quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mãe! (Mother!)

"Mãe!" (2017) escrito e dirigido por Darren Aronofsky (Cisne Negro - 2010) não é um simples suspense ou terror psicológico, é um filme complexo de muitas camadas que passeia por diversas metáforas e alegorias. Um obra grandiosa que disserta sobre religião, natureza, feminismo e tantos outros temas que se desnovelam ao decorrer e que cada espectador sentirá, absorverá e interpretará de uma forma, as questões são amplas e isso é algo maravilhoso, o poder de reflexão é imenso. 
Um casal vive recolhido no meio de um campo em um imenso casarão de estilo vitoriano. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções. 
O início começa com uma narrativa comum com uma esposa dedicada e submissa e um marido egocêntrico que vive um bloqueio criativo, enquanto ela conserta e se doa para manter a casa aconchegante, o marido só pensa em si. Essa rotina é quebrada quando um estranho visitante (Ed Harris) aparece e é acolhido sem nem ao menos a dona da casa ser consultada, a visita não é agradável e o desconforto dela aumenta quando bate a porta uma mulher (Michelle Pfeiffer), justamente a esposa deste que está em sua casa, e para sua surpresa ela é mais invasiva ainda. Ela não os deseja ali, mas os dois são colocados para dentro de sua casa e as situações vão se tornando cada vez mais constrangedoras e insustentáveis. A força da personagem de Lawrence é sugada pouco a pouco e isso nos atinge de maneira desconfortável, ela vai perdendo sua dignidade toda vez que é ignorada, que não é ouvida. Toda a perspectiva da história é passada através de sua personagem, sob o seu ponto de vista e por isso a câmera não desgruda dela, são enquadramentos claustrofóbicos e sequências angustiantes em que ela experimenta sensações e visões, essas que só são compreensíveis e encaixadas em seus momentos finais. 

O filme te captura inicialmente por uma narrativa aparentemente simples, mas a medida que avança o suspense com a invasão domiciliar o terror vai tomando conta, perturbando o espectador com cenas surreais, mas que vão se encaixando em metáforas e muitas possibilidades de interpretação. A segunda metade do filme é o caos total, a casa se torna um antro, os efeitos sonoros eclodem criando uma atmosfera enlouquecedora, a alegoria religiosa está bem delineada, a fé, a idolatria dos símbolos cristãos, a guerra, a destruição e o ciclo. O personagem de Javier Bardem representa Deus, vaidoso e egoísta, que necessita criar sua obra para ser amado e idolatrado, daí então conceber a vida, para isso necessita da Mãe, Jennifer Lawrence é a Casa, a Mãe Natureza. Ela cuida, se doa, se sacrifica. 

São várias as referências bíblicas do Gênesis ao Apocalipse, como "A Criação de Adão e Eva", "Expulsão do Paraíso", "Caim e Abel", "O Grande Dilúvio", "A Queda de Lúcifer", "A Crucificação de Jesus Cristo", "O Apocalipse", "A Nova Terra", mas o filme não se resume a esta representação e revela temas como opressão feminina, culto aos ídolos, narcisismo, natureza, feminilidade, moralismo; a relação entre o abuso do patriarcado à mulher ao tratamento que os humanos destinam à natureza.
Apesar de triste e até niilista há uma ponta de esperança, pois o novo nasce do caos e da mais profunda escuridão, surge a luz!. "Mãe!" é sádico e causa desconforto, são inúmeras metáforas visuais e a cada cena somos inseridos nesse universo amplo e onírico, é um filme que exige atenção e pede revisões, uma experiência cinematográfica intrigante, desesperadora e grandiosa. 

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