhar também por um tom de melancolia. As cores vibrantes se mistura ao macabro, Prateada quer de todo jeito se tornar humana, ter pernas e um órgão genital para enfim ser amada, só que o moço apenas a usa e deixa claro em várias partes que por ela ser de uma espécie diferente nunca dará certo, e quando ela decide passar por uma bizarra cirurgia em prol dessa paixão aí é que tudo dá errado e Prateada se dá conta, uma metáfora maravilhosa sobre preconceito e exploração.
As atrizes encarnam com destreza as sereias e nos passam exatamente toda a aura misteriosa, sensual e sangrenta, Michalina Olszanska (Eu, Olga Hepnarová - 2016) está hipnotizante e demonstra tudo pelo olhar, a raiva por sua irmã ter se apaixonado, pois a ideia era só de passarem pelo local e seguirem viagem, tudo isso sem comer ninguém, mas nada dá certo e as duas entram em atritos, também o dono do clube as usam, cantam e dançam sem receberem nada, os clientes do bar ficam loucos a cada apresentação, o clima de lascívia impera, os números musicais tem um quê de comédia ao mesmo tempo que fascina, além de a história caminhar também por um tom de melancolia. As cores vibrantes se mistura ao macabro, Prateada quer de todo jeito se tornar humana, ter pernas e um órgão genital para enfim ser amada, só que o moço apenas a usa e deixa claro em várias partes que por ela ser de uma espécie diferente nunca dará certo, e quando ela decide passar por uma bizarra cirurgia em prol dessa paixão aí é que tudo dá errado e Prateada se dá conta, uma metáfora maravilhosa sobre preconceito e exploração.
A trilha sonora é a grande protagonista e é numa vibe anos 80 que tudo se dá, são canções originais em polonês e outras repaginadas, como "Byłaś Serca Biciem", de Andrzej Zaucha, além de contar com coreografias divertidas, como a sequência inicial com a música "I Feel Love", de Donna Summer. Para quem não gosta de musicais cansa ver tantas sequências de canto e dança, a narrativa às vezes se perde nessa loucura toda, mas ao todo é uma produção que com certeza deixará alguma marca, a ambientação estilizada, a comunicação entre as irmãs com sequências de sons arrepiantes, a cauda nada bonita e impressionantemente longa, as cenas macabras e pela lenda ser retratada com tanta personalidade.
"A Atração" é um filme incomum que conta com interpretações brilhantes e cativa por sua estranheza por misturar gêneros, é divertido e sedutor ao trazer alguns conflitos morais e sentimentais numa fábula de sereias com toques de horror, provoca com as esquisitices e termina poeticamente interessante. Uma boa pedida para quem busca por produções que não seguem cartilha.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Lucky
"Sempre pensei que o que todos concordávamos era naquilo que a gente vê, mas isso é besteira, porque o que vejo não é necessariamente o que você vê."
"Lucky" (2017) marca a estreia na direção do ator John Carroll Lynch, um filme-testamento do ícone Harry Dean Stanton - que faleceu em setembro de 2017, extremamente sincero ao transmitir a sensação da finitude da vida, cru e sem floreios acompanhamos os lentos passos do protagonista que se mistura à realidade do ator, Stanton interpretou a si mesmo, um retrato doloroso, porém magnifico de um ser humano que ostenta seus 90 anos e que tem a consciência de todo seu percurso e sabe que a qualquer instante irá partir. Um adeus poético e genuíno.
Depois de fumar por muito mais tempo que todos os seus conterrâneos, o velho ateu Lucky (Harry Dean Stanton), de 90 anos, está no fim de seus dias, apenas esperando a morte. Vivendo em uma cidade no deserto, ele inicia sua última atividade antes de partir: se autoexplorar para enfim encontrar iluminação.
