quinta-feira, 30 de junho de 2016

Sabor da Vida (An)

"Sabor da Vida" (2015) dirigido por Naomi Kawase (O Segredo das Águas - 2014) é um filme de extrema sensibilidade, a conexão que acontece entre os personagens é delicada e o contato com a natureza - marca da diretora - é engrandecedor. O filme reúne elementos bem clichês, mas os transforma numa deliciosa e marcante história.
Sentaro (Masatoshi Nagase) dirige uma pequena padaria que serve dorayakis - panquecas recheadas com pasta de feijão vermelho doce. Quando uma senhora de idade, Tokue (Kirin Kiki), se oferece para ajudar na cozinha, ele relutantemente aceita. Mas Tokue prova ter um toque de mágica quando se trata de fazer "an". Graças à sua receita secreta, o pequeno negócio logo floresce e com o tempo, Sentaro e Tokue abrem seus corações para revelar velhas feridas.
Sentaro não gosta de doces, trabalha na lojinha por obrigação, o dono o ajudou a pagar uma dívida no passado, ele leva uma vida solitária e modesta, interagindo apenas com uma adolescente que tem problemas com a mãe. Um dia, aparece Tokue lhe pedindo emprego, mas ele nega, já com idade avançada seria quase impossível realizar o trabalho na loja. Mas ela não desiste e até leva sua própria pasta de feijão doce (an), Sentaro acaba experimentando e percebe que nunca havia comido uma pasta tão deliciosa. 
Tokue fica felicíssima por conseguir o emprego, não entende como alguém pode gostar dos doces feitos com uma pasta industrializada, todos os dias de manhã começa o processo do preparo, um exercício de paciência e com grandes pitadas de amor. Tokue representa toda a tradição que aos poucos está se perdendo no país, é possível observar nos jovens do filme o desapego dessas influências. A idosa tem um passado muito triste, ela teve lepra e por isso suas mãos são um tanto deformadas, ela fez parte do horrendo passado em que leprosos eram excluídos da sociedade, sendo confinados em casas afastadas construídas pelo governo, perdendo assim o direito de viver. A lojinha de Sentaro começa a fazer sucesso, os doces são apreciados, porém os rumores de que Tokue tem lepra se torna forte e o estigma da doença termina vencendo.
O convívio de Sentaro e Tokue é lindo e aos poucos o coração dele se abre para as delicadezas da idosa, o cuidado ao preparar o doce, suas conversas com o feijão, seu deslumbramento com as belezas cotidianas, a interação com a natureza, tudo isso conquista Sentaro, ele reaprende a olhar a vida e ao fim encontra um propósito para si. Eles compartilham belos momentos, cria-se amor e respeito pelo que se está fazendo, toda a preparação é retratada minuciosamente, impossível não sentir vontade de experimentar os dorayakis.

A natureza é inserida no longa de forma sutil, diferente dos seus outros trabalhos, Naomi Kawase introduz lindos simbolismos, desde as conversas de Tokue com os feijões, respeitando a história de cada ingrediente, a cerejeira, árvore preferida de Tokue, que simboliza a brevidade da vida, e o pássaro de Wakana, que no fim ganha a sua liberdade. São sequências tocantes e sensíveis, simples mas de grande magnitude, o estilo naturalista dá o diferencial à história. Os protagonistas cativam, assistimos sorrindo, mas também com lágrimas nos olhos. 

Passamos pela vida rapidamente, sem nem ao menos notá-la de fato, preocupamo-nos com coisas, e deixamos de identificar um sentido, algo que nos faça úteis e ao mesmo tempo felizes. Como Tokue diz: "Viemos a este mundo para ver e ouvir, não precisamos ser alguém."
Apesar dos dissabores da vida há de se continuar vivendo, e como o filme exemplifica, olhar com mais atenção e gentileza para os outros e para si mesmo, pois todos temos nossas histórias e o melhor que fazemos é compartilhá-las.

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