quinta-feira, 20 de julho de 2017

Belos Sonhos (Fai Bei Sogni)

"Belos Sonhos" dirigido por Marco Bellocchio (Sangue do Meu Sangue - 2015) é um emocionante filme que disserta sobre a bela relação de mãe e filho e a dificuldade de se lidar com a perda desta protetora tão precocemente, as dores vividas na infância serão refletidas na vida adulta, fazendo de Massimo um homem introspectivo que não consegue se relacionar. Em sua vida sobram perguntas e ausência.
Baseado no romance autobiográfico homônimo de Massimo Gramellini, o vice-diretor do jornal italiano "La Stampa", a história conta sobre Massimo (Nicolò Cabras), um menino de nove anos de idade que perde sua mãe (Barbara Ronchi) e que precisa administrar sozinho a falta, a dor e as inúmeras dúvidas. Seu pai vivido por Guido Caprino não lhe conta o que de fato aconteceu e assim seguem os anos, quando Massimo já adulto - protagonizado por Valerio Mastandrea - retorna à casa para se desfazer dos pertences vêm à tona toda as suas angústias.
O filme possui uma grande carga dramática e acerta em cheio nosso coração, a cena inicial, especialmente, possui delicadeza mostrando a relação de mãe e filho e é sutil ao retratar a angústia da mãe. Mas, o filme todo tem essa característica e nos faz sentir de verdade todas as emoções sentidas por Massimo, a saudade chega a ser palpável. Nicolò Cabras impressiona a cada minuto em cena, uma criança que não entende a perda e que sozinho vai juntando o que percebe, ninguém da família chega e lhe conta o que aconteceu, não existe uma conversa, apenas o vazio.
A narrativa vai e volta no tempo, ora mostrando Massimo na infância nos anos 60, ora Massimo adulto nos anos 90, somos conduzidos pelos sentimentos vividos por ele, quando criança a confusão diante da perda é sofrida, seus familiares o isolam do acontecido, na adolescência, Massimo é vivido por Dario Dal Pero e muitas das perguntas que o corroem são feitas ao professor/padre, um interessante momento da trama em que questões religiosas são discutidas, além de que o filme explora bastante os valores familiares, o como a figura materna é de extrema importância na formação da criança e o como essa quebra gera traumas e perturbações interiores que seguem por toda a vida, Massimo adulto quando confrontado pelas lembranças tem ataques de pânico e entrando ainda mais nessas lembranças começa a viver o horror, na infância para aliviar o desespero que sentia criou conversas com Belfagor, criatura de uma série que assistia com sua mãe, em dado momento ele busca auxílio médico pensando estar infartando, mas a doce médica Elise (Bérénice Bejo) lhe acalma e o sentimento de conforto que ela passa é tanto, algo que remete a mãe, que Massimo deseja ficar perto dela, o único elo afetivo que o vemos ter desde a perda. 

O filme possui elementos simbólicos que ajudam a nos conectar com o sentimento de Massimo e a sua própria interpretação do que aconteceu com a mãe, a dúvida é uma ferida, um tormento, uma agonia, o que transformou sua vida num luto interminável. 
"Belos Sonhos" tem uma introdução belíssima, a dança com a mãe, um momento sensível de intimidade, tão significante e que marca o pequeno, e é através da repetição desse gesto junto de Elise, que Massimo começa a se libertar. Com lindas e tocantes sequências, apesar de todo o peso que envolve o tema há também uma certa suavidade nas imagens, que inevitavelmente nos leva à reflexão sobre nossos próprios traumas e aprendizados.  

terça-feira, 18 de julho de 2017

Pele de Asno (Peau D'âne)

