quarta-feira, 20 de junho de 2018

As Boas Maneiras

"As Boas Maneiras" (2017) dirigido pela dupla Juliana Rojas e Marco Dutra (Trabalhar Cansa - 2011) é um filme de terror que mescla estilos de forma original, o bizarro está sempre às voltas e a tensão nunca sai de cena, mesmo que haja uma quebra na segunda parte aos poucos novamente se introduz sensações e aguça nosso interesse por todo o desenrolar. A experimentação dos elementos dentro da trama só fazem complementar uma narrativa fascinante e séria que disserta sobre temas sociais em tom de fábula. Juliana Rojas e Marco Dutra se destacam pela criatividade e inteligência, seus filmes, seja como dupla ou individual, sempre são sinônimos de satisfação.
Ana (Marjorie Estiano) contrata Clara (Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara.
Ana vem de uma família rica do interior de Goiás, sozinha ela tenta se adaptar à cidade grande depois que seus pais preferiram não apoiá-la por conta de sua gravidez, fruto de uma transa casual. Ana está procurando alguém para ajudá-la a dar conta da casa e mais tarde cuidar de seu bebê, Clara vem da periferia de São Paulo, uma realidade totalmente diferente, aparece atrasada para a entrevista, mas Ana segue o protocolo e Clara parece fazer de tudo para conseguir o emprego contando que tem experiência nisso e naquilo, no fim ela acaba sendo contratada por ajudar Ana num momento de dor durante a entrevista, apesar de não ter terminado seu curso de enfermagem sua habilidade gerou uma certo sentido de proteção para Ana. Esses mundos tão opostos vão aos poucos se unindo e formando um elo forte de cumplicidade e amor. Clara é calada e observa Ana em todos seus movimentos, toda as regras sociais que as separam vão se dissipando à medida que uma encontra apoio na outra e a paixão nasce, elas quebram vários estereótipos e tabus, a relação se constrói a partir de suas solidões, ambas à sua maneira se sentem excluídas da sociedade, a atração vai numa crescente forte e culmina numa noite de lua cheia em que Ana procura comida na geladeira como um animal selvagem, Clara não entende muito bem, mas a aceita em seus braços e daí por diante começa a tentar compreender sua atitudes noturnas e o que estaria por vir. O olhar de Clara nos conduz pela narrativa com tensão e expectativa, uma bela interpretação de Isabél Zuaa, e claro, Marjorie Estiano que dá vida a uma personagem que exala abandono e receio por conta da sua gravidez.

A atmosfera criada prima pelo estranhamento e o desconforto vem em pequenas doses, o suspense se mescla perfeitamente ao drama e, principalmente, a fantasia que dá as caras mais explicitamente na segunda parte, quando Clara se desdobra para criar Joel (Miguel Lobo), que se transforma em lobisomem nas noites de lua cheia, a angústia por não participar das atividades com os amigos e ter que se privar de tantas outras coisas faz com que ele se revolte e crie situações preocupantes. A imersão no clima de fábula é intensa e o macabro é explorado com pitadas de ternura. As técnicas e os efeitos visuais são ótimos, o processo de transformação e a recriação mágica da cidade de São Paulo em CGI, além da cena do parto e o bebê lobisomem, são cenas marcantes que produzem sensações variadas, aliás o filme é uma mistura deliciosa de estilos e que trabalha com elementos fascinantes sem deixar de refletir com inteligência temas sociais.

"As Boas Maneiras" também conta com uma trilha sonora original surpreendente, as inserções de números musicais dentro da trama é mais uma marca dos diretores e que causa ainda mais estranheza, as letras complementam à narrativa e ajudam a criar as emoções, destaque para a cantiga de ninar "Fome", que é cantada por Ana e na grandiosa cena final por Clara: "Dorme no chão, dorme no feno, dorme cavalinho, aproveita que é pequeno". Por fim, o filme é uma bela e pertinente fábula de horror imensamente criativa e sensível. 

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