segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Pecados Íntimos (Little Children)

Todos têm seus pequenos segredos, mas quando estes são expostos podem acarretar grandes desastres, para nós mesmos e para os outros que nunca imaginavam que o guardávamos. Um dos mais comuns é a infelicidade no casamento, depois de muito tempo juntos, parece inevitável o desgaste, mas a maioria das pessoas optam por continuar, sem ao menos tocar no assunto, olham-se nos olhos e escondem seus verdadeiros anseios e sentimentos. E quando surge a possibilidade de traição, parece normal, uma forma de descontar toda a angústia numa paixão, numa relação sexual ardente e por aí vai. Talvez as pessoas apenas poderiam conversar e chegar num acordo e decidir qual o melhor para cada um, só que o ser humano é egoísta e sempre espera do outro, e assim afim de se satisfazer começa uma teia de mentiras que só tende a crescer. "Pecados Íntimos", título nacional muito bem colocado, trata disso, desses deslizes, retrata seres humanos infantilizados tomando atitudes de crianças diante a vida, colocando apenas seu ego a frente de qualquer coisa. Sabe a criança que faz birra para ter um brinquedo, um doce desejado? As atitudes dos adultos deste longa se assemelham a isso, e engraçado que as crianças do filme é o oposto. Ou seja, quem são as crianças na verdade?
A história tem lugar num pacato subúrbio dos Estados Unidos, somos apresentados, por meio de um narrador a vida de Sarah (Kate Winslet) e da sua filha Lucy, aos dramas de Brad (Patrick Wilson) e do seu filho Aaron. Olhamos pelas janelas, silenciosamente, e deparamo-nos com problemas conjugais, com pequenos conflitos, com banalidades do quotidiano. A comunidade está assustada com a recente libertação de Ronnie (Jackie Earle Haley), um adolescente na pele de um adulto, acusado de pedofilia. Mesmo proibido de se aproximar das crianças em locais públicos, os pais não concordam em ter ao lado um ser que representa uma ameaça real aos seus filhos. Um ponto do filme que acerta em cheio, o pedófilo é uma pessoa que tem um distúrbio sexual, talvez pelo modo que foi criado pela mãe, feito uma criança, julga-se criança também, suas atitudes demonstram isso, sempre infantilizadas. Mas quando sua vida muda fica evidenciado o quão humano ele é, com sofrimento e dor como qualquer outra pessoa que julgamos "normal".
No início simpatizamos com o casal formado ao acaso. Sarah e Brad, alegres, bonitos e cheios de paixão. Brad é um garotão que mente a sua mulher que vai estudar na biblioteca, mas na verdade apenas fica olhando os jovens andarem de skate. Sustentado pela esposa, não dá a mínima para isso, olha com maior prazer seu filho Aaron, cujo leva todos os dias na área de lazer da comunidade, onde é conhecido por "o rei da formatura" pelas outras mulheres que se desmancham diante a sua beleza. Mas é Sarah que é julgada nem tão bonita e nem tão interessante pelo próprio Brad, que consegue se aproximar, e esse é o começo para um pecado que será compartilhado. O marido de Sarah é obcecado por pornografia na internet, quando o pega no flagra é o pontapé inicial para não sentir remorso ao ficar com Brad. Eles usam os filhos para se encontrarem, seja no parque ou na piscina, e as coisas vão ficando cada vez mais íntimas. As cenas de sexo são intensas, retrata uma tórrida paixão. Mas o ingrediente principal faltou ali, a maturidade para vivenciar algo que estava sendo interpretado como amor.

O filme aborda o quotidiano da vida da classe média alta que vive de aparências, que para os outros parece perfeito, a eles próprios é o inferno. Sarah e Brad decidem fugir, mesmo que pareça loucura, pois os dois não têm estabilidade financeira nenhuma sozinhos, Sarah leva a filha Lucy até o parque onde combinaram e espera por Brad, este que arruma as malas, dá um beijo no filho e sai às escondidas. Só que no meio do caminho encontra com os skatistas dos quais sempre olhara, e de repente se vê envolvido e decide se aventurar lá, simplesmente esquece o prometido. Sarah impaciente se depara com o pedófilo no parque chorando muito e condoída vai até lá perguntar o que se passa. Sentimos pena daquele ser tão fragilizado, talvez seja a única pessoa da qual tenhamos tal sentimento. Jackie Earle Haley faz de seu personagem uma grande incógnita, um monstro e uma criança ao mesmo tempo. Podemos ter várias visões dos personagens, a trama paralela do pedófilo é perfeitamente costurada as outras, e ainda há o narrador em off que dá um tom cínico que cabe à história.

Em uma cena Sarah comenta sobre o livro Madame Bovary, de Flaubert. Para ela, as ações adúlteras da protagonista, até então vistas como reprováveis, são agora, entendidas como reações naturais de uma mulher insatisfeita com os rumos de sua vida. Presa a um casamento infeliz, Emma Bovary tinha o pleno direito de encontrar a alegria e realização pessoal por outros meios, ainda que isso significasse a traição ao seu companheiro.
Retratando nada mais que a realidade, "Pecados Íntimos" chega a causar um certo desconforto a quem o assiste, principalmente pelo seu final. Somos irresponsáveis, egocêntricos na maior parte do tempo, agimos como se não fôssemos afetar o outro. Mas o pior de tudo são esses pequenos "pecados" que cometemos diariamente, sem se preocupar com as consequências. Quando se deixa os sonhos juvenis para trás, ou se quando criança faltou algo, isso será levado para a vida adulta, e mesmo que essa pareça confortável, a inquietude interna estará presente, e na menor possibilidade de mudança nos jogamos de cabeça sem pensar o que poderá acarretar. Além disso há o fator dos pais que superprotegem os filhos, que pensam estar fazendo o bem, mas quando adulto será incapaz de realizar qualquer coisa. E é desses assuntos que "Pecados Íntimos" trata. O filme é uma adaptação do livro "Little Children", de Tom Perrotta, editado no Brasil com o título de "Criancinhas".

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