A narrativa é simples, mas propõe uma ótima reflexão sobre a solidão, a velhice e a morte, observamos a fragilidade do corpo, as manias, o tédio, as conversas com os amigos, os lugares por quais passa, ele caminha o dia todo e se mantém ativo, na hora que acorda faz seu ritual de exercícios, se arruma e sai, não há muito o que fazer e sempre para no bar para tomar sua Bloody Mary e jogar conversa fora, as pessoas param para escutar as outras, se entretêm com as histórias e se preocupam com Lucky. Um dia ele sofre uma queda e daí para frente começa a pensar mais no significado de estar vivo e inevitavelmente sentir medo da morte, a cena em que vai se consultar é realmente maravilhosa, o médico lhe diz que está com a saúde boa apesar de fumar e que não há mais o que fazer, exames não dirão nada e que se estivesse com alguma coisa o já teria matado, que estar pleno com 90 anos é de uma sorte que a grande maioria não têm, muitos adoecem, se acidentam e não chegam nessa fase da vida, não possuem a chance de olhar para trás, de notarem as mudanças físicas e psicológicas e estarem tão próximos da morte e ao mesmo tempo com tanta ansiedade para viver, Lucky depois disso encara as situações com outro olhar e repensa sua vida. Ele nunca casou, não teve filhos, passou por momentos críticos, vivenciou a guerra, em vários instantes é questionado sobre a solidão e ele rebate dizendo que há diferença entre estar sozinho e ser solitário. Há ternura no desenvolvimento do longa e Lucky não é uma pessoa fácil, é briguento e ranzinza, mas carrega em si a espontaneidade que nos tira sorrisos e lágrimas.
O personagem vai se redescobrindo e vamos juntos nesta jornada, seus olhares transmitem as sensações que sente, os diálogos são ótimos e refletem a compreensão que aos poucos chega, a participação de David Lynch é primordial nesta questão, além de estarem novamente trabalhando juntos, Howard, o personagem de Lynch também é só e lamenta o sumiço de seu jabuti, Presidente Roosevelt, ele é alvo de chacotas, mas o amigo o escuta com afinco, pois se comove pelo tempo de vida do animal em comparação a dele, Howard lamenta sua solidão, se desespera e deseja encontrar o jabuti, porém com o passar do tempo entende e aceita, as conversas são envoltas na surrealidade, mas trazem pensamentos interessantes acerca da morte. Outra aparição interessante é de Tom Skerrit, interpretando um veterano de guerra que conta uma história que testemunhou em solo japonês, a inusitada reação de uma garotinha diante da morte, com certeza um momento que fisga nosso protagonista, que desperta e o ilumina.
Há várias cenas emocionantes, como a que Harry canta "Volver, Volver" numa festa de aniversário de uma família latina, aliás o filme conta com uma bela trilha sonora, como "El Llanto De Mi Madre" de Lydia Mendoza e "I See a Darkness" de Johnny Cash, que conversam com toda a aura do filme.
"Lucky" nos mostra que nada é permanente, Harry interpreta a si mesmo e desafia a morte a cada dia, sabe que ela está à espreita, é consciente disso e ao fim sorri, não tem como não se comover, ele olha diretamente para a câmera com olhos marejados e abre um sorriso, uma sensação de liberdade em aceitar o inevitável e saber o quão sortudo foi chegar até esse ponto. A velhice e tudo que a acompanha é retratada com honestidade e delicadeza, a lucidez de encarar o fim é magistral neste longa. Uma despedida tocante de Harry Dean Stanton e um começo brilhante de John Carroll Lynch.
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
Under the Tree (Undir Trénu)
"A Sombra da Árvore" (2017) dirigido pelo islandês Hafsteinn Gunnar Sigurðsson (Paris do Norte - 2014) retrata situações embaraçosas e falhas de caráter, imperfeições desconcertantes que nos leva a refletir nas relações do dia a dia, no convívio com os familiares, vizinhos e colegas, quando pequenas coisas se tornam desavenças e por muito pouco explodem e se transformam em tragédias, os absurdos cotidianos estão espalhados por aí e o filme é sagaz ao expô-lo com muito humor negro.
