sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Lugares Comuns (Lugares Comunes)

"Lucidez é um dom e um castigo; lúcido vem de lúcifer, o arcanjo rebelde, o demônio. Mas também a estrela d'alva, a mais brilhante, a última a se apagar. Lúcifer quer dizer aquele que faz a luz, a luz que permite a visão interior, o bem e o mal, juntos o prazer e a dor. Lucidez é dor, e o único prazer que se pode conhecer, o único que vagamente se parecerá com a alegria, será o prazer da consciência da própria lucidez."

Fernando (Federico Luppi) é um professor de letras aposentado à força. Sem condições financeiras de viver sem trabalhar, ele tenta mudar de ramo e reinventar-se, deixando o ensino de literatura pela administração de uma fazenda, apoiado pela esposa, por quem nutre comovente devoção. Ao longo de sua mudança de vida, ele reafirma não sem ressentimento suas posturas inabaláveis sobre a necessidade da utopia como ferramenta, a qual se apega para sobreviver ao pragmatismo feroz da contemporaneidade, marcado pelos valores materiais. Isso o coloca em choque com o filho, cuja carreira literária foi encerrada em nome de uma profissão rentável. 
A realidade argentina carrega todo o peso da crise, da mesmice, da frustração, da falta de sentido. A ausência de pensamento do reitor ou a remuneração insuficiente para viajar até a Espanha confirma a névoa do neoliberalismo e do desmonte institucional que paira sob toda a América Latina. Fernando não é muito querido no meio acadêmico por conta de seu temperamento anárquico. Perguntado em que mundo o professor vive num jantar entre amigos, ele responde que antes de Fidel, Lenin ou Marx, ele ainda estava em 1789. A antessala da vitória burguesa é seu refúgio, o pós-revolução francesa, é o ciclo vicioso, gerador dos lugares comuns dos quais ele é vítima. Sua antessala é, portanto, o sítio. Espaço da possibilidade, da gênese, da tentativa da elaboração de respostas ao lugar comum virtuoso da filosofia e da poesia.
"Lugares Comuns" além de abordar a crise econômica do país, e a filosofia do ensino, inteligentemente fala da velhice, as maneiras de se lidar com ela, e o quanto é importante ter alguém com que possamos contar e amar, sim, é sobre o amor também e como ele sobrevive em meio a um mundo onde ninguém parece amar realmente. Fernando que se vê obrigado a se aposentar sente uma sensação de inutilidade, começa a repensar e acaba percebendo que precisa descansar, com a ideia de fabricar perfume de lavanda, vende o apartamento em que vivem e vão morar em uma chácara, onde o silêncio e a natureza respeita o desejo e o pensamento dos dois. A relação de Fernando com Lili é encantadora, nos deixa com uma sensação boa, pois eles são um casal unido que compartilha, se ajuda, se repeita e se aceita.

O roteiro é sensível e de imensa inteligência, nos mostra dor, morte, superação, mas principalmente, amor que cuida, liberta e conforta.
É um retrato intimista que tem como trilha sonora o cancioneiro popular, o que faz deixar o tão conhecido tango argentino de lado. Fernando e Liliana brilham em meio a tudo isso, mesmo que a situação seja difícil e a paciência seja a única alternativa, os dois resplandecem.

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