terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)

Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) é uma garotinha de seis anos órfã de mãe, ela mora com seu pai Wink (Dwight Henry), num lugar conhecido como "banheira", próximo da foz de um rio no sul da Louisiana, a comunidade em que vive nos aparenta logo à primeira vista uma África fabulosa colocada no meio dos Estados Unidos. Os dois moram numa espécie de trailer abandonado e vivem na completa miséria. Os habitantes da "banheira" se preparam para uma iminente catástrofe natural que os deixarão vivendo sob a água. Na "banheira" não existem médicos, as escolas são improvisadas e a locomoção por aéreas alagadas é difícil. Mesmo assim, eles são livres, sendo a altura da água a grande preocupação de suas vidas.
A relação entre pai e filha é diferente, por vezes bruta. por vezes amorosa, mas tudo é mostrado de acordo como vivem, em uma cena Hushpuppy fica sozinha em casa, sem alimentos ela esquenta a comida de gato com um super maçarico do qual é até preciso um capacete, caso seu pai não voltasse ela teria que comer os animais de seu quintal. Quando ele volta, aparentemente fugindo de algum hospital começa a se preparar para a tempestade que está por vir. Após essa tempestade tudo fica alagado, eles improvisam barcos e saem em buscas das pessoas do vilarejo, Wink tem a ideia de implodir parte da barragem de água para que o alagamento cesse, porém chega ajuda e levam todos os moradores da "banheira" a centros comunitários, e é nesse momento que Hushpuppy descobre a doença misteriosa de seu pai. Todas as pessoas da comunidade negam a ajuda, eles apenas querem voltar a suas casas, ou o que restaram delas.
A mente da pequena personagem principal com botas brancas sujas de lama é criativa, mesmo que a sua vida seja de luta. Sua imaginação é uma válvula de escape para a realidade difícil, e é devido a essa imaginação fértil que torna o filme fantasioso, como os gigantes javalis que confrontam a nossa jovem heroína no final, ou os diálogos imaginários com a mãe, sempre em situações de extremo desconforto. O filme tem a possibilidade de várias leituras, uma delas é de um futuro próximo, ou dos dias dos quais já vivemos, em que a força da natureza impera diante à indiferença humana.
A "banheira" fica ao sul das cidades, longe do limite de segurança estipulado, do lado de fora dos grandes muros de contenção. Para a sociedade remanescente, estas pessoas são inferiores, problemáticas e passíveis de caridade. O contrário do que pensam, estas pessoas se sentem livres e felizes com o que tem, diferente dos da cidade que se preocupam apenas com seus umbigos e presos pelo concreto que os cercam. A esperança neste longa é palpável, a vemos nos olhos da garotinha, na força das pessoas, e principalmente, no final em que elas fogem do centro comunitário. Eles não querem ser o excremento da sociedade, esta que se gaba quando ajuda uma dezena de pobres, eles querem ser livres para poderem reerguer suas formas de vida. E isso ninguém pode tirar, está na alma de cada um daqueles habitantes, está na imaginação de Hushpuppy, está no lugar devastado. Essa é a vida deles.

A separação de castas é talvez o grande ponto a ser analisado, para a sociedade, estes indivíduos estão errados, pois eles correm o risco de perder a vida a qualquer momento. Já para eles, esta é a única opção digna de existência, pois ter um teto sobre a cabeça é algo importante. Fora dali eles viverão e se sentirão à margem de tudo, totalmente esquecidos.
A sociedade em geral precisa parar de querer saber o que é melhor para todos, pois o que eles apresentam como realidade a uma comunidade carente é algo superficial, o certo é deixar que eles escolham a forma de viverem, afinal há formas de vida das quais cada um sabe viver, como os habitantes da "banheira", que se preocupam com o básico, o teto, a comida e o nível da água. Cada um sabe o que precisa para ser feliz.
O que fazer quando se nasce sem alternativas? Sonhar, cultivar a esperança e ter instinto de sobrevivência, isso nossa pequena heroína nos mostrou muito bem em suas narrativas de reflexão.

