terça-feira, 7 de junho de 2016

A Noiva (La Novia)

"A Noiva" (2015) dirigido por Paula Ortiz (De Sua Janela à Minha - 2011) é um belo drama saído das entranhas, um filme esteticamente deslumbrante, a imagem salta aos olhos, mas também sublime ao reinterpretar um clássico do teatro sem soar forçoso e afetado. É cheio de estilo, elegante, e do mais puro fel. 
Baseado no livro "Bodas de Sangue", de Federico García Lorca, conta a história de um triângulo amoroso entre dois homens e uma mulher. Dois amantes levam sua paixão desafiando todas as regras morais e sociais, mesmo afrontando seu próprio julgamento. No mesmo dia do seu casamento, a noiva e seu amante escapam a cavalo para viver o seu amor. Sua desobediência terá consequências devastadoras. A noiva (Imma Cuesta), o noivo (Asier Etxeandia) e Leonardo (Alex Garcia) se conhecem desde a infância. Ela viveu uma tórrida paixão com Leonardo, mas terminou por conta de desentendimentos familiares, culminando na proibição de se verem. No dia do casamento, Leonardo aparece e o desejo acaba tomando conta dos dois.
A trama é simples e clichê, porém a abordagem poética e contemplativa faz toda a diferença no como os sentimentos envolvidos chegam até nós. Não é nada agradável, é triste e delicado. Apesar de se distanciar da teatralidade, os diálogos mantêm a poesia e questões existenciais são tratadas de maneira simbólicas e metafóricas. É um filme completo, utiliza-se todos os recursos inteligentemente, roteiro, fotografia, interpretações, direção, trilha sonora, nada se sobressai, é um conjunto perfeito.
A obra fala de paixão, mas, sobretudo, de liberdade. A noiva decide deixar tudo para trás, principalmente, para se livrar de todas as regras impostas e os supostos deveres, a mãe do noivo exemplifica o pensamento machista da época, e, que infelizmente, continua ainda atual. O ritual do casamento é repleto de símbolos machistas e é totalmente entranhado na cultura. É um ato de subordinação e representação de propriedade. Uma figura masculina (pai) entregando a noiva à outra figura masculina (noivo), cuja celebração será chefiada por outra figura masculina (padre), além de tantos outros símbolos que parecem adoráveis. E é triste imaginar que as próprias mulheres alimentam o machismo, como a personagem de Luisa Gavasa, claro, muito se modificou, os tempos são outros, mas mesmo assim nem tanto, o machismo permanece sob outras roupagens. Quebrar paradigmas exige coragem, a protagonista teve a sua dose de coragem e enfrentou tudo e a todos ao fugir com seu amante, mas a tragédia veio logo em seguida, e era anunciada, já no início acompanhamos a volta da noiva ao povoado se encontrando com a mãe de seu noivo trazendo o corpo dos dois em seu cavalo. 

Muito interessante observar o filme dentro desse aspecto feminista e comparar com os tempos atuais, a mulher se desvencilhando dos valores morais e religiosos para se tornar livre, mostrando que não é apenas uma objeto dentro da sociedade.
"A Noiva" é um filme intenso, que revira e inebria, o apelo visual é grande, contém cenas atraentes, mas também diálogos poéticos, trilha sonora encantadora e fortes atuações.

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