segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Floresta dos Lamentos (Mogari no Mori)

"Floresta dos Lamentos" (2007) dirigido pela excelente Naomi Kawase, que sempre retrata temas altamente pessoais com uma intensidade particular, em seus filmes observamos ciclos da existência, as recorrências da velhice e juventude, e sobretudo, a morte. Com longos planos e grandiosas panorâmicas em impressionantes locações reais e naturais.
Esse belíssimo filme reflete a dor da perda e, de algum modo, como absorvê-la. Em japonês "mogari" designa tanto "um período de luto" como "o lugar do luto". Rico em significados, impossível ficar indiferente a esta obra.
A experiência é representada na figura de Shigeki, um idoso um pouco senil, que vive numa casa de repouso em região rural, e Machiko, uma jovem que trabalha na instituição. Entre os dois, paira o fantasma de Mako, mulher de Shigeki morta há 33 anos. A precisão do número se justifica por um diálogo que nos revela que, ao se completarem 33 anos da morte, a pessoa torna-se buda e deixa de perambular pelo reino dos vivos. A princípio, Machiko (Machiko Ono) não sabe chorar a sua dor. Depois de perder um filho, ela vai trabalhar em um asilo de idosos no meio do campo. Lá passa a cuidar de Shigeki (Shigeki Uda), que precisa de cuidados como uma criança. É por instinto, mais do que necessidade, portanto, que a enfermeira e o velho se aproximam. No dia do aniversário de Shigeki, Machiko o leva para passear de carro. No caminho o carro quebra e enquanto Machiko corre atrás de ajuda, o Sr. Shigeki vai até a floresta. Machiko ao voltar vai procurá-lo desesperada e ao encontrá-lo os dois se perdem no interior da floresta.
O filme nos permite adentrar juntamente com os personagens, a água, a lama, as flores, as árvores e a música. Trata-se de um instante sublime, em que nos libertamos do realismo para embarcarmos num ritual pagão, no qual Kawase celebra a eternidade. O perambular pela floresta retrata um processo de elaboração do luto, de catarse, travessia de um terreno cheio de obstáculos, solidão, confronto de medos externos e internos.
É uma narrativa simples carregada de força. Dentro da floresta os personagens perdem suas identidades e mergulham numa espécie de experiência quase tátil. Lá os dois se protegem e cuidam um do outro. As cenas são dotadas de beleza poética e densidade emocional, o silêncio é o caminho para o fim do luto. A natureza é a personagem de maior força, ela exerce o poder de redenção e o alívio da dor.

É um filme transcendental, com um sentido quase místico em que a natureza produz poderosa ação sobre o homem, e a cena final diz muito sobre isso, ao filmar as copas das gigantescas árvores da floresta. Daí cabe a cada um sentir sua própria emoção e tirar dela uma percepção. É de uma grandeza sutil e muito simbólica. O resultado talvez, não seja momentâneo, mas aos poucos e com o passar do tempo fará algum sentido. Poucos filmes conseguem atingir este patamar, que costumo classificar como espiritual.

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