quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
Coro (Chorus)
"Coro" (2015) dirigido por François Delisle (Le Météore - 2013) é um filme pesado, difícil de assistir, retrata uma dor profunda, o luto pela perda de um filho, o tempo que não sana as feridas, os sentimentos confusos, culpa e saudade que se misturam, o trauma e as lembranças que inevitavelmente surgem e o quão penoso é seguir adiante. Aborda de maneira intimista, simples e direta o sofrimento e o quanto solitário é passar por ele.
Um casal separado reúne-se novamente depois de 10 anos quando encontram o corpo do filho desaparecido. Ambos lidam com a morte do filho a sua própria maneira. Em meio a culpa de perder um ente querido, eles tentam aceitar a morte e até mesmo a possibilidade de reconciliação.
A angústia transpassa a tela, a fotografia em preto e branco já anuncia o peso, a história abre com um homem fazendo uma confissão, o como conheceu um garoto de 8 anos num parque, é claro desde o início, não há espaço para nenhum suspense, de cara sabemos o que aconteceu, o menino despareceu há 10 anos, os pais se separaram tamanha a dor de conviverem juntos, Christophe (Sébastien Ricard) encontrou refúgio no México, o mar e o sol acalmando o redemoinho em seu coração, Irene (Fanny Mallette) canta em um coral, mas isso não a alivia, entra em pânico toda vez que encontra crianças ou pessoas conhecidas, a reação delas varia entre tentar consolar, o que é impossível, pois a dor é um sentimento solitário, ou ignorar o acontecido e conversar sobre outras coisas, isso acaba a destruindo ainda mais, são tantos pensamentos que lhe atormentam, "se eu fosse buscá-lo aquele dia na escola", esse "se" a consome, mas tudo vem à tona de fato quando o corpo é encontrado depois de 10 anos, o casal se reencontra e precisa lidar com o funeral, a confissão do assassino, uma das cenas mais cortantes, e novamente com o adeus ao filho. A convivência entre eles é estranha, pouco dialogam, mas respeitam a dor que cada um sente, não há como reverter e nem seguirem juntos, eles trocam olhares e se abraçam e até revivem o amor, mas não há um caminho juntos, o sofrimento é maior, a culpa é bem evidente nos dois, a sensação de não ter sido bons pais e também é intenso quando pensam o que poderiam ter vivido com o filho, ele teria 18 anos e uma das cenas mais representativas é quando surge um amigo da infância dele e os pais esboçam pela primeira vez um reconforto e uma tranquilidade, principalmente ao lerem uma carta que o filho deles destinou ao amigo.
A história não exibe adornos e a direção mantém uma certa distância, o que possibilita observar os pontos de vista de cada personagem e não o tornar melodramático apesar de toda a dramaticidade, explora brilhantemente as nuances do emocional, os conflitos internos, as necessidades e carências quando se está em luto e revela a realidade, o embaçamento do cotidiano, a inércia causada pela perda. A mãe de Irene tenta ajudar quando ela tem seus rompantes, o pai de Irene se suicidou não fazia muito tempo e esse luto ainda estava presente, Irene até questiona o porquê da mãe não chorar e ela responde que era para protegê-la, nesta parte expõe a revolta, a raiva da perda, um certo egoísmo também, a negação em ser ajudada pela mãe, que diz estar fazendo o melhor. Do outro lado Christophe volta a rever o pai depois de 10 anos, um reencontro silencioso e cuidadoso, ambos perguntam se têm raiva um do outro, o silêncio é a melhor opção, pois palavras e ações nada valem quando se está dilacerado.
"Coro" traz uma história cruel com muita sensibilidade e introspecção, este tema costuma ser rejeitado pelo público, é complicado refletir sobre a perda, luto, a dor incomensurável, mas depois do término somos surpreendidos por uma obra com argumento preciso, real e imensamente poderoso. A trilha também é impecável, tanto com as músicas cantadas pelo coro, quanto as que tocam em seu final, a banda canadense Suuns foi uma descoberta maravilhosa.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
O Incidente (El Incidente)
"...eu nunca aproveitei nenhuma fase da minha vida...e sempre estava pensando em querer chegar à fase seguinte, e quando chegava a ela me dava conta que a anterior era melhor...Aproveite tudo. A vida é uma baita estrada longa e o que passamos já não volta mais"
"O Incidente" (2014) dirigido por Isaac Ezban (Os Parecidos - 2015) é um filme mexicano de baixo orçamento no estilo "mindfuck", somos completamente absorvidos por uma trama de atmosfera intrincada em que personagens vivem um looping temporal, as escadas de um prédio que se repetem, o incansável percurso em uma estrada que acaba em si mesma, acontecimentos que foram concebidos através de um incidente e que nos leva a questionar sobre realidade paralela, mas também serve como metáfora para nossa existência, das repetições que fazemos ao longo da vida, dos momentos que se fixam e se refazem em nossa mente.