"Pele de Asno" (1970) dirigido por Jacques Demy (Os Guarda-Chuvas do Amor - 1964) é uma adaptação musicada do conto de fadas homônimo escrito em 1695 por Charles Perrault, um clássico surreal e inebriante indicado tanto para o público infantil quanto para o público adulto, a história tem um narrador em off, a linda voz do ator Jean Servais e o enredo traz temas importantes e controversos, como o incesto e preconceito, mas sempre de maneira delicada, bem-humorada e amparada por uma aura psicodélica. A princesa interpretada pela maravilhosa Catherine Deneuve ao contrário de tantas outras princesas não fica à mercê do amor, ela é impetuosa mesmo tendo aspecto doce, aliás, as mulheres são fortes e decididas e fazem o que bem querem com os sentimentos dos homens. Alguns elementos modernos são incluídos e as cores, os figurinos, a trilha sonora dão um charme especial a este conto que consegue transpôr barreiras e atrair todos os públicos. 
Em um reino distante a rainha (Catherine Deneuve), em seu leito de morte, faz com que o rei (Jean Marais) prometa apenas se casar novamente caso encontre uma mulher ainda mais bela do que ela. Só que em todo o reino apenas uma pessoa atendia a esta condição: a própria filha da rainha. Desesperada, a princesa (Catherine Deneuve) busca ajuda com sua fada-madrinha (Delphne Seyrig), que sugere que ela peça presentes de casamento cada vez mais difíceis de encontrar, com o objetivo de adiar ao máximo a cerimônia. Enquanto isso a princesa consegue fugir do reino escondida sob uma pele de asno, vivendo de forma simples em uma cabana. Até que, um dia, um príncipe (Jacques Perrin) nota sua beleza.
A princesa ao receber a proposta do pai se assusta, mas em sua inocência fica confusa, ele é seu pai e o ama, não poderia recusar tal proposta, mas ao mesmo tempo fica incomodada e vai até sua tia, a fada lilás, que lhe dá conselhos e lhe diz que o casamento não poderia acontecer, pois um pai jamais poderia desposar a própria filha e diz para pedir presentes difíceis de encontrar para adiar a festa de casamento, mas o pai sempre se rendia aos desejos e lhe presenteava com os mais belos vestidos, a fada então diz para a princesa pedir a pele do asno do reino, uma espécie rara que defeca ouro, para surpresa da fada que ignorava a natureza daquele amor, a pele é entregue à princesa que imediatamente reclama de seu destino, mas eis que surge novamente a fada e pede para que fuja para bem longe vestindo a pele do asno, e ainda concede a sua varinha para que pudesse fazer aparecer o baú com seus pertences. O rei que se aprontava para o casamento logo de manhã ficou sabendo da fuga e mandou que revistassem todos os cantos e aldeias, mas não houve nenhum sinal da princesa.

"Afinal, não há bodas, não há baile, não há doces de festa."

Com a feição toda engordurada e suja ninguém a queria acolher, por onde passava era vista com maus olhos e era motivo de chacotas, por fim foi ser serviçal de uma bruxa asquerosa, apelidada de Pele de Asno passava os dias cuidando dos porcos e lavando trapos, foi instalada numa cabana no meio da floresta e apenas aos domingos depois de cumprir seus deveres abria seu baú e se embelezava diante do espelho. Solitária e esnobada por todos Pele de Asno seguia seus dias, até que a visita de um príncipe que passeando pela floresta encontrou a cabana e pela fresta da janela foi espiar, ela estava radiante e o príncipe ficou sem fôlego ao vislumbrar sua beleza, acometido pela paixão foi-se embora e isolou-se em seu palácio, não tinha mais apetite, não levantava de sua cama, só pensava em seu amor e quem seria aquela figura enigmática. Perguntou quem era aquela jovem da cabana e responderam que era Pele de Asno, que de bela não tinha nada, mas o príncipe não acreditava. A mãe preocupada com o filho se desesperava cada vez mais e decidiu que aquilo deveria terminar, perguntou o que poderia fazer para amenizar a tristeza e ele pediu que trouxesse um bolo feito por Pele de Asno. O desejo foi concedido e Pele de Asno fez o bolo e colocou um anel dentro, um sinal de que ela sabia que o príncipe a espiara aquele dia. Por pouco o príncipe não engoliu o anel e acometido por uma alegria decidiu que todas as garotas de todas as aldeias independente de condição social viessem experimentar o anel, vieram mulheres de todas as idades, de diversas posições sociais, algumas se submeteram a elixires para afinar os dedos, até que ao final apareceu Pele de Asno, todos escarneceram dela, mas o anel foi posto e serviu delicadamente em seu fino dedo, ela retirou a pele e o espanto foi geral. Ao colocar outro vestido sua beleza resplandeceu dentro do palácio e as medidas para o casamento logo foram tomadas. Toda a vizinhança foi chamada e também vieram nobres de lugares longínquos, alguns montados em elefantes, o pai da princesa também chegou de forma esplendorosa acompanhado por sua esposa, a fada lilás, o pai a cumprimentou ternamente, aparentemente nada restava daquele criminoso amor, e sua tia contou-lhe o resto da história. Foram três meses de festa.