Quvenzhané Wallis fez um trabalho digno de aplausos, a câmera sempre muito perto do rosto dos personagens nos dá a impressão de estar ali juntos, vivendo e torcendo, principalmente, por Hushpuppy com sua força, imaginação e esperança.
O ritmo é lento, é um filme contemplativo que serve para gerar discussões e não para dizer o que está certo ou errado. É uma obra singular, da qual se tem várias leituras e se faz indispensável para quem ama cinema.

"Vejo que sou uma pequena peça de um grande universo. Então sinto que assim deve ser. Quando eu morrer, os cientistas do futuro vão encontrar tudo isto. Vão saber que existiu uma Hushpuppy que viveu com seu pai na banheira."

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bel Ami: O Sedutor (Bel Ami)

"Bel Ami" (2012) é um filme mediano e que traz Robert Pattinson no elenco, assim como em "Cosmopolis" do renomado Cronenberg, Pattinson está diferente, mas não o suficiente. Por enquanto ele é apenas um chamariz para as produções. Porém, não é de todo mal, ele está fadado a aguentar críticas violentas a sua expressão facial e seus trejeitos que volta e meia aparece, mas há esperança de que ele desencadeie uma carreira boa paralela ao estrondoso sucesso da saga Crepúsculo, isso se algum diretor acreditar de verdade e fazer com que tire do âmago seu talento.
"Bel Ami" é uma adaptação do clássico romance de Guy de Maupassant, escrito em 1885, ele fala de uma época onde a arte de seduzir, de intrigar e de manipular dados é a maneira mais eficaz para conseguir a ascensão social.
Georges Duroy (Robert Pattinson), é filho de um camponês e ex-soldado que passa por dificuldades na cidade de Paris em 1890. Ele não tem dinheiro, instrução ou classe, apenas guarda ressentimento de todos aqueles que possuem mais do que ele. Uma noite reencontra um velho amigo do tempo do exército, Forestier (Philip Glenister), que convenientemente é editor de um jornal sobre política na cidade. Condoído ao ver seu colega em tão deplorável estado, o editor lhe dá dinheiro para comprar vestes novas e o convida para jantar em sua casa, na esperança de oferecer-lhe um emprego melhor do que ele tem agora. E assim, Georges vai e conhece as mulheres mais influentes de Paris, Madeleine (Uma Thurman), Clotilde (Christina Ricci) e Virginie (Kristin Scott Thomas). Georges vê nelas seu passaporte para a felicidade e seduz todas, uma de cada vez, e as usa conforme lhe é conveniente. Por exemplo, ele consegue um excelente emprego no jornal, graças aos artigos que Madeleine escreve e nos quais ele apenas assina. A frase: "As pessoas mais importantes de Paris não são os homens poderosos, mas sim, suas esposas". Certamente é o grande ponto do filme.
O livro é muito mais denso e foca nas tramoias políticas da época, imprensa sensacionalista, a sede pelo poder através de modos mais cômodos, esses temas rodeiam o filme o tempo todo, mas de modo superficial, nos deixando sem saber por completo o que está acontecendo, o roteiro preza mais nas conquistas do rapaz, pulando de mulher em mulher, ao que lhe convém, usa de sua jovialidade, sua beleza e dá o bote em mulheres aparentemente insatisfeitas ou predispostas a serem amantes.