Depois de ser expulso de casa e impedido de ver a filha, Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson) volta a morar com seus pais, que estão envolvidos em uma disputa em torno de uma grande e bela árvore que faz sombra no deque do vizinho. Enquanto Atli luta pelo direito de ver sua filha, a rivalidade com os vizinhos se intensifica — propriedades são danificadas, animais de estimação desaparecem misteriosamente, câmeras de segurança são instaladas e há um boato de que o vizinho foi visto com uma motosserra.
O constrangimento faz parte de toda a trama, logo no início vemos Agnes (Lára Jóhanna Jónsdóttir), a esposa de Atli o flagrando vendo um filme pornô e do qual ele é o protagonista, posto pra fora de casa e impedido de ver a filha volta para a casa dos pais, que estão em conflito com os vizinhos por conta da árvore, no começo Baldvin (Sigurður Sigurjónsson), o pai de Atli promete podá-la, mas no decorrer vão acontecendo algumas coisas que faz com que mude de ideia, o comportamento da mãe de Atli, Inga (Edda Björgvinsdóttir), se torna insustentável, cada vez mais rancorosa transforma o convívio impossível, entre agressões verbais, pneus furados, anões de jardim em poses indiscretas e animais que somem, somos conduzidos por mal-entendidos e confusões sem sentido, onde cada um pensa ter a razão, até tentamos entender as partes, mas os seres humanos retratados são mesquinhos, egoístas e sem nenhuma espécie de empatia, a angústia, o sofrimento os tornaram insensíveis.
Inga nega a morte do filho e remói isso dentro de si, se culpa e culpa os outros, cultiva sentimentos ruins e desconta da forma mais perversa, Atli é mentiroso, prepotente e machista, não vê o lado de sua esposa e todas as tentativas de aproximação são abusivas, sem nem um sinal de arrependimento ou empatia. Agindo irracionalmente tenta ver sua filha e para piorar se instala numa cabana no jardim da casa dos pais para vigiar a árvore, pois o vizinho tirou uma motosserra do carro, é engraçado que eles nunca pensam que estão cometendo absurdos, desesperados continuam e persistem em suas teorias, até que foge do controle total e o que sobra não é nada agradável.
Inga nega a morte do filho e remói isso dentro de si, se culpa e culpa os outros, cultiva sentimentos ruins e desconta da forma mais perversa, Atli é mentiroso, prepotente e machista, não vê o lado de sua esposa e todas as tentativas de aproximação são abusivas, sem nem um sinal de arrependimento ou empatia. Agindo irracionalmente tenta ver sua filha e para piorar se instala numa cabana no jardim da casa dos pais para vigiar a árvore, pois o vizinho tirou uma motosserra do carro, é engraçado que eles nunca pensam que estão cometendo absurdos, desesperados continuam e persistem em suas teorias, até que foge do controle total e o que sobra não é nada agradável.
A insensatez é retratada de forma provocativa e trágica, uma crítica ao quanto a natureza humana tende a ser mesquinha e ter como certo apenas o próprio ponto de vista, de que apenas o outro tem defeitos e age como idiota, quem se sujeita a tais atos, como os retratados no filme, discutir por sombra de árvore ou que o cachorro defeca em sua grama está fechado em uma bolha e é incapaz de olhar para si e admitir os seus erros, e outro ponto é que descontar mágoa, frustração e sofrimento nos outros, como Inga, só faz cultivá-los ainda mais e elimina a chance de reflexão.
"A Sombra da Árvore" desconcerta por apresentar pessoas que por ignorância e estupidez não se comunicam e tiram suas próprias conclusões, dificultando soluções e convertendo trivialidades em possíveis tragédias; a intolerância, o egoísmo, a mesquinhez, a prepotência e a impaciência é extremamente bem delineada na história e por mais descabida e risível que aparenta ser não destoa da realidade cotidiana.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
15 Thrillers Eróticos (15 Erotic Thrillers)
O auge dos thrillers eróticos aconteceu nos anos 80/90, filmes como "Instinto Selvagem", "Invasão de Privacidade", "Proposta Indecente", "Assédio Sexual", "Nunca Fale com Estranhos", "Gemidos de Prazer", "Corpo em Evidência", "Segundas Intenções" e tantos outros fizeram enorme sucesso por conta da mescla suspense e erotismo, o fato é que hoje são poucos os filmes que utilizam essa receita, mas existem alguns muito bons, portanto, elaborei uma lista com obras recentes e também com as mais antigas que são nostálgicas e maravilhosas. A lista foi montada aleatoriamente.