"Pele de Asno" é um conto de fadas que tem como tema o incesto, isso seria perturbador senão fosse tratado com leveza e imaginação, a interpretação do conto pelas crianças é simples, a moral da história é o que a fada diz à princesa: "um pai jamais poderia desposar a filha". C'est fini! Já para os adultos a visão é mais amplificada e muitas possibilidades de interpretação se dão, a versão de "Pele de Asno" de Jacques Demy tem um disfarce infantil impecável, mas não deixa de ser desconfortante quando discutido a fundo. Outro ponto a se destacar na trama adaptada por Demy é a personagem da fada interpretada por Delphine Seyrig - musa de Alain Resnais - que esbanja características peculiares, ela é irônica e muito a frente de seu tempo, e até consegue interferir utilizando meios modernos, como um helicóptero em plena era medieval. Aliás, as mulheres do conto sempre estão decidindo algo e pondo-se a acertar as coisas, a fada, a mãe do príncipe, Pele de Asno tomando a iniciativa colocando o anel no bolo, etc. 

"Pele de Asno" é uma obra para ser passada adiante e ser revista inúmeras vezes, existem camadas e detalhes escondidos ou disfarçados, e esses somente olhos adultos conseguem enxergar, certamente uma brilhante adaptação. É possível encontrá-lo em DVD numa belíssima edição da coleção "Folha Grandes Astros do Cinema", os extras são tão primorosos quanto o filme, entrevistas, depoimentos, discussões e especiais maravilhosos, além da biografia de Catherine Deneuve disposta em um livreto. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

10 álbuns Musicais

Segue uma seleção aleatória de 10 álbuns que amo. Deem uma conferida:

*Os números só são uma questão de ordem e não de preferência.

10- "Slør" (2015) Eivør
Eivor, compositora e cantora feroesa se distingue por sua voz peculiar, doce e selvagem, que tem como característica uma tradição vocal de seu local de nascimento, as ilhas Feroe. "Slor" (2015) é um álbum extremamente lindo em que ela canta em sua língua materna e passeia por gêneros e atmosferas inebriantes. É um som envolvente. Confira.

09- "Krataia Asterope" (2007) Daemonia Nymphe
Daemonia Nymphe é uma banda grega neofolk que aborda a antiguidade helênica em suas músicas, dos primorosos trabalhos "Krataia Asterope" (2007) exerce um fascínio curioso e é uma experiência transcendental, as canções são baseadas em rituais, celebrações, hinos órficos e homéricos, além dos poemas de Safo para Zeus e Hécate, nem é preciso dizer que os vocais são épicos, o álbum é essencialmente uma manifestação cultural. Confira.

08- "Light" (2010) DakhaBrakha
DakhaBrakha que significa dar e receber é um quarteto formado em Kiev, o grupo mescla em suas músicas sons ancestrais da Ucrânia junto a outros ritmos culturais, como o africano, o latino, o australiano, o árabe, e por isso são denominados como "caos étnico", também incorporam elementos modernos, como o hip hop, o blues e o rock. "Light" (2010) é um álbum que quebra fronteiras e conversa com esses diversos gêneros, unindo o clássico e o moderno. Há estranhamento e encantamento ao ouvir os cantos polifônicos, as vozes femininas tem timbres lindos e impressionantes, emociona e hipnotiza, é uma experiência escutá-los, uma viagem, um deslumbramento; a sinceridade, a naturalidade e a entrega dos músicos são surpreendentes. Confira.