"Bel Ami" não ajudou muito Robert Pattinson a se livrar do esteriótipo de galã de adolescentes, o subtítulo empregado também não ajuda muito na seriedade do longa. Bel Ami em francês significa, o bom amigo, assim como o definem as mulheres das quais ele busca ascensão. É um longa correto, elegante, até pomposo, mas raso, não dando a profundidade da qual o livro tem. A história envolve o espectador, mas de modo corrido, tudo acontece sem mais nem menos, e do nada o filme acaba. Vale ver as excelentes atuações de Uma Thurman que faz uma mulher sensual e inteligente. Kristin Scott Thomas esbanjando charme pelo olhar, é uma senhora distinta que perde a compostura diante ao rapaz sedutor. Christina Ricci é uma mulher sensata, compreensiva e que ama Georges de verdade. As três são perfeitas em cena, colocando em evidência sensualidade e sutileza.
Georges usa as mulheres para alcançar o poder, mas a história fica somente na parte prática, onde ele as leva para a cama, o jogo político envolvendo o jornal fica de lado e por isso mostra-se uma obra não inteligente. É um filme acessível, tem seus pontos fortes, mas ao todo não convence.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Cosmópolis

Robert Pattinson talvez se livre do carma de ser ídolo teen daqui a algum tempo, isso se ele escolher bem os filmes que irá atuar, falo isso porque simpatizo com sua figura excêntrica e vejo que ele ao contrário de Kristen Stewart se esforça para se diferenciar de algo tão marcante como foi a tal saga vampiresca.
"Cosmopolis" é o retorno de Cronenberg as suas origens e aos seus filmes mais experimentais. É um longa difícil, confuso e de imediato a única sensação que gera é a de cansaço psicológico para tentar entender a história.
É um dia decisivo na vida de Eric Packer (Robert Pattinson), o menino de ouro das especulações monetárias que fez fortuna analisando projeções do mercado financeiro e administrando-as com especial aptidão. Agora, aos 28 anos, Packer esbanja uma estabilidade desconcertante numa Nova Iorque assolada pelo caos e mastigada pelo capitalismo. O jovem empresário decide cortar o cabelo. Apesar de poder resolver a questão sem precisar de nada mais do que um telefonema, decide atravessar os dez quarteirões que separam seu apartamento da barbearia, em Manhattan, a bordo de sua luxuosa limusine, acompanhado do chefe de sua segurança, Torval (Kevin Durand), e do seu motorista, Imbrahim (Abdul Ayoola).
Essa escolha terá implicações das mais sérias na vida de Packer. Devido a uma visita do presidente dos EUA e da morte de um famoso rapper, o trânsito da cidade está caótico. Não bastasse, ainda por conta da visita do presidente, um grupo de anarquistas toma as ruas em protestos agressivos. Por tudo isso, o protagonista gasta um dia inteiro para fazer o percurso pretendido. A limusine é o cenário principal, o filme é marcado por longos diálogos filosóficos que às vezes nem tem a ver com os personagens. Nesse ambiente, por causa de uma manobra mal projetada, vemos ruir o império do jovem bilionário. Ele fez uma aposta contra o yuan, tudo lhe diz que a moeda chinesa não deve ultrapassar um dado patamar. Ele apostou tudo o que tinha e o que não tinha, e parece indiferente ao risco. Afinal, o que significa o dinheiro para quem já o tem? Poder, e quando se tem o poder a única coisa que resta é conseguir mais e mais poder. Packer não sente, não compreende o significado das coisas, ele é capaz de tudo, pois nada tem importância. A última sequência do filme é o melhor momento, um embate entre Packer e Benno Levi (Paul Giamatti), um antigo funcionário de Eric que por não conseguir acompanhar os avanços que o jovem incorporou ao mercado financeiro, foi relegado à mais profunda miséria, fazendo do desejo de matar o ex-patrão o mote de sua desnecessária vida.