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente.
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente.
É uma ideia interessante e o desenvolvimento por mais que pareça arrastado se mostra curioso e confunde-nos totalmente e acerta em cheio ao retratar os personagens ao longo de muitos anos vivendo o mesmo, inclusive com objetos e comidas se acumulando, o como cada um reage a essa situação e ao final tentando se conectar com a única realidade existente, a explicação seria que eles ali seria uma espécie de motor gerando energia para a versão real deles, o que alivia um pouco a dor de cabeça de tentar entender, mas ao mesmo tempo essa explicação fica um tanto expositiva.
É criativo nos detalhes e nos recursos utilizados para ampliar o desconforto da situação, de estar preso em algo que se repetirá exaustivamente e sem saber como sair ou desfazer, se é uma ilusão, um sonho, a questão do tempo e seus desdobramentos. A trilha sonora é uma aliada para o clima de imersão e dá a sensação de um pesadelo consciente.
É criativo nos detalhes e nos recursos utilizados para ampliar o desconforto da situação, de estar preso em algo que se repetirá exaustivamente e sem saber como sair ou desfazer, se é uma ilusão, um sonho, a questão do tempo e seus desdobramentos. A trilha sonora é uma aliada para o clima de imersão e dá a sensação de um pesadelo consciente.
Muitos incidentes grudam na nossa mente e volta e meia regressamos a eles, traumas, arrependimentos, escolhas, refazemos tudo de novo na nossa cabeça e às vezes incluindo alternativas, com diferentes possibilidades que alterariam a realidade presente, e sem dúvida, pensar por esse lado a história do filme deixa de incomodar tanto com suas teorias de looping, o cérebro para de coçar um pouco, a frase que o irmão diz pro outro no início exemplifica essa ideia, de que nunca estamos satisfeitos com o que temos no agora, sempre estamos ansiando pelo próximo dia que talvez nos dará mais do que hoje, porém quando se chega lá percebe-se que não vivemos o dia anterior e estamos reproduzindo este pensamento sem fim.
"O Incidente" é instigante, possui várias nuances dentro de sua proposta, não deixa a desejar em nenhum momento, é tenso e perturba, as coisas que acontecem durante todo o tempo em que estão presos, a acumulação, o desgaste, as tentativas de sair, tudo é executado brilhantemente e ao final deixa que cada espectador interprete de uma forma, a explicação é dada, mas mesmo assim cada um tem a sua experiência.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
My Happy Family (Chemi Bednieri Ojakhi)
"My Happy Family" (2017) dirigido por Nana Ekvtimishvili e Simon Groß (Na Flor da Idade - 2012) é um filme bastante interessante por retratar uma mulher se libertando das convenções sociais depois de muitos anos se doando à família. Aborda a quebra do modelo patriarcal num país conservador, a Geórgia, e propõe um olhar para os desejos próprios da mulher sem a pressão e intromissão familiar.
Em uma sociedade patriarcal, uma família georgiana comum vive com três gerações sob um mesmo teto. Todos ficam chocados quando Manana (Ia Shugliashvili), 52 anos, decide sair da casa de seus pais e morar sozinha. Sem sua família e seu marido, uma viagem para o desconhecido começa.
A rotina diária de Manana é caótica, não sobra espaço para si mesma, ela é uma professora dedicada e ajuda no sustento da casa que divide com mais seis pessoas, portanto, não há descanso, sua mãe é o alicerce da casa e sempre está preocupada com a cozinha, os afazeres e reclama de tudo, o pai está doente e cada vez mais ranzinza, os filhos são distantes e fazem o que bem querem, o namorado da filha também mora lá e o marido é acomodado por ser benquisto, e quando Manana sai de casa todos ficam querendo encontrar um motivo, pois ele é considerado um bom marido. Manana é invisível naquela casa, age conforme as tradições, mas ela não suporta mais sorrir sem ter vontade e ter que se anular, não sente prazer nenhum em sua vida, pois se metem até nas pequenas coisas, como comer bolo no lugar do jantar, se acham no dever de dar suas opiniões, mas todo esse cansaço não reflete desamor, não quer dizer que não gosta de seus filhos e que os está abandonando, até porque eles são adultos, o momento de voar chegou e Manana aluga um apartamento simples, mas arruma do seu jeitinho, somente um sofá, chá ou vinho, livros, música e a visão das folhas sendo balançadas pela brisa; o sossego, a liberdade de ser quem ela é, sem conversa fiada e regras a seguir.