07- "Awaken, my Love!" (2016) Childish Gambino
Childish Gambino é o codinome do ator, roteirista, humorista e rapper americano Donald Glover, definitivamente a sua consolidação como músico veio com seu terceiro álbum, "Awaken, my Love!" (2016), um resgate do funk setentista e o soul psicodélico, a aura é sedutora e vibrante, pura nostalgia. Confira.

06- "Fever Ray" (2009) Fever Ray
Fever Ray é o pseudônimo de Karin Elisabeth Dreijer Andersson, vocalista da dupla sueca de música eletrônica "The Knife". "Fever Ray" (2009) é um trabalho solo imperdível, atmosfera enigmática, imaginativa e que une o horror e o encantamento, um projeto eletrônico diferenciado que utiliza o mistério como matéria-prima. Confira.

05- "Deep Cuts" (2003) The Knife
The Knife é um duo sueco de música eletrônica composto pelos irmãos Karin e Olof Dreijer. Eles têm um modo muito particular e suas músicas refletem essa estranheza, "Deep Cuts" (2003) é o segundo álbum e exprime versatilidade no uso de batidas, vozes, sintetizadores, tudo é criativo e surpreendente nas composições. Confira.


04- "Psycho Tropical Berlin" (2013) La Femme
La Femme é uma banda francesa de psych-punk e krautrock - termo utilizado pejorativamente na Alemanha no final da década de 60, onde o bit eletrônico foi inserido na música pop - "Psycho Tropical Berlin" (2013) é um début cheio de energia e originalidade que insere elementos que aparentemente não casam e que nos levam a tempos distintos. Uma mistura inusitada! Confira.

03- "Sketches Of Belonging" (2016) Ana Curcin
Ana Ćurčin é uma cantora e compositora nascida em Bagdá, criada em Moscou e que vive atualmente em Belgrado, Sérvia. "Sketches of Belonging" (2016), seu primeiro álbum combina folk americano, indie rock e uma aura intimista, seu timbre de voz, melodias e letras são agradáveis e dão uma sensação de tranquilidade, foi um maravilhoso achado, que mais pessoas conheçam essa talentosa artista. Confira.

02- "An Awesome Wave" (2012) Alt-J 
Alt-J ( ∆ ) é uma banda britânica de rock alternativo, mas este rótulo é restrito para a sua sonoridade, cada música traz elementos e referências diferentes. O álbum de estreia "An Awesome Wave" (2012) é estimulante e traduz a peculiaridade e inventividade da banda, uma das características mais bonitas é a harmonia vocal e suas letras que aludem a livros e filmes, como "Breezeblocks" ao livro "Onde Vivem os Monstros", "Matilda" baseada na personagem de Natalie Portman do filme "O Profissional", "Fitzpleasure" do livro "Última Saída para o Brooklyn", que conta a história da prostituta Tralala, e por aí vai. Confira.

01- "Shades of Black" (2015) Kovacs
Sharon Kovacs conhecida apenas por Kovacs é uma cantora holandesa de soul e jazz, sua voz é poderosa e remete a Amy Winehouse, seu primeiro álbum "Shades of Black" (2015) é brilhante e apaixonante, as canções transbordam emoção e ela imprime força e identidade. Álbum grandioso! Confira

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Canções dos Mares do Sul (Pesni Yuzhnykh Morey)

"Uma coisa que eu aprendi foi que o que mantém a vida não é a força, mas o amor."

