sábado, 20 de abril de 2013

No (2012)

Depois de 15 anos no poder, desde o golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende em 11 de setembro de 1973, o general Pinochet convocou em 1988 um plebiscito para obter, via dispositivo democrático, mais oito anos no posto de chefe de Estado. O "sim" e o "não" disputaram espaço na TV, confrontando duas opções políticas. Mais importante, a campanha pelo "não" pôde aproveitar, pela primeira vez, as brechas da censura para expôr a face negativa da ditadura, o avesso do progresso econômico percebido como vantajoso pelos partidários de Pinochet, a fatia da sociedade beneficiada pelo regime.
Baseado na peça do escritor chileno Antonio Skármeta, "El Plebiscito", a história nos conta sobre René Saavedra (Gael Garcia Bernal), um exilado que volta ao Chile e vai trabalhar como publicitário a serviço da campanha "Não", que tem como objetivo influenciar o eleitorado a votar contra a permanência de Augusto Pinochet no poder, feito sob pressão internacional, pelo próprio ditador. Com poucos recursos e sob constante vigilância por homens de Pinochet, ele concebeu um ousado plano para ganhar o referendo. O publicitário Saavedra aborda o "Não" como um produto, organiza a campanha seguindo as fórmulas de persuasão da propaganda e, para horror dos puristas, demonstra como, desde sempre, a democracia funciona com base em discursos que tornam legítimos seus processos.
O filme começa e termina com esta frase: "Este comercial está inserido em um contexto social. Hoje o Chile é um país que pensa no futuro". As campanhas de Saavedra tem o objetivo de mostrar a alegria do povo chileno, o passado de torturas e perdas não pode ser esquecido, mas o contexto de uma campanha mais colorida e cheia de vida dá o sentido de esperança, exatamente o que o povo precisa.

O diretor Pablo Larrain (Tony Manero - 2008, Post Mortem - 2010) mescla imagens reais da época a seu filme, a fotografia é retrô e realmente parece que estamos assistindo um filme dos anos 80. Ele expõe um fato importante da história do Chile de maneira sublime, mostra as artimanhas de publicidade em uma campanha política, a censura, e tudo o que envolve esse meio. Gael Garcia Bernal contribui muito para que o filme se torne rico, seu personagem não é feliz, sua mulher é rebelde e luta contra a ditadura, e constantemente é presa por isso. Os dois não estão mais juntos, mas percebe-se que há algo que não está bem definido dentro de René, este que apesar de ter sido exilado, volta ao seu país para trabalhar nesse período no referendo, ele é um publicitário respeitado, inteligente, que vê além e não aprova a ditadura, mas há um certo distanciamento entre ele e a realidade daquele país. O final retrata bem a ambiguidade do personagem, que durante a vitória não sabe como reagir em meio as pessoas que gritam e festejam.

Muitos dos esquerdistas da campanha "Não" nem mesmo acreditavam que ganhariam, mas de alguma forma era uma oportunidade para demonstrar o desgosto para com a ditadura e tentar tirar a venda dos olhos das pessoas diante ao sistema ilusório de Pinochet.
É interessante que o filme nos causa um sentimento de melancolia, os closes, a trilha sonora, tudo contribui para isso. É um filme inteligente que aborda um retrato político com uma fluidez impressionante.

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