Apesar da história se passar na Geórgia, um país muito conservador, o teor é universal, e a maneira introspectiva com que a história se desenrola dá a possibilidade de olhar tudo pelo próprio olhar de Manana, ao contrário de sua família ela é calada e não briga com ninguém, apenas quer se recolher, isso mostra o tabu existente nas escolhas da mulher, pois quando se inverte os papéis, a mulher se afastando da casa, as pessoas ficam espantadas querendo saber o motivo, é um escândalo.
Manana se sente sufocada e angustiada, não há espaço para as suas vontades, e é bonito ver em seu semblante a lenta transformação que ocorre quando sai de casa, o peso da imposição indo embora, essa é uma perspectiva bonita do filme, mas a trama concentra-se na discussão gerada a partir da decisão de Manana, as conversas em torno, os mais velhos indo aconselhá-la, a figura paternal, o irmão, por exemplo, querendo se intrometer demais sob um pretexto de proteção e cuidado, e os filhos, jovens indo por essa linha de pensamento machista e retrógrada, o quanto os outros se importam com o status e parecem saber mais da vida alheia do que da própria, como na festa em que reúnem-se velhos amigos da escola e as mulheres fofocando na frente dela mesmo, primeiro chocadas com a "separação" e elogiando o marido, para logo depois soltarem papos dos quais nem mesmo Manana tinha conhecimento.
"My Happy Family" carrega uma ironia forte no título, abrange todos os conflitos femininos, a imposição de casar e ter filhos, construir a família perfeita para os outros, se anulando e fingindo felicidade, vale ressaltar mais uma vez que esse sentimento que Manana sente de ir e abraçar-se não quer dizer que não ame seus filhos ou seus pais, mas é uma necessidade de se livrar da sensação de aprisionamento desse conservadorismo, e de fato encontrar a felicidade em pequenos momentos, como escutar a música que gosta, comer um bom pedaço de bolo e sendo o que ela realmente é sem a obrigação de agradar ninguém. É um filme indiscutivelmente bem realizado, crítico, sensato e importante.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Se os Gatos Desaparecessem do Mundo (Sekai Kara Neko ga Kietanara)
"Minha vida até agora... vindo do passado até hoje, e caminhando para o futuro infinito... Não, eu nunca tinha pensado coisas como “futuro”. Pensei que era apenas natural que eu tivesse de enfrentar o amanhã. Beber café, cuidar do meu gato, tomar o café da manhã e ir trabalhar. Eu só continuava assim, com nada de especial em mente."
"Se os Gatos Desaparecessem do Mundo" (2016) dirigido por Akira Nagai, baseado no romance homônimo do produtor Genki Kawamura, conta a história de um carteiro que descobre não ter muito tempo de vida, devido a uma doença terminal. O outro eu dele aparece na sua frente e oferece prolongar sua vida em troca de alguma coisa que possa desaparecer do mundo. Ele pensa sobre seu relacionamento com ex-amigos, ex-amantes, parentes e colegas que ficariam tristes quando ele morrer.
Com sutileza e simplicidade reflete-se o quanto as nossas vivências e nossas memórias não podem ser substituídas, o que passamos, seja situações boas ou ruins, os elos que formamos devido afinidades, o convívio difícil com nossos pais, não adianta querer apagar, pois é isso que nos transforma, a vida é repleta de melancólicos instantes prazerosos, e o estilo do filme tem essa aura de tristeza boa, aquela sensação de sabermos que a vida vai acabar, mas que alguma coisa de nós sempre fica.