"Canções dos Mares do Sul" (2008) dirigido por Marat Sarulu (My Brother Silk Road - 2002) é um pequeno épico que emana uma belíssima mensagem de paz e amor, uma obra necessária para compreender que todos estão relacionados, russos e cazaques, cristãos e muçulmanos, europeus e asiáticos. 
Ivan (Vladimir Yavorsky) é russo e seu vizinho, Asan (Dzaidarbek Kunguzhinov), é cazaque. Eles vivem em uma pequena aldeia rural no Cazaquistão. Quando a esposa de Ivan dá à luz um menino moreno, Ivan começa a suspeitar que sua esposa o traiu com Asan. Instaura-se um conflito entre as duas famílias que perdura por muitos anos. Um dia, Ivan resolve viajar, e, ao encontrar seu avô, descobre a verdadeira história de sua família e de seus antepassados. Asan, por sua vez, parte à procura dos "Mares do Sul" em busca de sua paz interior. Enquanto isso, as duas mulheres, abandonadas à própria sorte e tendo de executar todo o trabalho de suas propriedades, deixam de lado seus conflitos e unem-se em seu sofrimento. 
A história apesar de se passar na Ásia central trata de assuntos universais, o preconceito e ódio pelo diferente por medo e ignorância, Ivan fica por 15 anos guardando raiva de Asan, eles sempre se deram muito bem, compartilhando momentos de uma boa amizade, mas o nascimento de seu filho o fez acreditar que sua mulher o traiu com Asan, os traços do menino o fizeram crer nisso, o tempo passa e Ivan recolhido em sua amargura e confrontado pelos familiares de sua esposa que fazem piada por ele ser um simples camponês e não ter sangue cossaco, decide procurar seu avô e saber um pouco mais de sua história e seus antepassados, enquanto isso Asan também mergulhado em tristeza ruma para encontrar os "Mares do Sul", a fim de tirar o peso de seu coração. As mulheres unem-se novamente, dividem as tarefas, bebem e conversam na ausência de seus maridos, já o filho desaparece com seu cavalo pelas estepes.
O avô vendo a dúvida que Ivan tem sobre a honestidade da mulher e amigo lhe conta a história de seus antepassados, a revelação o desarma totalmente, ali ele percebe que todos estão interligados e que nutrir ódio e preconceito é uma estupidez. A rica história contada pelo avô retrata gerações que guerrearam por ódio étnico e religioso e aqueles que também enfrentaram tudo por amor, a multietnicidade não está apenas em seu sangue, mas na da maioria que ali vive, por isso compreender o passado histórico é muito importante para ficar imune a esses conflitos.

O filme foi rodado nas redondezas do Lago Issyk-Kul e sua paisagem é absurdamente fascinante, os vales, as estepes, uma imensidão imersiva que traduz a ampla e vasta diversidade que existe nestas terras, são inúmeros povos que já passaram por ali e que fizeram dessa sociedade mista. 
"Canções dos Mares do Sul" é um belo e grandioso filme que reflete questões pertinentes e que carrega uma mensagem engrandecedora e elucidativa, nada como olhar com mais carinho para o outro e entender a sua própria história e a do lugar em que se vive.  

"Esta história é inspirada por problemas associados com sentimentos de pertencimento cultural e étnico. Cada tentativa de classificação é uma ilusão perigosa que gera medo, hostilidade e opressão... Eu acho que as ideias que funcionam através deste filme são remédios contra o medo. Todos nós pertencemos à mesma raça, à mesma família." - Marat Sarulu

terça-feira, 11 de julho de 2017

Heartstone (Hjartasteinn)

