sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Atração (Córki Dancingu)

"A Atração" (2015) dirigido pela polonesa Agnieszka Smoczyńska é um musical excêntrico que tem como tema sereias, mesclando drama, comédia, musical e horror o resultado final é original e surpreendente. Baseado  no conto de fadas de Hans Christian Andersen "The Little Mermaid", publicado em 1837, a obra segue duas irmãs, Prateada (Marta Mazurek) e Dourada (Michalina Olszanska), que são sereias. Com fome de amor e de carne, as duas chegam a Varsóvia, assumem uma forma humana e vão trabalhar num clube noturno. Contudo, quando uma delas se apaixona, surge a inveja, a obsessão e com isso o perigo.
Numa bela noite, Prateada e Dourada surgem e encantam um grupo de amigos músicos, que as levam e as acolhem no clube onde trabalham, lá começam a fazer alguns números que chamam bastante atenção do público, com o passar do tempo se apegam à forma humana, principalmente, Prateada que se apaixona pelo guitarrista vivido por Jakub Gierszal - Sala do Suicídio (2011), os dois tentam ficar juntos de qualquer maneira, mas pelo fato de serem de espécies diferentes atrapalha, porém ela o seduz e mostra que pode ser possível, como a cena da banheira, onde ela mostra o corte em sua grande cauda, a bizarrice toma conta da história e é preciso embarcar na proposta, é realmente diferente, a lenda da sereia não ganha tons suaves apesar de todo o romance envolvendo os personagens, as sereias são maliciosas e a paixão logo se torna uma obsessão difícil de controlar, a vontade de ser inteira e vivenciar o amor domina Prateada e as consequências de seu ato são trágicos, enquanto isso sua irmã experimenta inveja, raiva e começa a agir conforme seu instinto. 
As atrizes encarnam com destreza as sereias e nos passam exatamente toda a aura misteriosa, sensual e sangrenta, Michalina Olszanska (Eu, Olga Hepnarová - 2016) está hipnotizante e demonstra tudo pelo olhar, a raiva por sua irmã ter se apaixonado, pois a ideia era só de passarem pelo local e seguirem viagem, tudo isso sem comer ninguém, mas nada dá certo e as duas entram em atritos, também o dono do clube as usam, cantam e dançam sem receberem nada, os clientes do bar ficam loucos a cada apresentação, o clima de lascívia impera, os números musicais tem um quê de comédia ao mesmo tempo que fascina, além de a história caminhar também por um tom de melancolia. As cores vibrantes se mistura ao macabro, Prateada quer de todo jeito se tornar humana, ter pernas e um órgão genital para enfim ser amada, só que o moço apenas a usa e deixa claro em várias partes que por ela ser de uma espécie diferente nunca dará certo, e quando ela decide passar por uma bizarra cirurgia em prol dessa paixão aí é que tudo dá errado e Prateada se dá conta, uma metáfora maravilhosa sobre preconceito e exploração. 

A trilha sonora é a grande protagonista e é numa vibe anos 80 que tudo se dá, são canções originais em polonês e outras repaginadas, como "Byłaś Serca Biciem", de Andrzej Zaucha, além de contar com coreografias divertidas, como a sequência inicial com a música "I Feel Love", de Donna Summer. Para quem não gosta de musicais cansa ver tantas sequências de canto e dança, a narrativa às vezes se perde nessa loucura toda, mas ao todo é uma produção que com certeza deixará alguma marca, a ambientação estilizada, a comunicação entre as irmãs com sequências de sons arrepiantes, a cauda nada bonita e impressionantemente longa, as cenas macabras e pela lenda ser retratada com tanta personalidade.

"A Atração" é um filme incomum que conta com interpretações brilhantes e cativa por sua estranheza por misturar gêneros, é divertido e sedutor ao trazer alguns conflitos morais e sentimentais numa fábula de sereias com toques de horror, provoca com as esquisitices e termina poeticamente interessante. Uma boa pedida para quem busca por produções que não seguem cartilha.

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