terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)

Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) é uma garotinha de seis anos órfã de mãe, ela mora com seu pai Wink (Dwight Henry), num lugar conhecido como "banheira", próximo da foz de um rio no sul da Louisiana, a comunidade em que vive nos aparenta logo à primeira vista uma África fabulosa colocada no meio dos Estados Unidos. Os dois moram numa espécie de trailer abandonado e vivem na completa miséria. Os habitantes da "banheira" se preparam para uma iminente catástrofe natural que os deixarão vivendo sob a água. Na "banheira" não existem médicos, as escolas são improvisadas e a locomoção por aéreas alagadas é difícil. Mesmo assim, eles são livres, sendo a altura da água a grande preocupação de suas vidas.
A relação entre pai e filha é diferente, por vezes bruta. por vezes amorosa, mas tudo é mostrado de acordo como vivem, em uma cena Hushpuppy fica sozinha em casa, sem alimentos ela esquenta a comida de gato com um super maçarico do qual é até preciso um capacete, caso seu pai não voltasse ela teria que comer os animais de seu quintal. Quando ele volta, aparentemente fugindo de algum hospital começa a se preparar para a tempestade que está por vir. Após essa tempestade tudo fica alagado, eles improvisam barcos e saem em buscas das pessoas do vilarejo, Wink tem a ideia de implodir parte da barragem de água para que o alagamento cesse, porém chega ajuda e levam todos os moradores da "banheira" a centros comunitários, e é nesse momento que Hushpuppy descobre a doença misteriosa de seu pai. Todas as pessoas da comunidade negam a ajuda, eles apenas querem voltar a suas casas, ou o que restaram delas.
A mente da pequena personagem principal com botas brancas sujas de lama é criativa, mesmo que a sua vida seja de luta. Sua imaginação é uma válvula de escape para a realidade difícil, e é devido a essa imaginação fértil que torna o filme fantasioso, como os gigantes javalis que confrontam a nossa jovem heroína no final, ou os diálogos imaginários com a mãe, sempre em situações de extremo desconforto. O filme tem a possibilidade de várias leituras, uma delas é de um futuro próximo, ou dos dias dos quais já vivemos, em que a força da natureza impera diante à indiferença humana.
A "banheira" fica ao sul das cidades, longe do limite de segurança estipulado, do lado de fora dos grandes muros de contenção. Para a sociedade remanescente, estas pessoas são inferiores, problemáticas e passíveis de caridade. O contrário do que pensam, estas pessoas se sentem livres e felizes com o que tem, diferente dos da cidade que se preocupam apenas com seus umbigos e presos pelo concreto que os cercam. A esperança neste longa é palpável, a vemos nos olhos da garotinha, na força das pessoas, e principalmente, no final em que elas fogem do centro comunitário. Eles não querem ser o excremento da sociedade, esta que se gaba quando ajuda uma dezena de pobres, eles querem ser livres para poderem reerguer suas formas de vida. E isso ninguém pode tirar, está na alma de cada um daqueles habitantes, está na imaginação de Hushpuppy, está no lugar devastado. Essa é a vida deles.

A separação de castas é talvez o grande ponto a ser analisado, para a sociedade, estes indivíduos estão errados, pois eles correm o risco de perder a vida a qualquer momento. Já para eles, esta é a única opção digna de existência, pois ter um teto sobre a cabeça é algo importante. Fora dali eles viverão e se sentirão à margem de tudo, totalmente esquecidos.
A sociedade em geral precisa parar de querer saber o que é melhor para todos, pois o que eles apresentam como realidade a uma comunidade carente é algo superficial, o certo é deixar que eles escolham a forma de viverem, afinal há formas de vida das quais cada um sabe viver, como os habitantes da "banheira", que se preocupam com o básico, o teto, a comida e o nível da água. Cada um sabe o que precisa para ser feliz.
O que fazer quando se nasce sem alternativas? Sonhar, cultivar a esperança e ter instinto de sobrevivência, isso nossa pequena heroína nos mostrou muito bem em suas narrativas de reflexão.

Quvenzhané Wallis fez um trabalho digno de aplausos, a câmera sempre muito perto do rosto dos personagens nos dá a impressão de estar ali juntos, vivendo e torcendo, principalmente, por Hushpuppy com sua força, imaginação e esperança.
O ritmo é lento, é um filme contemplativo que serve para gerar discussões e não para dizer o que está certo ou errado. É uma obra singular, da qual se tem várias leituras e se faz indispensável para quem ama cinema.

"Vejo que sou uma pequena peça de um grande universo. Então sinto que assim deve ser. Quando eu morrer, os cientistas do futuro vão encontrar tudo isto. Vão saber que existiu uma Hushpuppy que viveu com seu pai na banheira."

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