"Heartstone" (2016) dirigido por Guðmundur Arnar Guðmundsson (Vale das Baleias - 2013) é realista e poético ao retratar o despertar dos desejos na adolescência, a amizade verdadeira e o como o meio em que se vive oprime o que considera diferente.
Na beleza de um pequeno vilarejo da Islândia, dois garotos compartilham uma jornada de amizade e amor. Enquanto um deles tenta ganhar o coração de uma menina, o outro descobre novos sentimentos pelo melhor amigo.
Thor (Baldur Einarsson) e Kristján (Blær Hinriksson) são melhores amigos em uma aldeia remota da Islândia, logo no começo observamos eles e mais alguns meninos em uma pescaria, onde violentamente arrancam a cabeça dos peixes e os batem contra o chão, Kristján fisga um peixe-pedra, considerado uma aberração e conhecido por ser extremamente venenoso e, portanto, o rejeitam e o matam, esta abertura é uma excelente metáfora, cenas cruas e intensas que simbolizam o modo que o lugar lida com o que vai contra as suas tradições. Neste vilarejo da Islândia, um local gelado de natureza selvagem e que aparenta liberdade pela amplidão dos campos, na verdade, é absurdamente opressor, os moradores sabem tudo o que acontece uns com os outros e até decidem o destino se alguém sai fora de seus conceitos, pois as reações são violentas e a pessoa é obrigada a ir embora para não mais sofrer rejeição. Thor vive com sua mãe e com duas irmãs mais velhas, constantemente elas chamam a atenção da mãe por causa de seu comportamento, são apontadas pelos outros pelo fato da mãe trocar de namorado frequentemente, Thor é um garoto de personalidade forte, porém introspectivo, divide momentos importantes de descobertas com seu amigo Kristján, que tem um pai violento e naturalmente vai compreendendo seus sentimentos e repreende-os por medo e também por não se aceitar.
A construção da narrativa é calma e vai se estabelecendo conforme as experiências que vão se sucedendo entre eles, no começo é totalmente coisas de garoto, quebrar vidros de carros, desafios, xingamentos, mas o despertar da sexualidade surge e é aí que os sentimentos se delineiam. Thor se apaixona por Beta (Diljá Valsdóttir), que corresponde o interesse, Kristján ajuda o amigo perder a timidez inicialmente, mas quando Hanna (Katla Njálsdóttir), amiga de Beta se interessa por Kristján e todos vão acampar, ele se retraí e a complexidade de seus sentimentos se tornam pungentes. É triste vê-lo se constranger diante a todos e se martirizar pelo que sente, a cena em que ele grita embaixo da água é desoladora.

A sutileza é uma das grandes qualidades do filme, as cenas em que Kristján olha para seu amigo de modo diferente, por exemplo, seus desejos aflorando e ao mesmo tempo sua preocupação. A amizade é retratada lindamente, Thor lida no seu tempo com as emoções e amadurece. É um longa cru, sincero, os olhos dos protagonistas transbordam, belíssimas atuações, Baldur Einarsson como Thor impressiona e claramente ao final visualizamos sua mudança interna, e Blær Hinriksson como Kristján emociona, dói vê-lo se encolhendo diante dos comentários dos outros e se condenando pela verdade dos seus sentimentos.

"Heartstone" mescla força e delicadeza, a paisagem faz parte da história, toda a atmosfera natural está entranhada nos acontecimentos e nas descobertas vividas. Um exemplar encantador que traduz de forma lírica o desabrochar da sexualidade, o amadurecimento dos sentimentos, as relações verdadeiras de amizade e a compreensão do que realmente importa para si independente do que o meio em que se vive acha certo ou não.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

The Fits

"The Fits" (2015) dirigido pela estreante Anna Rose Holmer abarca o tema rito de passagem feminino com um quê de mistério e passeia pelo suspense ao retratar um certo tipo de histeria que acomete as meninas e que seria contagioso, uma excelente e intrigante metáfora para explicitar o quão difícil é o despertar da adolescência feminina.
Toni (Royalty Hightower), tem 11 anos de idade e sua rotina se resume a treinar boxe junto de seu irmão que também cuida do ginásio, constantemente ela está em meio aos rapazes, mas Toni ao visualizar as aulas de dança das meninas que se preparam para uma competição se apaixona pela confiança e força dos movimentos, não demora e ela entra no grupo, porém não é muito aceita e desde antes era motivo de risos por estar dentro do mundo masculino, então se esforça ao máximo para aprender os passos e fazer parte do grupo, o desejo de ser aceita vem com outras descobertas e transformações. De repente, começa a acontecer surtos epilépticos nas meninas mais velhas e que deixam as menores com medo, pois diz-se que é contagioso, e à medida que a narrativa se desenrola novos ataques são retratados e Toni vai descobrindo esse mundo novo que se abre diante de si.
Toni é uma menina que até então teve apenas referências masculinas e que inspirada pelo irmão praticava boxe e se socializava apenas com os garotos, as conversas eram sobre meninas e sexo, o que acabava a isolando independentemente de estar no meio. Ao se inserir no mundo da dança ela encontra novas possibilidades e a partir do momento que ela se conecta ao grupo vai experimentando e se redefine.
A interpretação de Royalty Hightower é delicada e profunda, somos conduzidos por suas expressões e gestuais, a câmera fixa em seu rosto por vários momentos e nos tornamos cúmplices, o filme não possui muitos diálogos, a potência está justamente nas imagens, Toni vai vivenciando os seus anseios, como na cena em que fura a orelha para pôr os brincos, um símbolo que identifica as meninas dos meninos, ou quando passa o esmalte, dessa maneira, consequentemente, vai conhecendo a si mesma e achando seu lugar.