15- "Relação Indecente" (Poison Ivy - 1992) EUA
Sylvie Cooper (Sara Gilbert) é uma estudante de escola particular. Seu pai é Darryl (Tom Skerritt), um importante produtor de TV. A menina acaba ficando amiga de Ivy (Drew Barrymore), uma orfã que estuda em sua escola graças a uma bolsa de estudos. As duas tornam-se rapidamente melhores amigas, mas a proximidade de Ivy com a família de Sylvie começa a tornar-se doentia - principalmente quando fica evidente que a menina pretende roubar a vida da amiga.
14- "O Quarto Azul" (La Chambre Bleue - 2014) França
Um homem e uma mulher amam-se em segredo, sozinhos num quarto. Eles desejam-se, querem-se um ao outro. No crepúsculo, partilham alguns pequenos nadas. Pelo menos é nisso que o homem acredita. Agora, sob investigação policial e judicial, Julien não consegue encontrar as palavras certas. O que aconteceu? De que é que ele é acusado?
13- "Paixão" (Passion - 2013) EUA/Alemanha/França
O escritório de uma proeminente corporação multinacional serve como ambientação para uma disputa de poder entre duas mulheres contemporâneas. Isabelle (Noomi Rapace) tem uma admiração sem limites por sua superior direta, Christine (Rachel McAdams), uma mulher bastante experiente nos jogos do poder. Christine gosta de manipular Isabelle, permitindo que ela cresça um passo de cada vez, levando-a a mergulhar fundo em um jogo de sedução e manipulação, de dominação e servidão.
12- "Swimming Pool - À Beira da Piscina" (Swimming Pool - 2003) França
Sarah Morton (Charlotte Rampling) é uma escritora inglesa cujos romances policiais conciliam sucesso de vendas e prestígio junto a crítica. A convite de seu editor, ela viaja para a casa de campo dele, na Provence francesa, onde supostamente vai encontrar a tranquilidade necessária para escrever seu mais novo livro. Mas a paz de Sarah é interrompida com a chegada de Julie (Ludivine Sagnier), a filha do editor, uma adolescente linda e cheia de vida por quem a escritora sentirá uma grande e estranha atração.
11- "Um Estranho no Lago" (L'Inconnu du Lac - 2013) França
Durante o verão, homens se encontram na beira de um lago escondido. Franck (Pierre Deladonchamps) se apaixona por Michel (Christophe Paou), um homem bonito, poderoso e mortalmente perigoso. Franck sabe com quem está se envolvendo, mas ignora o perigo para poder viver essa paixão.
10- "Desejo e Perigo" (Se, Jie - 2007) China/EUA/Taiwan
Wang Jiazhi (Wei Tang) é uma jovem chinesa que entra na faculdade durante o período de ocupação japonesa, na 2ª Guerra Mundial. Lá ela participa de um grupo de teatro patriótico, tornando-se rapidamente a artista principal. Entretanto os planos do grupo são mais ambiciosos. Eles decidem assassinar o Sr. Yee (Tony Leung Chiu Wai), um colaborador do lado japonês. Wang, então, se transforma em Mak, a fictícia esposa de um mercador. Sua função é se tornar amante do Sr. Yee, para facilitar a ação do grupo.