O longa não anda agradando muito o público e tem criado opiniões diversas entre os críticos, de fato é inclassificável e perturbador. Esse é o tipo de filme que daqui algum tempo será adorado e intitulado como cult.
As cenas do filme por vezes são sem sentido, impossível querer entendê-lo sem dar um nó na cabeça e queimar uns neurônios. "Cosmopolis" é uma adaptação feita por Cronenberg do romance do dramaturgo norte-americano Don DeLillo. O capitalismo, o excesso e a acumulação de riquezas são tratados de maneira filosófica pelos personagens, o que torna um pouco enfadonho para quem o assiste, mas não se pode negar a originalidade da obra.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark)

Selma (Björk) é uma jovem imigrante da Checoslováquia que se mudou para os EUA com o propósito de criar seu filho Gene (Vladica Kostic). Vivendo uma vida de pobreza, Selma trabalha em uma fábrica junto de sua melhor amiga Kathy (Catherine Deneuve) e vive em uma pequena casa alugada no quintal do policial Bill Houston (David Morse) e de sua esposa Linda (Cara Seymour). Desde pequena, Selma tem uma fascinação por musicais americanos, sendo que diversas vezes enquanto trabalha ela imagina fazer parte de um. No momento, ela se prepara para representar Maria em uma montagem de "A Noviça Rebelde". Infelizmente para Selma, se torna cada vez mais difícil operar as máquinas da fábrica e ensaiar seus passos de dança, pois ela possui uma doença degenerativa hereditária que a torna gradualmente cega. Sua amiga Kathy é a única que sabe deste fato, e faz o possível para ajudá-la. Em um momento de fraqueza, seu vizinho Bill lhe confidencia que está falido e que não tem coragem de contar à esposa. Selma então revela que tem economizado dinheiro durante anos para uma cirurgia que seu filho deve fazer para que não fique cego como ela.
Selma é bem-humorada, inocente e pura, vai até os EUA atrás de possibilidades, corajosa e forte ela guarda todo o dinheiro do seu suado trabalho para poder pagar a operação de seu filho, para que ele não sofra como ela. Ela se culpa por ter tido o garoto sabendo que herdaria sua doença. Mas ela esconde isso das pessoas, porém em um momento de confidências revela para seu vizinho, e este por sua vez, na ânsia de dinheiro e enganar sua mulher de que estava tudo bem, rouba todas as economias de Selma. Daí por diante a vida dela muda, já cega, perde o emprego, e quando descobre o roubo vai até a casa de Bill recuperar o dinheiro, mas o que acontece lá é um espetáculo horroroso do quão vil e nojento pode ser o ser humano. Desesperada ela age instintivamente e o mata. Por esta razão, Selma é julgada e condenada à morte. Enquanto está presa a espera de sua execução, apresenta-se um novo dilema: o dinheiro que seria empregado para pagar a cirurgia de seu filho pode ser utilizado para pagar um advogado que garante conseguir que ela não seja executada. Selma opta por aceitar a execução, assim permitindo que seu filho possa ver durante toda sua vida.
Os musicais, a grande paixão de Selma, é também seu refúgio. Ela sonha, se diverte, e por várias vezes a sua imaginação é exposta a nós. Os números de canto e dança repentinos são inseridos no longa justamente quando menos deveriam. Eles parecem surgir como uma explosão. Selma sentia-se bem sonhando estar em um desses musicais, no silêncio da prisão se deparou com o vazio e a escuridão da qual não queria enfrentar. Temos diversos sentimentos ao ver as reações da personagem, como no julgamento em que ela não revela a verdade, sentimos raiva, depois compaixão, pena, tristeza, e por fim, Selma nos surpreende.

Os musicais conforme o desenrolar do filme se tornam apoteóticos. A personagem não tem fôlego e não tem um final feliz como na maioria dos filmes hollywoodianos, a crítica aos EUA e ao sonho de ter uma vida melhor lá é totalmente nítido.
Björk recebeu o prêmio de melhor atriz em Cannes (2000), mesmo sendo sua estreia no cinema, mas declarou que devido aos seus desentendimentos com Lars von Trier e o cansaço gerado pela produção, jurou nunca mais aparecer em outro filme. Björk também escreveu as canções do filme.
"Dançando no Escuro" é pesado e arrebatador, é daqueles filmes que nos deixam em silêncio por alguns minutos após seu término.