"The Fits" é um filme independente com atrizes amadoras da comunidade local, Royalty Hightower é um achado e merecia ganhar diversos prêmios por ter desempenhado seu papel com tamanha beleza, outro destaque são as cenas de dança tão enérgicas e que fazem um elo magnífico com o despertar e as sensações que advém disso. De estilo peculiar e ritmo lento, a aura misteriosa permeia a narrativa e expõe toda a complexidade e magia do desabrochar feminino.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Raw (Grave)

"Raw" (2016) escrito e dirigido pela estreante Julia Ducournau é um filme francês que traz como tema o canibalismo, ele gerou várias polêmicas e ficou famoso por revirar estômagos em festivais mundo afora. É assim, toda vez que algum filme, principalmente de "terror" tem esse marketing a expectativa se torna alta e acaba estragando muito a experiência do espectador, vide "A Bruxa", de Robert Eggers e agora com o mais recente "O Cair da Noite", de Trey Edward Shults, então fica a dica para não se apegarem a isso porque sempre é exagerado e não expressa a verdadeira essência dos filmes, que certamente caminham não só na direção do gênero terror, mas do drama, mistério, suspense, thriller psicológico, etc. Claro, não duvido que aos mais sensíveis algumas cenas de "Raw" causem desconforto, mas não é tão repulsivo assim, o canibalismo é uma ótima e inteligente metáfora para as mudanças que vão ocorrendo na vida da protagonista.
Justine (Garance Marillier) é uma jovem introspectiva que acaba de ingressar para a universidade de medicina veterinária, área da qual sua família toda atua, inclusive lá estuda também sua irmã mais velha Alexia (Ella Rumpf), cuja não mantém mais o hábito de ser vegetariana, algo que também veio da família, Justine logo ao chegar participa de um trote, os veteranos além de banharem os calouros em sangue impõem que comam fígado de coelho, Justine não quer de forma alguma, mas sua irmã a obriga e a partir daí as consequências disso serão de fato animalescas. Ao experimentar o gosto da carne Justine começa a querer mais e então se transforma, aos poucos ela vai se libertando de sua inocência para a busca de prazeres. A faculdade é realmente um marco para muitos jovens, é o período em que uma baita transformação acontece, autoaceitação, responsabilidades, competição, amadurecimento e outras séries de questões difíceis, logo após que Justine ingere o fígado de coelho sente sua pele pinicar e ficar extremamente irritada, um anúncio de que ela não será mais a mesma. 
Garance Marillier é perfeita ao passar de uma menina frágil para um animal insaciável, sua postura muda, evocando mesmo o lado selvagem, assim como o olhar felino e sorriso malicioso, e ela vai gostando dessa nova fase, se entrega. 

O filme para explicitar toda a mudança se apoia no gore, há cenas sangrentas e outras muito angustiantes que focam detalhadamente em machucados, a cena dela vomitando cabelo ou a do dedo, por exemplo, incomodam bastante pelo visual. Mas, o filme não é apenas isso, nada é gratuito, o clima de tensão, o ritmo lento e o desencadeamento das situações juntamente com a trilha sonora são os maiores responsáveis por gerar desconforto. 
"Raw" é um filme cru e visceral que inteligentemente une o canibalismo aos problemas vividos por qualquer adolescente, como bullying, sexualidade, identidade, relações familiares e a nada fácil transição para a vida adulta.