sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Skrítek

"Skrítek" (2005) é um filme tragicômico tcheco bem peculiar e muito curioso, de início pensei ser uma loucura psicodélica por mostrar a figura de um duende peludo, com olhos que giram nas órbitas e que carrega uma espécie de pedra roxa super iluminada. Mas para meu espanto o filme é totalmente crítico e inteligente. Considerado humor pastelão, ele não abre mão de expressões exageradas, das quais fazem todo sentido no longa, já que não há diálogos, mas sim apenas interjeições e grunhidos.
Retratando o cotidiano de uma família, o tema é universal, portanto não há problemas em compreendê-lo. Realmente a parte em que o duende aparece é nonsense, no começo parece ser uma alucinação da garotinha, mas conforme o desenrolar os outros personagens começam a vê-lo também, outra coisa interessante é a fotografia que por vezes a cor verde predomina em cima das outras tornando tudo muito alucinógeno.
A história é basicamente esta: Uma família recém chegada a cidade, o pai trabalha em um frigorífico, a mãe em um supermercado, a filha menor odeia estudar, o filho mais velho é um skatista, maconheiro, rebelde e está naquela fase em que nada parece ser o suficiente, ele estuda numa escola técnica para trabalhar no frigorífico. O pai cansado da rotina em sua casa aproxima-se de uma colega de trabalho, a loira lhe dá abertura e acontece a infidelidade, entre cenas cômicas a esposa descobre a traição e decide se cuidar mais, vai ao salão de beleza, mas termina comprando uma peruca, usa lingerie sexy e espera seu marido na cama, mas este não aparece. Enquanto isso o filho que é vegetariano apronta na cidade, se enche de piercings e corre atrás de uma garota que não tá nem aí pra ele, sua irmã não faz a lição e só pensa no duende.
A crítica envolvendo a mesmice no trabalho, a coisa mecânica do dia a dia se reflete na personagem da mãe no supermercado, que sorri sem ter vontade e passa produtos sem tê-los de fato. Há também a crítica sobre a carne, o sofrimento dos animais, as cenas no frigorífico expressam isso com imagens de porcos abertos, aves gigantescas, carnes sendo destroçadas, enfim, vemos apenas a carne bonitinha embalada no mercado, mas não pensamos no processo que ocorre antes disso.
Por vezes o filme traz a ideia do porque é que o ser humano mata os animais para comê-los, pois o que nos difere deles? No filme como não há diálogos, exemplifica que também somos animais, desesperados na maior parte do tempo, no emprego, na família, pronto para sermos abatidos. O que nos faz ser "superiores" é exatamente ter a possibilidade de dialogar, pensar, mas geralmente as pessoas não utilizam de maneira correta. A família do filme é padrão, em todo lugar do mundo existe, mas o que vem para dar um tom estranho é a figura do duende, que de fato não sabemos se é apenas imaginação, ou se é realidade mesmo.

Os filmes tchecos dificilmente chegam até nós, não são distribuídos no país, a não ser em festivais de cinema, e olha lá. Então assistir "Skrítek" é um presente, um achado maravilhoso em termos de linguagem cinematográfica. O filme foi dirigido por Tomás Vorel, que também faz o personagem do filho na história.

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