09- "Um Mergulho no Passado" (A Bigger Splash - 2015) França/Itália
A estrela do rock Marianne Lane (Tilda Swinton) passa férias em uma ilha italiana na companhia de seu parceiro (Matthias Schoenaerts) quando é surpreendida por Harry (Ralph Fiennes), um ex-caso que aporta no paraíso com a filha (Dakota Johnson) e desencadeia uma onda de nostalgia e perigosos jogos de sedução.
08- "Deusa do Amor" (Goddess of Love - 2015) Canadá/UK
Venus (Alexis Kendra) é uma artista plástica de dia e stripper a noite. Durante uma das suas atuações, conhece Brian e se apaixona. Atormentada por fantasias de traição, Venus vai revelar um lado seu desconhecido ao parceiro.
07- "Veludo Azul" (Blue Velvet - 1986) EUA
Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), um rapaz simplório que acaba de voltar à cidade, envolve-se em uma perigosa investigação sobre os negócios de um traficante de drogas (Dennis Hopper) que mantém uma sádica relação com a bela cantora de cabaré Dorothy Vallens (Isabella Rossellini).
06- "De Olhos Bem Fechados" (Eyes Wide Shut - 1999) EUA/UK
Alice, curadora de arte, é casada com o doutor Bill Harford. Juntos formam um casal perfeito. Porém, depois de participarem de uma festa, Alice confessa ter tido atração e fantasias sexuais com outro homem, que também estava na festa. Os dois começam a discutir e Bill passa a se perguntar o porquê disto estar acontecendo com ele, então ele vai procurar seu amigo Nick Nightingale, que irá lhe mostrar um mundo de fantasias e jogos sexuais.
05- "Elle" (2016) França/Bélgica/Alemanha
Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela. Saiba+
04- "A Empregada" (Hanyeo - 2010) Coreia do Sul
Remake de filme sul-coreano, que leva o mesmo nome. Professor de piano rígido se sucumbe aos encantos de sua empregada doméstica. E o que podia ser apenas um mau passo na vida desse homem, acaba se tornando um drama que arrasta toda a família.
03- "Gradiva" (C'est Gradiva Qui Vous Appelle - 2006) França
John Locke é um historiador de arte de passagem por Marraqueche, explorando o trabalho seminal que Delacroix desempenhou lá. Ele fica numa isolada vila com Belkis, sua enigmática serviçal e concubina. Lá ele recebe slides de eróticos esboços que podem ter sido feitos por Delacroix. Então, os sonhos de Locke se intensificam: eles incluem sadomasoquismo com uma submissa jovem e visões de uma mulher de branco, que pode ser uma mulher que viveu no século XIX e foi executada por ter tido um caso com um homem francês. Indo contra os avisos de Belkis, Locke começa a se envolver com pessoas do submundo Marroquino, e cai em um mundo onde nada é o que parece ser.
02- "O Amante Duplo" (L'Amant Double - 2017) França
Chloé (Marina Vacht) é uma mulher reprimida sexualmente que, constantemente, sente dores na altura do estômago. Acreditando que seu problema seja psicológico, ela busca a ajuda de Paul (Jérémie Renier), um psicólogo. Só que, com o andar as sessões de terapia, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul encerra a terapia e indica uma colega para tratar a esposa. Entretanto, ela resolve se consultar com outro psicólogo, o irmão gêmeo de Paul, que ela nunca tinha ouvido falar até então.
01- "Desejarás" (Desearás al Hombre de tu Hermana - 2017) Argentina
Andrés (Guilherme Winter), mora na patagônia argentina com sua esposa, Ofélia (Carolina Ardohain), que é filha de uma brasileira com um chileno. Os dois são convidados por Carmen (Andréa Frigerio) para comparecer ao casamento de Lúcia (Mónica Antonópulos) e Juan (Juan Sorini) na capital de Buenos Aires. Apesar de Carmen torcer pela reconciliação das suas duas filhas – ou pelo menos uma trégua durante o casamento – o reencontro das irmãs Ofélia e Lúcia provoca uma série de recordações do passado, algumas nem tão boas assim, pois elas estão brigadas há sete anos, por causa de um motivo peculiar.
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