"Dizem que é a última canção, mas eles não nos conhecem, só será a última canção, se deixarmos que seja."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fausto (Faust)

"Fausto" (2011), obra-prima do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, publicado em 1808, é um dos livros mais difíceis de ser digeridos. O diretor russo Aleksandr Sokurov tentou captar o ambiente de decadência moral e financeira que permeou a Europa no século 18, onde é ambientado o livro, para criar sua versão cinematográfica. O longa é o quarto segmento de uma tetralogia formada por "Moloch" (1999), sobre Adolf Hitler, "Taurus" (2001) sobre Lenin, e "Sol" (2005), sobre o imperador japonês Hiroito. Assim como o livro, o filme não é fácil, as dificuldades para assistir ao longa começam pelo incomum formato da tela que é quadrada com as bordas arredondadas. Além disso, as lentes utilizadas distorcem a imagem (ou como o diretor queria interpretar a realidade), deixando-a desfocada nas bordas. A diferente fotografia é mérito de Bruno Delbonnel.
O filme narra a história de Fausto, ávido pelos saberes do mundo, porém desiludido com a limitação dos conhecimentos de seu tempo. Fausto vai em busca de um agiota após ter seu pedido de ajuda financeira recusado pelo pai. O agiota vai se envolvendo maliciosamente com ele e, aos poucos, se revela Mefistófeles, o demônio. No decorrer da amizade que começa a surgir entre os dois, Fausto se apaixona por uma jovem, que acaba servindo como moeda de troca nas mãos do amigo satânico. Com a promessa de ganhar dinheiro, sabedoria e a mulher que ama, Fausto vende sua alma para Mefistófeles. Mas o demônio não é retratado como um ser chifrudo e assustador. Ele se assemelha muito a um humano, mas é deformado fisicamente, assexuado e com uma proeminente corcunda. Em uma das cenas mais fortes do filme, podemos vê-lo nu rodeado de mulheres, mas nenhuma delas, no entanto, parece se incomodar com o jeito repulsivo de Mefistófeles.
É um filme de linguagem poética e apesar de ser livremente inspirado na poderosa obra de Goethe, "Fausto" se torna um pouco mais palatável a pessoas não acostumadas ao cinema arte. Sokurov coloca seu foco menos nas consequências do pacto com o diabo e mais no processo de sedução. Margarida é o fruto do desejo de Fausto e ela se parece com a Vênus de Botticelli, tudo tem uma atmosfera etérea, como se no fundo os acontecimentos não passassem de sonho ou delírio do protagonista. A interpretação se assimila muito a do teatro, principalmente as cenas com o caricato Mefistófeles. Fausto é um homem com excesso de informação que busca por um sentido. Os diálogos são longos e carregados de referências filosóficas e indagações existenciais e ao final, Fausto não encontra qualquer resposta.

A cena inicial já é impactante tanto visualmente como psicologicamente, Fausto retira os órgãos de um defunto, na esperança de encontrar a alma humana. O interessante é o clima criado, a do fedor das ruas, das pessoas famintas, sempre sujas, a sensação de nojo consegue chegar até nós. "Fausto" tem uma premissa simples, mas o filme evoca o simbolismo do livro com algumas passagens intrigantes, como o espelho pendurado no céu, uma mulher que dá à luz um ovo e em seguida o come, e uma senhora que não tem outra função no filme que não a de seguir o diabo. Para prestarmos atenção a tudo que o longa quer nos dizer é preciso apreciá-lo de maneira minuciosa.
Para além da fotografia estonteante, incluem figurino e cenografia perfeitos em sua composição. O final gravado em meio a gêiseres vulcânicos da Islândia, é o ponto deste espetáculo lúgubre feito para inebriar. "Fausto" é um filme impressionista em sua execução. Sukorov já havia confessado em entrevista ter sido influenciado pelo pintor inglês William Turner (1775 - 1851), um dos precursores do impressionismo. Uma obra impecável que para os adoradores do cinema arte é indispensável!