O carteiro (Takeru Sato) vive apenas com seu gato Kyabetsu (repolho), um dia sente uma forte dor de cabeça e cai de sua bicicleta, no hospital o médico diz que já não há o que fazer, seus dias estão contados, de volta pra casa encontra uma espécie de diabo que tem a sua aparência, após o susto ouve a proposta sugerida, se ele escolher alguma coisa do mundo para ser apagada ganhará mais um dia de vida, mas todas as lembranças relacionadas a esse objeto sumirão. Depois que aceita percebe que as coisas escolhidas pelo "diabo" sempre têm muito valor emocional, como o celular, que através de uma ligação por engano conheceu a ex-namorada, o relógio, um objeto totalmente ligado ao pai, um homem calado que dedicou a vida ao ofício de relojoeiro e que ele o interpretou a vida toda de um jeito do qual na verdade não era, depois os filmes que o leva ao amigo que o incentivou a nutrir amor pelas histórias e que a cada dia lhe sugeria um título, quando chega a vez dos gatos, o jovem se dá conta que nada é maior do que as lembranças que a vida vai costurando, ele relembra os momentos com a mãe e a importância da relação entre eles juntamente com a presença de um gatinho, tudo teria sido bem diferente se não existisse o gato, ele simboliza o amor, a proteção, a força que ela teve que ter perante uma doença, por exemplo, são momentos que jamais poderiam ser apagados por um desejo egoísta.
Por mais óbvia que possa ser a mensagem não deixa de ser importante, pois é passada de um jeito bonito e é uma maneira de nos lembrar para não ter medo e aceitar o fim, a vida não é feita apenas de alegrias, nela construímos relações, trocamos e dividimos conhecimentos, temos momentos ruins e outros inesquecíveis, um quebra-cabeças de emoções que traduz quem somos, não adianta querer apagar algo, porque tudo está relacionado, se deletar um momento não muito agradável certamente várias lembranças boas se vão junto, como quando chega no instante de apagar os gatos ele pensa em tudo que passou com a mãe, situações tensas e difíceis, mas também recheadas de afeto, o gato é um símbolo que o une com a mãe e isso jamais poderia ser destruído, assim como com todas as outras coisas que foram excluídas.
"Se eu morresse, teria alguém que choraria por mim? E claro, você poderia enfrentar a manhã seguinte como se nada mudasse nesse mundo?"
É um filme sensível e que inevitavelmente faz com que olhemos para dentro de nós, toca em assuntos delicados, como a morte, porém retrata bastante os laços familiares e o como o amor pode ter várias maneiras de ser demonstrado ou até não ser, como o pai com ações que deixava implícito o sentimento, também o como supomos que nossos pais nos enxergam e o como verdadeiramente eles nos veem, a carta que a mãe deixa ao filho revela o quanto nos equivocamos durante a vida. "Portanto, a partir de agora, tente acreditar nisso e mostre o seu lado bom. A boa parte de você. Você sempre ficou do meu lado. Quando alguém está feliz ou triste você fica perto deles gentilmente... Seu adorado rosto adormecido e seu cabelo encaracolado... Seu hábito de tocar o nariz inconscientemente... O seu comportamento quando se preocupa com as pessoas ao seu redor mais do que o necessário... Quando você nasceu, não sabe como o meu mundo se tornou bonito e brilhante."
"Se os Gatos Desaparecessem do Mundo" até engana sendo um drama fofo japonês, mas é um drama profundo com reflexões agudas sobre o valor das relações, dos momentos vividos e de que nada disso pode ser substituído. Poesia pura!
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
O Dia Depois (Geu-hu)
"O Dia Depois" (2017) dirigido pelo prolífico Hong Sang-soo (Hahaha - 2010, Na Praia à Noite Sozinha - 2017) segue a mesma fórmula de seus outros filmes, em tom pessoal e intimista, cenas com longos planos fixos em que personagens sentados à mesa bebem e conversam. Retrata momentos cotidianos, mas extraem deles reflexões profundas sobre a vida de modo simples e com uma boa dose de humor. Acompanhamos ao longo de um dia relações instáveis, as consequências de se entregar ao desejo, conflitos e hipocrisias.
É o primeiro dia de Areum (Kim Min Hee) em uma pequena editora. Bongwan (Hae-hyo Kwon), seu chefe, terminou há pouco tempo o relacionamento que mantinha com a funcionária (Kim Sae-byeok) que trabalhava ali anteriormente. Ainda nesse mesmo dia, Bongwan, que é casado, sai de casa na manhã escura e parte para o trabalho. Sua esposa (Jo Yoon-hee) encontra um bilhete de amor, explode em fúria no escritório e acaba confundindo Areum com a mulher que ele deixou.