"Temos necessidade justamente daquilo que não sabemos e sabemos aquilo que não sabemos utilizar."

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Deserto Interior (Desierto Adentro)

"Deserto Interior" (2008) de Rodrigo Plá, narra o caminho de expiação de Elias, um viúvo com vários filhos pequenos, que se isola da civilização e vai viver no deserto, dedicando-se à construção de uma capela a fim de obter o perdão de Deus. O filme transmite a experiência religiosa de um homem atormentado em suas crenças com uma profundidade incrível, uma beleza visual e uma narrativa interior poucas vezes vista no cinema mexicano.
Uma história cheia de metáforas e símbolos sobre a culpa, o fanatismo, a religião, a solidão e a loucura. Através de quadros pintados de forma rústica, Aureliano conta a história de sua família, predestinada a morrer por um pecado que seu pai cometeu. Com a guerra civil mexicana como pano de fundo, mostra toda a transformação de um homem cuja obsessão é obter o perdão de Deus, mesmo que para isso condene seus próprios filhos ao mais profundo confinamento. Elias cometeu um enorme pecado e crê que a fúria de Deus cairá sobre seus oito filhos, fazendo com que morram precocemente. Para se redimir, ele se isola da civilização e dedica a vida à construção de uma igreja. Aureliano (nome recebido em homenagem ao seu irmão assassinado) é vulnerável, ele retrata a saga familiar em pinturas religiosas, Elias acredita que seu filho mais novo será o primeiro a morrer. Mas Aureliano e seus irmãos percebem que o pai culpa a Deus por não conseguir perdoar a si mesmo e aos outros. No entanto, são os erros de Elias e não a vingança divina que muda o curso dos eventos. Pelo menos é o que alguns de seus filhos acham, pois ele culpa Deus pela sua incapacidade de perdoar os outros, e, acima de tudo, a si mesmo.
O diretor foi instigado a fazer o filme depois de descobrir os diários do filósofo Soren Kierkegaard, que descreve o seu medo de ser condenado pelo seu pai a uma morte prematura. Eventos ocorridos durante o século 20 ajudaram o cineasta a transferir a história de um protestante para a cultura católica mexicana e, num contexto histórico, fazer um registro audiovisual de um tipo de insanidade religiosa.
O deserto simboliza uma espécie de busca interior ou exterior, simultaneamente um local de tentação e um meio ideal para a obtenção da salvação divina da alma. Uma das simbologias do deserto na cultura cristã, das mais frequentes que se podem encontrar na Bíblia, é a de um lugar afastado de Deus e propício à tentação pelo demônio, Cristo foi tentado no deserto, Santo Antão também nele foi assediado pelos demônios e nele o povo de Israel foi castigado. Mas o deserto é o local escolhido pelos eremitas para se encontrarem com a sua própria natureza e com o divino. São João Batista também escolheu o deserto para pregar a para anunciar a vinda do Messias e aqui o local demonstra ser propício a profecias divinas. No Apocalipse, o povo de Deus refugia-se no deserto onde Deus lhe assegura proteção e alimento. A diferença essencial parece estar na presença e na ausência de Deus, já que o deserto com Deus é positivo e sem Deus é negativo ou estéril. Sendo assim, não há dúvidas do poder simbólico desta obra de Rodrigo Plá, consequentemente levando-nos à reflexão.

No meio do deserto, Elias e as crianças tentam ganhar o perdão de Deus construindo um templo. Aureliano tinha sido criado com a ideia de que ele estava doente, então ele não podia sair do quarto e sua única forma de sair era entrando em um velho baú. Elias é o símbolo de culpa, o criador e receptor de uma maldição, onde carrega o peso da morte sobre seus ombros sem poder se livrar dela. Sua vida tinha sido condenada ao horror de ver os seus filhos morrerem antes dele. Desde então, o homem totalmente miserável e cheio de culpa ficou fechado a qualquer possibilidade de ser perdoado por Deus, apesar de tentar provar sua fé. A culpa envenenou a cabeça da família. A maldição que ele criou. Elias realmente matou seus filhos, mas não a um suposto pecado que cometeu, mas porque ele próprio se condenou. O longa é dividido em quatro partes: a culpa, a penitência, o sinal, e o perdão... que nunca chega. Conhecemos a miséria desses personagens. Elias em sua convicção e fanatismo criou a sua própria destruição e a de sua família.