É o primeiro dia de Areum (Kim Min Hee) em uma pequena editora. Bongwan (Hae-hyo Kwon), seu chefe, terminou há pouco tempo o relacionamento que mantinha com a funcionária (Kim Sae-byeok) que trabalhava ali anteriormente. Ainda nesse mesmo dia, Bongwan, que é casado, sai de casa na manhã escura e parte para o trabalho. Sua esposa (Jo Yoon-hee) encontra um bilhete de amor, explode em fúria no escritório e acaba confundindo Areum com a mulher que ele deixou.
A estética do filme chama a atenção, um preto e branco luminoso, o clima lembra muito os filmes da Nouvelle Vague, os longos diálogos, a câmera fixa que de repente dá um zoom no rosto de algum personagem e as situações cotidianas. Bongwan vive um dilema, tem uma amante, sua ex-funcionária, mas não quer terminar seu casamento, a cena inicial em que a mulher o questiona sobre ele ter um caso enquanto come e nada fala já nos fisga para a história, ele não está mais com a amante, mas mesmo assim sai para o trabalho de madrugada, o que irrita e deixa a sua esposa desconfiada, nesse mesmo dia Areum é contratada e não esconde sua admiração pelo chefe, os dois almoçam juntos e dissertam sobre algumas coisas, mas Areum não espera que esse seu primeiro dia seja também o último, pois além de ser agredida pela esposa de Bongwan ao ser confundida com a amante, também precisa lidar com os sentimentos instáveis dele, principalmente quando aparece sua ex-funcionária. A trama é toda fragmentada e por conta disso podemos visualizar muito bem o comportamento de Bongwan que oscila em seus sentimentos e decisões, por exemplo, na cena em que Areum é agredida e quer sair da editora e ele pede para que fique e logo que a amante chega desfaz o que disse. O tom cômico está bastante presente, diversas situações constrangedoras, e a música que toca insistentemente em momentos sérios torna tudo ainda mais risível.
A narrativa fragmentada nos permite observar por vários ângulos a história e em muitos momentos a câmera foca no ouvinte e não em quem fala, nos fazendo imaginar a perspectiva que cada um tem da conversa. Bongwan não consegue se decidir, sofre com o peso de trair sua esposa, mas se acovarda diante da hipótese de terminar, se entrega ao desejo, mas não assume nada, e Areum sofre por esse comportamento volátil do chefe, mesmo o admirando como profissional. O diálogo entre os dois na mesa de um restaurante é uma das melhores cenas, eles falam sobre a existência, por vezes passando pelo niilismo, mas Areum contesta seus pensamentos com um brilho próprio.
"O Dia Depois" marca por seus diálogos naturais intercalados por pausas reflexivas, discute-se os conflitos existenciais, a inconsistência e a fragilidade dos sentimentos e relações, a hipocrisia e o vazio, tudo desenvolvido com sutileza, pontuado por um tom cômico e permeado por uma aura melancólica belíssima.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Bom Comportamento (Good Time)
"Bom Comportamento" (2017) dirigido pelos irmãos Safdie (Amor, Drogas e Nova York - 2014) é um filme que consegue transmitir toda a ansiedade e loucura para o espectador, o protagonista interpretado maravilhosamente por Robert Pattinson nos instiga a percorrer junto dele por uma alucinante noite e sentir todas as vibrações que advém de uma série de situações-limite.
Após um malsucedido assalto a banco, Constantine Nikas (Robert Pattinson) vê seu irmão mais novo (Bennie Safdie) sendo preso e embarca em uma odisseia no submundo da cidade em que vive, numa tentativa cada vez mais desesperada e perigosa para tirar seu irmão da prisão. Ao longo de uma noite repleta de adrenalina, Constantine encontra-se em uma onda de violência e caos enquanto ele corre contra o relógio para salvar seu irmão e ele mesmo, sabendo que suas vidas estão por um fio.
O filme inicia-se com uma consulta psicológica em que Nick, interpretado por um dos diretores, Ben Safdie, vai colocando pra fora seus traumas, claramente ele sofre de algum problema mental, mas Constantine não gosta que tratem ele como uma criança e interrompe a consulta violentamente e promete um futuro bem melhor a seu irmão, seu plano é roubar um banco disfarçados, e é aí que o ritmo frenético entra em cena e persiste até o final. Nick acaba sendo preso e Constantine entra numa fissura de tentar de todas as maneiras livrá-lo, o que se sucede é um emaranhado de coisas que só pioram tudo. Constantine vai agindo impulsivamente com decisões equivocadas arrastando para o abismo todos que se aproximam dele.
O estilo alucinante conversa com a trilha sonora eletrônica de Oneohtrix Point Never, assim como a fotografia escurecida e brilhante do neon criando uma atmosfera tensa e suja. Robert Pattinson como Constantine impressiona, o desespero e a confusão o cerca o tempo todo e por muitas vezes ele manifesta uma frieza que se faz necessária para que escape da situação, Constantine é só um cara que apostou suas fichas num assalto e perdeu, com o desejo de "salvar" o irmão e se dar bem entra numa espiral de acontecimentos que o fará deixar a moral de quando em quando de lado, mas em nenhum momento julga-se o personagem, ele está apenas sem rumo e tentando acertar com os poucos recursos que têm, suas escolhas refletem o meio decadente em que vive.
A composição do personagem é algo a se destacar, a câmera enfatiza o tempo todo os trejeitos, o olhar vidrado e perdido e o como ele conduz o que vai lhe acontecendo numa sufocante corrida contra o tempo, essa sua saga vai arrastando tudo ao redor e nos transporta também por essa nebulosa noite.
"Bom Comportamento" é visceral e extasiante, com um roteiro bem amarrado e final coeso, sem dúvida, uma grande surpresa.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Nocturama
"Nocturama" (2016) dirigido por Bertrand Bonello (Tirésia - 2003, Saint Laurent - 2014) é um filme que toca num assunto atual e polêmico, a pseudo-conscientização, onde falta conhecimento e sobra ímpeto. Uma história tensa apesar de caminhar lentamente e que fisga por sua bela fotografia, cenários magnificentes em longos planos panorâmicos, e claro, a reflexão sobre a contradição que permeia os ideais dos jovens, a banalização dos movimentos políticos e o quão isso vem afetando cada vez mais o mundo. Paris tem sido alvo constante do terrorismo, e por isso se torna ainda mais atrativo, passamos o filme todo tentando encontrar respostas para os atos, mas só enxergamos um anarquismo sem propósito. Dentro deste tema, jovens contra o consumismo, há um brilhante filme alemão, "Edukators", que disserta melhor sobre.
Em Paris, um grupo de jovens de diversas origens se organiza para planejar uma série de atentados terroristas. Quando todas as bombas explodem e a cidade se transforma num caos, eles se escondem num centro comercial durante a madrugada. Enquanto esperam o tempo passar, pensam sobre as possíveis consequências de seus atos e sobre eventuais falhas capazes de comprometer o plano. O filme propõe uma perspectiva diferenciada, sem estigmatizações, os jovens são de diferentes origens, mas todos bem vestidos, apreciadores de música eletrônica e que inspirados pela revolução francesa arquitetam um plano e implantam bombas em prédios importantes e estátuas, como o palácio do Ministério do Interior, a Global Tower no centro financeiro, a estátua de Joana D’Arc, entre outros. Acompanhamos cada passo e sentimos a ansiedade e tensão juntamente a eles, quando tudo explode se escondem em um shopping center, lá ao invés de acompanharem as notícias, estão mais interessados em matar o tédio e assim usufruem do bom e do melhor, trocam de roupas, inclusive encontrando seus clones em manequins, ou seja, o local que é um antro de consumo foi deixado ileso e tido como um esconderijo seguro, nesta parte é impressionante analisar que independente de ideais o ser humano se sente confortável e amparado nestes locais de consumo, e o mais bizarro é que são imunes e parecem não pertencer aos símbolos de poder que esses jovens destruíram. As consequências é o que menos importa, o número de mortos e as notícias que passam na TV são julgadas falsas por eles, preferem se alienar ouvindo música e pegando o que lhes interessa das lojas. Há inúmeros simbolismos espalhados e o paradoxo é gritante.
Chega um momento que o medo se instaura, a polícia vai para matar e eles sabem disso, não há como se esconder ou se redimir, os instantes finais angustiam pela crueza, os olhos dos personagens arregalados, movimentos estressados, desmantela-se a imagem do início, jovens seguros de sua ideia de revolta, da violência como protesto, da rebeldia contra o sistema, e terminam como jovens inseguros, medrosos, inconstantes e vazios de seus princípios, contaminados por um espírito revolucionário mentiroso e banal.
"Nocturama" é uma obra bem estruturada, o terrorismo ganha um tom enigmático e impactante, uma perspectiva assombrosa dos nossos tempos e inteligente ao desmanchar estereótipos e motivações.
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