A obsessão de Elias contaminou e destruiu seus filhos, a maldição estava apenas em sua cabeça. A espera pelo sinal divino que não vinha, e por causa de sua cegueira religiosa não percebia que quem não perdoava era ele próprio e não Deus. Ele estava imerso em seu deserto interior, onde só existia dor, culpa, e por fim, a loucura.
O filme termina com uma poderosa frase de Nietzsche: "O deserto cresce, aí daquele que dentro de si, cobiça desertos."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Floresta dos Lamentos (Mogari no Mori)

"Floresta dos Lamentos" (2007) dirigido pela excelente Naomi Kawase, que sempre retrata temas altamente pessoais com uma intensidade particular, em seus filmes observamos ciclos da existência, as recorrências da velhice e juventude, e sobretudo, a morte. Com longos planos e grandiosas panorâmicas em impressionantes locações reais e naturais.
Esse belíssimo filme reflete a dor da perda e, de algum modo, como absorvê-la. Em japonês "mogari" designa tanto "um período de luto" como "o lugar do luto". Rico em significados, impossível ficar indiferente a esta obra.
A experiência é representada na figura de Shigeki, um idoso um pouco senil, que vive numa casa de repouso em região rural, e Machiko, uma jovem que trabalha na instituição. Entre os dois, paira o fantasma de Mako, mulher de Shigeki morta há 33 anos. A precisão do número se justifica por um diálogo que nos revela que, ao se completarem 33 anos da morte, a pessoa torna-se buda e deixa de perambular pelo reino dos vivos. A princípio, Machiko (Machiko Ono) não sabe chorar a sua dor. Depois de perder um filho, ela vai trabalhar em um asilo de idosos no meio do campo. Lá passa a cuidar de Shigeki (Shigeki Uda), que precisa de cuidados como uma criança. É por instinto, mais do que necessidade, portanto, que a enfermeira e o velho se aproximam. No dia do aniversário de Shigeki, Machiko o leva para passear de carro. No caminho o carro quebra e enquanto Machiko corre atrás de ajuda, o Sr. Shigeki vai até a floresta. Machiko ao voltar vai procurá-lo desesperada e ao encontrá-lo os dois se perdem no interior da floresta.
O filme nos permite adentrar juntamente com os personagens, a água, a lama, as flores, as árvores e a música. Trata-se de um instante sublime, em que nos libertamos do realismo para embarcarmos num ritual pagão, no qual Kawase celebra a eternidade. O perambular pela floresta retrata um processo de elaboração do luto, de catarse, travessia de um terreno cheio de obstáculos, solidão, confronto de medos externos e internos.
É uma narrativa simples carregada de força. Dentro da floresta os personagens perdem suas identidades e mergulham numa espécie de experiência quase tátil. Lá os dois se protegem e cuidam um do outro. As cenas são dotadas de beleza poética e densidade emocional, o silêncio é o caminho para o fim do luto. A natureza é a personagem de maior força, ela exerce o poder de redenção e o alívio da dor.

É um filme transcendental, com um sentido quase místico em que a natureza produz poderosa ação sobre o homem, e a cena final diz muito sobre isso, ao filmar as copas das gigantescas árvores da floresta. Daí cabe a cada um sentir sua própria emoção e tirar dela uma percepção. É de uma grandeza sutil e muito simbólica. O resultado talvez, não seja momentâneo, mas aos poucos e com o passar do tempo fará algum sentido. Poucos filmes conseguem atingir este patamar, que costumo classificar como espiritual.